Exportando Gaza: o armamento da Copa do Mundo no Brasil

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Quando eu estive no Brasil para aqueles primeiros dias da Copa do Mundo, eu fiquei – como muitos outros jornalistas – com lágrimas nos olhos provocadas pela polícia militar. Eu vi tanques urbanos equipados nas ruas e senti o choque dos estilhaços das granadas supersônicas batendo nos meus tímpanos. Ninguém precisava de um telescópio para ver um drone sobrevoando sobre nossas cabeças.

Eu também vi militarismo que era menos de alta tecnologia, e mais dos variados botas-no-chão tradicionais. Várias das favelas – comunidades precárias de pobres que eram santuários para ambos bandidos e revolucionários – estão ocupados em grande escala. Isso tem gerado protestos pelos moradores das favelas contra a violência vivida sob constante submissão policial.

O nível de hardware de alta tecnologia em exposição não é muito diferente do que temos visto nas Copas do Mundo e Jogos Olímpicos anteriores. E lançadores de mísseis têm ao longo dos últimos doze anos tornado-se uma parte do cenário tanto quanto a FIFA Fan Festa e a Vila Olímpica. O problema, porém, não é realmente a forma como a mídia tem escancarado os imperativos de segurança pós 11 de setembro (embora este seja um problema). É dessa forma que também em muitos países-sede a militarização não acaba com o fim dos eventos. Ao contrário, torna-se uma nova realidade. Se você compra um drone você não pretende, como um oficial de segurança de Londres me disse em 2012, “colocá-lo de volta na caixa”. A cultura da vigilância se tornou normal, e através do cavalo de tróia dos esportes, uma moderna realidade Orwelliana surge.

Os governantes brasileiros estão desinibidos para mostrar a sua esmagadora força. O Estado tem expressado uma preocupação grave, nos diferentes momentos, acerca dos protestos, crimes e terrorismo. Tragicamente, se não for previsível, eles têm também escolhido ver os protestos como um ato criminoso e mesmo como um ato terrorista. Eu testemunhei isso repetidamente, com o efeito de transformar a Copa do Mundo, como um manifestante me disse, “um fac-símile da velha ditadura.”.

A preocupação com os manifestantes, crime e terrorismo, sem dúvidas, tem jogado um papel no aparato de segurança, mas o Brasil também tem dramaticamente criado suas forças armadas nos últimos anos como uma maneira de mostrar ao mundo que seu novo poderio econômico global também poderia ser expresso militarmente. No entanto, a presença de poderosos armamentos – sem mencionar a alta tecnologia – levantam uma pergunta: Quem está armando o Brasil? Quem fornece- e quem se beneficia – com esses novos acordos?

A resposta pode ser encontrada em Haifa, Israel, em duas diferentes multibilionárias empresas de armas e eletrônicas: Rafael Sistemas Avançados de Defesa e Elbit Sistemas. Rafael é uma companhia com fins lucrativos de propriedade do Estado de Israel, enquanto Elbit é uma corporação privada.

Como o chefe executivo Bezhalel Machlis disse numa entrevista à Bloomberg, “As tecnologias eletrônicas e óticas de inteligência da Elbit e os nossos parceiros brasileiros são perfeitamente adequados para os desafios de segurança interna desses eventos.” O fornecimento de alta tecnologia militar causou no segundo trimestre um “aumento de 30% para 50 milhões de dólares”. A Bloomberg divulgou que o desejo do Brasil de aumentar suas compras de armamentos da Elbit foi “dado o novo impulso após a Copa das Confederações em junho de 2013, que levou a um número recorde de pessoas nas mobilizações contra uma série de questões, incluindo-se os altos gastos com os estádios para a Copa.

Quanto à Rafael, foi fundada em 1948 pelo recém-estabelecido Estado de Israel para armar o país contra residentes no seu território. Rafael tem uma posição forte no Brasil. Como Flavie Halais apontou no relatório “Open Democracy”, no ano passado, “Rafael Sistemas Avançados de Defesa comprou uma participação de 40% na brasileira GESPI Aeronáutica. De volta a 2010, Brasil e Israel assinaram um acordo de cooperação de segurança, que traz regras específicas para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Desde então, especialistas de segurança israelenses tem dado várias conferências e oficinas para as forças de segurança brasileiras, e para membros das polícias estaduais e das guardas municipais.”.

Esse fluxo de armas de Israel para o Brasil desencadeou um movimento no Brasil liderado pela Frente em Defesa do Povo Palestino-SP, que é composta por dezenas de organizações da sociedade civil e sindicatos brasileiros, e defende o boicote, sanções e desinvestimento. No ano passado, eles protestaram na Feira Latino-Americana Aeroespacial no Rio de Janeiro, com a presença de fabricantes de armamentos de todo o mundo – com a ajuda de modelos seminuas – todos eles competindo parar armar o Brasil para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O evento foi visto como uma vitória pelos trinta fabricantes de armas israelenses que estavam, de acordo com uma fonte, com acesso especial ao vice-presidente do Brasil, Michel Temer, e o secretário de defesa, Celso Amorim.

“O que empresas como Rafael e Elbit estão fazendo é exportando as várias táticas usadas na Faixa de Gaza”, disse um manifestante para mim no Rio. “Eles estão tomando bairros de pobreza e criando Gazas nas favela no Brasil. O objetivo de qualquer um que se vê como parte da sociedade civil não deveria ser mais Gazas”.

Mesmo da mais básica perspectiva humanitária, acontecimentos como punição coletiva, bombas e demolições em massa, como as que temos visto na Palestina, são absolutamente inaceitáveis. Nós deveríamos estar pensando como desmilitarizar a Faixa de Gaza, para que as 1,8 milhão de pessoas que chamam aquela terra de lar tenham liberdade, sem a preocupação permanente de incursões militares. Exportar o “modelo de segurança de Gaza” para as cidades do futuro é a receita para a distopia. Utilizar a Copa do Mundo – e nosso amor coletivo pelo futebol – para criar esta nova normalidade é algo, ao mesmo tempo, assustador e odioso. Este esporte, criado e disseminado pelos pobres ao redor do mundo, agora é disputado em áreas excludentes sob os olhares vigilantes dos drones nos céus e das botinas militares em terra. Ainda podemos nos regozijar com os jogos bonitos, mas nós também precisamos lutar para recuperar este esporte para nós.

Por Dave Zirin

Publicado originalmente em The Nation

Traduzido por Jonas Bezerra especialmente para www.insurgencia.org