Prisões arbitrárias e mortes indígenas: nosso “Brigue Palhaço” acontece agora

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Luka Franca, para o Bidê/Ópera Mundi

Colocam a todos para sufocarem mais uma vez, mas a resposta a história já deu

Militantes palestinos e antifascistas presos por lutarem contra a lei anti-imigração. Indígenas gamela massacrados no Maranhão. Militantes do MTST presos por participarem ativamente da greve geral. Rafael Braga condenado, novamente, a 11 anos por portar 0,6 gramas de maconha. Guerra às drogas. Demarcação de terras. Encarceramento em massa.

Desde que o golpe foi dado a sensação é de acordar todos os dias à espera de um novo baque. Um novo ataque, um novo fato que tem por alvo as nossas vidas e direitos. Não é simples, ao meu ver há balanços importantes a serem feitos sobre decisões que nos trouxeram aqui neste momento. Já falo sobre isso há bastante tempo. Mas para além de fazermos balanços e lançarmos aquele sonoro “eu bem que avisei”, é necessário olharmos para o processo de recrudescimento da retirada de direitos e da criminalização que vivemos no período pós-golpe e que possuí profunda relação com o paradigma estabelecido pela “Operação Lava-Jato” para o recrudescimento do sistema penal em nosso país.

Para mim não há como traçar paralelos com os acontecimentos que envolvem a “Cabanagem”, uma das que mais lembram esta última semana é a tragédia do “Brigue Palhaço”, quando durante uma noite o capitão Greenfell mandou para cadeia 250 homens. Todos estes dentro do porão da embarcação colocados para morrerem sufocados e de sede. O último a morrer neste lamentável episódio da história brasileira e paraense foi João Tapuia.

Recrudescer a criminalização da política e da pobreza não é algo novo na política brasileira. É ferramenta comum para poder arrefecer processos de luta e organização dos movimentos. A luta contra o golpe remete em muito aos processos instalados lá atrás pelo antigo império brasileiro para aniquilar as revoltas em diversos estados. Os ataques apresentados até então pelo governo golpista de Michel Temer e seus aliados atingem principalmente as vidas de negros e indígenas em nosso país. Nunca foi tão necessário pensar a política econômica em consonância com a disputa política de corações e mentes.

A tônica do golpe e das reformas de Michel Temer é necessariamente racista e machista. É a tônica de nos sufocar até a morte sem água para beber. É necessário que todos que lutam contra as reformas e o governo golpista entendam que fomos colocados novamente no Brigue Palhaço. Rafael, Hasan, os gamela e tantos outros que já foram e que virão são a demonstração nítida disso. É tratar em nossos discursos e métodos dos temas pedra no sapato. Refletir o que significa a profunda dificuldade de demarcarmos as terras indígenas e quilombolas e lá na ponta vermos massacres após massacres. É sentar e pensar onde efetivamente hoje em nosso país está o avanço do capital e a qual comunidades e setores sociais esse avanço tem atingido primeiramente.

Na história paraense, o trágico episódio do Brigue Palhaço foi um dos estopins para que se iniciasse intenso processo de organização que culminou na revolta da cabanagem em 1835. Que as mortes indígenas dessa semana e as prisões arbitrárias que temos acompanhado no último período incendeiem o país inteiro não nos próximos 10 anos, mas nos próximos meses!

+ Adesão do Pará à Independência do Brasil – Tragédia do Brigue Palhaço

Originalmente postado em: http://operamundi.uol.com.br/blog/samuel/bide/golpe-brigue-palhaco/

 

Luka Franca é jornalista e militante da Insurgência. 

 

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