Pierre Rousset: “Aonde vai a China?”

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Francis Sitel entrevista Pierre Rousset  

No momento em que Donald Trump, novo presidente dos Estados Unidos, anuncia sua ruptura com o livre comércio e uma retirada em direção ao protecionismo, em Davos, donde se reúne a cúpula do capitalismo globalizado, Xi Jinping apresentou-se como o principal defensor do livre comércio. Assim, podemos dizer que isto representa uma espécie de mundo ao contrário. Então, de um modo geral, como você avalia esta declaração do líder chinês, que rompe com tudo aquilo que podíamos pensar sobre a China?

Sem dúvida alguma, isto representa uma ruptura completa com a era maoísta. Porém, a mesma inscreve-se como um elemento de continuidade evolutiva com relação às reformas incrementadas por Deng Xiaoping [líder político, de fato, da República Popular da China entre 1978 e 1992, sendo o sucessor de Hua Guofeng, que foi o sucessor de Mao Tsé-tung, após a morte deste em 1976], desde o momento em que estas demonstraram ser de natureza capitalista. No plano simbólico, esta declaração de Davos é, consequentemente, muito importante. Trump ameaça com uma retirada em direção ao unilateralismo, colocando sob sua influência: instituições de cooperação internacional que servem de marco de negociação entre burguesias, assim como de estruturas como a OTAN. Frente a ele, Xi Jinping pode dizer: “Se os americanos querem mesmo isto, nós chineses estamos dispostos a substituí-los…”. Um posicionamento revelador de como a China se projeta em escala internacional, pondo em causa a hierarquia e as relações de força dentro do capitalismo existente.

Este tipo de posicionamento pode tornar-se interessante também para a Rússia. No período recente, a Rússia tem sabido afirmar-se com força graças a sua capacidade militar (Criméia, Ucrânia, Síria…). No entanto, Putin não pode permitir-se falar da mesma forma como Xi Jinping. A China desenvolveu, tanto no plano econômico, como no plano financeiro, uma rede internacional que lhe permite, frente aos Estados Unidos (que se retirariam deste cenário, e que poderiam encontrar-se cada vez mais preocupado com os conflitos com seus vizinhos, como o México), passar a assumir os investimentos feitos, até então, por este último. A China se dedicará, por conta própria, a construir uma rede militar (primeiramente através do reforço da sua marinha de guerra, depois com o estabelecimento de acordos de defesa com diversos países, e, por último, através da instalação de bases militares no estrangeiro, da criação de um sistema de vigilância…), mas que pode levar tempo para concretizar-se. Deste modo, isto confirma a dimensão internacional adquirida pela China e a sua ambição de ser reconhecida como potência mundial de primeira classe.

 

Isto quer dizer, como a primeira potência mundial?

Esta é a sua ambição, mas há um longo caminho para alcançar este objetivo. Os Estados Unidos seguem sendo a única superpotência. No entanto, de certo modo, esta posição privilegiada também é um handicap. Sua “zona de influência” é o mundo inteiro, mas este país, por si só, não tem a capacidade de impor uma pax americana mundial, e nenhum outro imperialismo lhes ajuda, de modo significativo, a desempenhar este papel. Os ataques de Trump contra os europeus refletem o seguinte problema: os Estados Unidos necessitam da ajuda de um imperialismo europeu, claramente subordinado a ele, mas que seja capaz de contribuir, em conjunto, no trabalho de gestão do mundo. Porém, a União Europeia é totalmente incapaz de desempenhar este trabalho, esta tarefa, já que não tem se constituído em uma grande potência, e nem sequer tem conseguido construir-se como um mercado regulado, além de estar consumida por suas próprias contradições. Assim, os Estados Unidos possuem motivos para considerar que não se lhes pode exigir que continuem pagando, quando em troca não recebem nada.

Uma superpotência que já não pode assumir plenamente sua função de polícia do mundo (porque se encontra enfrentando numerosos e profundos conflitos, e diante de uma instabilidade excessiva), vê-se próxima da paralisia. O que acontece cotidianamente na Ásia Oriental, reflete muito bem esta situação. Há algum tempo, Barak Obama declarou que a política mundial dos Estados Unidos gravitava sobre a região Ásia/Pacífico e que o país iria operar seu grande retorno ao Pacífico. Porém, nada disto foi concretizado. Os Estados Unidos seguem atolados no Oriente Médio e não tem contado com meios necessários para atuar com rapidez no mar da China. Na verdade, é a China quem tem tomado a iniciativa no terreno econômico e militar.

 

Como você analisa a política atual de Pequim, colocada em prática na Ásia Oriental?

Poderíamos comparar os processos evolutivos desta região com o que representa a Europa Oriental para os europeus. Os conflitos nesta zona, sob influência direta da China, afetam todos os países do Sudeste Asiático, o Japão e os Estados Unidos. Este conjunto se subdivide em duas zonas: a do mar da China Meridional e a do mar da China Oriental.

No mar da China Meridional, a capacidade de iniciativa chinesa tem cruzado um umbral qualitativo. Desde o ponto de vista econômico e diplomático foi produzido um aumento da influência chinesa em um número importante de países: Birmânia, Malásia, Filipinas (após a ruptura parcial desta ex-colônia estadunidense com relação à obediência aos Estados Unidos)… O capitalismo autoritário chinês representa um modelo sedutor aos olhos de muitas burguesias e aparatos militares da região, incluindo a Tailândia.

Por outro lado, no terreno militar as iniciativas chinesas são colocadas em prática em detrimento destes países. A China tem construído um total de sete ilhas artificiais apoiadas em recifes e ilhotas, sobre as quais instalou pistas de aterrisagem, bases de mísseis terra-ar e radares. Ainda que nem todas as bases estejam funcionando, a esquadra chinesa navega ao redor de uma região considerada por si só como uma área de domínio chinês.

Pequim reivindica a soberania sobre quase a totalidade do mar da China Meridional, invadindo inclusive zonas econômicas exclusivas dos demais países costeiros, o que provoca tensões recorrentes, entre outros com o governo filipino. A hegemonia chinesa se choca com resistências. Malásia e Cingapura são centros econômico-financeiros muito importantes. A Indonésia é um gigante demográfico. Pequim terá que ceder, mas ao mesmo tempo não se retirará da zona marítima na qual se instalou. É certo que, a 7ª Frota estadunidense pode navegar na zona e que o tráfico marítimo internacional não está bloqueado (ainda que a China reclame o direito de bloqueá-lo). No entanto, se os Estados Unidos decidirem expulsar as tropas chinesas do sistema insular criado, será gerado um conflito militar de grande envergadura.

O Vietnã é atualmente o único país da região que enfrenta fisicamente a China. Regularmente se produzem combates entre navios chineses e vietnamitas, em detrimento destes últimos, devido à superioridade chinesa. Os Estados Unidos acabam de anular a última parte do embarco imposto (após sua derrota na guerra em 1975) sobre o Vietnã. Trata-se do comércio de armamentos, pelo qual, agora, os traficantes de armas podem responder, sem problemas, às demandas vietnamitas nesta matéria. Além disto, Washington está negociando o estabelecimento de uma base militar no Vietnã, mais especificamente, sem sombra de dúvidas, em Da Nang, onde ficou localizada a grande base militar estadunidense durante a guerra da Indochina. Gesto simbólico de completa inversão da situação com relação a este passado! O problema é que o Vietnã não controla os estreitos e se acha muito isolado dos demais países da região. Para os Estados Unidos não é uma grande vantagem, como o era com as Filipinas (donde os acordos de cooperação militar acabam não sendo denunciados, apesar da deterioração das relações políticas).

No noroeste da Ásia, a situação é mais fluida e gira em torno da crise coreana. Nesta região, os Estados Unidos esforçam-se em recuperar a iniciativa, que não somente é concretizada através de suas próprias bases militares, e sim também nos exércitos sul-coreano e japonês. Com o nome de “forças de autodefesa”, Tóquio dispõe, de fato, de um poderoso exército (reputado por sua capacidade), ao mesmo tempo em que possui condições para travar, em seu entorno, tanto uma guerra submarina, bem como uma guerra aérea e de defesa antimísseis, graças, sobretudo, a seus destróieres e fragatas.

Por motivos políticos (como a tendência da população japonesa ao pacifismo), Tóquio se contenta em participar, em escala internacional, em missões da ONU sem enviar unidades de combate (apoio médico, ajuda aos refugiados, etc…) ou em operações conjuntas contra a pirataria. O país continua estrategicamente subordinado aos Estados Unidos. O Japão possui porta-helicópteros, mas não dispõe de porta-aviões, nem da bomba atômica e não pode dispor de submarinos estratégicos (lançadores de mísseis nucleares) nos oceanos. No entanto, Tóquio está em condições de mudar esta situação em curto prazo, amordaçando a oposição por parte da população com relação ao seu rearmamento. Se compararmos a Alemanha com o Japão, veremos que esta última está submetida a uma pressão crescente desde que o Reino Unido decidiu sair da União Europeia, para que reforce seus recursos militares, ainda que a opinião pública alemã (da mesma forma que no Japão) se oponha ao rearmamento do país. Em todo caso, pode-se calcular que o caminho rumo à formação de um exército verdadeiramente forte para a Alemanha seria mais longo em comparação com o Japão.

Neste momento, os Estados Unidos tem retomado sua iniciativa no Noroeste da Ásia, visando consolidar sua posição, utilizando-se para este fim da complexíssima questão norte-coreana. Por um lado, ninguém controla o regime da Coreia do Norte. Pequim não pode propiciar o aniquilamento daquele país, temendo um caos considerável que pode ser causado pelo mesmo, mas tampouco deseja que a Coreia do Norte disponha de uma capacidade nuclear independente. Por outro lado, a Coreia do Sul que saiu recentemente de uma crise política após a destituição da presidenta Park Geun-hye (representante da ala mais dura da direita, e seguidora da mesma linha autoritária desenvolvida pelo seu pai, Park Chung-hee), desenvolve uma política com respeito à Coreia do Norte que oscila entre a busca de um entendimento visando à reunificação do país e a tentação por um enfrentamento militar direto com este país. Enquanto a vizinha do norte lança seus mísseis no mar do Japão, a Coreia do Sul prepara eleições para o mês de maio, nas quais poderá sair uma nova maioria favorável à moderação nas relações entre as duas Coreias.

 

Portanto, isto quer dizer que, assistimos, desde então, a um forte aumento das tensões militares em todo o continente asiático?

A questão nuclear converteu-se em um problema central para a região. Os principais meios de comunicação divulgam a mensagem de que a responsabilidade sobre o perigo nuclear está relacionada, exclusivamente, à irracionalidade do ditador norte-coreano. Não há dúvida de que, o regime norte-coreano trata-se de uma ditadura burocrática e nepotista, mas a política de Kim Jong-un não é irracional. Seu regime encontra-se sob ameaça permanente. Recordemos que as grandes manobras aeronavais conjuntas entre os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul simulam um desembarque no norte. Estes mesmos meios de comunicação nos dizem: “tudo” que tem sido feito com o objetivo de amenizar a ameaça representada por Pyongyang, foi feito em vão. Isto é falso, isto não é verdade. Durante o mandato do presidente estadunidense Bill Clinton firmaram-se acordos com Pyongyang, que permitiu congelar o programa nuclear norte-coreano. O governo de George W. Bush (que sucedeu o de Bill Clinton) denunciou estes acordos e incluiu o país (Coreia do Norte) no chamado “eixo do mal”, política esta que foi mantida por Barak Obama. O governo norte-coreano, então, chegou a seguinte conclusão: que unicamente o desenvolvimento de uma capacidade nuclear poderia garantir sua sobrevivência no plano internacional.

Agora, os Estados Unidos tomaram a iniciativa de instalar uma base de defesa antimísseis THAAD na Coreia do Sul. Este sistema se apresenta como um escudo frente aos mísseis procedentes da Coreia do Norte (que são disparados em direção ao Japão), mas seu raio de ação abarca todo o território chinês [lembrando que a China é um dos países possuidores da bomba atômica, e que este escudo poderia ser utilizado também para interceptar mísseis nucleares chineses]. Washington decidiu acelerar o processo de instalação destas baterias antimísseis para que o sistema THAAD seja operativo antes das eleições sul-coreanas. Deste modo, a nova maioria não terá como se pronunciar sobre o estabelecimento da dita base, mas, sim, somente sobre seu eventual desmantelamento. Não é o mesmo! Esta política de fatos consumados revela a vontade estadunidense de consolidar sua hegemonia militar na região. Isto afeta diretamente a relação de forças entre os Estados Unidos e a China.

Até agora, Pequim considerava sua condição oficial de potência nuclear como algo por si só suficiente. Condição esta corroborada pela existência de um grande número de mísseis nucleares disponíveis.  E que sua supremacia militar poderia basear-se, de um modo geral, em seu exército regular. Por exemplo, a partir deste ponto de vista (exército “clássico”), o exército chinês parece mais poderoso do que o russo, por mais que se leve em conta o fato de que as tropas chinesas carecem de treinamento e da experiência do exército russo. Apesar disto, com a instalação de um escudo antimísseis , passamos a uma outra dimensão: com o desbaratamento do efeito da dissuasão militar, a partir de agora passará a ser determinante o número de mísseis disponíveis. Se a Rússia pode lançar milhares de mísseis nucleares, do quais alguns atravessarão o escudo antimísseis estadunidense, o mesmo não pode ser dito com relação à China. Esta mudança (concretizada pela iniciativa estadunidense da instalação das baterias antimísseis) relança, portanto, a corrida armamentista, neste caso especificamente de armas nucleares.

De todas as maneiras, temos assistido a um restabelecimento das estratégias militares. Na época de Mao Tsé-tung, a China não se apresentava como um país com ambições exteriores, com uma presença militar externa, e sim como um país que raciocinava em função de uma estratégia defensiva interna baseada no exército de terra. A China de hoje tem a necessidade de projetar-se em direção ao exterior, a fim de assegurar suas rotas de transporte para os abastecimentos e os investimentos. Para este país, o acesso aos oceanos é uma questão vital, tendo como consequência o desenvolvimento crescente de sua marinha de guerra. Entre a China e os Oceanos Índico e Pacífico existe um arco formado por penínsulas, ilhas e arquipélagos; além disto, na península coreana e em todo o Japão (principalmente ao redor da cidade de Okinawa) existem bases estadunidenses muito importantes, além  da presença da 7ª Frota controlando os estreitos.

Então, Pequim deseja garantir a todo custo seu acesso, sem restrições, aos oceanos. A questão nuclear outorga a este conflito uma nova dimensão. Pequim adotou, no ano passado, a decisão de princípio de ativar seus submarinos estratégicos nos oceanos, para que não permaneçam presos em suas bases no mar da China Meridional. Para isto, o país necessita melhorar sua tecnologia, equipar estes submarinos com mísseis nucleares de ogivas múltiplas, resolver os difíceis problemas relacionados com a cadeia de comando… Embora todas estas questões não tenham sido feitas até agora, os chineses são bem capazes de fazê-las.

Desde o ponto de vista militar, o mundo tem estado dominado durante muito tempo pela confrontação entre os Estados Unidos e a Rússia. Agora, a China passou a fazer parte deste jogo. Junto com o Oriente Médio, a Ásia Oriental é uma zona em via de militarização crescente e acelerada. De forma mais direta do que o Oriente Médio, esta situação reflete a dinâmica infernal dos conflitos entre potências. Os movimentos progressistas da região mobilizam-se no sentido de defenderem uma concepção de segurança diferente, baseada desde o ponto de vista dos povos contra a concepção de segurança prevista pelas potências; o que inclui, em particular, manifestações em prol da desmilitarização do mar da China.

 

De um modo geral, estamos vendo uma China capitalista, cujo Estado está dirigido por um Partido Comunista. Um Partido Comunista de 88 milhões de membros, dirigido, por sua vez, por um clã ao redor de Xi Jinping. Mas como se sustenta este poder?

Com relação a isto, cabe destacar vários fatores. Na China, a transição capitalista foi conduzida com cuidado, e não se mostrou de forma caótica como na Rússia. O Partido Comunista Chinês (PCC) tinha sido destruído, em grande parte, durante a Revolução Cultural [ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Cultural_Chinesa] e sob Deng Xiaoping foi reconstruído e modificado. E com relação ao exército podemos dizer que: ele foi a única estrutura que resistiu à Revolução Cultural. Este Partido tem mantido a unidade nacional, impedindo que as forças centrífugas se tornem destrutivas. É um fato reconhecido pela burguesia chinesa expatriada, que vive em Taiwan, nos Estados Unidos na Austrália e em outros lugares: que o PCC tem sabido evitar o caos, e que seria irresponsável querer desestabilizá-lo.

Desde este ponto de vista, é espetacular a forma como tem evoluído a relação entre o Kuomintang (Partido Nacionalista Chinês, partido político historicamente governante em Taiwan) e o PCC. O primeiro representa os restos do exército contrarrevolucionário, que se instalou em Taiwan depois de 1949 e estabeleceu ali sua ditadura, em detrimento da população local. Ambos são, portanto, inimigos jurados e em potencial. No entanto, com o passar dos anos, estes dois poderes, que integram – cada um a sua maneira – burocracia e capitalismo, têm-se reconhecido mutuamente e colaborado entre si. A população de Taiwan tem compreendido que este entendimento condenava sua autonomia e que poderia por em causa o processo de democratização em curso. Assim, nasceu o Movimento dos Girassóis [“Sunflower Movement” ou “Sunflower Student Movement”, movimento associado a protestos, ocorridos em Taiwan, no ano de 2014, contra a aproximação econômica com a República Popular da China] e a eleição de uma presidenta [Tsai Ing-wen] que, com toda a prudência requerida, preconiza uma via independentista.

Esta situação ilustra até que ponto a burguesia expatriada, que poderíamos qualificar de internacionalizada, não se situa em uma lógica de revanche, e sim, pelo contrário, de entendimento com o PCC. É claro também que existem elementos de rivalidade entre ambos, mas dentro de um marco controlado de comum acordo.

Outro fator que podemos sublinhar é o seguinte: entre a “burguesia privada” e a “burguesia burocrática” apenas há diferenças parciais, já que grande parte da primeira está relacionada com a segunda por vínculos familiares. A osmose entre o capital privado e o capital burocrático se produz no seio da família. Há conflitos, como acontece em todas as famílias, mas estes não desembocam em enfrentamentos.

Entretanto, Xi Jinping exerce seu poder com muita brutalidade. Podemos dizer que nunca, desde o processo contra o “Bando dos Quatro” ou a “Camarilha dos Quatro” em 1976 [ver:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Camarilha_dos_Quatro], as lutas intestinas no PCC haviam alcançado tal grau de violência, com os responsáveis (pertencentes ao primeiro escalão) por diferentes instituições, bem como os responsáveis pelo exército e pela administração de grandes cidades sendo: detidos, encarcerados ou condenados à morte. Xi Jinping está decidido a se impor sobre os membros dirigentes do partido, assim como manter o controle sobre o conjunto do partido. É claro que nem sempre ele consegue isto, o que pode ser explicado pelo fato de ter que em determinadas ocasiões: manter dirigentes (que não pertencem ao seu círculo) no comando de regiões muito importantes. Se ele conseguir, de fato, manter o seu domínio, será à custa da acumulação de rancores e de oposições. Desta forma, fica evidente o endurecimento do regime, que tem, inclusive, colocado na prisão figuras do feminismo chinês, que definitivamente nunca constituíram ou representaram qualquer ameaça para o poder. Porém, toda essa ação, por parte do líder chinês, representa uma mensagem aos seus potenciais adversários políticos, contestadores da sua administração. Com relação ao que acabamos de dizer, o mesmo ocorre em Hong Kong, com a prisão e a prática de torturas contra jornalistas. Neste caso, o governo chinês tenta acabar com eventuais movimentos desfavoráveis a sua política.

Portanto, é preciso levar em conta, por um lado, o êxito da política econômica e internacional, e por outro lado, a dura repressão no partido, em seu entorno e na sociedade. Isto não significa que o tempo em que os dirigentes propunham um grande projeto para o país tenha ficado para a história. Entretanto, muitos “filhos de” aplicam seus capitais no estrangeiro, ou compram mansões reservadas aos chineses ricos na costa pacífica do Canadá, e até mesmo, adquirem uma nacionalidade estrangeira. Posto que a corrupção se espalha por toda a sociedade, criando uma situação de “salve-se quem puder da corrupção”, já que o cinismo impera largamente, diante da globalização capitalista e da especulação financeira. É preciso dizer que, neste momento, o edifício se mantém em pé. Mas também não há dúvida de que o futuro trará grandes mudanças, ainda que atualmente o poder chinês, e não somente os capitais, seja capaz de atuar no mundo inteiro, com um projeto e com notáveis recursos.

 

Será que a sociedade chinesa não conhece múltiplas tensões sociais, ou não passa por elas?

Não pretendo ter uma visão completa de tudo que está acontecendo na China, mas ao menos digamos que a China é um país capitalista, que consequentemente conhece e conhecerá crises como todo país capitalista, e isto é algo bem claro. Outro elemento inegável (que não podemos subestimar) é o da superprodução (excesso de produção, excedente de produção). O Estado mantém a atividade em empresas públicas por razões políticas e sociais, a fim de evitar uma crise social, para não prejudicar um determinado clã… Isto faz com que haja enormes capacidades de superprodução. E, consequentemente, bolhas de endividamento destas empresas e também do setor imobiliário, que podem explodir a qualquer momento, sem que seja possível formular um prognóstico preciso.

Até agora, as importantes reservas de divisas têm permitido que os chineses apliquem internamente medidas anticrise. A China necessita dispor de terras cultiváveis, de minerais, do petróleo e de portos, com as consequências que isto pode causar no terreno dos meios militares, o que de acordo com a lógica de todo imperialismo em sua fase de expansão: conduz a exportar capitais, para poder levar a cabo estes investimentos indispensáveis.

Os contratos de obras de grande envergadura, por exemplo, na África, propiciam aos chineses exportarem cimento, aço e enviarem também trabalhadores para aquele continente, de maneira que estes mercados exteriores acabam funcionando como depositários do excedente de produção interno chinês. Tudo isto não está isento de riscos. Os contratos na África estão garantidos por bancos chineses, mas se um governo daquele continente se nega a pagar suas dívidas (ocasionando uma resposta por parte da China), este fato facilmente poderá levar ao surgimento de movimentos antichineses naquele continente. Isso quer dizer que, estes riscos políticos existem.

 

E com relação a estas tensões sociais, o que podemos dizer, em particular, sobre as mobilizações operárias ocorridas na China?

Durante o primeiro momento de construção do regime, o poder utilizou o êxodo rural para criar um sub-proletariado, particularmente nas zonas francas. É preciso recordar a questão da permissão de residência, cuja existência se remonta há muitos anos. Sob Mao, isto funcionou como um instrumento para evitar o êxodo rural em direção às cidades do litoral. Sob Deng Xiaoping, 250 milhões de camponeses e camponesas passaram a ser migrantes indocumentados em seu próprio país: sem permissão de residência, não tendo o direito de permanecerem aonde quisessem, não tendo o direito à moradia (nem aos serviços sociais), com seus filhos não tendo direito à escolarização (neste período, somente as associações de voluntários garantiam o ensino destas crianças e adolescentes). Sendo que, estes elementos revelam uma situação muito característica da acumulação primitiva do capital.

Estes migrantes rurais se consideravam temporários, e sua ideia era a de: regressar um dia à aldeia. A segunda geração começou a organizar-se e a lutar, no mesmo momento em que minguava o exército industrial de reserva, o que passou a explicar, desde então, as vitórias obtidas e os aumentos salariais. Uma situação que varia de acordo com cada empresa, mas, sobretudo, é indiscutível que haja tido um aumento real do nível médio dos salários. Isto corrobora o fato de que certas empresas tenham abandonado o país, para investir em outros países de nível salarial mais baixo.

A sistematização das lutas é produto da atual geração (a terceira geração). No geral, estas lutas são duras, e muitas vezes as mesmas finalizam com vitórias. E em sua maioria, elas são de caráter local, por exemplo, contra a construção de barragens, de represas. O número de locais públicos incendiados, a cada ano, é impressionante. O esquema clássico da negociação (entre os trabalhadores e o governo) seria traduzido através da situação em que a autoridade local compreenda que o descontentamento requer alguma concessão. Assim, admitem-se as propostas dos líderes do movimento, satisfazendo parte de suas reivindicações. Portanto, há lutas operárias na China, mas o que está estritamente proibido é a organização duradoura dos trabalhadores, que possam abarcar várias localidades.

Assim, o movimento se choca com uma dupla impossibilidade. A primeira seria que os sindicatos oficiais (existe uma única confederação sindical legal) se convertam em instrumentos nas mãos dos trabalhadores. Isso quer dizer que, eles só podem funcionar para os trabalhadores como: correias de transmissão do governo (e do patronato). A segunda impossibilidade estaria relacionada com a ideia da criação de sindicatos autônomos, ou seja, os trabalhadores não podem ter o direito da autonomia sindical. Toda intensão contrária a isto, desencadeia uma forte repressão imediata.

Mas há uma luta que rompe com esta regra. Uma luta que se constitui em um fenômeno excepcional ou que anuncia uma mudança? Teremos que analisá-la… Trata-se da luta da Walmart. Walmart é uma multinacional estadunidense especializada na grande distribuição. Em 2013, esta empresa passou a ser a maior do mundo em termos de volume de negócio. Um gigante, portanto, que conta, na China, com 419 armazéns e 20 centros de distribuição, empregando mais de 100.000 trabalhadores (cifras de 2015). Esta empresa é internacionalmente conhecida pelos baixíssimos salários que paga e por seu antisindicalismo. A luta dos trabalhadores da Walmart foi organizada a partir de uma página da web, o que permitiu colocar em prática, pôr em marcha, uma mobilização simultânea em quatro armazéns. Estes trabalhadores (que organizaram a greve nesta empresa) também conseguiram arrecadar fundos para pagar advogados, a fim de ajudá-los. Neste momento, esta luta continua.

Isto tudo foi possível graças a uma circunstância muito especial. Pequim quis pressionar a empresa, e por isso autorizou a eleição de estruturas sindicais de base. Nesta eleição, foram eleitos sindicalistas combativos. Após isto, chegou-se a um acordo entre o regime e a direção da Walmart, abrindo o acesso às “seções sindicais”, inclusive aos chefes dos setores intermediários da empresa. Deste modo, nada menos que o diretor de recursos humanos passou a ser o líder do sindicato da empresa. No entanto, havia sido formado, desde então, uma geração combativa, que decidiu prosseguir com a luta.

Outro fator que podemos destacar é a condição bastante peculiar desta empresa multinacional: os sindicatos estão proibidos em todos os seus centros e se desenvolve um culto à personalidade em torno de seu fundador. Trata-se de criar uma consciência Walmart , tipo: “Sou Walmart!” Porém, isto causou um efeito contrário à direção da mesma, quando esta quis impor a flexibilidade total ao conjunto dos trabalhadores. A flexibilidade está autorizada na China, ainda que somente em determinados casos. As autoridades decidiram que Walmart não entrava dentro destes pressupostos. Assim, este foi o elemento que desencadeou a mobilização dos trabalhadores.

Esta é uma questão que se repete cotidianamente. Sendo que, o possível desencadeamento das lutas operárias está relacionado com conflitos entre um aparato e outro poder, ou entre frações de um mesmo aparato. Esta não tem sido a primeira grande luta dos trabalhadores, mas as demais têm sido sempre de caráter local. E estas lutas também foram realizadas em nome dos interesses do proletariado chinês, já que na China existe certa forma de identidade de classe, herdada da revolução e da época maoísta. É interessante observar que muitos movimentos de solidariedade democrática no plano internacional defendem expressamente os direitos dos trabalhadores.

 

Muitas vezes se escutam reações aos problemas ecológicos e aos temores derivados do envelhecimento demográfico…

Muitas lutas giram em torno de questões ecológicas, contra a construção de represas que podem transbordar e inundar aldeias, contra a poluição, que tem se convertido em um problema importante devido a sua gravidade… Esta dimensão está muito presente em numerosos conflitos locais, de natureza ecológica. Não tenho a impressão de que exista, na China, um movimento ecológico que se conceba como tal, ainda que eu possa estar equivocado com relação a isto.

No que se refere à demografia, na época de Mao desenvolveu-se uma política de controle de natalidade. Mas a política do filho único não se impôs por um longo tempo. As estatísticas são, em parte, falsas, na medida em que um grande número de nascimentos de crianças não foi declarado. No entanto, o desequilíbrio entre meninas e meninos tem se agravado (com o aborto seletivo de meninas, para que o filho único seja um menino), o que tem dado lugar, em certas regiões, aos sequestros e vendas de mulheres. Neste momento, esta política do filho único tem sido abandonada passo a passo, sem que isto tenha provocado um forte aumento do número de nascimentos. A natalidade tem se estabilizado em um nível baixo. Portanto, não assistiremos a um rejuvenescimento da população, e sim, pelo contrário, a um aumento relativo do número de pessoas adultas. Isto acontece sem que tenham mantido as estruturas coletivas que existiam nos tempos de Mao. Assim, as pessoas idosas se veem, portanto, condenadas à solidão ou dependentes da família.

11/04/2017

Original em francês publicada em Contretemps Revue de Critique Communiste. no.33. Paris/France. 12/05/2017: http://www.contretemps.eu/

Publicada em espanhol pela Revista Viento Sur: http://vientosur.info/spip.php?article12624

Tradução: Carlos Alberto Coutinho

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