Luta e insurgência popular na Argentina

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Vanessa Dourado, militante da Insurgência em Buenos Aires

“não são maus os homens que roubam
nem as mulheres que choram
pelas esquinas da fome
pelas ruas do hoje
não cabe
sua vontade de ser gente.”

 

A Argentina passa por um momento de mobilizações massivas que tem como principal motivo a resposta às políticas do presidente Maurício Macri. Desde que assumiu, o presidente argentino tem aplicado uma dura política de ajuste e de precarização laboral. O aumento das tarifas de serviços básicos como energia elétrica, gás e transporte — chamado de “tarifaço” — associado ao grande número de demissões — mais de 200 mil desde o início de seu mandato — vem causando um clima de mal-estar entre a população e demonstra um profundo descontentamento com o governo.

Como consequência deste conjunto de medidas, houve um aumento no número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. De acordo com Observatório da Dívida Social da UCA — Universidad Católica Argentina—, nos últimos nove meses de governo macrista este número aumentou em 1,5 milhões, além de também surgirem 600 mil novos indigentes em todo o país.

Para conter as consequências do esgarçamento, Macri aumenta o contingente policial o qual vem trabalhando para manter a higienização social. Como diálogo, o presidente pede à população que trabalhe mais para vencer a crise, mas, por outro lado, prioriza o pagamento dos fondos buitres e amarga um processo de endividamento histórico que corresponde a mais de 50% do PIB nacional.

Caracterizado por uma política antissindical, em um país historicamente marcado pela forte presença da organização dos/as trabalhadores/as em centrais sindicais, o ataque aos direitos dos/as professores/as foi o estopim para a eclosão das grandes mobilizações da semana passada.

A primeira grande marcha docente, que ocorreu dia 6 de março, teve adesão de todos os grêmios  e de 90% das escolas públicas estatais. Esta foi a maior marcha da categoria desde 1989. Diante da convocatória de greve, o governo lançou uma campanha pedindo à população que trabalhasse como voluntária para substituir os/as professores/as, mas não obteve resposta ao pedido. Em vez disso, vários pais e alunos/as acompanharam os/as docentes em suas reivindicações com a consigna “professor protestando também está ensinando”.  Além disso, os/as professores/as também sofreram ameaças por parte dos governos estaduais que garantiram descontar as horas não trabalhadas e aplicar multas aos docentes.

A grande mobilização que levou meio milhão de pessoas às ruas, no dia 7 de março, foi convocada pela CGT — Confederación General Del Trabajo —, CTA — Central de Trabajadores de la Argentina— e CTA Autónoma — Central de Trabajadores de la Argentina/Autónoma. Além dos/das trabalhadores/as organizados/as nas centrais, houve uma forte presença de autoconvocados/as e de movimentos sociais exigindo o fim do tarifaço, abertura de novos postos de trabalho, fim das demissões e houve também bastante rechaço ao presidente com as consignas “Macri é fome” e “Macri é morte”. Os trabalhadores gráficos do Grupo Clarín, os quais há mais de 50 dias estão ocupando uma das sedes da empresa e resistindo ao plano de demissões do grupo, também estiveram na marcha.

A contundente resposta dos/as trabalhadores/as também veio em forma de resistência às práticas burocráticas e verticalizadas dos dirigentes da CGT, os quais vêm resistindo em responder às demandas dos/as trabalhadores/as. Diante do clamor por uma greve geral, os dirigentes da organização relutaram em definir uma data para a mobilização e foram expulsos por  trabalhadores que tomaram o palco gritando “coloquem a data”. A data para a greve geral ainda não foi definida, mas a duas CTAs já convocaram um plenário para o próximo dia 14 de março com objetivo de defini-la.

O terceiro dia da jornada de lutas foi a representação argentina na histórica Greve Internacional de Mulheres e reuniu 300 mil pessoas. Organizada antes mesmo da convocatória estadunidense, a marcha do 8M foi a segunda greve de mulheres em menos de seis meses, na Argentina. A primeira ocorreu no dia 19 de outubro e foi motivada pelo feminicídio de Lucía Pérez — jovem de 16 anos brutalmente assassinada por estupro e empalamento. Além das organizações feministas como Ni Una Menos entre outras, a marcha do dia 8 de março contou com a presença de centrais sindicais e autoconvocadas. O caráter político da mobilização, apesar de difundida pela mídia hegemônica como sendo uma marcha contra a violência machista e contra o patriarcado — com todas as  demandas históricas do movimento —, também foi fortemente marcada pela reivindicação de uma data para a greve geral, contra o ajuste, contra a precarização laboral e contra a reforma do sistema migratório. Já no final da marcha, 20 pessoas foram detidas de forma arbitrária. Todas já foram liberadas.

O clima de mobilização contra o governo neoliberal de Macri continua e a expectativa é de que a greve geral aconteça ainda no mês de março. O governo ainda não demonstrou qualquer interesse em atender às demandas do povo. O avanço das negociações entre as centrais sindicais tem um papel central para a concretização da greve, mas o grande número de autoconvocados/as nas mobilizações também aponta para uma possível mobilização espontânea que pode ser, talvez, uma segunda versão do que foi o Argentinazo em 2001.

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