Debates sobre racismo e branquitude marcam Encontro Feminista Latinoamericano e Caribenho

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Luciana Araujo*, para o Geledés Instituto da Mulher Negra

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Três dias, mais de 2.060 mulheres credenciadas, 82 atividades autogestionadas, 30 países, 10 eixos temáticos de debate com suas respectivas assembleias, múltiplas manifestações culturais e um incontável número de reuniões paralelas. Assim foi o 14º Encontro Feminista Latino-americano e Caribenho, ocorrido entre 23 e 25 de novembro em Montevidéu, no Uruguai, com o tema “‘Diversas mas não dispersas”. Pela primeira vez em 36 anos, os debates sobre racismo no interior do feminismo e como os privilégios vivenciados por brancas ou não negras e indígenas são entraves para a efetiva emancipação das mulheres e reforçam as desigualdades sociais compuseram um eixo temático do Encontro.

Os principais objetivos do Encontros Feministas (EFLACs) são: contribuir com o fortalecimento da democracia na América Latina a partir da incorporação dos direitos humanos das mulheres nas agendas dos Estados e das sociedades, desde uma perspectiva feminista, e propiciar um espaço de discussão troca de experiências e vivências entre as diversas expressões do movimento feminista da América Latina e Caribe, como parte da sociedade civil organizada.

Neste 14º EFLAC o eixo 2 tratou do tema “Racismo e Discriminação: Interseccionalidade das opressões e das lutas”. Em debate, identidade racial e de gênero, vozes e expressões da resistência, corpos racializados, epistemologias feministas, empoderamento da estética negra, reconhecimento dos saberes ancestrais e a construção de subjetividades. Durante dois dias cerca de 100 mulheres negras, brancas e indígenas se reuniram para debater as múltiplas dimensões do racismo,e que questões o racismo apresenta para o futuro dos feminismos hoje e quais são as estratégias para enfrentar coletivamente o racismo no interior do movimento de mulheres e na sociedade.

Mulheres da Venezuela, Haiti, República Dominicana, Colômbia, Panamá, Peru, Argentina, Brasil, Bolívia, Guatemala, Porto Rico, com a participação também da queniana e presidenta  do Fundo Global para Mulheres (Global Fund for Women), Muzimbi Kanyoro, discutiram o exercício de poderes dos quais se beneficia também o feminismo não negro ao desconhecer as demandas das mulheres negras que desnudam as desigualdades de classe e raça existentes mesmo entre a parcela feminina da população. O nutricídio (homicídio provocado por alimentação) levado adiante pelos países capitalistas por meio do uso de agrotóxicos em larga escala que contaminam populações inteiras e afetam mais duramente os segmentos populacionais mais pauperizados (em sua maioria negros). E temas como saúde mental e física, combate à exotificação dos corpos e cabelos negros, feminismo indígena e decolonial.

Alice Esquivel, representante do Diálogo Político de Mulheres Afro-uruguaias e da UAFRO (União dos Universitárias, Técnicos e Pesquisadores Afro-uruguaios), ressaltou que “o diálogo foi o ponto de partida principal do encontro passado, mas o documento que saiu não trazia nenhuma palavra sobre nós e as indígenas. Ao questionarmos a resposta foi de problema financeiros. As perguntas que se colocam ao feminismo são: qual o conceito de igualdade de gênero que se prega, por que se não se efetiva a igualdade, entre quem e para quem? Senão não chegaremos lá”.

Coordenadora Executiva do Geledés – Instituto da Mulher Negra e participante da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, Nilza Iraci lamentou a participação de tão poucas mulheres brancas numa assembleia sobre branquitude, “o que compromete o diálogo sobre o que se propõe para o feminismo do século XXI”.  Falou sobre a armadilha da maneira indiscriminada como  utiliza-se o conceito de “diversidade” desde uma perspectiva pós-modernas, como se fossemos todas iguais, em raça, classe, cor e sexualidade, o que não é verdadeiro. As questões que esta assembleia coloca não são mais para nós, mas para o movimento feminista como um todo. Porque nós mulheres negras estamos avançando, independente do reconhecimento das mulheres brancas. E vamos continuar avançando, com ou sem elas”.

Neon Cunha, ativista transfeminista independente que atua na Marcha das Mulheres Negras em São Paulo chamou a atenção para a necessidade de debater que “a cisgeneridade é tão toxica quanto a branquitude. Reduziram nossos povos e nações da condição de rainhas e reis para corpos e raças, e a cisgeneridade faz o mesmo que a branquitude quando o feminismo viola vidas deslegitimando-as, afirmando ‘que elas não foram socializadas como mulheres’. Quando se diz que uma mulher trans não é mulher, onde a colocamos? Quais vidas esse feminismo diz proteger e salvar? Se há privilégios que categorizam vidas, temos também a exclusão de vidas. E num pais que é campeão de mortes de trans e travestis [como o Brasil], não se fala sobre saúde integral, mental, direitos sexuais e reprodutivos para a população trans.

Coordenadora da região do Cone Sul da Rede de Mulheres Afro, a uruguaia Vicenta Camuso destacou que “nós incorporamos a agenda do movimento feminista, porque é nossa, mas o movimento feminista não incorporou ainda de forma natural e sincera politicamente as nossas agendas de mulheres negras. É um desafio difícil, mas o futuro nos coloca algumas questões muito importantes para a região, como racismo e democracia. Como o movimento feminista vai incorporar em sua demanda por democracia o racismo, a participação cidadã de nós mulheres negras? A democracia só existe se é para todas. No Cone Sul estamos vivendo tempos difíceis nos quais o movimento feminista tem que incorporar o que ninguém gosta: falar de racismo, violência racial e estados racistas como Uruguai, Argentina, Chile, Brasil.

Para Muzimbi Kanyoro “os obstáculos em nosso caminho não são problemas nossos, quando as pessoas são racistas o problema é delas. Temos direito de que nada interfira em nossa sexualidade, que tenhamos oportunidades na saúde, na educação. Esses são os obstáculos em nosso caminho. Não queremos mudar a cor da nossa pele. O que queremos mudar são as condições em que vivemos”.

Apesar da baixa participação de mulheres não negras e/ou indígenas, as que estiveram presentes assimilaram que “o simples fato de sermos mulheres brancas nos coloca num lugar de privilégio onde quer que estejamos e seja o que estivermos fazendo. É importante a autorreflexão e ter sempre muito mais cuidado e reflexão, mas só a contribuição individual não vai resolver o problema, temos que enfrentar esse sistema que oprime e violenta as mulheres negras todos os dias, porque não pode haver feminismo revolucionário, transformador, democrático se esse feminismo não enfrentar que o enfrentamento ao racismo merece nossa dedicação e compromisso cotidiano. Não para ocupar o lugar de fala das mulheres negras, mas para junto com elas podermos dar um passo adiante para derrubar esse muro violento que é o racismo&rdquo ;, como afirmou  uma das  facilitadoras da assembleia, Schuma Schumaher.

O debate consolidou a compreensão de que o feminismo tem o desafio de gerar estratégias não só para “incluir” as mulheres negras, mas para afetivamente fortalecer este segmento populacional que vive a tripla opressão de raça, classe e gênero.

Entre as proposições aprovadas consensualmente está a de que até o próximo EFLAC as feministas brancas se reúnam para discutir os privilégios da branquitude e a necessidade encarar a reprodução do racismo dentro do feminismo e posturas concretas para enfrentar e superar os mecanismos discriminatórios que ainda permanecem no interior do movimento de mulheres.

 

Por um feminismo antirracista, descolonizado, enegrecido e transgenerizado

No sábado pela manhã a plenária final do EFLAC compartilhou os documentos das 10 assembleias temáticas ocorridas nas manhãs de quinta e sexta-feiras.   O resultado das discussões do Eixo 2 foram apresentados por Lucia Xavier e Schuma Shumaher, coordenadoras da atividade:

Apresentação dos resultados da Assembleia que tratou do Racismo, Discriminações e privilégios da Branquitude no XIV EFLAC

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Foi uma discussão muito rica, porém difícil, como é o Racismo.

Estiveram  presentes muitas negras/afro latinas, poucas indígenas e poucas brancas e ou não negras, o que foi lamentado nas falas de muitas presentes.

Falamos de que os feminismos na América Latina estão em um constante movimento de transformação face aos contextos em que atuamos, devido a presença de novos cenários, novas perspectivas e novos olhares críticos,  sobre o que tem sido a reflexão e ação feminista  nas últimas décadas.

Estas mudanças tem contribuído para o enriquecimento e a ampliação da democracia no interior dos movimentos, ao mesmo tempo que provocam várias tensões, e entre elas a tensão relacionada com o reconhecimento da diversidade e das desigualdades entre nós, e da necessidade da redistribuição do poder e dos recursos.

Lembramos que, se por um lado os feminismos da região tem feito sua crítica radical a uma perspectiva universalista que coloca a todas as mulheres como iguais, muitas vezes tornam invisíveis suas diferenças de classe, raciais/étnicas, sexuais, geracionais e de cosmovisão.

Dessa forma, os feminismos afro latinos, de mulheres negras, os feminismos indígenas, os feminismos lésbicos e transexuais estão aportando a ampliação das democracias e das cidadanias a partir de práticas concretas e da produção de conhecimentos que abrangem as experiências de viver o racismo e a discriminação.

Os movimentos de LBTIQ estão aportando às lutas feministas em suas lutas por direitos sexuais e reprodutivos; o reconhecimento do corpo como sujeito dotado de cidadania e, portanto, de direitos.

Portanto, reconhecemos que o RACISMO é estruturante das desigualdades e opressões e provocam múltiplas formas de exclusão em razão da raça, etnia e povos indígenas;

Reconhecemos que a branquitude – no sentido de vivência dos benefícios e privilégios – é uma construção sócio histórica produzida pela ideia falaciosa de superioridade racial branca; provocando, muitas vezes uma zona de conforto, um lugar constante de privilégio social, material ou simbólico;

Reconhecemos que somente a crítica não nos tira do lugar de conforto; que é preciso mais do que o incômodo com as práticas racistas;

Ou seja: Não é possível enfrentar o RACISMO se não discutirmos os privilégios que o sistema eurocêntrico, colonialista confere à branquitude. Trata-se de um grave problema, uma violência contra as mulheres negras e indígenas e que as feministas brancas e não negras tem o dever de descontruir.

Entendendo que:

O feminismo, desde suas diferentes expressões, deve responder ao desafio da transformação das distintas exclusões e, portanto, do enfrentamento da discussão sobre o racismo, o cissexismo, da discussão, ainda tabu, da relação patroa/empregada e da precariedade e das condições do trabalho doméstico;  da difícil incorporação da defesa dos direitos das trabalhadoras do sexo; ou seja o desafio de gestionar democraticamente a diversidade, se quiser, de fato,  acabar com as desigualdades;

 

Para vencer esses desafios as participantes da Assembleia apresentaram algumas propostas:

O Movimento Feminista deve se declarar antirracista. Deve descolonizar-se, enegrecer-se e transgenerizar-se;

O feminismo tem o dever de abraçar a luta antirracista e denunciar a cultura falaciosa da cordialidade que limita a cidadania negra e mantém a desigualdade;

O Feminismo deve rever suas concepções e explicitar o que entende por desigualdade;

O Feminismo deve tratar dos privilégios produzidos pela branquitude promovendo, inclusive,  reflexão  e espaços de diálogos entre as mulheres brancas ou não negras sobre essa questão.

O Feminismo deve tornar o enfrentamento do racismo e das discriminações contra as mulheres negras e indígenas uma questão de prioridade estratégica nos espaços e processos de luta do movimento feminista;

O Movimento Feminista deve, urgentemente, tanto nas reflexões como nas metodologias de participação, incorporar o entendimento sobre os privilégios que a branquitude confere às mulheres brancas; bem como promover a redistribuição do poder nos mesmos movimentos feministas e não só na sociedade;

O Feminismo deve potencializar estratégias transgressoras e contraculturais que confrontem os desníveis de poder entre as mulheres em sua diversidade, na sociedade e nos feminismos e considere a equivalência das lutas feministas políticas a partir das múltiplas e diversas realidades que vivem as mulheres;

O Feminismo deve abraçar o conceito de interseccioalidade para compreender as múltiplas opressões sofridas pelas mulheres negras e não brancas e construir espaços de diálogos e saberes, gerando culturas políticas contra o racismo, o cissexismo, e a discriminação,

O Feminismo deve radicalizar o que entende sobre democracia e enfrentar o racismo  e o cissexismo.

O Movimento Feminista deve Incorporar no debate sobre as violências sofridas pelas mulheres, a dimensão da violência racial.

O Movimento Feminista deve repudiar publicamente o racismo e seus efeitos perversos na vida das mulheres, posicionando-se contra a violência, o genocídio e o  encarceramento, o não reconhecimento dos direitos, a discriminação e lutar pela redistribuição dos bens, dos serviços e do poder.

O Movimento Feminista deve colocar na sua agenda o enfrentamento às desigualdades raciais entre nós, mulheres, incluindo essa dimensão nas pautas de luta pela saúde, educação, moradia, direito à terá, ao território e acesso à água entre outras;

Deve abraçar o conceito de interseccionalidade para compreender as múltiplas opressões sofridas pelas mulheres não brancas e construir espaços de diálogos e saberes, gerando culturas políticas contra o racismo, o cissexismo, e a discriminação;

Deve incluir o respeito às culturas tradicionais e à história dos povos indígenas.

Por fim, as mulheres feministas em sua diversidade reivindicam fazer parte de todo o processo. Pensar, elaborar, executar e construir espaços de reflexão;  e usufruir dos resultados.

E, nesse sentido, necessitam ser ouvidas, acolhidas e de tradução em todas as línguas que falamos nos Encontros Feministas.

Montevidéu, 25 de novembro de 2017.

Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

 

Como parte das atividades no XIV EFLAC Organizações de Mulheres negras lançam projeto de monitoramento dos ODS e ODMs

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Durante o 14º Encontro Feminista Latinoamericano e Caribenho uma atividade convocada na tarde da sexta-feira (24) lançou o projeto “Mulheres Negras do Cone Sul: seu retrato em preto e branco”. Iniciativa formulada numa aliança regional da organizações Geledés (SP), Criola (RJ), Coletiva de Mulheres (do Uruguai), do Coletivo de Mulheres Afrodescendentes Luanda (de Arica, no Chile) e da Rede de Mulheres Afro Matambas (Argentina), o objetivo é analisar comparativamente os dados de gênero e raça dos últimos censos de Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai com vistas a avaliar o cumprimento das metas dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODSs) e os Objetivos do Milênio da Organização das Nações Unidas. Com esse material pretende-se verificar com base em dados internacionalmente reconhecidos a situação das populações negras da região do Cone Sul na perspectiva de construir exercícios de incidência para a consecução de políticas públicas de enfrentamento ao racismo.

Embora saiba-se que há na região estudada países em que a sistematização de tais dados tiveram escassos avanços, como no Chile e no Paraguai, e que há uma situação de paralisia das políticas de enfrentamento ao racismo em nações Brasil, Argentina e Uruguai, as organizações avaliam que será possível municiar as articulações e organizações antirracistas para a demanda de políticas públicas na perspectiva da Agenda 20-30 da ONU.

A atividade contou com a participação de mais de 60 mulheres representando dezenas de redes e coletivos de mulheres negras, afrolatinas e indígenas de toda a América Latina.

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* Luciana Araújo é militante da Insurgência em São Paulo