A triste realidade da população trans e a violência que assombra o Brasil

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Linda Brasil, da Insurgência SE

No dia 24/06/2017, data que se comemora a Festa de São João, dia de muita alegria, principalmente para o nordestinos, quatro pessoas trans foram brutalmente executadas no Brasil, três na região Nordeste e uma na região Norte. Uma dessas vítimas foi a sergipana Denise Sollony, assassinada dentro da sua própria residência, local onde se sentia segura. Ela sempre evitava lugares públicos justamente por causa da grande violência que a população trans sofre diariamente.

De acordo com seus familiares e com sua grande amiga Fernanda Bravo, Denise era uma pessoa muito reservada e querida por todos os vizinhos do Conjunto Augusto Franco, um dos maiores conjuntos habitacionais de Aracaju, onde morava há quase 30 anos. Na sua foto do perfil no Facebook ela usava a imagem de Orquídeas, porque uma de suas paixões era cuidar das plantas deixadas pela sua mãezinha querida, falecida há um ano e pessoa muito ligada ao seu coração.

Quando sua mãe era viva, Denise a visitava quase que diariamente, mesmo morando em bairro distante. Denise e sua família viviam ainda o luto: pela morte física da sua mãe tão amada e pela morte de um de seus irmãos, assassinado, também por arma de fogo. Agora, a família vive a dor de perder Denise dessa forma trágica.

Essa triste tragédia com Denise me suscitou várias reflexões e lembranças de experiências pelas quais passei durante minha vida por causa da transfobia (ódio que algumas pessoas sentem em relação à população trans). Sou Linda Brasil, uma mulher trans de 44 anos, ativista LGBT, feminista e transfeminista, cabeleireira, recém graduada no curso de Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Minha trajetória na UFS mudou definitivamente minha vida, pois comecei a me conscientizar das razões que levam a tanta violência e exclusão da população trans. Assim, me percebi mais empoderada para lutar e denunciar essas tristes situações que vivenciamos diariamente.

Quando retomo alguns episódios de minha história, recordo de várias situações nas quais fui vítima de exclusão social e de violência, fui também, por falta de oportunidades e apoio, compulsoriamente levada a me prostituir, como acontece com 90% da população de travestis e mulheres trans. Em 2003, alguns anos depois de vivenciar publicamente minha verdadeira identidade de gênero, devido a problemas no trabalho, mudei-me para a Itália, na esperança de alcançar alguns objetivos que me proporcionassem melhores condições de vida e trabalho, com mais segurança, no Brasil. Na ocasião do meu primeiro retorno ao Brasil, em 2004, comprei um carro, atendendo a um dos meus objetivos com essa ida à Europa, pois, naquela época, sair de casa em transporte público era uma tortura para uma pessoa trans.

No final do ano de 2006, retornei da Europa pela segunda vez com o intuito de aqui ficar definitivamente e encerrar esse trabalho que me colocava em situação de vulnerabilidade, posto nunca ter me sentido bem ao realiza-lo.

Quando cheguei, comprei uma casa em Aracaju e montei meu Salão de Beleza. Já alguns meses na minha nova residência, onde também trabalhava, em junho de 2007, justamente há 10 anos, quando saía de carro numa sexta-feira à noite, fui surpreendida por três homens que me dominaram e invadiram minha casa. Eles me colocaram em um quarto com uma arma de fogo apontada para minha cabeça. Percebi que além de roubar, eles também queriam me matar. Naquele momento, ficou bastante visível para mim o ódio que eles demonstravam por eu ser uma pessoa trans. Entretanto, graças a Deus, fui salva da ira assassina daqueles homens.

Depois de minha súplica desesperada para que não me matassem, um deles se comoveu e evitou a tragédia, convencendo os outros dois a não acabarem com minha vida. Foi um momento de muita aflição e desespero, algumas vezes um deles colocava a arma dentro da minha boca ameaçando disparar. O tempo todo eu era humilhada com expressões de ódio que deslegitimavam minha identidade de gênero. Eles levaram vários bens materiais.

Além do momento de horror que passei nas mãos dos marginais, quando fui à Delegacia Plantonista prestar queixa do ocorrido, passei por mais situações de violência e humilhação. O tempo todo fui tratada com desrespeito e sarcasmo pelos atendentes e agentes públicos da instituição. Depois desse episódio e sem condição psicológica de morar na mesma casa, viajei pela última vez para a Itália, com intuito de juntar o dinheiro e comprar um apartamento, onde poderia me sentir segura. Apartamento este que me serve de residência há 09 anos, onde sinto maior segurança.

Outro terrível episódio pelo qual passei nesses anos de resistência, ocorreu na Itália. Logo após eu ter conquistado outro objetivo que era colocar minhas próteses mamárias. Estava na rua, quando três albaneses, estrangeiros de um país da antiga União Soviética, desceram do carro e tentaram me assassinar. Quando percebi a ira assassina tentei correr, mas eles me derrubaram e me golpearam com vários murros, pauladas e pedradas. Depois de muito espancamento, já sem forças para me defender, tive a ideia de me fingir de morta, numa última tentativa para que eles parassem com aquela tortura brutal. Mais uma vez fui salva.

Essas horríveis tragédias, são apenas duas de inúmeras situações de violência pelas quais já passei, principalmente em festas públicas, muitas das vezes, quando revidava aos comportamentos machistas e transfóbicos de certos homens que zombavam de mim e de minhas amigas.

Esses são somente alguns exemplos da violência que nós, pessoas trans, passamos diariamente, simplesmente pelo fato de existirmos. Isso tudo, sem falar da violência emocional que sofro diariamente por não ter ainda retificado meu registro civil. Ainda não consegui porque não admito que esse meu direito, que garante o reconhecimento da minha identidade de gênero pelo Estado Brasileiro, esteja baseado numa patologização, já que, pela inexistência de uma lei que nos garanta o direito de retificar nosso nome e gênero no registro civil, temos de abrir um processo judicial e para que possamos conseguir a mudança. Somos obrigadas a apresentar laudos psiquiátricos que comprovem que somos portadoras de uma pseudo doença mental, categoria na qual a Medicina ainda persiste em nos classificar.

Quem realmente está doente é essa postura da psiquiatria que sempre causou e causa horrores às pessoas que não se adequam aos padrões heterocisnormativos da sociedade, tentando controlar e cercear as liberdades individuais, desrespeitando as singularidades de cada ser humano. Diante desse fato, ficarei feliz e tranquila somente quando todas as pessoas trans puderem ter seu nome e gênero adequados de acordo com sua verdadeira identidade de gênero, sem que seja necessário sermos diagnosticadas como doentes mentais. Irei suportar e conviver com esse sofrimento até que não seja mais necessário passarmos por isso. Também, não ficarei bem em resolver somente a minha situação e saber que milhares de pessoas trans vão continuar sendo constrangidas diariamente.

A retificação do nome e gênero é fundamental para que as pessoas trans possam viver com o mínimo de dignidade. Se aprovassem uma lei de identidade de gênero, como existe na Argentina e em outros países, viveríamos com mais cidadania.

Essas tristes e terríveis situações de violência que a população trans passa no Brasil, bem como grande parte da população LGBT, é o reflexo da grande LGBTfobia e misoginia que estruturam a sociedade brasileira. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), somente neste ano de 2017, 85 pessoas trans já foram brutalmente assassinadas no país. No ano passado (2016) foram 144, totalizando 343 se considerado todo o contingente de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans assassinadas, quase uma por dia. É assustador! As instituições acreditam que os números são bem maiores, já que a maioria desses assassinatos são subnotificados. Mesmo sem os dados reais, o Brasil é o país que mais mata LGBT’s no mundo. Esses índices de violência têm como alarmante consequência o fato de que em nosso país a expectativa de vida de travestis e mulheres trans é de 35 anos.

Destaque-se que esses dados são computados pelas próprias ONG’s, uma vez que não é de interesse do Estado ter as estatísticas dessas execuções, pois, ao não tomarem conhecimento desses dados os governantes não se sentem cobrados e não assumem a obrigação de fazer algo que nos proporcione a segurança e condições necessárias para vivermos na sociedade. Todo o descaso de nossos governantes e a falta de políticas públicas é percebido e duramente sentido por nós. Proporcionar e garantir os direitos dessa população historicamente marginalizada é o mínimo que eles poderiam fazer. No caso de Dandara, que foi covardemente espancada, torturada e executada por 8 homens em Fortaleza no dia 15/02 desse ano, com imagens veiculadas nas redes sociais, logo foram encontrados os algozes, devido à grande repercussão midiática que mobilizou até o Governador do Estado do Ceará na busca pelos assassinos. Porém, na maioria do casos, a realidade não é essa. Bárbara Sodré foi assassinada em 2015, no Centro de Aracaju, e até hoje o assassino não foi identificado, mesmo com várias câmaras de segurança nas imediações do local da morte.

Acredito que essas violências decorrem de várias precariedades que vivemos no Brasil, principalmente no que se refere ao sistema educacional e, também, à carência de leis eficazes que garantam nossos direitos. A má gestão de nossos governantes e a falta de comprometimento com as causas sociais contribuem muito para manutenção dessas horríveis situações, já que a grande maioria dos políticos está mais preocupada com seus próprios interesses e dos financiadores de suas campanhas eleitorais.

Precisamos urgentemente de uma educação acolhedora que consiga motivar, agregar e respeitar todas as diferenças, principalmente que dê conta das especificidades da população masculina que vive na marginalidade. Por causa de sua condição financeira, muitas das vezes esses jovens também são compulsoriamente levados a evadirem das escolas e consequentemente empurrados para criminalidade.

Além disso, nossa sociedade patriarcal trata e educa de forma diferenciada meninos e meninas, o que contribui para a manutenção do comportamento machista que leva à errônea crença na superioridade do gênero masculino em relação ao feminino. A pressão e a perseguição do fundamentalismo religioso, devido a uma interpretação equivocada da Bíblia, e a falta de informação e sensibilização de muitas mães, pais, educadores e de alguns setores da sociedade sobre questões de gênero, diferença de orientação sexual e identidade de gênero, contribuem para o aumento dessa horrenda violência.

Essas violências contra as mulheres e a população LGBT’s e essa grande criminalidade que vivenciamos ultimamente, somente serão diminuídas se realmente começarmos a promover uma mudança muito efetiva na educação tanto familiar quanto escolar, bem como na formação dos profissionais da área de educação.

Precisamos urgentemente de uma educação que realmente possa contribuir para transformar a sociedade e despertar uma maior conscientização sobre o respeito a todo tipo de diversidade. Uma educação que garanta maior sensibilização sobre os temas ligados à questão de gênero e à diversidade sexual para combater o machismo, a misoginia, o sexismo, a lgbtfobia e as violências de gênero. Como dizia Paulo Freire, “A educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

Depois que entrei na universidade e comecei a me conscientizar, me empoderando através de conhecimentos que não tinha antes, passei a me sentir mais forte, capaz e combativa para lutar por meus direitos e resistir contra todas as formas de exploração e opressão. Espero que cada vez mais as pessoas trans consigam ocupar certos espaços da sociedade, que sempre nos foram negados, para que, dessa forma, possamos mudar essa triste realidade que vivemos no Brasil. Só assim poderemos viver numa sociedade mais igualitária na qual prevalece o respeito mútuo em todas as pessoas. Desse modo, reduziremos a violência e construiremos uma sociedade na qual todas as pessoas poderão ser livres para viverem mais realizadas e felizes.

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