Não morreremos de tanto trabalhar

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Gustavo Belisário

Por diversas vezes vi na Globo, na Folha de São Paulo e em outros grande veículos “especialistas” mostrando números de como não existe dinheiro para a Previdência e de como é natural que o aumento na expectativa de vida possibilite uma vida profissional mais longeva. Refutações a essas afirmações foram exaustivamente feitas por campanhas de movimentos e partidos em redes sociais nas últimas semanas.

Existe sim o dinheiro. Basta olhar para a distribuição do orçamento do Estado brasileiro e a injustiça do sistema tributário para ver que é possível. Além disso, pela expectativa de vida em diversas regiões do país, a média das pessoas vai morrer sem parar de trabalhar em muitos estados. No entanto, mais importante que discutir esses dados é falar sobre que modelo de vida estamos construindo.

Quando as primeiras pessoas que se viram obrigadas a ter jornadas de trabalho em fábricas, há quase três séculos atrás, o problema da velhice e da infância foi colocado. Crianças muito pequenas e pessoas muito velhas não tinham qualquer possibilidade de produzir como os adultos e jovens. Isso não impediu que os patrões daquela época arranjassem uma solução: empregar crianças e velhos a um salário menor. Foi somente no fim do século XIX que começaram os Estados do norte começaram a recolher impostos para garantir pagamentos dos velhos que trabalharam a vida toda.

Ser velho é um problema para o capitalismo, pois o modelo é da vida se resumir ao trabalho. Desfrutar viagens, família, lazer ou qualquer âmbito da vida que não seja o trabalho é ruim para um sistema que prioriza ao máximo o lucro. Pensar a reforma da Previdência é mais do que pensar de onde vem o dinheiro. É se questionar: queremos priorizar o trabalho em relação aos outros aspectos da vida? Precisamos trabalhar 44 horas – ou 48 na reforma trabalhista que vem aí – por semana até o fim das nossas vidas? Não há nenhum outro sentido na vida para além de ir aos nossos locais de trabalho todos os dias por cinquenta anos?

As outras bizarrices decorrentes da reforma da previdência são desdobramentos dessa forma de pensar o trabalho – e a geração de lucro – como razão última da vida em sociedade. O fato dos jovens terem trabalhos precarizados e ainda não começaram a contribuir com a previdência, a injustiça com as mulheres que trabalham dentro e fora de casa e terem a idade mínima equiparada aos dos homens, tudo isso é sintoma dessa forma de ver o mundo. As reformas da previdência propostas por Temer, e também Lula e FHC, fazem parte dessa mesma maneira de encarar o trabalho.

Hoje, em todo o país, milhares de pessoas vão se mobilizar contra a indecente reforma da previdência que está sendo proposta pelo governo golpista. Paralisações, greves, atos, campanhas, e mesmo ocupações de ministérios já começaram mostrar que não haverá apoio a reforma proposta por Temer. Não será sem luta!

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