Resultado da eleição britânica traz ventos de esperança

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Insurgência Internacional

O Reino Unido foi às urnas na última quinta-feira (8) e, contrariando as expectativas do início da campanha eleitoral, deu uma resposta enfática contra o governo da primeira-ministra Theresa May e suas políticas de austeridade. Embora o Partido Conservador tenha se mantido como a principal força política do país, a legenda perdeu a maioria estreita que tinha no Parlamento e dependerá de sua aliança com a pequena sigla norte-irlandesa DUP (Partido Democrático Unionista, em inglês) para conseguir aprovar qualquer legislação.

O pleito também foi marcado pelo desemprenho histórico do Partido Trabalhista, representado pela figura de Jeremy Corbyn, cuja campanha gerou uma mobilização surpreendente em torno de um programa progressivo e radical. A esquerda britânica sai das eleições fortalecida, com condições melhoradas para fazer oposição ao governo May e para intervir no conflito de classes no país.

Como resultado, o povo britânico trouxe ventos de esperança em uma conjuntura particularmente dramática. Neste artigo, apresentarei brevemente o significado da eleição e suas consequências para o Reino Unido e para o mundo, trazendo reflexões sobre a situação da esquerda no Ocidente.

 

A resposta das urnas

Embora não tenha ganhado de fato a disputa eleitoral, no sentido de conquistar o governo, o Partido Trabalhista saiu como verdadeiro vencedor. Antes do pleito, a legenda encontrava-se bastante fragilizada, principalmente em função da campanha de desmoralização de sua liderança promovida pelas alas moderadas do partido e pelos meios de comunicação britânicos.

Considerado um militante de esquerda radical, Corbyn se tornou o líder trabalhista após a derrota da legenda nas eleições de 2015, chegando ao posto com o apoio das bases e à revelia do establishment do partido. Desde então, sofreu tentativas de derrubada por parte daqueles que acreditavam que o programa de extrema esquerda impulsionado por Corbyn levaria à derrota da legenda nas urnas.

De fato, pesquisas de intenção de voto vinham indicando uma grande rejeição a Corbyn e mostravam os conservadores com uma vantagem de até 20 pontos sobre os trabalhistas. Para o Partido Conservador, que contava com uma maioria estreita no Parlamento, uma eleição realizada agora seria a oportunidade de ouro para expandir sua representação no Legislativo e garantir sua hegemonia na política britânica pelos próximos anos. Pelo calendário eleitoral, o próximo pleito deveria ser realizado apenas em 2020, respeitando um intervalo de cinco anos desde a última eleição, mas a lei britânica permite que o governo convoque eleições adiantadas caso tenha apoio do Parlamento.

Então, em abril, a primeira-ministra May propôs a realização de eleições adiantadas em 8 de junho, apresentando de maneira franca seu objetivo: beneficiar o Partido Conservador e aumentar sua base de apoio no Parlamento, condição que, segundo May, daria ao governo mais força para negociar com as autoridades da União Europeia os termos do “brexit”, o processo de saída do Reino Unido do bloco regional, aprovado em plebiscito em 2016. A primeira-ministra estava tão segura de que venceria o pleito de lavada que se recusou a participar dos debates televisivos.

O Partido Trabalhista denunciou o oportunismo escancarado dos conservadores com o pedido de eleições adiantadas, mas não fugiu à luta. Mesmo em clara desvantagem nas sondagens eleitorais, Corbyn aceitou o desafio e orientou os parlamentares da legenda a aprovar no Parlamento a convocação de um novo pleito. Cético, o establishment trabalhista viu na iminente derrota nas urnas uma oportunidade de sacar de vez a ala radical da liderança do partido.

Na campanha, as propostas de Corbyn eram claras e intransigentes: reestatizar setores estratégicos da infraestrutura do país, elevar os impostos sobre os mais ricos para até 50% da renda e expandir os investimentos públicos no equivalente a R$ 200 bilhões; fazer um governo “para os muitos, não os poucos”, conforme indicava o slogan da campanha.

As alas moderadas do Partido Trabalhista consideraram as propostas demasiado radicais e o Partido Conservador ridicularizou Corbyn, considerando-o um representante de ideias esquerdistas e ultrapassadas. Faltou combinar com os eleitores britânicos, que, cansados de tantos anos de austeridade, pareciam discordar dessa avaliação. A militância da base do Partido Trabalhista tocou uma campanha positiva em favor de Corbyn, promovendo comícios lotados e levando a um crescimento consistente da legenda nas pesquisas.

Mesmo os ataques terroristas que atingiram Manchester e Londres na reta final da corrida eleitoral não prejudicaram os trabalhistas, como alguns poderiam esperar –o senso comum tende a considerar que a direita apresenta propostas mais eficazes de combate ao terrorismo do que a esquerda. Corbyn não se deixou abalar por essa premissa e, após os atentados, denunciou os problemas da política de segurança do governo May: a crescente precarização das condições de trabalho da polícia; a violação de liberdades individuais em nome da garantia da lei e da ordem; uma política externa que responde ao terrorismo com intervenção e bombas, retroalimentando o extremismo no exterior e no próprio país.

Veio, então, o resultado das urnas. Apesar do curto período de campanha, os britânicos animaram-se a votar e o pleito registrou participação de cerca de 68%, a maior em 20 anos. Os trabalhistas, que começaram a campanha em franca desvantagem, ampliaram em 31 cadeiras sua participação no Parlamento, chegando a 261 de um total de 650. Se nas pesquisas do início da campanha o partido registrava 20 pontos a menos que os conservadores, no dia da eleição obteve o voto de 40% dos eleitores, apenas 2,5% a menos que os conservadores. Com esse resultado, Corbyn conseguiu reafirmar sua liderança no Partido Trabalhista, enterrando de vez a tradição imperialista e neoliberal consagrada pelo governo de Tony Blair (1997 – 2007), e a ala a esquerda da legenda se credenciou para conduzir uma oposição radical e consequente às políticas de austeridade de May.

Por sua vez, os conservadores, que haviam convocado a eleição para ampliar sua presença no Parlamento, viram sua base minguar em 12 parlamentares, ficando com 318 cadeiras, perdendo a maioria com que contavam. A primeira-ministra May saiu desmoralizada, com pedidos em seu próprio partido para que renunciasse. Sem a maioria parlamentar, a líder conservadora precisou articular uma coalizão com o DUP para se manter no poder, o que definitivamente enfraquece seu governo. Ademais, essa aliança tem o potencial de agravar o processo político na Irlanda do Norte ao comprometer a credibilidade de Londres enquanto mediador do conflito entre os unionistas do DUP e os separatistas do Sinn Féin.

Também colheu um resultado amargo a sigla separatista escocesa SNP (Partido Nacional Escocês, em inglês), que viu sua representação encolher em 20 cadeiras, ficando com apenas 35 parlamentares –o suficiente para se manter enquanto terceira maior força do Parlamento britânico. A legenda, que exerce um papel progressivo na oposição ao governo May, tinha planos de convocar um novo plebiscito sobre a independência da Escócia, mas deve adiar a consulta devido ao revés sofrido nas urnas. Por ora, fica em banho-maria o processo separatista escocês.

Vale notar que esta eleição foi marcada pelo aprofundamento da divisão do eleitorado com base no critério de idade[i]. De acordo com pesquisas eleitorais, um jovem de até 25 anos tendia a apoiar os trabalhistas 51% a mais do que o eleitor médio, enquanto a tendência de pessoas com mais de 65 anos a votar nos conservadores foi de 35% a mais que a média da população. Esses números indicam uma mudança demográfica significativa, tornando a idade um fator decisivo na definição do voto e sinalizando a disposição da juventude em impulsionar um programa de esquerda e antiausteridade.

No artigo “Por que Corbyn venceu”[ii], de Bhaskar Sunkara para a revista “Jacobin”, aparecem algumas lições importantes que a esquerda deve tirar deste processo eleitoral:

“A esquerda do Partido Trabalhista lembrou que não se vence ao aderir a um centro imaginário –se vence ao deixar as pessoas saberem que você sente a raiva delas e ao oferecer-lhes um caminho construtivo para canalizar esse sentimento. ‘Demandamos todos os frutos do nosso trabalho’; o vídeo de campanha do partido disse tudo.

(…) A esquerda trabalhista não é uma ‘corrente social-democrata qualquer’. Enquanto a social-democracia, ou o que quer que seja que ela tenha virado no período pós-guerra, muitas vezes tentava abafar o conflito de classes em favor de acordos tripartites entre o mercado, os trabalhadores e o Estado, a nova social-democracia de Corbyn se construiu sobre o antagonismo de classe e ativamente encoraja movimentos desde baixo.

Mas, para vencer, o Partido Trabalhista não podia apenas apresentar um programa dos sonhos. Foi preciso lidar com problemas que socialistas normalmente não enfrentavam. A legenda teve sucesso ao apelar para o senso comum dos ‘muitos’ que eles pretendiam representar.”

Para compreender o significado desta eleição, também é oportuno resgatar a obra do marxista britânico Edward P. Thompson (1924—93). No livro “A Formação da Classe Operária Britânica” (1963)[iii], o autor apresenta uma concepção de classe pautada na experiência histórica, ou seja, na ideia de que a classe não existe enquanto fenômeno natural na sociedade, e sim que diferentes indivíduos passam a construir a classe a partir de sua vivência na realidade. “A classe operária não surgiu tal como o sol numa hora determinada. Ela estava presente ao seu próprio fazer-se”, diz Thompson.

“Por classe, entendo um fenômeno histórico, que unifica uma série de acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um fenômeno histórico. Não vejo a classe como ‘estrutura’, nem como ‘categoria’, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas. (p. 9)

(…) Se paramos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses homens durante um período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em suas relações, suas ideias e instituições. A classe é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história.” (p. 12)

O resultado do Partido Trabalhista neste pleito é um exemplo vivo do que Thompson descreveu em sua obra. Há dois meses, a perspectiva da classe trabalhadora britânica era de derrota nas urnas e, principalmente, de enfraquecimento de sua capacidade de organização e de resistência aos ataques do governo. Esse cenário foi revertido graças ao processo extraoridário de mobilização, de intervenção na realidade, tocado pelas bases do partido. A classe trabalhadora britânica fez da experiência de campanha uma oportunidade para se construir e se fortalecer.

 

Ecos além da ilha

Para além dos efeitos na política doméstica, a eleição no Reino Unido traz sinalizações importantes sobre a conjuntura internacional. A vitória parcial do programa antiausteridade de Corbyn vem na esteira do fenômeno da candidatura de Bernie Sanders nas prévias presidenciais do Partido Democrata nos Estados Unidos em 2016 e no desempenho surpreendente de Jean-Luc Mélenchon e sua França Insubmissa nas eleições de abril. Parece formar-se nas principais democracias do Ocidente um campo político independente das estruturas partidárias tradicionais que, embora não tenha chegado ao poder e carregue em seu seio contradições nada desprezíveis, aponta para a formulação de um projeto de esquerda antiausteridade com viabilidade eleitoral (vale ficar de olho nas eleições da Alemanha, em setembro).

O que explica esse processo? Voltemos à crise financeira global que eclodiu em 2008. Apesar de a crise ter abalado as estruturas do capitalismo neoliberal, hegemônico desde os anos 1980, nenhum projeto econômico alternativo, à direita ou à esquerda, conseguiu ocupar o vácuo existente, como se esperaria.

A ascensão da extrema direita nacionalista na Europa e nos Estados Unidos, particularmente a chegada de Donald Trump ao poder, surge nesse contexto. Seu programa protecionista representa um desafio à estrutura do capital internacional, mas não aponta para uma ruptura integral com o neoliberalismo. De fato, a extrema direita parece responder à insegurança econômica dos setores mais atingidos pela crise de 2008 alimentando o racismo e o ódio, o que não passa de uma cortina de fumaça diante dos problemas vividos pelos trabalhadores. A esses movimentos fascistoides a esquerda deve dar a resposta mais enérgica possível.

Por sua vez, a esquerda também formulou respostas à crise internacional com movimentos de massa no início da década –o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, os Indignados na Espanha, a Primavera Árabe, os levantes de 2013 no Brasil e na Turquia, entre outros. Esses eventos, ancorados na força da juventude e dos movimentos de luta antipatriarcal e antirracista, são marcos históricos importantes, mas ainda não haviam conseguido transformar o sentimento de revolta contra o neoliberalismo em um projeto capaz de disputar as estruturas do sistema para além de experiências de maior ou menor sucesso em Grécia, Espanha e Portugal. Os recentes resultados eleitorais nos Estados Unidos, na França e no Reino Unido parecem indicar uma continuidade desse processo e levam ao centro da estrutura mundial do capitalismo forças de esquerda capazes de disputar as massas em torno de um programa radical e antiausteridade.

Uma digressão: desde a queda do muro de Berlim, em 1989, a esquerda deixou em segundo plano a formulação de um programa econômico próprio e, onde chegou ao poder desde então, capitulou com maior ou menor intensidade ao receituário neoliberal –basta olhar para o PT e outros governos de esquerda na América Latina, além da chamada “onda rosa” nos países desenvolvidos. Se quisermos responder de maneira consequente e organizada ao neoliberalismo, para além de explosões temporárias nas ruas, é necessário investir na formação de um pensamento econômico entre nossos quadros. Resumindo a autocrítica, precisamos voltar a estudar economia.

De volta aos significados da eleição britânica. Se de fato estivermos diante da formação de um novo campo de esquerda no Ocidente, ainda não está claro para onde essa onda nos levará, mas certamente já é possível identificar uma série de virtudes. No geral, as forças que impulsionam essa onda encampam pautas em defesa da radicalização da democracia, do feminismo, do movimento negro, do multiculturalismo e do ecossocialismo, desafiando o capitalismo neoliberal para além de sua estrutura puramente econômica.

Por outro lado, é preciso fazer o balanço das contradições que essas forças carregam consigo. Em alguns casos, particularmente na campanha de Mélenchon à presidência da França, as relações dos movimentos com as massas são carregadas de estranhos vieses nacionalistas e, por vezes, militaristas. Parece haver também um ponto de atenção no que diz respeito às figuras públicas desse novo campo. Embora seja evidente a força da juventude por trás dessa onda, suas lideranças são, em regra, homens brancos, heterossexuais, “dinossauros” dos partidos de esquerda tradicionais, que são carismáticos e têm um discurso franco –no Brasil, a figura que melhor se assemelharia a Corbyn, Mélenchon e Sanders seria a do saudoso Plínio de Arruda Sampaio. A uniformidade nas lideranças desse campo não é um problema por si só, mas é preciso ficar atento para garantir oportunidades de formação e destaque a figuras tradicionalmente marginalizadas na política, como mulheres, negras e negros, LGBTs, jovens, etc.

 

Conclusão: os ventos de esperança

O resultado das eleições no Reino Unido deve ser celebrado. Os desafios à frente da classe trabalhadora britânica ainda são enormes, mas a demonstração de força dada pela esquerda trabalhista representa um salto de qualidade nas condições de luta.

As energias que ressoam da ilha já seriam animadoras por si só, mas diante de uma conjuntura dramática, aprofundada pela eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e pelo golpe liderado por Michel Temer no Brasil, a vitória parcial de Jeremy Corbyn traz ventos de esperança e lições importantes para a esquerda anticapitalista.

Os resultados colhidos pelo Partido Trabalhista mostram que a mobilização traz frutos e que só a intervenção consequente sobre a realidade pode melhorar as condições de luta da classe trabalhadora. Corbyn também comprova que defender um programa radical não é sinônimo de derrota nas urnas, desde que este seja capaz de dialogar com a realidade das massas. Por fim, o desempenho da esquerda britânica indica a formação, ainda em estágio inicial, de um campo internacional independente e antineoliberal com viabilidade eleitoral, ainda que carregue consigo contradições significativas.

Que o ótimo resultado do Partido Trabalhista nas urnas dê frutos para a classe nos próximos anos!

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[i] “Young voters reshape UK’s political landscape”. Publicado em Financial Times em 9 de junho de 2017. Link: https://www.ft.com/content/08bc419c-4d2c-11e7-919a-1e14ce4af89b

[ii]Sunkara, Bhaskar. “Why Corbyn Won”. Publicado em Jacobin em 8 de junho de 2016. Link:https://www.jacobinmag.com/2017/06/jeremy-corbyn-election-results-labour-theresa-may-left

[iii] Thompson, Edward P. “A Formação da Classe Operária Inglesa – vol. 1 – A árvore da liberdade”. 3a ed. Tradução: Denise Bottmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

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