O 8 de março e a insurgência internacional das mulheres

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No ano do centenário da Revolução Russa, é importante lembrar que o Dia Internacional da Luta das Mulheres é indissociável da luta socialista. Inicialmente, por ter sido concebido no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, ocorrido em 1910, por proposta de Clara Zetkin. Manifestações foram feitas a partir desse ano em diversos países do mundo, até que, no dia 8 de março de 1917 (23 de fevereiro do calendário juliano), na Rússia, em meio à I Guerra Mundial, as manifestações massivas de mulheres operárias por pão se juntaram ao movimento paredista de uma metalúrgica e deram início a uma greve geral e ao processo de derrubada do czar que, em outubro daquele ano, viria a consolidar a Revolução Russa.

Para nós, mulheres socialistas, falar em 8 de março é falar na nossa luta de forma imbricada com os demais processos políticos e econômicos que ocorrem na conjuntura, entendendo a opressão às mulheres como elemento estrutural da sociedade capitalista. Os anseios da burguesia em aplicar políticas de austeridade e retirada de direitos a fim de garantir maiores taxas de lucro como resposta à crise econômica afetam sobremaneira as mulheres, em especial as mais pobres, negras e LBTIs.

A recente proposta de reforma da Previdência feita pelo governo golpista de Temer é símbolo dessa constatação: o aumento do tempo mínimo de contribuição para a concessão do benefício da aposentadoria e a equiparação entre homens e mulheres representa um retrocesso gritante diante de um cenário no qual a divisão desigual do trabalho doméstico e a dupla jornada das mulheres ainda são a regra na maioria absoluta dos lares. O fim da aposentadoria especial para categorias específicas proposto pela reforma tem impacto significativo para os docentes, profissão majoritariamente ocupada por mulheres e que notoriamente possui altos índices de doenças ocupacionais e baixas remunerações. Da mesma forma, dificultar a aposentadoria traz mais um obstáculo ao acesso já precário ao benefício pelas mulheres trabalhadoras do mercado de trabalho informal – em sua maioria, mulheres negras.

As diversas propostas de reforma trabalhista em discussão também têm como objetivo a redução dos gastos com a remuneração dos trabalhadores – seja através da permissão de normas coletivas que negociem a retirada de direitos assegurados por lei, seja pela ampliação da terceirização para as atividades-fim ou pela legalização da “pejotização”. Em quaisquer das hipóteses defendidas pelo empresariado e passíveis de aprovação pelo Congresso, fato é que também impactarão de maneira contundente nos setores mais precarizados do mercado de trabalho, nos quais se encontram as mulheres. Com isso, veremos o agravamento do fenômeno de feminização da pobreza. Paralelamente à conjuntura de aplicação de políticas neoliberais no campo econômico, é notório o ascenso do conservadorismo no tocante às pautas dos direitos humanos, em especial quanto aos direitos da população LGBT e à legalização do aborto. Não só os setores reacionários do Congresso buscam barrar o avanço da legalização da interrupção voluntária da gravidez como, inclusive, se organizam para retroceder e criminalizar as poucas hipóteses que hoje são legalizadas, como no Projeto de Lei do Estatuto do Nascituro.  Na base da sociedade, onde a igualdade de gênero não pode ser debatida porque banida do Plano Nacional de Educação, vê-se um aumento nos índices e na brutalidade dos casos de violência contra as mulheres. 2017 começou sob o signo do feminicídio de Campinas, e assim continuará enquanto não houver políticas públicas consistentes e multidimensionais que combatam a desigualdade entre homens e mulheres.

A aliança macabra entre neoliberalismo e conservadorismo que caracteriza o fim do ciclo petista mata mulheres todos os dias e impõe desafios sem precedentes aos movimentos de esquerda. Na ponta de lança da resistência estão as próprias mulheres, em toda sua diversidade: nas mobilizações da Primavera Feminista, nas lutas pelo Fora Cunha, no protagonismo das meninas periféricas em ocupações de escolas ou nas mobilizações em alinhamento à Greve Internacional de Mulheres. São frequentes e expressivas as campanhas nas redes sociais de denúncias de relacionamentos abusivos e violência doméstica, pelo direito ao corpo, contra o assédio no carnaval e nos espaços públicos.

No Brasil, na Argentina, na Polônia, nos Estados Unidos, é tempo de resistência. A greve internacional de mulheres contra o avanço do conservadorismo e em defesa de direitos ganhou adesões em dezenas de países e em dezenas de cidades brasileiras. Este 8 de março de 2017, tão cheio de simbolismo, verá mulheres unidas parando seus trabalhos e marchando nas ruas contra os ajustes fiscais, a cultura do estupro, o feminicídio e em defesa dos direitos reprodutivos. A insurgência é internacional. Lutamos por nem uma a menos e nem um direito a menos!

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