Globalização capitalista, imperialismos, caos geopolítico e suas implicações

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Comitê Internacional – IV Internacional

A reunião do Comitê Internacional em fevereiro de 2017 decidiu realizar o 17º Congresso Mundial da IV Internacional em fevereiro de 2018. A reunião aprovou, com grande maioria, três textos para subsidiar a discussão interna. 

São eles:

Estamos, portanto, abrindo esta seção no portal da Insurgência/IV Internacional, dedicado às contribuições na discussão pré-Congresso Mundial. Você pode acessar os textos traduzidos nas línguas oficiais da IV pelo portal InternationalViewpoint

Conteúdo

  1. Uma nova galáxia imperialista
  2. Instabilidade geopolítica crônica
  3. Globalização e crise de governabilidade
  4. Os novos (proto-)imperialismos
  5. Novas forças de extremas direitas, novos fascismos
  6. Regimes autoritários, demanda de democracia e solidariedade
  7. Expansão capitalista e crise climática
  8. Um mundo permanentemente em guerras
  9. Os limites das superpotências
  10. Internacionalismo contra campismo
  11. Crises humanitárias
  12. Uma guerra de classe global

 

A generalização das políticas neoliberais, que primeiro foram postas em prática a partir dos anos 1970 em países como Chile, Grã-Bretanha e Estados Unidos – e se estenderam inclusive aos países do Leste europeu – se acelerou de forma brutal depois da implosão da URSS e da desintegração do bloco soviético no início dos anos 1990. A mundialização capitalista está em pleno auge e tem dado origem a um novo modo de dominação internacional com múltiplas e profundas implicações.

Contudo, a ordem neoliberal está inconclusa e desembocou em uma situação internacional de caos crônico. A primeira crise financeira relacionada com a globalização remonta a 1997-1998, tendo novo impulso em 2007-2008. A crise de superprodução capitalista é profunda. A relação de forças geopolítica não é estável. Alguns imperialismos tradicionais continuam em declive, enquanto se consolidam novos poderes capitalistas e aumentam as rivalidades geopolíticas. Em vários países e regiões a violência universal das receitas neoliberais tem dado lugar à decomposição do tecido social, a agudas crises de regime e, evidentemente, a levantes populares; todavia, também a perigosos processos contrarrevolucionários. Muitos povos já estão pagando um preço alto por uma crise ecológica global – devido, mas não só, ao aquecimento do clima- que não deixa de se agravar.

Contamos já com uma experiência da globalização capitalista e de suas consequências que nos permite atualizar as análises precedentes e abordar novos temas. As “teses” que seguem não pretendem ser exaustivas ou apresentar conclusões definitivas. O objetivo principal é alimentar um processo internacional de reflexão coletiva. Baseados, no geral, em argumentos compartilhados, tratam de aprofundar o debate sobre as implicações dos mesmos. Com este objetivo e com risco de simplificar demasiadamente as complexas realidades, estas teses “filtram” as evoluções atuais, geralmente incompletas, com o fim de destacar o que aparece como novo.

 

1. Uma nova galáxia imperialista

Uma primeira observação: a situação atual é bastante diferente daquela que prevalecia no início do século XX ou durante as décadas compreendidas entre 1950 e 1980. Pontuamos alguns elementos:

  • Uma profunda mudança e uma diversificação da situação dos imperialismos tradicionais: Estados Unidos como “superpotência”; o fracasso da constituição de um imperialismo europeu integrado; “Redução” do imperialismo francês e britânico; imperialismos militares “sem dentes” (sobretudo Alemanha, mas também Espanha em relação com a América Latina); um imperialismo japonês continuamente subordinado (dispõe de um exército importante, mas não possui nem arma nuclear nem porta-aviões); crise de desintegração social em alguns países ocidentais (Grécia) pertencentes historicamente à esfera imperialista…
  • A consolidação dos novos proto-imperialismos: China, que agora se perfila como a segunda potência mundial, e Rússia, que tem conseguido impor seus interesses no cenário da guerra Síria.
  • Importantes modificações na divisão internacional do trabalho, com a “financeirização” da economia, a desindustrialização de vários países ocidentais, em particular europeus, o recentramento da produção mundial de mercadorias, fundamentalmente na Ásia, mas sem esquecer que Estados Unidos, Alemanha e Japão continuam sendo as potências industriais mais importantes.
  • Um desenvolvimento desigual de cada imperialismo, forte em algumas áreas, mas débil em outras. Em consequência, a hierarquia dos Estados imperialistas é mais complexa de estabelecer do que foi no passado. Obviamente, os Estados Unidos se mantêm no primeiro lugar e é o único que pode declarar ser o mais poderoso em quase todas as áreas; embora, registre uma perda de peso relativo em termos econômicos, uma redução de orçamento militar, e ressinta os limites de seu poder global.

A caracterização das novas potências não é a única pergunta que se coloca. Também necessitamos avaliar melhor a mudança de status dos imperialismos tradicionais e da ordem imperialista em conjunto. É necessário reconsiderar noções clássicas como “centro” e “periferia”, “norte” e “sul” à luz da crescente diversificação interna em cada um dos diferentes conjuntos geopolíticos.

 

2.Instabilidade geopolítica crônica

Segunda observação, a globalização capitalista não deu a luz ao estabelecimento de uma “nova ordem” internacional, mas sim o contrário.

Existe um bloco imperialista dominante que podemos qualificar como “bloco atlântico” – porque se estrutura em torno do elo América do Norte/União Europeia – se damos a este termo um sentido geoestratégico e não geográfico. Com efeito, este elo integra a Austrália, Nova Zelândia e Japão. É um bloco hierarquizado sob a hegemonia estadunidense. A OTAN constitui seu braço armado privilegiado, permanente. Desdobramentos na fronteira europeia com a “zona” de controle russo mostram, na medida em que esta fronteira voltou a se tornar zona de conflictos, que sua função inicial não perdeu atualidade.

A OTAN tem tentado atuar mais no leste, sem grande êxito. A crise no Oriente Médio mostra que a Organização não é um marco operativo que pode impor sua lei não importa onde. As tensões com seu pilar regional, a Turquia, são fortes. Tem sido necessário estabelecer alianças com geometria variável em função de cada teatro de operações com regimes opostos entre si, como Arábia Saudita e Iran. A entrada militar de seus membros europeus é marginal. Essa situação alimentou os ataques de Donald Trump a ela no início de seu mandato.

Assistimos a um recrudescimento da competição interimperialista. Recém chegada à arena geopolítica, a China exige estar entre os grandes. Rússia se converteu em um fator inevitável na sua zona de influência ampliada (Síria). O governo japonês está tratando de reduzir sua dependência militar dos EUA para se livrar das cláusulas pacifistas da Constituição japonesa. No plano econômico, a competição se agudiza, a liberdade de circulação outorgada aos capitais permite aos “sub-imperialismos” entrar na disputa longe de sua esfera regional. No âmbito ideológico, as classes dominantes enfrentam uma crise de legitimidade e, com frequência, importantes crises institucionais – perdem o controle dos processos eleitorais, inclusive em países chave como os Estados Unidos (eleição de Trump) ou no Reino Unido (Brexit). A situação de guerra é permanente. A crise ecológica global faz sentir já fortemente seus efeitos. Em diversas partes do mundo, o tecido social se rasga. As catástrofes humanitárias e os deslocamentos forçados das populações alcançam um nível sem precedente desde a Segunda Guerra mundial. Os povos pagam um preço exorbitante pela imposição dessa nova ordem neoliberal. A atual crise crônica tem múltiplas causas.

  • Os Estados imperialistas desempenham sempre o papel de assegurar as condições favoráveis para a acumulação do capital. Contudo, o capital mundializado opera de forma mais independente que no passado frente a eles. Essa dissociação contribuiu para permeabilizar as antigas zonas de influência quase exclusivas dos imperialismos tradicionais (salvo, quem sabe, em grande medida na América Latina). A enorme mobilidade do capital tem efeitos devastadores sobre o equilíbrio das sociedades, o que mina as possibilidades da ação estabilizadora dos Estados.

A globalização capitalista, a financeirização, a crescente internacionalização das cadeias de produção, também reduzem a capacidade dos Estados na hora de implementar políticas econômicas.

  • Nestes últimos anos, o nível de financeirização, sem precedentes, o desenvolvimento do chamado capital “fictício” inerente ao capitalismo moderno, adquiriu proporções consideráveis, Sem que se tenha rompido o vínculo, conduz a um grau superior de distanciamento dos processos produtivos, enquanto o vínculo entre o credor e o devedor inicial afrouxa. A financeirização tem sido o suporte do crescimento capitalista, seu superdesenvolvimento, porém, acentua suas contradições.
  • De frente com o futuro, o sistema da dívida atua tanto no Norte como no Sul. Constitui um elemento chave da ditadura exercida pelo capital sobre as sociedades e desempenha um papel diretamente político, como confirma o caso da Grécia, para impor a manutenção da ordem neoliberal. Juntamente com os tratados de livre-câmbio, bloqueia a implementação de políticas alternativas para sair da crise por parte dos governos.
  • Assistimos a uma verdadeira “guerra de moedas” (divisas). Este é um aspecto dos conflitos interimperialistas: o recurso a uma moeda para definir zonas de controle.
  • As alianças geopolíticas que no passado se “fixavam” em função do conflito Leste-Oeste, por uma parte, e do conflito sino-soviético, por outra; se tornaram mais fluídas e inseguras, sobretudo na Ásia do Sul. Alguns regimes latinoamericanos tentaram durante um tempo afrouxar as rédeas impostas por Washington.
  • As rivalidades interimperialistas alimentam uma nova espiral na corrida armamentista, que vai desde a construção de novos porta-aviões até a “modernização” do armamento nuclear por parte de países como os Estados Unidos e a França que desejam tornar operativo e politicamente aceitável no marco dos conflitos localizados. O desenvolvimento do “escudo antimísseis” por parte dos Estados Unidos acentua ainda mais esta espiral, como ilustra a crise coreana.
  • A erupção das revoluções na região árabe e, depois, da contrarrevolução contribuíram para a criação de uma situação sem controle em uma ampla zona que se estende desde o Oriente Médio até o Sahel (e além) .
  • Com a implosão da URSS, em um primeiro momento, a burguesia e os estados imperialistas (tradicionais) tiveram uma atitude muito conquistadora: penetração nos mercados orientais, intervenção no Afeganistão (2001) e Iraque (2003)… Logo estancaram militarmente e chegou a crise financeira. A emergência de novas potências, as revoluções da região árabe…, tudo leva a uma perda de iniciativa e controle geopolítico: hoje em dia Washington atua mais por reação às emergências do que com a intenção de impor sua ordem.
  • Nesse contexto, o papel das potências regionais ganha importância: Turquia, Irã, Arábia Saudita, Israel, Egito, Argélia… África do Sul, Brasil, Índia, Coreia do Sul… Embora em uma posição subordinada no sistema de dominação mundial sob a hegemonía estadounidense, estas potências jogam também seu próprio jogo, além de serem gendarmes regionais (como o Brasil no Haiti).

A partir da evolução da situação internacional, uma das perguntas que se coloca é sobre que relação existe entre o ponto de inflexão de 1989 (do imperialismo conquistador) e o que se concretizou em mediados da década de 2000 (da instabilidade geopolítica).

Deste ponto de vista, as crises financeiras de 1997-1998 e de 2007-2008 constituíram um ponto de inflexão real. Atualizando as contradições inerentes à globalização capitalista, tiveram consequências importantes tanto no terreno político (deslegitimação do sistema de dominação), como social (muito brutais nos países diretamente afetados) e estruturais (sobretudo, com a explosão das dívidas). E constituíram o pano de fundo dos grandes movimentos democráticos que emergiram alguns anos mais tarde (a ocupação das praças), mas também das evoluções abertamente reacionárias e antidemocráticas alimentadas pelo medo das “classes médias” (por exemplo, na Tailândia).

Junto com a crise ecológica e os deslocamentos massivos de populações, a instabilidade estrutural da ordem mundial cria novas formas de pobreza (ver sobretudo as Filipinas) que obrigam as organizações progressistas a sustentar políticas adaptadas.

 

3. Globalização e crise de governabilidade

As burguesias imperialistas quiseram tirar vantagem do colapso do bloco soviético e da abertura da China ao capitalismo objetivando criar mercados globais com regras uniformes, o que lhes permitiu dispor do seu capital à vontade. As consequências da globalização capitalista foram muito profundas, incrementadas, além disso, por uma evolução que, em sua euforia, estas burguesias imperialistas não quiseram prever.

Este projeto consistiu em:

  • Privar as instituições eleitas (parlamentos, governos …) da capacidade para tomar decisões estratégicas e fazê-las incorporar na legislação medidas definidas em outras partes: na OMC, nos tratados internacionais de livre comércio etc. Portanto, golpeia-se a democracia burguesa clássica – o que no plano ideológico se expressa pela referência à “governabilidade” no lugar da democracia.
  • Transformar em ilegal, em nome do direito preeminente da “competição”, os “métodos adequados” da dominação burguesa, frutos da história específica dos países e regiões (compromisso histórico de tipo europeo, o populismo latinoamericano, o dirigismo estatal de tipo asiático, e muitos tipos de clientelismo redistributivo …). Porque todos estabelecem relações moduladas com o mercado mundial e, por conseguinte, obstaculizam o livre desenvolvimento do capital imperialista.
  • Subordinar o direito comum ao direito das empresas, às quais os Estados têm que garantir os benefícios previstos em seus investimentos, em detrimento do direito da gente à saúde, ao meio ambiente saudável e a uma vida não precária. Este constitui um dos maiores traços da nova geração de tratados de livre-câmbio que completam o dispositivo constituído pelas grandes instituições internacionais como a OMC, o FMI e o Banco Mundial.
  • Uma espiral sem fim de destruição dos direitos sociais. As burguesias imperialistas tradicionais têm percebido a debilidade e a crise do movimento trabalhista no chamado “centro”. Em nome da “competitividade” no mercado mundial, aproveitam a oportunidade para levar a cabo uma ofensiva sistemática orientada a destruir os direitos coletivos que foram conquistados, em particular, durante o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Não pretendem impor um novo “contrato social” que lhes seja mais favorável, querem, sim, acabar com esse tipo de acordo para monopolizar todos os setores potencialmente rentáveis que haviam escapado, como os que pertencem aos serviços públicos: a saúde, a educação, os sistemas de pensão, o transporte etc.
  • Modificar o papel desempenhado pelos Estados e a relação entre o capital imperialista e o território. Com algumas poucas exceções, os governos já não são mais os copilotos de projetos industriais de grande escala ou do desenvolvimento da infraestrutura social (educação, saúde). Apesar de seguirem apoiando em todo o mundo a “suas” empresas transnacionais, ao final (dado seu poder e internacionalização) estas não se sentem dependentes de seu país de origem como o fizeram no passado: a relação é mais “assimétrica” que nunca; o papel, sempre essencial, do Estado está se contraindo: deve contribuir para o estabelecimento das normas que permitam universalizar a mobilidade do capital e a abertura de todo o setor público aos apetites do capital, o que contribui para a destruição dos direitos sociais e para manter a população na linha.
  • Desta forma, estamos tratando com dois sistemas hierárquicos que estão estruturando as relações de dominação no mundo: a hierarquia dos Estados imperialistas, já compleja por si, como já vimos (ponto 1), e as hierarquias dos grandes fluxos de capital que abarcam o planeta em forma de redes. Esses dois sistemas já não se superpõem, apesar de que os Estados estão a serviço dos segundos.

A globalização capitalista representa uma nova forma de dominação de classe: mundial, inacabada e estruturalmente instável. Na realidade, isto conduz à geração de crise de legitimidade e de ingovernabilidade em muitos países e em regiões inteiras, levando a um estado de crise permanente. Os supostos centros de regulação a nível mundial (a OMC, o Conselho de Segurança da ONU …) não são capazes de cumprir sua função com eficácia.

Uma classe não pode governar uma sociedade de forma permanente sem mediações e compromissos sociais, sem fontes de legitimidade, seja sua origem histórica, democrática, social, revolucionária… Em nome da liberdade de circulação de capitais, as burguesias imperialistas estão liquidando séculos de “experiência” neste campo, ao mesmo tempo em que a agressividade das políticas neoliberais está destruindo o tecido social em um número crescente de países. O fato de que em um país ocidental como a Grécia, grande parte da população se encontre privada do acesso à atenção sanitária e aos serviços de saúde, diz muito sobre a linha intransigente da burguesia europeia.

No tempo dos impérios era necessário assegurar a estabilidade das possessões coloniais e, durante a Guerra Fria, também (ainda que em menor medida) as zonas de influência. Digamos que hoje em dia, dada a mobilidade e a financeirização, isso depende do tempo e do lugar… Desse modo, sob os golpes da globalização, regiões inteiras podem entrar em crise crônica. A aplicação dos ditados neoliberais por parte de regimes ditatoriais decadentes provocou levantes populares no mundo árabe e grandes mobilizações na África; crises de regime abertas e respostas contrarrevolucionárias violentas, o que conduz a uma aguda instabilidade.

A particularidade do capitalismo globalizado é que parece se acomodar à crise como se fosse de uma situação permanente: a crise se consubstancia com o normal funcionamento do novo sistema global de dominação. Se é assim, devemos mudar radicalmente nossa visão das “crises” como um momento especial entre largos períodos de “normalidade” – e não terminamos de avaliar nem de sofrer suas consequências.

 

4. Os novos (proto-)imperialismos

As burguesias imperialistas tradicionais pensaram que depois de 1991 iam penetrar no mercado dos antigos países chamados “socialistas” até o ponto de subordiná-los de forma natural; inclusive  chegaram a questionar a razão de ser da OTAN em relação à Rússia. Esta hipótese não era absurda, como foi demonstrado pela situação da China no princípio da década de 2000 e pelas condições em que aderiu à OMC (muito favoráveis ao capital internacional). As coisas, porém, transcorreram de outra maneira e aparentemente os poderes estabelecidos não levaram a sério esta situação no primeiro momento.

Na China, foi constituída uma nova burguesia no interior do país e por dentro do regime; fundamentalmente através do “aburguesamento” da burocracia, que se transformou em uma classe proprietária por meio de mecanismos que agora conhecemos bem. Portanto, a burguesia se reconstituiu de forma independente (o legado da revolução maoísta) e não como uma burguesia subordinada organicamente desde o princípio ao imperialismo. Portanto, a China se transformou em uma potência capitalista e, além disso, é membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas com direito a veto (o que também é válido para Rússia), apesar de que sua formação social, herança de uma história muito específica, continue sendo original.

Podemos definir a China como um novo imperialismo? É evidente que é necessário esclarecer o que entendemos por este termo no contexto mundial atual (que constitui um dos objetivos deste texto). Desde que a China se transformou na segunda potência mundial, parece cada vez mais difícil negar-lhe esse status, independentemente da fragilidade do regime actual e de sua economia.

A Rússia segue sendo economicamente dependente das exportações de bens primários (entre eles, o petróleo, que representa dois terços dos mesmos). Seu peso internacional tem muito a ver tanto com a dimensão de seu arsenal nuclear (equilíbrio global de forças) como com a eficácia de sua capacidade militar (Crimeia, Síria).

Os BRICS têm atuado de forma conjunta no âmbito do mercado mundial. Sem muito êxito. Os países que conformam este frágil “bloco” não jogam todos no mesmo nível. Provavelmente o Brasil, a Índia e a África do Sul poderiam ser descritos como sub-imperialismos – uma ideia que remonta à década de 1970 – e gendarmes regionais, mas com uma diferença significativa em relação ao passado: beneficiam-se de uma liberdade para exportar capitais muito superior (ver o “grande jogo” que se abriu na África, com a competição entre os Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França, Índia, Brasil, África do Sul, China, Qatar, Turquia, Nigéria, Angola…).

Três conclusões:

  1. Volta a emergir a competição entre poderes capitalistas; em especial com a consolidação da China na Ásia oriental e além, mas também da Rússia no Leste Europeu e Oriente Médio. Tratam-se de conflitos entre potências capitalistas, embora qualitativamente diferentes aos do período anterior.
  1. Mais geral, em relação com a livre circulação de capitais, as burguesias (inclusive as subordinadas) e as empresas transnacionais do “Sul” podem utilizar as normas concebidas a partir de 1991 pelas burguesias imperialistas tradicionais para si mesmas, sobretudo em termos de investimento, tornando mais complexa que no passado a competição no mercado global. Em relação ao fluxo de mercadorias, a competição entre trabalhadores e trabalhadoras, sem limites, continua sendo impulsionada fundamentalmente pelas empresas dos centros imperialistas tradicionais, e são eles, e não as empresas dos países produtores, os que controlam o acesso aos mercados de consumo dos países desenvolvidos; no entanto, atualmente isto é menos certo para China e inclusive para a Índia e o Brasil.
  1. Não só há uma crise de legitimidade das classes dominantes como também uma crise ideológica. Esta se manifesta na amplitude da crise institucional, quando os “maus” candidatos se impõem contra o establishment (Trump nos EUA), quando as próprias eleições perdem toda credibilidade aos olhos de setores crescentes da população. Sem ter como responder, crescentemente se apela para o “dividir para vencer”, utilizando do racismo, da islamofobia, do antissemitismo, da xenofobia e da estigmatização, trate-se de coreanos no Japão, de xiitas, sunitas ou cristãos nos países mulçumanos etc. O combate antirracista, antixenófobo constitui, mais que nunca, um elemento de resistência fundamental em escala internacional. O mesmo ocorre com o resto de discriminações (sexistas, sociales…)

 

5. Novas forças de extrema direita, novos fascismos

Uma das primeiras consequências do fenomenal poder desestabilizador da globalização capitalista é o igualmente espetacular auge das novas forças de extrema direita e novos fascismos com uma base (potencial) de massas. Alguns tomam formas relativamente tradicionais (neonazis) como o Amanhecer Dourado na Grécia, o NDP alemão e o Jobbik húngaro. Outros se aninham em novas correntes xenófobas e retornos à identidade nacional. Sua progressão é particularmente acentuada em uma série de países europeus (não é o caso na Espanha e Portugal): o PVV holandês, o National Front francesa, a Liga Norte na Itália, a FPÖ na Áustria, os “True Finns” (Verdadeiros Finlandeses), o UKIP britânico… Todos eles se beneficiam de uma tripla crise: social, institucional e identitária. Seu programa econômico varia, mas compartilham o discurso violentamente anti-imigração e um racismo islamófobo. Assim, na Holanda, Geert Wilders chega até a exigir o fechamento de todas as mesquitas.

Outras extremas direitas emergem sob a forma de fundamentalismos religiosos, como é o caso em todas as “grandes” religiões (cristãos, budistas, hindus, muçulmanos…), ou de fundamentalismo “nacional-religioso” (o sionismo de direita)… Estas correntes representam hoje uma ameaça considerável em países como Índia, Sri Lanka e Israel.

Têm sido capazes de influir na política de governos tão importantes como o dos Estados Unidos (com Bush, agora com Trump). Na França, o candidato presidencial François Fillon, candidato do principal partido da direita, conta com o apoio dos setores católicos mais reacionários. O evangelismo radical cristão faz estragos na América latina e na África. Dessa forma, o mundo muçulmano não tem o monopólio neste âmbito, mas adquiriu uma dimensão internacional particular, com os movimentos “transfronteriços”, como o Estado Islámico, a Al Qaeda e os talibãs; redes que se conectam mais ou menos formalmente desde o Marrocos até a Indonésia e inclusive no sul das Filipinas.

No geral, temos que analisar mais a fundo os novos movimentos de extrema direita, sejam religiosos ou não: não são meras réplicas do passado, expressam, sim, o tempo atual. É importante defini-los politicamente para compreender o papel que desempenham (recordar que, não faz muito tempo, uma parte significativa da esquerda radical internacional via no islamismo fundamental a expressão de um anti-imperialismo “objetivamente” progressista, ainda que ideologicamente reacionário). Esta análise também é necessária para combater interpretações “essencialistas” tipo “choque de civilizações”.

Estes movimentos, sendo correntes de extrema direita e contrarrevolucionários, têm contribuído para pôr fim à dinâmica das revoluções populares nascidas da “primavera árabe”. Não têm o monopólio da violência extrema (veja o regime de Assad!), nem da “barbárie” (a ordem imperialista é “bárbara”). Contudo, exercem sobre a sociedade um control e um terror que parte “de baixo”, que em muitos casos lembra os fascismos do período entreguerras, antes de chegarem ao poder.

Como todo termo político, o fascismo é utilizado em excesso ou interpretado de forma diferente. Todavia, nossas próprias organizações estão discutindo esta questão – como evoluem os movimentos nacionalistas e fundamentalistas de extrema direita?, o que se pode definir neles como fascista ou não? – em países como Paquistão (o movimento Talibã) ou na Índia (RSS), além do Estado Islâmico. “Teofascismo” poderia ser um termo genérico utilizado para esse tipo de correntes que inclui a todas as religiões.

Sejam quais forem os adjetivos mais apropriados para descrever os novos movimentos de extrema direita, seu crescente poder coloca para a nossa geração de ativistas problemas políticos com os quais não havíamos nos deparado no período anterior; o da resistência “antifascista” em grande escala. Temos que trabalhar nisso, e para fazê-lo temos que compartilhar as análises e as experiências nacionais e regionais.

Mais globalmente, a renovação da direita radical fortalece um impulso reacionário perigoso que, em particular, tem como objetivo pôr questão os direitos fundamentais das mulheres e das comunidades LGTBI, frequentemente apoiando-se nas igrejas institucionais em matéria de aborto (na Espanha – onde um projeto de lei reacionária que propunha abolir o direito ao aborto foi derrotado -, na Itália, na Polônia, na Nicarágua…) sobre o papel da família (advogando por um retorno a uma visão muito conservadora do papel da mulher…) e inclusive desencadeando uma verdadeira caça às bruxas contra os homosexuais (Irã, os países africanos em que as correntes evangélicas são poderosas ….) ou os transexuais. Por conseguinte, a reação está atacando frontalmente o direito à livre determinação das mulheres e dos indivíduos (o reconhecimento da diversidade de orientação sexual), direitos conquistados depois de muitas lutas.

 

6. Regimes autoritários, demanda por democracia e solidariedade

Este ascenso da direita reacionária é favorecido pela ideologia da segurança nacional defendida hoje pelos governos burgueses em nome da luta contra o terrorismo e a imigração “ilegal”. Em troca, esses governos utilizam o medo alimentado desse modo para endurecer o Estado penal, para estabelecer regimes cada vez mais policiais e fazer passar medidas liberticidas: agora mesmo populações inteiras são tratadas como “suspeitas” e sujeitas a vigilância.

Inclusive nos países com uma larga tradição democrático-burguesa, assistimos a uma verdadeira mudança de regime. São adotadas leis de guerra civil disfarçadas de antiterrorismo. Desenvolve-se sistemas de vigilância de massas. Dota-se o exército de poderes policiais (França) ou se militariza a  polícia. São introduzidas medidas de exceção no direito comum. O poder Executivo amplia sua autoridade às expensas do poder Judiciário..

A progressiva generalização dos estados de exceção contribui para a negação da humanidade de grupos sociais inteiros: minorias, migrantes… O recurso sistemático ao “crime” de blasfêmia, de lesa-majestade, de atentado à identidade ou à segurança nacional contribui com isso. O insidioso retorno à política de desumanização (que gerou os genocídios de antigamente) não é só um sinal de tendências reacionárias, mas também contrarrevolucionárias.

A globalização capitalista provocou as crises das chamadas democracias institucionais e do parlamentarismo burguês (onde existem). Ante esta perda de legitimidade, a tendência dominante é o estabelecimento – súbito ou insidioso- de regimes autoritários não sujeitos à soberania popular (como exceção que confirma a regra, as antigas ditaduras militares podem todavia ter que ceder ou compartilhar uma parte do poder, como na Birmânia). Nega-se aos povos o simples direito de decidir sobre os tratados e regulamentos aprovados por seus governos.

O imperativo democrático -“Democracia real já!”- adquire por si uma dimensão mais subversiva, mais imediata do que geralmente teve no passado, que permite dotar-lhe de um conteúdo alternativo, popular. Do mesmo modo, a universalidade das políticas neoliberais e a mercantilização dos ” comuns” que lhe acompanha, tornam possível a convergência de formas de resistência social, como se vê no movimento pela justiça global. As consequências da mudança climática, que já se fazem sentir, també, oferecem um novo campo de convergências potencialmente anticapitalistas.

Todavia, os efeitos duradouros das derrotas do movimento trabalhista e da hegemonia ideológica neoliberal, a perda de credibilidade da alternativa socialista, contrastam com estas tendências positivas. Em uma perspectiva a mais longo prazo, é difícil situar o êxito, às vezes considerável, dos movimentos de protesto (ocupação de praças públicas, a desobediência civil …). Neste contexto, a gravidade das opressões pode fortalecer a resistência baseada em uma identidade “atomizada”, na qual uma comunidade oprimida permanece indiferente à sorte reservada a outras pessoas oprimidas (como no caso do “homo-nacionalismo”). O caráter religioso adotado por muitos conflitos também contribui para divisão da gente explorada e oprimida.

A ordem neoliberal só pode impôr-se se tiver êxito na destruição das velhas solidariedades e em suocar a aparição de novas solidariedades. Por muito necessária que consideremos que seja, não podemos esperar que a solidariedade se desenvolva de forma “natural” como resposta à crise, nem o internacionalismo ante o capital globalizado. Neste campo se deve fazer um esforço concertado e sistemático.

 

7. Expansão capitalista e crise climática

A reintegração do “bloco” sino-soviético no mercado mundial deu lugar a uma enorme expansão da zona geográfica em que domina o capital, o que constitui a base do otimismo das burguesias imperialistas. Também é a base para uma aceleração dramática da crise ecológica mundial em vários terrenos. Chegamos a um ponto em que a redução das emissões de gases de efeito estufa deve começar, sem mais demora, nos principais países emissores do Sul e não só do Norte.

Neste contexto, a solução da “dívida ecológica” do Sul não deve favorecer o desenvolvimento capitalista mundial e beneficiar a empresas transnacionais Japonesas-Ocidentais implantadas no Sul ou as corporações transnacionais do Sul (do tipo da agroindústria brasileira). Isso não fará mais que gerar cada vez mais crises sociais e ambientais.

É certo que a solidariedade “Norte-Sul” é necessária sempre; por exemplo, na defesa das vítimas do caos climático. Contudo, e mais que nunca, o que do ponto de vista das classes trabalhadoras está na agenda das relações “Norte-Sul” é uma luta comum “antissistema”: quer dizer, uma luta comum para uma alternativa anticapitalista e uma concepção alternativa de desenvolvimento tanto no “Norte” como no “Sul” (a heterogeneidade do “Norte” e “Sur” é tal que estes conceitos podem ser enganosos).

O ponto de partida é a luta socioambiental para “mudar o sistema, não o clima”; sua base é composta pelos movimentos sociais e não só pelas coalizões específicas em torno do clima. Portanto, devemos trabalhar para articular ambos. Se não “ecologizarmos” a luta social (seguindo o exemplo do que já se pode fazer em lutas camponesas e urbanas), a expansão numérica de mobilizações sobre “o clima” ficará na superfície das coisas.

A organización das vítimas do caos climático, sua defesa e o apoio a sua auto-organização é um elemento básico da luta ecológica.

Já estão claras as consequências dos sistemas de energía baseados em combustíveis fósseis. Assim como os efeitos do aumento da temperatura em escala global: as geleiras estão diminuindo e os níveis oceânicos aumentando, as zonas desérticas se expandem, a água está ficando escassa, a agricultura se vê ameaçada e os fenômenos climáticos extremos se tornando mais frequentes. Os efeitos do supertufão Haiyan, nas Filipinas, sobrepuseram o nível de alerta previsto para o mesmo. O futuro que se anunciava já é uma realidade. As consequências desestabilizadoras dele se estenderam além das regiões diretamente afetadas e deram lugar a tensões em cadeia (ver as tensões entre Bangladesh e a Índia pela questão dos migrantes refugiados, ou os conflitos interestatais em torno do controle das reservas aquíferas).

Os cientistas estão de acordo que um aumento de 2° Centígrados comparado com os níveis pré- industriais desataria consequências climáticas que uma vez postas em marcha seriam impossíveis de deter. Com isto na mente, existe uma quantidade de problemas importantes que permanecem sem solução.

O derretimento das geleiras e das calotas polares ameaça com um aumento catastrófico nos níveis oceânicos, ameaçando as aglomerações costeiras no mundo, as comunidades insulares e os países e regiões de baixa altitude (Bangladesh…). O vasto pólo glacial da Antártida Ocidental mostra sinais de desestabilização e o derretimento de sua geleira poderia aumentar o nível oceânico até 7 metros

Como alimentar a crescente população mundial do planeta sem aumentar a agricultura industrial (agroindústria) e o uso cada vez maior de pesticidas e herbicidas nos alimentos geneticamente modificados que destroem a biosfera? A questão chave é a soberania alimentar. Isto daria às pessoas os direitos e os meios para definir seus próprios sistemas alimentares. Seria dar o controle aos que produzem, distribuem e consomem alimentos em vez de às corporações e às instituições do mercado que dominam o sistema alimentar mundial. Isto significaria o fim da apropriação de terras e requer uma ampla redistribuição da terra para pô-la nas mãos de quem produz os alimentos.

O aspecto mais destruidor da crise meioambiental talvez seja o impacto que está tendo na biodiversidade: o que se denomina “a sexta extinção” como cada vez mais é conhecida. Um incremento de 3° Centígrados na média global da temperatura, significaria que a metade das espécies – plantas e animais – estariam condenadas. A quarta parte de todos os mamíferos estão em risco. A acidificação dos oceanos tem feito com que os recifes de coral, assim como os organismos cuja estrutura óssea depende da calcificação, vão morrendo. O porvir da nossa espécie não pode se separar dessa crise da biodiversidade.

 

8. Um mundo permanentemente em guerras

Entramos com tudo em um mundo permanentemente em guerras (no plural). Cada guerra deve ser analisada em suas especificidades, enfrentamos situações bastante complexas, como atualmente no Oriente Médio, onde em um único marco de operações (Iraque-Síria) existem conflitos entrelaçados com características específicas (Curdistão sírio, a região de Alepo etc.).

Esta situação de guerra permanente não afeta somente os conflitos internacionais. Também caracteriza a situação interna em países da África, da América Latina e o México.

As guerras estão aqui para ficar, com muitas faces. Temos que olhar novamente como elas têm sido conduzidas, inclusive as dos movimentos de resistência popular, com o objetivo de compreender melhor as condições da luta, a realidade da situação, os requisitos concretos de solidariedade… Para isto, cada guerra deve ser analisada em suas especificidades. De fato, confrontamo-nos com situações muito complexas, como as atuais no Oriente Médio, onde, no marco de um palco de operações único (Iraque-Síria) se misturam conflitos com características diferentes, específicas, até o ponto de gerar tensões e contradições entre as forças progressistas.

Entretanto, devemos conservar uma bússula nesta geopolítica tão complexa: a independência de classe contra o imperialismo, contra o militarismo, contra o fascismo e contra o surgimento de movimentos identitários “anti-solidários” (racistas, islamófobicos e antissemitas, xenófobos, casteístas, fundamentalistas, homófobicos, misóginos e machistas …).

 

9. Os limites da superpotência

O ordenamento comum das regras do capitalismo global não impede que alguns países sejam mais iguais que outros; os Estados Unidos tomam a liberdade de fazer coisas que não permite a outros. Joga com o dólar para “exportar” seu “direito” a processos judiciais, controla a maior parte das tecnologias mais avançadas e tem a sua disposição um poder militar sem igual. Seu Estado segue mantendo funções soberanas globais que outros já não têm ou não são capazes de ter.

Os Estados Unidos seguem sendo a única superpotência no mundo. No entanto, perdem todas as guerras que têm participado: desde o Afeganistão até a Somália. A culpa se funda talvez na globalização neoliberal, que lhe proíbe consolidar socialmente (em aliança com as elites locais) seus ganhos militares temporários. Esta é, provavelmente, também uma consequência da privatização dos exércitos, das empresas de mercenários que cumprem um papel crescente e igualmente dos grupos armados “não oficiais” a serviço de interesses particulares (grandes empresas, grandes famílias…).

Também ocorre que esse poder, por muito “superior” que seja, não tem os meios para intervir em todas as direções em condições de instabilidade estrutural generalizada. Requereria imperialismos secundários capazes de apoiá-lo. França e Grã-Bretanha, no momento, só dispõe de capacidades muito limitadas; Japão ainda tem que romper a resistência cívica a sua remilitarização completa. O Brexit dá um golpe de misericórdia na constituição de um imperialismo europeu unificado enquanto o Reino Unido dirige um dos únicos dois exércitos operativos de envergadura da União Europeia, (além de uma das principais redes diplomáticas e financeiras e uma das principais economias).

A eleição de Donald Trump e suas declarações unilateralistas colocam de forma mais grave um problema que vem de longe: em que medida se mantém a garantia do “escudo estratégico” que assegurava os Estados Unidos? A respuesta é clara: em uma medida incerta. Os falcões da direita japonesa tiram suas conclusões. O que será da Europa ocidental? A Alemanha imperialista está sob pressão. Pode continuar beneficiando-se da sua posição econômica dominante sem assumir suas responsabilidades militares? A crise da UE, a pressão russa e a posição de Washington colocam objetivamente o problema do rearmamento alemão, enquanto que neste país (como no Japão), entre a população, a hostilidade ao militarismo é profunda.

Quem diz guerra deve dizer também movimento antiguerra. Como as guerras são muito diferentes umas das outras, a construção da sinergia de movimentos antiguerra não é muito simples. O modo como ativistas na Europa (ocidental) colocam esta pergunta parece pessimista, uma consequência de como o “campismo” tem roído e deixado impotentes as principais campanhas conduzidas neste campo. Existem, porém, movimentos contra a guerra, em particular na Ásia e na Eurásia; a superação das fronteiras herdadas da época dos blocos se dará, sobretudo, em torno desta questão.

 

10. Internacionalismo contra “Campismo”

Já não existe um grande poder (categoria à qual não pertence Cuba) “não-capitalista” ou “anticapitalista”. Temos que tirar todas as consequências disso.

No passado, sem necessidade de nos alinharmos com a diplomacia de Pequim, defendíamos a República Popular da China (e a dinâmica da revolução) contra a aliança imperialista Japão-Estados Unidos; nesse sentido estávamos em seu campo (a seu lado). Opusemo-nos à OTAN, apesar do que pensávamos do regime stalinista; contudo não estávamos “no seu campo” porque isso no limitava nossa luta contra a burocracia stalinista. Estávamos simplesmente atuando em um mundo onde não havia uma articulação das linhas de conflito: revoluções/contrarrevoluções, blocos sino-soviéticos leste/oeste. Este já não é ocaso hoje em dia.

A lógica “Campista” sempre levou ao abandono das vítimas (as que se encontram no lado equivocado) em nome da luta contra o “inimigo principal”. Isto é ainda mais certo hoje do que no passado, já que conduz a se alinhar no campo de um poder capitalista (Rússia, China) ou, pelo contrário, no campo ocidental quando Moscou e Pequim são vistos como a principal ameaça. Desta maneira se fomenta o nacionalismo agressivo e se santificam as fronteiras herdadas da era de “blocos”, justo quando o que temos que fazer é precisamente borrá-las.

O campismo também pode conduzir a ajudar na Síria o regime assassino de Assad e a intervenção russa, ou a coalizão sob a hegemonia estadunidense, incluindo, em particular a Arábia Saudita. Inclusive diante do martírio de Alepo, uma parte da esquerda radical internacional continuou olhando para o outro lado com o objetivo de não romper com sua tradição campista. Outras correntes se contentam em condenar a intervenção imperialista no Iraque e Síria (o que, sem dúvida, se tem que fazer), mas sem dizer o que está fazendo o Estado Islâmico e sem chamar à resistência contra ele.

Esse tipo de posição torna impossível apresentar claramente o conjunto de tarefas de solidariedade. Não é suficiente lembrar a responsabilidade histórica do imperialismo, desde a intervenção em 2003 e os objetivos não-declarados da intervención atual, para denunciar o próprio imperialismo. É necessário pensar nas tarefas concretas de solidariedade do ponto de vista das necessidades (motivos humanitários, políticos e materiais) das populações que são vítimas e dos movimentos em luta. Isto não pode ser feito sem atacar o regime de Assad e os movimentos fundamentalistas contrarrevolucionários.

Dizemos o mesmo em relação aos conflitos na fronteira que divide atualmente o Leste europeu: como no caso da Ucrânia, nossa orientação tem sido a de combater, em todos os países europeus – estejam dentro ou fora da UE – a favor de outra Europa baseada na livre associação dos povos soberanos contra todas as relações de dominação (nacionais, sociais); o que para nós significa o socialismo.

 

11. Crises humanitárias

As políticas neoliberais, a guerra, o caos climático, as convulsões econômicas, rupturas sociais, exacerbação da violência, os pogroms, o colapso dos sistemas de proteção social, as epidemias devastadoras, as mulheres reduzidas à escravidão, as crianças mártires, as migrações forçadas… O capitalismo triunfante, desenfreado, está dando a luz a um mundo onde as crise humanitárias se multiplicam.

A decomposição da ordem social afeta diretamente o Estado em países como o Paquistão. Fundamentalmente no México, a decomposição do capitalismo não conduziu à emergência de um novo fascismo, mas transformou os grupos criminosos marginalizados, que atuam clandestinamente como verdadeiros grupos de poder associados à classe política dominante e ao capital financeiro internacional. Estendem suas redes ao resto da América Latina e aos Estados Unidos. Além do tráfico de drogas, estão envolvidos em sequestros e tráfico de mulheres. Controlam amplas zonas do território e dispõem de uma base social. A denominada guerra contra a droga, os conflitos entre as diferentes facções criminosas e os “danos colaterais” tem provocado mais mortos que a guerra no Iraque. Sua existência facilita a acumulação capitalista por desapropriação expulsando milhares de camponeses e povos autóctones de suas terras em benefício de sociedades transnacionais vinculadas fundamentalmente ao extrativismo. Isto justifica a militarização do país e a criminalização do protesto social. Ainda que em si mesmo não apresentem um perfil político, essas facções favorecem o processo de acumulação do capital e promovem uma cultura misógina, sexista, homofóbica e xenófoba. Podem se tornar um terreno fértil para a formação de grupos paramilitares a serviço das oligarquias.

No lugar de ser reforçado diante da urgência, o direito humanitário tem sido pisoteado pelos Estados. A União Europeia nem sequer aparenta respeitar o direito internacional no que diz respeito ao acolhimento dos refugiados e refugiadas. O vil acordo negociado com a Turquia é um exemplo disto. O mesmo ocorre em Rohinga, no Sudeste da Ásia.

Às vezes essa violência sem limites é levada sem dissimulação. Já não se nega a hiperviolência; organiza-se o espetáculo, como faz o Estado Islâmico. O feminicídio em países como a Argentina ou México adquire formas extremas: corpos empalados, queimados… nada a fazer inveja às violências “tradicionais”, aos “crimes de honra” (rebeldes à ordem patriarcal enterradas vivas…)

Desde Georges W. Bush e os atentados de 11 de setembro em 2001, um número crescente de governos negam inclusive a humanidade do inimigo. Com efeito, em nome do combate do Bem contra o Mal, a “guerra humanitária” se emancipou do direito humanitário e do direito de guerra: o inimigo “absoluto” não tem direito a nenhum direito; não postos nos grupos fundamentalistas ou no “buraco negro” de Guantânamo e nas prisões secretas da CIA.

É preciso fazer frente a esta barbárie moderna com a ampliação do campo de ação internacionalista. As esquerdas militantes e os movimentos sociais em particular, devem velar pelo desenvolvimento da solidariedade “povo a povo”, “de movimento social a movimento social” com as vítimas da crise humanitária.

Depois de um período no qual o próprio conceito de internacionalismo foi menosprezado com frequência, a onda global da justiça, agora com a multiplicação das “ocupações” de praças públicas ou distritos, lhe restauraram em toda sua importância. Agora é necessário que esse internacionalismo ressuscitado encontre formas de ação mais permanentes em todos os âmbitos de protesto. O qual não ocorrerá de forma espontÂnea. De fato, em numerosos países podemos constatar um enfraquecimento da consciência solidária e de sua colocação em prática.

 

12. Uma guerra de classe global

O capitalismo global desenvolve uma guerra de classe global.

É difícil prever a evolução a médio prazo da situação internacional, sobretudo no plano econômico. Ameaça uma nova crise financeira sem que se saiba o que lhe fará detonar e as suas implicações. Terão as inovações tecnológicas vinculadas à informática um efeito significativo sobre a produtividade do trabalho? Nos encontramos em um período de estagnação prolongada? Pode haver setores significativos da burguesia que optem por um novo protecionismo? Pode a mudança climática impôr limites absolutos ao capitalismo? A crise capitalista atual tem por causa fundamental a queda tendencial da taxa de lucro (como as crises clássicas) ou é necessário ter em conta sobretudo outros fatores (a governança da globalização, o impacto da crise ecológica…)?

No momento, o que está claro é que a precarização do emprego e das condições de vida, o esgarçamento do tecido social, vai continuar se dando na maioria dos países. Se não crescem as solidariedades para lhes fazer frente com força, aumentarão as opressões. Os estragos da crise ecológica vão se ampliar. A instabilidade geopolítica vai se agravar ainda mais; o ascenso da tensão na Ásia Oriental é uma boa amostra disso. Os conflitos pelo controle dos recursos naturais, dos mercados e das vias de comunicação vão se multiplicar.

A primeira consequência da eleição de Donald Trump é o incremento de todas essas tendências. Pior ainda: estamos a ponto de atravessar novos umbrais de perigo. A aceleração da corrida armamentista (construção de porta-aviões..) é um dos sintomas mais temíveis. Adquire inclusive uma dimensão nuclear. Países como Estados Unidos ou França tratam de tornar politicamente possível o uso “tático” dessa arma de destruição massiva. Neste momento frente, ao agravamento da crise coreana e ao lançamento no sul de uma base de mísseis de interceptação Thaad dos EUA, a China se põe a reforçar seu arsenal e lançar submarinos estratégicos nos oceanos. A construção de muros e o fechamento de fronteiras se generalizam, com tudo o que isso implica de diabolização e de maltrato à gente “estrangeira”; mas a demagogia contra as pessoas imigradas não pode esconder a violência dos ataques dirigidos contra a população trabalhadora em seu conjunto. A alternativa histórica “socialismo ou barbárie” adquire hoje em dia todo seu sentido.

Através de sua própria violência, as ofensivas da reação podem provocar em resposta mobilizações democráticas massivas, como nos EUA com a eleição de Trump ou na Argentina frente à extrema violência infligida às mulheres e até no plano internacional. Assim, a jornada do 8 de março de 2017 adquiriu um significado espetacular e totalmente inabitual. Porém, esses ataques também podem infligir derrotas importantes aos movimentos sociais combativos, trabalhistas e camponeses, como no Paquistão. A análise das dinâmicas das resistências populares é a matéria do segundo texto que se apresenta para a discussão no próximo Congresso Mundial; e o das condições para a construção dos partidos militantes, o terceiro.

 

Tradução: Bruno Marinoni

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