A transposição do rio que não existirá

secaNascenteSãoFrancisco

Pesquisador aponta o fim inexorável do velho Chico

Por Carlos Bittencourt

A (sur)realidade contemporânea opera por paradoxos. Gera nexos a partir do sem sentido, acumula abundância gerando escassez. A transposição do rio São Francisco é mais um emblema do ilogismo de nossa época. Buscar soluções aprofundando as causas que geraram as consequências de se apelar às soluções que aprofundam as causas.

Quando o problema hídrico do Brasil deixa de ser restrito à seca do Nordeste e o Sul Maravilha se vê diante da escassez de água, desata-se um nó no senso comum, mobilizam-se muitas dúvidas. Questões como as mudanças climáticas, o desmatamento da Amazônia, o sobreconsumo hídrico do conglomerado agro-industrial-minerador, a poluição desvergonhada dos corpos d’água e a privatização do regime hídrico nacional, devem aparecer cada vez mais como relacionadas à falta de água nas torneiras. Estamos bombardeando o ciclo hidrológico por todos os lados e esquecendo que a hipótese de outro planeta habitável (leia-se com água) mais próximo está a 13 anos-luz daqui.

A região hídrica do Rio São Francisco conta com a menor precipitação anual média no período 1961-2007 e a vazão média do rio teve tendência de queda nos últimos 10 anos. A transposição do rio São Francisco se dá no contexto das mega-obras do Programa de Aceleração do Crescimento. Crescimento esse que se dá dentro da lógica de acumulação capitalista e que exaure, entre outras coisas, os bens hídricos, por demandá-los em cada vez maiores quantidades. Sob a velha lógica da “indústria da seca” onde a promessa de fartura e água reproduzem a dinâmica de controle político e social sobre os territórios e classes sociais subalternizadas, a transposição promete ser o que nunca será. Promete garantir água para as comunidades mais necessitadas, mas, em verdade, está voltada para atividades de irrigação de empreendimentos agrícolas de grande porte, que geram pouco emprego e que lideram hoje o número de outorgas de água na Agência Nacional de Águas (ANA).

Na verdade, basta olhar o gigantesco projeto para ver que seu destino não é combater a desigualdade de acesso à água, mas de certa forma aprofundar. A obra está entre as 50 maiores do mundo, em andamento. Custará R$ 8,2 bilhões e se estenderá por mais de 470 Km. É princípio do capital: só se investirá bilhões onde se puder lucrar acima do investido. Uma obra gigantesca que beneficiará pouquíssimas pessoas e que serve apenas para marginalizar as alternativas de combate a seca descentralizadas, autogestionadas e de menor escala.

Como se não bastasse, a obra pretende transpor um rio que está jurado de morte. No livro recente, “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação”, elaborado por mais de cem especialistas que percorreram toda a extensão do Velho Chico, durante 212 expedições de pesquisa, entre 2008 e 2012, é feita a previsão de extinção do rio. O primeiro capítulo escrito pelo organizador da obra, José Alves Siqueira, tem um título alarmante: “A extinção inexorável do rio São Francisco”.

Hoje restam apenas 4% da vegetação original em suas margens, sua fauna aquática está sendo devastada por peixes exóticos como o bagre-africano, a carpa e o tucunaré que foram inseridos por estúpidos programas de incentivo à pesca. As barragens vêm se somar a este cenário desastroso. Em meio ao impacto desse angustioso anúncio feito pelos pesquisadores, a notícia: “Nascente do São Francisco seca em Minas Gerais”.

O que se está transpondo então?!

Transpõe-se a seca, transpõe-se a água que acaba aqui para lá. Transpõe-se a barbárie do sudeste ao Nordeste, aponta-se a proa do navio para o buraco. Soluciona-se a causa aprofundando as consequências. Círculo vicioso da acumulação de capital, da coisificação da vida e dos meios da vida. A transposição do rio São Francisco bebe da mesma água de sua extinção.

Carlos Bittencourt é historiador e militante da Insurgência