Da Paciência Histórica à Ação Inadiável: 100 anos entre Khronos e Kairós

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Mario Constantino

Provavelmente nesta exata hora, há exatos 100 anos atrás, do outro lado do planeta, ocorriam os últimos preparativos para o evento Histórico mais importante do século – a Revolução Russa.

Dias antes, em 3 de Novembro de 1917, o jornalista John Reed narra em “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo” uma igualmente importante reunião do Comitê Central do Partido Bolchevique que planejara a tática fina da insurreição e da tomada do poder na Rússia. Tal reunião ocorreu um dia antes do início da chegada dos delegados ao Congresso Pan-Russo dos Sovietes.

Os delegados estavam programados para chegar entre os dias 4 e 7 de novembro, para que se instaurasse o congresso no dia 8 – que deveria debater a passagem do Poder das mãos do Governo Provisório para os Sovietes de Deputados Operários e Camponeses, bem como o método pelo qual isto se daria. Afundada na 1ª Guerra Mundial, as massas trabalhadoras da cidade e do campo, bem como os soldados – especialmente os soldados – depositavam enorme expectativa na capacidade do Congresso de deliberar pela tomada do poder e pela consequente saída imediata da guerra, conferindo ao povo também a divisão da terra e do pão.

Renunciar a este objetivo significaria romper a confiança de todos esses setores com a sua direção revolucionária.

Reunidos no dia 03, a pauta debatida entre os bolcheviques foi a própria tomada do poder. John Reed afirma ter sido informado por Volodarski, ao término da reunião, que a deliberação defendida por Lenin e aprovada após exaustivo debate teria sido:

“No dia 06 de Novembro será cedo demais. Precisamos ter uma base em toda a Rússia para nos lançarmos à insurreição. No dia 06, os delegados ao congresso, na sua maioria, ainda não estarão aqui, ainda não terão chegado. Por outro lado, no dia 08, será tarde demais. Isso por que o Congresso já estará organizado e é muito difícil fazer uma grande assembleia popular se decidir, de uma hora para outra, a entrar numa ação decisiva. Devemos, portanto, dar o “golpe” no dia 07, dia em que o Congresso se reúne, de modo a podermos dizer: “Eis o Poder em nossas mãos” Que irão fazer com ele?”.

Sempre achei esta passagem da História a mais emocionante de todas. Nós, militantes, somos educados a exercitar a mais profunda paciência histórica, compreendendo os ritmos dos acontecimentos históricos como maiores que nossas próprias vidas e condicionados por fatores que escapam em muito às nossas capacidades de influência. Contraditoriamente, existe neste episódio singular, no centro da experiência que constitui a nossa principal referência teórica e prática, uma decisão que dependeu de algo diametralmente oposto à paciência: um dia!, uma reunião!, uma fala!, uma ação! – e a História entrou para sempre em um novo ciclo!

O que quer que pensem de Lenin hoje em dia – de seus críticos vorazes aos seus ortodoxos seguidores, passando por toda a fauna e flora daqueles que nele possuem algum tipo de referência – há de se reconhecer a envergadura histórica dessa figura em identificar e atuar de forma tão decidida num momento igualmente delicado.

Os antigos gregos, ao que parece, utilizavam duas palavras distintas para se referir ao tempo: Khronos e Kairós. O primeiro, servia para se referir ao tempo dos humanos: um tempo vazio e mundano; o tempo monótono; tempo do calendário e do “dia após dia”. Já Kairós – mesmo nome dado ao Deus do Tempo no Olimpo -, se referia justamente ao tempo raro e divino das oportunidades históricas, tempo decisivo, condensado de grandes acontecimentos.

A Revolução Russa se encontraria para os gregos no seleto rol de acontecimentos que tomaram lugar em tempos kairóticos. Lenin e os bolcheviques navegaram por este tempo e souberam percebê-lo quando surgiu diante deles.

Há 100 anos no passado, o mundo estava preste a amanhecer sob o signo do mais audacioso evento histórico ocorrido até hoje.

Recuso-me a dar ouvidos aos que passaram as últimas décadas afirmando que a História havia se encerrado, que o capitalismo havia triunfado, que o socialismo se provou fracassado. Experiências vão e vêm e caberá às novas gerações saber identificá-las e aproveitá-las; saber identificar o que se fez de correto e o que se fez de errado; construir uma correlação de forças mais favorável para revolucionar as relações sociais e as formas de representação política no planeta.

Novos tempos kairóticos voltarão a irromper em meio ao marasmo cronológico e cumulativo dos acontecimentos históricos: nosso papel é estarmos preparados e saber dizer SIM à História na sua próxima esquina perigosa.

Viva a Revolução Russa!

 

* Mario Constantino é militante da Insurgência em São Paulo

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