O revelador editorial d’O Globo em defesa de Dilma

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Por Helena Martins

 

Editorial de O GLOBO e Jornal Nacional saíram em defesa de Dilma Rousseff. É de se estranhar? Bem, embora a conjuntura esteja bem difícil de ser lida, eu particularmente acho que não.

1. Collor está aí para lembrar que arrivistas pouco confiáveis podem causar grandes (e históricos) estragos para o capital de forma geral e também especificamente para os meios de comunicação. Em 1989, sem ter a opção de um candidato forte e do seu setor e tendo a tarefa de barrar o avanço da (então) esquerda, Globo não só editou o debate eleitoral final. Foi ela quem construiu a imagem do político alagoano até então pouco conhecido no país. Deu no que deu. Do mesmo modo, para uma emissora que, depois de anos de denúncia da sociedade, teve que vir a público reconhecer o erro de ter apoiado a Ditadura Civil-Militar, fazer matéria sobre os atos em apoio ao Lula em frente ao instituto bombardeado é bastante útil para se proteger e reafirmar a mudança de imagem que tem tentado construir. E aqui não é possível alongar a conversa, mas hoje em dia é bem mais difícil, por conta da Internet, calar diante de situações como essa. E cuidar da credibilidade segue sendo importante para o jornalismo, mesmo o da Globo. Como relembrar é viver, sugiro enfaticamente o filme “Arquitetos do Poder“.

2. Aécio e os “jovens” do PSDB receberam alertas, mas o alvo é outro. Cunha não é confiável. Além disso, o ex-presidente da Telerj, financiado por empresas de telecomunicações, está mais para as teles do que para radiodifusão, o que faz uma diferença grande no momento em que o mercado de comunicações e todo o arranjo de poder que o consitutiu é abalado por mudanças drásticas. Mudanças que em geral têm caminhado no sentido de alargar a atuação das teles e deixar a radiodifusão dependendo fortemente do seu poder político para se proteger.

3. Vale pontuar uma questão essencial. Para a lógica especulativa do capital financeiro, é péssimo ter uma alteração no comando do país em meio a uma crise (ou melhor, a um conjunto de crises) tão intensa, especialmente na economia, na visão desse segmento. Isso poderia ampliar a tensão social, cujo rumo que poderia tomar é pouco previsível. Do mesmo modo, ao agronegócio também não interessa a mudança, já que é este projeto político que tem garantido as bases da expansão do setor – que teve orçamento ampliado, enquanto os cortes lineares atingiram áreas como Educação. Também a construção civil, mergulhada na crise, não tem força alguma para sustentar esse movimento. Para o capital, parece melhor permanecer pressionando e ocupando lugares absolutamente estratégicos no governo, como bem exemplificam Levy e Kátia Abreu.

4. Ainda sobre comunicação e governo (ou Estado), Dilma e o PT foram ótimos para a Globo. Apenas a TV Globo recebeu R$ 6,2 bilhões de publicidade federal com PT no Planalto. Isso sem contar suas afiliadas. Todas as iniciativas e pressões da sociedade civil para que o país avançasse no debate sobre a regulação da mídia foram rapidamente frustradas. Mesmo após a difícil disputa do segundo turno e o anúncio de que o governo enfrentaria os interesses dos grandes grupos de comunicação, isso não ocorreu. Ao contrário, o que temos visto ao longo deste ano é mais do mesmo. Algumas falas críticas (cada vez mais raras) e nada mais do ponto de vista da regulação do sistema como um todo; a mesma lógica de priorizar para agradar os veículos privados, tornando até Jô Soares uma figura simpática para governistas; a manutenção da distribuição perversa das verbas de publicidade, responsável por sustentar em boa medida os veículos tradicionais; o aparelhamento intenso da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), colocando em risco de morte o já frágil sistema de público de comunicação do país.

5. A questão intrigante é o tempo. Faltam 3,5 anos para as eleições presidenciais (embora 2016 não possa ser ignorado). Não são cinco meses de pressão. E as peças se movem com tanta rapidez que é difícil fazer prognósticos. Mesmo assim, permitam-me um chute. Acho que a estratégia do sangramento só será modificada se de fato as investigações colocarem Lula no centro da Lava Jato. Aí é tudo ou nada. Temer pode ser a resposta para esse momento. É uma opção confiável e ele já vem sendo apontado como possível saída para as crises pela própria Globo desde abril, pelo menos. Nesse caso, de novo, a cobertura da mídia terá um papel absolutamente fundamental. E um exemplo dos seus rumos poderá ser analisado na cobertura que fará nos atos anunciados para os próximos dias.

 

Helena Martins é jornalista e militante da Insurgência.