Mulheres marcham pela escolha, contra Trump – internacionalmente

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A Marcha das Mulheres em Washington, em 21 de janeiro, no dia seguinte à posse de Trump, surgiu de uma convocação espontânea nas redes sociais. [1] A iniciativa ganhou formalidade, como se pode ver na convocação abaixo, e também encorajou a realização de muitas outras marchas no mesmo dia, não apenas em mais de 350 cidades dos EUA, mas também ao redor do mundo, como no Canadá, Grã-Bretanha, França, Portugal, Suécia, Bélgica, Itália, Estado espanhol, Grécia, Dinamarca, México… [2]

A perspectiva de um governo liderado por Trump nos EUA ameaça os direitos das mulheres e a igualdade nos EUA. [3] Mas mulheres de todo o mundo também estão se levantando para defender e ampliar seus direitos. Mesmo em países onde alguns direitos foram conquistados, estes estão sob ataque constante, como por exemplo o direito de escolher, ou devido aos planos de austeridade. Esse movimento espontâneo e internacional mostra que as mulheres estão reagindo.

 

Marcha das Mulheres em Washington

Visão orientadora e definição de princípios

A Marcha de Mulheres em Washington é um movimento liderado por mulheres, que reúne pessoas de todos os gêneros, idades, raças, culturas, afiliações políticas e origens na capital da nossa nação, no dia 21 de janeiro de 2017, para afirmar nossa humanidade comum e enunciar nossa mensagem ousada de resistência e autodeterminação.

Reconhecendo que as mulheres têm identidades interseccionais e por isso são afetadas por múltiplas questões de justiça social e direitos humanos, nós esboçamos uma visão programática representativa para um governo, baseada nos princípios de liberdade e justiça para todxs. Como afirmou Dr. King, “Não podemos caminhar sozinhxs. E enquanto caminhamos, temos que prometer que marcharemos apenas para frente. Não podemos recuar.”

A libertação de cada umx de nós está ligada à libertação dx outrx. A Marcha das Mulheres em Washington inclui lideranças de organizações e comunidades que vêm construindo a base para o progresso social há gerações. Congratulamo-nos com a colaboração vibrante e honramos o legado dos movimentos que vieram antes de nós – as sufragistas e abolicionistas, o movimento pelos direitos civis, o movimento feminista, o movimento indígena americano, Occupy Wall Street, Marriage Equality, Black Lives Matter, e outros –, adotando uma estrutura descentralizada, representativa em termos de lideranças e focada em uma agenda ambiciosa, fundamental e ampla.

 

 #PORQUE MARCHAMOS

Estamos fortalecidas com as legiões de líderes revolucionárixs que pavimentaram o caminho para que nós marchemos, e reconhecemos aquelxs que lutam pelas nossas liberdades ao redor do mundo. Nós honramos essas mulheres e tantas mais. Elas são a razão #PORQUE MARCHAMOS.

Bella Abzug • Corazon Aquino • Ella Baker • Grace Lee Boggs • Berta Cáceres • Rachel Carson • Shirley Chisholm • Angela Davis • Miss Major Griffin Gracy • LaDonna Harris • Dorothy I. Height • bell hooks • Dolores Huerta • Marsha P. Johnson • Barbara Jordan • Yuri Kochiyama • Winona LaDuke • Audre Lorde • Wilma Mankiller • Diane Nash • Sylvia Rivera • Barbara Smith • Gloria Steinem • Hannah G. Solomon • Harriet Tubman • Edith Windsor • Malala Yousafzai

 

VALORES E PRINCÍPIOS

  • Nós acreditamos que os direitos das mulheres são direitos humanos e que os direitos humanos são direitos das mulheres. Esse é o princípio básico e original do qual todos os nossos valores decorrem.
  • Nós acreditamos que justiça de gênero é justiça racial é justiça econômica. Precisamos criar uma sociedade na qual as mulheres – em particular as mulheres negras, indígenas, pobres, imigrantes, muçulmanas, queer e trans – sejam livres e capazes de cuidar e de alimentar suas famílias, independente do formato destas, em ambientes seguros e saudáveis, livres de constrangimentos estruturais.
  • As mulheres merecem ter vidas plenas e saudáveis, livres de violência contra seus corpos. Uma em cada três mulheres foram vítimas de algum tipo de violência física por parte de um parceiro íntimo durante a sua vida; e uma em cada cinco mulheres sofreram estupro. Além disso, todos os anos, milhares de mulheres e meninas, particularmente as negras, indígenas e transgênero são sequestradas, traficadas ou assassinadas. Nós honramos a vida dessas mulheres que foram levadas antes do tempo e afirmamos que trabalhamos para o dia em que todas as formas de violência contra as mulheres serão eliminadas.
  • Nós acreditamos na prestação de contas e na justiça contra a brutalidade policial, e no fim da violência policial contra comunidades não brancas. Mulheres negras morrem mais do que mulheres brancas quando em custódia policial, e as negras têm maior probabilidade de ser sexualmente agredidas pela polícia. Também exigimos que se pare imediatamente de equipar a polícia com armamentos e táticas militares, que estão fazendo estrago nas comunidades não brancas. Nenhuma mulher ou mãe deveria ter medo de que os seus venham a ser prejudicados nas mãos daqueles que juraram protegê-los.
  • Nós acreditamos que é um imperativo moral desmantelar as desigualdades de gênero e de raça no seio do sistema de justiça criminal. A taxa de encarceramento aumentou mais rápido para mulheres que para homens, crescendo em 700% desde 1980, e a maioria das mulheres na prisão têm uma criança menor de idade. Mulheres em restrição de liberdade também enfrentam altas taxas de violência e agressão sexual. Estamos empenhadas em garantir o acesso a uma programação sensível ao gênero e cuidados de saúde dedicados, incluindo tratamento do abuso de substâncias, serviços de saúde mental e materna para mulheres na prisão. Nós acreditamos na promessa da justiça restaurativa e em alternativas ao encarceramento. Também estamos comprometidas em interromper o canal escola-prisão, que prioriza o encarceramento em detrimento da educação, encaminhando sistematicamente para o sistema de justiça as nossas crianças – particularmente crianças não brancas, jovens queers e trans, crianças adotadas e meninas.
  • Nós acreditamos na liberdade reprodutiva. Não aceitaremos nenhum retrocesso em nível federal, estadual ou local, cortes ou restrições em nossa capacidade de acessar serviços de saúde reprodutiva de qualidade, controle de natalidade, cuidados e prevenção de HIV/AIDS, ou educação sexual com fundamentos médicos. Isso significa acesso livre a um aborto seguro, legal e acessível, e controle de natalidade para todas as pessoas, independentemente da renda, local de moradia ou nível de educação. Entendemos que só poderemos ter justiça reprodutiva quando os serviços de saúde reprodutiva forem acessíveis a todas as pessoas, independentemente da renda, moradia ou escolaridade.
  • Nós acreditamos em justiça de gênero. Nós precisamos ter o poder de controlar nossos corpos e sermos livres de normas, expectativas e estereótipos de gênero. Devemos libertar a nós mesmxs e à nossa sociedade da instituição de atribuir poder, agência e recursos desproporcionalmente à masculinidade, à exclusão dxs outrxs.
  • Declaramos firmemente que os Direitos LGBTQIA são direitos humanos e que é nossa obrigação exaltar, expandir e proteger os direitos de nossos irmãos e irmãs homossexuais, lésbicas, bi, queer, trans ou não binários. Isso inclui o acesso a serviços de saúde abrangentes, imparciais, sem exceções ou limitações; acesso a alterações de nome e de gênero em documentos de identidade; proteções antidiscriminatórias completas; acesso a educação, emprego, habitação e benefícios; e fim da violência policial e estatal.
  • Acreditamos numa economia impulsionada pela transparência, responsabilidade, segurança e equidade. Acreditamos que a criação de oportunidades de trabalho que reduzam a discriminação contra mulheres e mães permite que as economias prosperem. As nações e as indústrias que apoiam e investem na prestação de cuidados e nas proteções básicas do local de trabalho – incluindo benefícios como licença familiar remunerada, acesso a cuidados infantis acessíveis, licença por motivos de saúde, serviços de saúde, salário justo, férias e ambientes de trabalho saudáveis – demonstraram crescimento e capacidade aumentada.
  • Acreditamos em salário igual para trabalho igual e no direito de todas as mulheres a serem pagas equitativamente. Devemos acabar com a discriminação salarial e de contratação que as mulheres, particularmente mães, não brancas, lésbicas, queer e trans ainda enfrentam a cada dia em nossa nação. Muitas mães sempre trabalharam e em nossa força de trabalho moderna; e as mulheres são agora 50% de todxs xs chefes de família. Nós defendemos as 82% das mulheres que se tornam mães, especialmente as mães não brancas, que devem ser pagas, julgadas e tratadas de forma justa. Salário igual por trabalho igual vai tirar as famílias da pobreza e impulsionar a economia da nossa nação.
  • Reconhecemos que as mulheres não brancas carregam o fardo mais pesado na paisagem econômica global e doméstica, particularmente na economia de cuidados. Afirmamos ainda que todo o trabalho de cuidado – cuidar dos idosos, cuidar dos doentes crônicos, cuidar das crianças e apoiar a independência das pessoas com deficiência – é trabalho e que o peso dos cuidados recai desproporcionalmente sobre os ombros das mulheres, particularmente as não brancas. Defendemos os direitos, dignidade e tratamento justo de/a todxs xs cuidadorxs, sejam elxs remuneradxs ou não. Devemos corrigir as disparidades sistêmicas que permeiam a prestação de cuidados em todos os níveis da sociedade.
  • Acreditamos que todxs xs trabalhadorxs – incluindo trabalhadorxs domésticxs e agricultorxs – devem ter o direito de se organizar e lutar por um salário mínimo vital, e que os sindicatos e outras associações trabalhistas são cruciais para uma economia saudável e próspera para todxs. Trabalhadorxs indocumentados e migrantes devem ser incluídos em nossas proteções trabalhistas, e estamos em solidariedade com movimentos de direitos dxs trabalhadorxs do sexo.
  • Acreditamos que os direitos civis são o nosso direito de nascença. O nosso governo constitucional estabelece um quadro para fornecer e expandir os direitos e liberdades – não restringi-los. Para isso, devemos proteger e restituir todos os direitos constitucionalmente garantidos para todxs xs nossxs cidadãxs, incluindo direitos de voto, liberdade de culto sem medo de intimidação ou assédio, liberdade de expressão e proteção para todxs xs cidadãxs, independentemente de raça, gênero, idade ou deficiência.
  • Acreditamos que é hora de uma emenda abrangente de direitos iguais na Constituição dos Estados Unidos. A maioria dos americanos acredita que a Constituição garante direitos iguais, mas ela não o faz. A 14ª Emenda foi minada por tribunais e não pode produzir equidade real com base na raça e/ou sexo. E em uma verdadeira democracia, o voto de cada cidadãx deve contar igualmente. Todxs xs americanxs merecem garantias de igualdade na Constituição que não possam ser removidas ou desconsideradas, reconhecendo o fato de que as desigualdades se cruzam, se interligam e se sobrepõem umas às outras.
  • Enraizadas na promessa do chamado da América para as massas desejosas de liberdade, acreditamos em direitos de imigrantes e refugiadxs, independentemente do status ou país de origem. É nosso dever moral manter as famílias unidas e empoderar todxs xs americanxs aspirantes a participar plenamente e contribuir para a nossa economia e sociedade. Rejeitamos a deportação em massa, a detenção familiar, as violações do devido processo e a violência contra migrantes queer e trans. A reforma da imigração deve estabelecer um roteiro para a cidadania, e proporcionar igualdade de oportunidades e proteção laboral para todxs. Reconhecemos que o apelo para que amemos nossxs vizinhxs não se limita aos Estados Unidos, porque há uma crise migratória global. Acreditamos que a migração é um direito humano e que nenhum ser humano é ilegal.
  • Nós acreditamos que cada pessoa e cada comunidade em nossa nação tem o direito à água limpa, ao ar limpo, ao acesso e usufruto de terras públicas. Acreditamos que nosso ambiente e nosso clima devem ser protegidos, e que nossa terra e recursos naturais não podem ser explorados para ganhos corporativos ou ganância – especialmente colocando em risco a segurança e a saúde pública.

 

SOBRE ESTE DOCUMENTO

A visão orientadora e a definição dos princípios foram preparadas por um grupo amplo e diversificado de líderes. A Marcha das Mulheres em Washington é grata a todxs que contribuíram, aqui listadxs ou não, pela sua dedicação em moldar esta agenda.

Monifa Bandele, Vice President, MomsRising

Zahra Billoo, Council on American Islamic Relations – San Francisco Bay Area

Gaylynn Burroughs, Director of Policy & Research, Feminist Majority Foundation

Melanie L. Campbell, Convener, Black Women’s Roundtable, President & CEO, NCBCP

Sung Yeon Choimorrow, Interim Executive Director, National Asian Pacific American Women’s Forum

Alida Garcia, Immigrant Rights & Diversity Advocate

Alicia Garza, National Domestic Workers Alliance

Carol Jenkins, Board of Directors, ERA Coalition

Dr. Avis Jones-DeWeever, President, Incite Unlimited, LLC

Carol Joyner, Director, Labor Project for Working Families, Family Values @ Work

Janet Mock, Activist and author of Redefining Realness and Surpassing Certainty

Jessica Neuwirth, President, ERA Coalition

Terry O’Neill, President, National Organization for Women (NOW)

Carmen Perez, Executive Director, The Gathering for Justice

Jody Rabhan, Director of Washington Operations, National Coucnil of Jewish Women

Kelley Robinson, Deputy National Organizing Director, Planned Parenthood Federation of America

Kristin Rowe-Finkbeiner, Executive Director and Co-Founder, MomsRising

Linda Sarsour, Founder, MPower Change

Heidi L. Sieck, Co-Founder/CEO, #VOTEPROCHOICE

Emily Tisch Sussman, Campaign Director, Center for American Progress

Jennifer Tucker, Senior Policy Advisor, Black Women’s Roundtable

Winnie Wong, Activist, Organizer and Co-Founder, People for Bernie

 

Notas:

[1] Joanna Misnik, International Viewpoint, “Don’t mourn, organize”.

[2] For a full list see Women’s March Global.

[3] Susan Pashkoff, Daily Kos “Anti-Capitalist Meetup: Trump, the Republican controlled Congress and the War on Women”.

 

Originalmente publicado em: http://www.internationalviewpoint.org/spip.php?article4831

Traduzido por Maria Lima

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