Precisamos defender o mandato de Jean Wyllys

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por Cesar Fernandes e Mari Marcondes

Em 13 de dezembro, dia da votação em segundo turno da PEC 55 no Senado, houve também uma sessão da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados. Lá foi apresentado o parecer do relator do caso que julga o deputado Jean Wyllys por conta de suposta quebra de decoro parlamentar, quando reagiu às violências homofóbicas e fascistas do Dep. Jair Bolsonaro no dia da votação do impeachment.

O relatório apresentado por Ricardo Izar, do Partido Progressista – um dos partidos mais corruptos e desprezíveis do país – ignorou completamente os depoimentos das testemunhas de defesa, o depoimento do próprio deputado, além de não levar em consideração a postura jocosa de Jair Bolsonaro no momento do sessão. Além disso, a própria “prova” que Bolsonaro apresentou na acusação – um vídeo que demonstrava que Jean teria premeditado sua reação -, foi desmentido por perícia feita pela Polícia Civil do DF. Izar propôs a “cassação temporária” do mandato de Jean Wyllys por 120 dias, uma punição absolutamente desproporcional. Infelizmente este parecer deve ser acompanhado pela maioria dos membros da Comissão de Ética. Um acinte e, mais do que tudo, uma grave ameaça à restrita democracia que temos no Brasil.

Não só por esta manobra, mas por toda a histórica relação discriminatória e violenta que a Câmara dos Deputados sempre teve com Jean, fica nítida a perseguição política ao nosso parlamentar. É insuportável para os machos e brancos deputados, a atuação corajosa de uma bicha nordestina, eleita seguidamente como o Melhor Parlamentar do Brasil, por revistas especializadas. Além disso, o teor desta caçada ao nosso mandato não se limita ao campo moral, das práticas afetivas e sexuais – embora seja um fator balizante -, mas também porque se trata de um parlamentar que faz ferrenha oposição aos donos do poder, aos senhores da Casa Grande e à Velha política, a todo este segmento que têm cada vez mais conquistado espaço, sempre à troca de muita coerção.

A crise política e econômica no Brasil se agrava. Se agudiza a crise do modelo de democracia representativa, amplamente questionada pelo conjunto da classe trabalhadora e da juventude. A explicitação contínua de casos de corrupção operados pelos partidos da ordem coloca a classe política em descrédito perante o povo, que enxerga poucas ou nenhuma esperança em uma representação política à altura das nossas demandas e necessidades.

No entanto, na contramão deste movimento, o mandato de Jean Wyllys tem, mesmo com dificuldades, se consolidado como um instrumento legítimo de expressão da nossa indignação. Este coletivo tem vocalizado no Parlamento as lutas que temos travado nas ruas, todos os dias, pela radicalização da democracia, por mais direitos, contra as políticas de austeridade do Governo Federal, pelos Direitos Humanos. É um mandato que contribui muito para o crescimento da luta anticapitalista no país porque não secundariza as lutas que garantem as condições para que estejamos vivas e em condições de lutar: expressa a luta das mulheres, das LGBTIQ, das negras e negros, das comunidades tradicionais.

 

Nossa tarefa é derrubar cada um dos homofóbicos e racistas do Congresso Nacional

Na política institucional, um dos maiores inimigos das trabalhadoras são representados pela família Bolsonaro. Pai e filhos (como não seriam, nesta Velha política nojenta?), têm mandatos marcados pelo autoritarismo, truculência, orquestração de boatos e falsificações. Recaem sobre o Bolsonaro e seus patinhos, denúncias de corrupção e outros graves crimes, como estupro e exaltação da Ditadura Civil-Militar. No entanto, eles apenas fazem parte de um conjunto maior de políticos conservadores espalhados pelo Congresso Nacional, que está assentado nas bancadas ruralistas, fundamentalistas, financiado pelas indústrias armamentista e farmacêutica, pelas empreiteiras. 

E quem reage firmemente contra os absurdos protagonizados pelas bancadas conservadoras? Jean Wyllys e os/as parlamentares do PSOL. Através de uma atuação responsável e com muito coerência política, temos construído mandatos com trajetória e forte enraizamento social, que nos orgulham muito. Apoiamos Jean Wyllys porque ele apenas se defendeu de uma sequência de opressões ao longo dos anos, sintetizando em sua reação a indignação de todas/os nós que nos negamos a naturalizar o discurso de ódio, da criminalização da pobreza, da opressão sistemática que sofremos todos os dias. Sua reação nos lavou a alma e nos orgulha. E mais do que isso: sua reação nos atualiza a tarefa de perseguir cada um destes políticos, de arrancar das mãos deles o poder. O poder é nosso. Das mulheres, das bichas, das negras, dos pobres, das que resistem.

 

A militância anticapitalista brasileira deve reagir firmemente aos ataques a Jean Wyllys

Estamos na linha de frente para defender nosso camarada porque o ataque ao mandato de Jean é um ataque ao conjunto da classe e às nossas bandeiras de luta. As escolas e Universidades têm sido ocupadas por jovens LGBTIQ. Bichas, sapatões e bissexuais têm ocupados seus sindicatos, reagido às burocracias sindicais LGBTfóbicas, se levantado contra os cortes de direitos. Travestis e transexuais têm resistido contra os ataques fundamentalistas e lutam pela laicidade do Estado e pelos direitos à autodeterminação de suas vidas. A indignação pelo golpe e pelas reformas antipopulares impostas à nós tem tomado a classe trabalhadora.

É na síntese destes levantes e na potência que eles têm que devemos ancorar nossa resistência contra os ataques a Jean, que são no fim das contas, ataques a nós também. Defender o trabalho de sua equipe significa contribuir para que as lutas que tocamos nas ruas continuem reverberando no parlamento, mesmo que este seja um espaço limitado de ação transformadora. Defender nosso camarada significa reafirmar que nós socialistas não temos medo nem nos acuamos com as perseguições dos reacionários.

Convidamos a todos os ativistas e militantes independentes e ao conjunto das organizações da esquerda anticapitalista para que travem esta batalha conosco. Está em jogo a resistência contra um projeto que aprofunda a violência e a opressão e retira ainda mais os nossos direitos.

Querem calar um de nós. Querem calar Jean Wyllys!

Não permitiremos!


Cesar Fernandes e Mari Marcondes são militantes da Insurgência Babadeira, setorial LGBTIQ da Insurgência

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