Revolução de Outubro de 1917: cem anos do segundo assalto aos céus

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Afrânio Castelo

Em outubro de 1917, na Rússia, uma grande revolução social abalou o mundo, atraindo a simpatia e as esperanças da classe trabalhadora e dos povos oprimidos. Proclamando a construção do socialismo como tarefa imediata, a Revolução Russa foi o segundo grande “assalto aos céus” contra a ordem capitalista, para usar a expressão de Marx em relação à Comuna de Paris, tida por ele como a primeira tentativa da classe trabalhadora de “descobrir a forma política pela qual pode realizar sua própria emancipação”:

 

Como foi feita essa grande revolução?

A Revolução Russa não foi um salto no vazio. Foi o resultado de vários processos convergentes:

  • O acelerado desenvolvimento do capitalismo na Rússia, que no curto período de meio-século deixou para trás o regime de servidão feudal e criou cidades com gigantescas concentrações fabris e comerciais.
  • O esgotamento do regime dos Czares, que governou a Rússia por séculos. Pressionado entre os grandes proprietários de terras e a burguesia liberal, e debilitado pelas derrotas militares sofridas na 1ª grande guerra mundial, o czarismo havia perdido sua capacidade de gerir as contradições internas do país.
  • A rebelião das massas camponesas, secularmente oprimidas, e que diante da crise do regime czarista passaram a ocupar e dividir os os grandes latifúndios.
  • O vertiginoso amadurecimento político do proletariado industrial, que devido às condições particulares russas, lançou-se à lutas pelo poder político sem ter tido tempo de cristalizar direções reformistas capazes de desviar a classe trabalhadora dos objetivos revolucionários. O Partido Bolchevique, liderado por Lenin, será a expressão mais aguda dessa dinâmica.

Enfraquecido, o czarismo caiu em fevereiro de 1917. Nos meses seguintes, a burguesia tentou conter a revolta popular,  compondo um Governo Provisório. O crescente descontentamento das massas trabalhadoras culminou na recriação dos Sovietes, surgidos em 1905, que reuniam os representantes (deputados) dos operários e camponeses, auto-organizados em seus locais de trabalho e moradia. Logo, os Sovietes se estenderam por todo o país, chegando até o exército e convertendo-se de fato nas únicas instituições que gozavam do apoio e da confiança da maioria da população.

Essa situação de dualidade de poderes entre os Sovietes e o Governo Provisório, encabeçado pelo primeiro-ministro Kerensky, foi resolvido com a tomada da sede do governo (Palácio de Inverno) pelas milícias operárias organizadas pelo Soviete de Petrogrado e dirigidas pelo Partido Bolchevique.

A insurreição bolchevique começou em 25 de Outubro, conforme o calendário russo (7 de novembro, no calendário ocidental). O Comitê Revolucionário Militar (CMR) enviou grupos armados para tomar as principais posições (central telefônica, pontes, estações ferroviárias). Nas últimas hora do dia, o Palácio de Inverno, que abrigava os últimos membros do Governo Provisório que ainda resistiam, foi tomado pelas forças revolucionárias bolcheviques. Um comunicado declarando o fim do Governo Provisório e a transferência do poder para o Soviete de Petrogrado foi emitido pelo CMR. No dia seguinte, o Segundo Congresso dos Sovietes elegeu um Conselho de Comissários do Povo, base do novo governo revolucionário, e aprovou o Decreto da Paz (propondo a retirada imediata da Rússia da Primeira Guerra Mundial) e o Decreto da Terra (que propunha a abolição da propriedade privada e a redistribuição de terras entre os camponeses).

 

Da Revolução à Contrarrevolução

Com a transferência do poder político para o Poder Soviético, deu-se início à tentativa de construção do socialismo em condições extremamente adversas. A saída da Rússia da 1ª Guerra Mundial não encerrou o esforço de guerra, responsável pela ruína econômica do país. Logo teve início uma guerra civil, travada entre o Exército Vermelho e as tropas de 14 países, que pretendiam o fim do Governo dos Soviets. Essa guerra civil perdurou até 1921.

A vitória na guerra civil teve um custo altíssimo. A situação econômica continuou a piorar, causando o desabastecimento das cidades e obrigando o governo revolucionário a tomar medidas antipáticas, como o confisco de parte da produção camponesa. Os trabalhadores mais conscientes acabaram tombando nos campos de batalha ou foram absorvidos pelas tarefas administrativas do novo poder. A necessária autodefesa frente aos inimigos da revolução acabou pervertida numa lógica de monopolização do poder: a repressão aos marinheiros de Kronstadt e a proibição de frações oposicionistas foram passos desse processo.

O imenso impulso revolucionário de Outubro de 1917 acabou se perdendo, consumido pelo isolamento intenacional, pelo caos econômico e pela decomposição da vanguarda proletária, dispersa pela guerra civil e absorvida pela burocracia estatal. Quando da morte de Lênin, em janeiro de 1924, essas contradições já haviam paralisado a revolução. Os anos seguintes foram palco de uma luta encarniçada pelos rumos da revolução, concluída com a imposição da ditadura de Stálin e a consolidação de um regime sanguinário  e totalmente antagônico ao projeto de uma sociedade verdadeiramente socialista.

 

Atualidade?

A Revolução Russa falhou em seu objetivo histórico: destruir o capitalismo e dar início à construção da nova ordem socialista.

Esses objetivos, entretanto, são cada vez mais urgentes. A sobrevivência do capitalismo representa não só a continuidade do sofrimento e da exploração de bilhões de seres humanos, mas também a destruição das bases naturais que sustentam toda a vida no planeta. Há, portanto, uma inegável atualidade da Revolução Russa, ainda que isso não signifique que ela possa ser tomada como um modelo abstrato para os dias de hoje. Cabe aos revolucionários anticapitalistas de agora fazer a crítica rigorosa dessa grande experiência histórica, extraindo dela as lições necessárias para refazer a revolução socialista nas condições atuais.

 

Sugestões de Leitura:

História da Revolução Russa – Trotsky

A Revolução Traída, de Leon Trotsky.

A Revolução Russa, de Rosa Luxemburg.

O Ano I da Revolução Russa, de Victor Serge.

A Vingança da História, de Alex Callinicos.

O Partido Bolchevique, de Pierre Broué

 

Afrânio Castelo é militante da Insurgência Ceará e membro do Diretório Nacional do PSOL 

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