Quem se importa com o Zimbábue?

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Gustavo Belisário

Na última semana, um processo político acelerado ocorreu no Zimbábue. As ruas da capital Harare foram tomadas por tanques do exército. O general Sibusiso Moyo anunciou na rede de televisão do país que a operação tinha como alvo “criminosos” próximos ao presidente Mugabe, que estavam segundo ele cometendo crimes e gerando sofrimento social e econômico ao povo do Zimbábue. Nas últimas 24 horas, o presidente Mugabe foi afastado da presidência do partido União Nacional Africana do Zimbábue (ZANU), e em seu lugar foi nomeado Mnangagwa, ex vice presidente do país.

A política de Robert Mugabe está longe de ser o que o povo do Zimbábue merece. O país tem uma legislação que criminaliza a homossexualidade. Desde a independência do país da coroa britânica em 1980, o presidente permanece no poder por meio de sucessivas eleições questionáveis, para dizer o mínimo. No entanto, o enquadramento dado por grandes veículos de comunicação deve acender um sinal de alerta. No dia da tomada do exército, o Jornal Nacional fez a chamada da matéria com a hashtag #ForaMugabe, e recheou a notícia com críticas ao presidente do Zimbábue, recorrendo a caricaturas e reducionismos.

É preciso ter cautela com a caricatura de líder sanguinário africano, muito mobilizadas pelas agências de notícias para se referir a diversos regimes e governos africanos de maneira racista, e também muitas vezes utilizadas para Mugabe. Além de muitas vezes falsa, essas caricaturas nos impedem de entender as complexidades que envolvem a política nos países africanos. Com tropeços e dificuldades, o Zimbábue é um país com índices educacionais mais altos do que a média da região. O país fez uma reforma agrária radicalizada nos anos 2000, retirando as terras dos fazendeiros brancos e diminuindo as taxas de subnutrição e fome. A crítica à burocratização e autoritarismo não pode apagar as conquistas que o povo teve após a ruptura com o colonialismo.

No momento, não se trata de defender Mugabe, mas de vislumbrar que projeto político estão preparando para sucedê-lo. Em setembro desse ano, antes do golpe de novembro, a agência internacional de notícias Reuters fez uma reportagem falando dos bastidores da política do Zimbábue. A reportagem diz explicitamente os planos de recuperação econômica do vice presidente Mnangagwa, que hoje foi nomeado novo presidente do ZANU. “Mnangagwa notou que ele precisa dos fazendeiros brancos de volta às terras quando chegar ao poder. Ele vai usar os fazendeiros brancos para ressucitar a indústria agrícola, que ele reconhece ser o carro chefe da economia.”

Outro texto, desta vez do blog brasileiro libertarianismo.org, também demonstrou grande preocupação com o futuro do Zimbábue antes do golpe de novembro. Em março desse ano, o blog de direita fez um artigo chamado ‘Zimbábue: das ruínas ao renascimento”, dizendo como o país tem a chance de se recuperar economicamente por meio de investimentos em turismo, agricultura e mineração a partir da queda de Mugabe. O artigo termina da seguinte maneira: “O Zimbábue ainda pode se comprovar um exemplo de recuperação, mostrando o quão rapidamente um país pode se recuperar da devastação causada pela hiperinflação e pela abolição da dívida interna quando se adota um genuíno livre mercado.”

Em tempos de golpes na América Latina, é difícil acreditar que a preocupação com o futuro do Zimbábue por parte da direita seja genuína. Nos próximos dias veremos provavelmente a queda de Mugabe por meio de um golpe militar ser comemorado pelo Jornal Nacional. Este pode ser o primeiro de outros golpes no sul da África, seguindo as tendências latino americanas. A direita parece se preocupar bastante com a região. E a esquerda? Quem se importa com o Zimbábue?

+ https://www.reuters.com/article/us-zimbabwe-mugabe-farming-sepcialreport/special-report-behind-the-scenes-zimbabwe-politicians-plot-post-mugabe-reforms-idUSKCN1BG18O

+ http://www.libertarianismo.org.br/zimbabue-das-ruinas-ao-renascimento/

 

Gustavo Belisário é antropólogo e militante da Insurgência em Campinas.

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