Eleições presidenciais no Chile: Um primeiro turno cheio de surpresas

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Stéfanie Prezioso entrevista Franck Gaudichaud 

As pesquisas e os meios de comunicação dominantes afirmaram categoricamente: as eleições presidenciais chilenas confirmariam uma virada à direita na América Latina. O retorno à presidência do “Berlusconi local”, o ex-presidente Sebastián Piñera, estava assegurada, após o segundo mandato (muito decepcionante) de Michelle Bachelet.

Caramba! Mas mesmo assim, ele saiu enfraquecido! Em 2009, Sebastián Piñera obteve 3 milhões e 600 mil votos. Agora, em 19 de novembro, obteve apenas 2 milhões e 400 mil votos. Inclusive com os votos do pinochetista José António Kast (em torno de 8% do total de votos), sua vitória não está necessariamente garantida, no segundo turno das eleições, que está marcado para o dia 17 de dezembro.

No entanto, o resultado conseguido por Alejandro Guillier (que disputará o segundo turno com Piñera) não é excelente, já que o mesmo obteve um pouco mais de 22% dos votos. Por outro lado, Beatriz Sánchez – candidata da nova coalizão da esquerda, a Frente Ampla – obteve uma pontuação de 20%. Além disso, a Frente Ampla elegeu 20 deputados e um senador.

Para analisar esta situação imprevista, publicamos a análise de Franck Gaudichaud, autor de livros como “Chile 1970-1973. Mil dias que abalaram o mundo” (Sylone, 2017) e organizador da obra coletiva “Chile atual. Governar e resistir em uma sociedade neoliberal” (l’Harmattan, Paris, 2016), e membro da Redação da Contretemps. Revue de Critique Communiste.

 

Várias pesquisas dão como vencedor nas próximas eleições presidenciais do Chile: o ex-presidente Sebastián Piñera. Por que é possível que se concretize a volta ao poder, neste país, de um representante da direita antissocial?

Muitas vezes, parafraseando Marx, dizemos que: as ideias dominantes na sociedade são precisamente as ideias das classes dominantes. No caso chileno, é preciso recordar o que significou o período da ditadura (1973-1989): uma transformação contrarrevolucionária radical e a implantação “a ferro e sangue” do neoliberalismo neste país, que tem sido o país que mais conviveu (em número de anos) com a agenda neoliberal. Diante disso, a direita pôde, finalmente, difundir suas ideias por todas as camadas da sociedade, rompendo com as solidariedades, bem como com a força do movimento operário e o Estado social que existiram na época de Salvador Allende (1970-1973). Os vinte anos do Governo da Concertación de Partidos por la Democracia ou simplesmente Concertación (coalizão da socialdemocracia e da democracia cristã que governou o Chile no período compreendido entre 1990 e 2010) não fez mais do que reforçar esse processo. Finalmente, a volta da direita em 2010 – representada pelo primeiro mandato de Piñera – confirmou o peso das ideias e dos pontos de vista neoliberais no Chile.

 

Como se explicará esta volta da direita antissocial após o segundo mandato de Michelle Bachelet?

Piñera girou o eixo de toda a sua campanha eleitoral no escasso crescimento e nas fortes desilusões produzidas pelo mandato da presidenta. Ele manteve um discurso, que funciona para uma parte da população, sobretudo, para o empresariado, e que tem como elementos: o desenvolvimento econômico e a ascensão individual. A sociedade chilena segue sendo, em grande medida, conservadora, mas este modelo se desintegra cada vez mais. A direita chilena é efetivamente reacionária, assim como todo o sistema político herdado da ditadura. Sendo que, no plano macroeconômico, tanto as forças que estiveram à frente do governo da Concertación, bem como esta direita, possuem, de um modo geral (com pequenas diferenças), a mesma política neoliberal. Além disso, à direita de Piñera encontra-se um candidato abertamente pinochetista (José Antonio Kast), que obteve 8% dos votos, e, inclusive, há também nostálgicos da ditadura no seio da própria coalizão de Piñera, que construíram suas fortunas à sombra dos militares e de seu próprio irmão, que foi um importante ministro da ditadura [José Piñera, ex-ministro do Trabalho, Previdência Social e Minério de Augusto Pinochet].

 

Qual o balanço que fazes do mandato de Michelle Bachelet e do governo da “Nueva Mayoría” (formada pelo Partido Socialista de Chile/PS e pelo Partido Demócrata Cristiano/PDC – mais o Partido Comunista) [entre outros]?

A eleição do segundo governo de Michelle Bachelet resultou de uma campanha realizada em uma época na que a atual presidenta era ainda muito popular, e também graças à recuperação – em parte – das reivindicações dos movimentos sociais de 2011, em particular àquelas ligadas ao movimento estudantil, traduzidas na defesa de uma educação gratuita, pública e de qualidade. Estas demandas foram, por assim dizer, digeridas e “neoliberalizadas”. Assim, Bachelet ganhou as eleições de 2013, prometendo três reformas: da educação, da fiscalidade (uma reforma tributária) e da Constituição.

Então, já podemos chegar a uma conclusão sobre o seu segundo mandato: Michelle Bachelet encarna um progressismo “transformista” social-liberal. A presidenta realizou uma reforma fiscal indolor para o grande capital (minério em particular) e os mais ricos; enquanto no que se refere à reforma da educação pode-se dizer que, somente 28% dos e das estudantes têm, até este momento, acesso ao ensino superior gratuito. Sendo que, trata-se, de um modo geral, de uma subvenção do Estado aos estabelecimentos privados (o objetivo era ter chegado a um nível de gratuidade de 80%, desde o começo de seu segundo governo até 2020).

O projeto de reforma da Constituição foi efetuado graças a uma “consulta cidadã” caricatural [consulta on line em que, as pessoas respondem a perguntas, no site “Uma Constituição para o Chile”, sobre temas elaborados pelo governo], que deve ser aprovada pelo Parlamento, e não por uma Assembleia Constituinte. É bom lembrar que continua em vigor a Constituição (com o acréscimo de emendas) da ditadura… Apesar das grandes mobilizações realizadas, nestes últimos anos, contra os fundos de pensão e por uma reforma a favor da criação de um fundo público: não há nenhum avanço sobre este tema, o que acabou por causar uma grande desilusão entre a base eleitoral de Bachelet.

De um modo geral, assiste-se a uma crise de legitimidade da “casta” política chilena e do modelo democrático instalado em 1990, com um nível de repressão social que segue sendo elevado. Isto se traduz também através de uma alta taxa de abstenção eleitoral: quando foi divulgado o resultado das eleições do primeiro turno, percebeu-se que a abstenção foi a “vencedora” (com 54% do total de votos), tornando-se, assim, algo muito considerável. A abstenção é muito forte entre as classes populares, que não se sentem representadas, mas sem que isto se traduza, de um modo geral, em uma politização antissistema.

 

Existe, hoje, uma alternativa à esquerda da “Nueva Mayoría”? Por acaso, há uma recomposição política viável da esquerda radical chilena?

A (boa) surpresa, deste primeiro turno, foram os resultados da Frente Ampla, cuja candidata Beatriz Sánchez superou os 20%, ou seja, chegando muito perto do resultado obtido pelo candidato Alejandro Guillier (apoiado por Michelle Bachelet), que alcançou um pouco mais de 22% do total de votos. Isso quer dizer, Beatriz Sánchez ficou muito perto de passar para o segundo turno, contrariando as pesquisas que lhe concediam apenas 8% a 10% das intenções de voto. Isto se constitui em um duro golpe para os meios dominantes. Assim, constatou-se que a Frente Ampla foi capaz de conseguir – o que não é pouca coisa –  um grande número de eleitores, em grandes comunas populares como Puente Alto e Maipu, localizadas na capital Santiago. A frente se dispôs a disputar, de igual para igual, com a direita: o eleitorado destes territórios. Sendo que, isto aconteceu em poucos meses, levando-se em conta o fato da Frente Ampla ter surgido recentemente, mais especificamente em janeiro de 2017. Aos olhos de centenas de milhares de pessoas, a Frente encarnou uma alternativa confiável à esquerda, no plano eleitoral.

É bom lembrar que a Frente Ampla originou-se de setores que dirigiram o movimento estudantil de 2011, quer dizer, em particular, dos jovens convertidos posteriormente em deputados, como: Gabriel Boric e Giorgio Jackson. A Frente Ampla reagrupa um espectro amplo e heterogêneo, que vai desde o centro liberal até várias organizações da esquerda radical, como: a “Igualdad” ou a “Izquierda Libertaria”. Trata-se de uma coalizão globalmente antineoliberal, que representa uma espécie de Front de Gauche (como existe na França) ou de Podemos (como no Estado espanhol) à chilena, mas que apresenta dificuldades para implantar-se, verdadeiramente, no seio das classes populares.

Por outro lado, vários pequenos coletivos da esquerda revolucionária criticam esta orientação (julgando-a como eleitoreira), bem como a composição de sua direção (essencialmente proveniente das classes médias). Beatriz Sánchez, jornalista que chegou tarde ao cenário político, foi eleita candidata após vencer, nas eleições primárias, um candidato mais claramente posicionado à esquerda, o sociólogo crítico Alberto Mayol. No entanto, globalmente, a Frente Ampla teve êxito no seu trabalho de tornar-se uma força alternativa nacional. Através destas eleições, a Frente obteve 20 cadeiras no Parlamento e um senador (do total de 155), quer dizer, mais deputados e deputadas que o Partido Socialista (o partido de Michelle Bachelet) e duas vezes mais que o número de deputados eleitos pelo Partido Comunista (integrado na maioria presidencial). De um modo geral, podemos dizer, então, que este feito é histórico.

Assim, a recomposição da esquerda irá acelerar-se. Entretanto, fica por saber se tratará essencialmente de uma surpresa eleitoral, que pode desembocar em uma integração institucional de uma nova centro-esquerda (o que esperam, por exemplo, as classes dominantes e as elites tradicionais), ou se a Frente Ampla conseguirá se apoiar nas resistências organizadas pelas classes populares, bem como nos setores anticapitalistas que não pertencem a esta coalizão. Contudo, há grandes contradições estratégicas no seio da Frente Ampla: com a maioria dos parlamentares eleitos provindo de forças marcadas por um reformismo “light”, assim como com alguns deputados se encontrando próximos do Partido Socialista, que trabalharam, inclusive, nos ministérios do último governo Bachelet. Mas, a partir de agora, quem poderá levar a cabo as batalhas pelo rumo e pela orientação correta (à esquerda) que dever tomar a Frente Ampla são: suas bases e a sua ala esquerda.

Para ganhar o segundo turno, Alejandro Guillier – candidato da “Nueva Mayoría” –  precisa absolutamente dos votos de Beatriz Sánchez. Além disso, é preciso que ele faça com que boa parte dos eleitores recupere a confiança em um partido essencial do sistema político tradicional, ou seja, a democracia cristã, que irá provavelmente reintegrar-se na “Nueva Mayoría”. A Frente Ampla pode pressionar, desde já, Guillier, para que este se comprometa a por fim ao sistema de fundos de pensão, colocando-se a favor tanto de uma transformação da educação, do controle público dos recursos naturais, bem como de uma verdadeira Assembleia Constituinte.

Porém, a Frente Ampla não pode manter nenhuma ilusão sobre este candidato (que representa um produto do establishment), bem como, sobretudo, não entrar em negociações de aparato e de possível maioria de governo, o que a levaria a um sério risco de perder, logo de início, todo o seu capital político. Há também alguns dirigentes da Frente Ampla (em particular aqueles que pertencem à “Revolución Democrática”) que são pouco claros, em seu posicionamento, no que se refere a uma eventual vitória de Guillier. Todavia, é grande a quantidade de militantes da Frente Ampla que desejam não pedir votos para Guillier e os herdeiros da velha Concertación (sendo que, a orientação de “nenhum voto em Sebastián Piñera” seria muito mais do que suficiente no plano tático)… Por outro lado, os grandes ausentes deste processo são, sem dúvida nenhuma, os trabalhadores e as trabalhadoras mobilizados que permaneceram, em grande medida, à margem desta campanha eleitoral, em um momento em que o movimento sindical está (pouco a pouco) se revitalizando.

No entanto, estas eleições e o surgimento inesperado da Frente Ampla marcam uma inflexão e uma abertura do campo das possibilidades. Independente do que ocorrerá no segundo turno: se Piñera ganhar, de fato, o pleito de 17 de dezembro, integrando-se, de forma imediata, na onda do “giro à direita” atual da América do Sul, ou se a recomposição em curso permitir a Alejandro Guillier governar com uma orientação de centro-esquerda, é preciso que nós tenhamos esperança de que haja – independente de quem ganhe as eleições – uma ampliação das lutas sociais, pois há ainda um longo caminho para a construção de alternativas reais no Chile. E será, uma vez mais, como sempre, a digna resistência do povo Mapuche, bem como de outras resistências (feministas, ecoterritoriais e salariais) que poderão mostrar a via para a construção desta alternativa.

 

Nota do tradutor para o português:

Para facilitar melhor o entendimento da presente entrevista, colocamos algumas explicações entre colchetes, e elencamos abaixo alguns links que dão acesso a verbetes, com seus respectivos títulos:

Nueva Mayoría (em espanhol): https://es.wikipedia.org/wiki/Nueva_Mayor%C3%ADa_(Chile)

Concertación de Partidos por la Democracia ou simplesmente Concertación (em espanhol): https://es.wikipedia.org/wiki/Concertaci%C3%B3n_de_Partidos_por_la_Democracia

 

Esta entrevista foi realizada, por Stéfanie Prezioso para o jornal SolidaritéS (da Suíça).

Publicada na França, inicialmente, no site da Contretemps. Revue de Critique Communiste: http://www.contretemps.eu/chili-elections-presidentielles-surprises/

Publicada também, em seguida, no site do Nouveau Parti anticapitaliste (NPA): https://npa2009.org/actualite/international/chili-election-presidentielle-un-premier-tour-plein-de-surprises

Publicada em espanhol pela Revista Viento Sur: http://vientosur.info/spip.php?article13249

Tradução para o português: Carlos Alberto Coutinho                 

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