Rumo a uma resolução sobre o papel e as tarefas da IV Internacional

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Comitê Internacional – IV Internacional

A reunião do Comitê Internacional em fevereiro de 2017 decidiu realizar o 17º Congresso Mundial da IV Internacional em fevereiro de 2018. A reunião aprovou, com grande maioria, três textos para subsidiar a discussão interna. 

São eles:

Estamos, portanto, abrindo esta seção no portal da Insurgência/IV Internacional, dedicado às contribuições na discussão pré-Congresso Mundial. Você pode acessar os textos traduzidos nas línguas oficiais da IV pelo portal InternationalViewpoint

Nossa compreensão da função e das tarefas da IV Internacional a nível nacional está relacionada com a construção de partidos que sejam úteis na luta de classes. Isto é, partidos que possam reunir forças suficientes e decidir sobre ações que tenham um impacto e possam fazer avançar a luta de classes, sobre a base de um enfoque e um programa da luta de classes. O objetivo último de tal partido é, obviamente, superar o sistema capitalista existente, quaisquer que sejam as fases gerais em que ele se encontre. Esta perspectiva compromete as forças da IV Internacional a constituir-se como parte integral e leal na construção e na direção destes novos partidos, não simplesmente com o objetivo de ficar recrutando membros ou esperar para denunciar eventuais traições.

Nossa orientação é derivada da análise da situação mundial que foi discutida nos outros dois informes desenvolvidos, que visam a preparação do Congresso Mundial, os quais assinalam por um lado o caos geopolítico e, por outro lado, os processos desiguais e contraditórios de radicalização frente a uma crise da consciência de classe.

A ideia central é que não podemos generalizar um único modelo de construção de partidos para ser colocado em prática pela IV Internacional, ainda que seja óbvio que algumas experiências aparentemente mais exitosas possam ser imitadas. Temos que estar acostumados a uma situação em que, as experiências concretas sejam variadas e talvez caminhem em uma direção diferente. Um dos problemas que temos tido é a tendência involuntária a considerar somente o que está acontecendo em alguns países chaves (por exemplo, a França a alguns anos, etc…), e não internacionalizar o suficiente nossa maneira de pensar. A discussão sobre diferentes experiências nas últimas reuniões do Comitê Internacional[1] tem sido boa para pluralizar mais nossa perspectiva, e este é o enfoque desta resolução sobre o papel e as tarefas da IV Internacional.

 

Uma reorientação nos anos 90

Em 1995 decidimos que a perspectiva de construir pequenos partidos de vanguarda de massas baseados no programa da IV Internacional teve seus limites, ainda que foram aprendidas muitas lições valiosas sobre a criação de partidos ativistas. Na nova situação criada pela queda do muro de Berlim e do colapso do bloco soviético, foi necessário reconfigurar as delimitações entre as organizações para construir partidos radicais que envolvessem forças mais amplas, que pudessem ter um impacto mais positivo e um peso maior na luta de classes[2].

A resolução “Construindo a Internacional Hoje”, mostra uma aproximação da ideia da construção de partidos centrada no modelo, na edificação e no fortalecimento das organizações da nossa Internacional a nível nacional, através de uma congregação mais ampla de forças que as que seriam ganhas pelo programa histórico da IV Internacional.

O documento descreveu o contexto da seguinte maneira:

“O projeto de uma sociedade socialista que represente uma alternativa ao capitalismo e as experiências desastrosas do “socialismo” burocrático, carece de credibilidade: está gravemente hipotecado pelo balanço do stalinismo, da social democracia e do nacionalismo populista no “terceiro mundo”, assim como pelas limitações de quem adere a esse projeto hoje”.

“Em um grande número de países dominados, importantes forças vanguardistas, nesse momento, mostram-se reticentes sobre a possibilidade de êxito de uma ruptura revolucionário com o imperialismo e sobre a possibilidade de tomar o poder e de mantê-lo no marco da nova correlação de forças…” “o internacionalismo revolucionário aparece como utópico ”. (Capítulo 1)

Cabe assinalar que os informes preparatórios para o próximo Congresso Mundial não indicam nenhuma melhora qualitativa, nem na relação de forças e nem no nível da consciência de classe política. Isto não quer dizer que a situação tenha permanecido igual a 1995, pois existiram movimentos importantes que deixaram sua marca na consciência política, como: os zapatistas, o movimento Justiça Global, a revolução bolivariana, o movimento Occupy, o movimento revolucionário árabe, assim como algumas greves massivas nos locais de trabalho e importantes mobilizações feministas. No entanto, todos estes elementos não foram suficientes para reverter os ataques incessantes à classe trabalhadora e, por isso, o equilíbrio geral de forças não tem mudado. Nestes anos não surgiu uma forte corrente política de esquerda que tenha reestruturado o jogo, apesar de que a construção de novos partidos continue sendo uma perspectiva viável.

Ambos os terrenos para tal construção de partidos foram explicados do seguinte modo:

“O esgotamento do sistema stalinista tem como consequência positiva haver enfraquecido vigorosamente as previsões sectárias sobre nós, dentro das fileiras das vanguardas operárias, sindicais e políticas. Igualmente, o triunfo do capital tem tido por efeito incitar a unificação de todos os anticapitalistas, que são conscientes da debilidade do capitalismo. Agora, estamos em melhores condições para criar relações de solidariedade militante e de unidade nas lutas, com as forças que anteriormente rejeitavam, inclusive, a ideia de iniciar um dialogo com nós”. (Capítulo 2)

“Desejamos receber em nossas fileiras organizações marxistas revolucionárias que não necessariamente se reivindiquem do ‘trotskismo’, que não estejam presentes em nossa história, sim que tenham a vontade de se unirem a nós com base em uma convergência programática real”. (Capítulo 3)

“Deveremos também integrar novos temas à reflexão política das jovens gerações militantes que, de agora em diante, atuarão em um marco pós-stalinista, em que as novas preocupações ideológicas e experiências devem ser combinadas com as lições tradicionais, uma vez mais confirmadas pelo capitalismo em crise. Levar em conta estes novos sujeitos não é somente um problema de pedagogia para a juventude combatente, sim, mais fundamentalmente de nossa capacidade de elaboração teórica, atualização programática e assimilação das novas experiências políticas, das formas e os eixos de luta originais, das metamorfoses socioeconómicas, etc… “. (Capítulo 3)

O documento esboçou diferentes métodos para avançar rumo a este objetivo de fortalecer nossas organizações:

  1. A) A Frente Única nas lutas concretas e nos movimentos de massas
  2. B) A unidade com as outras organizações revolucionárias.
  3. C) Reagrupamento mais amplo com outras forças de esquerda.

Em 1991, a Resolução sobre a América Latina estabeleceu o seguinte: “É obviamente impossível dar uma só orientação para as nossas seções. Não há um modelo e uma linha única de construção que sejam válidos para todos os momentos e lugares. A revolução nicaraguense e a constituição do PT brasileiro foram frutos de tentativas que deram certo, depois de várias experiências. Buscamos construir grandes partidos revolucionários de massas. Contudo, há um sem número de variantes para se chegar a isso”. (grifos nossos).

Este foi o ponto de partida que propiciou as diferentes opções escolhidas por nossas organizações daquele tempo:

  • O surgimento de um partido operário de massas como o PT possibilitou o desenvolvimento em seu interior de uma corrente marxista revolucionária que trabalha de maneira mais leal para construí-lo…
  • O desenvolvimento de um partido revolucionário independente com influência de massas tem sido basicamente o caso do PRT mexicano. Antes do surgimento do neo-cardenismo, foi quase alcançada a convergência do grosso da esquerda revolucionária com o PRT…
  • A incorporação aos projetos revolucionários em formação ou já estabelecidos. Este tem sido o caminho seguido por nossa seção colombiana. A integração de nossas camaradas em A Lutar! deu-se a partir de uma série de acordos políticos, que giraram basicamente em torno da situação colombiana…
  • A participação em uma frente política revolucionária, mantendo uma existência independente. A experiência de nossos companheiros uruguaios na formação do MPP tem uma grande transcendência. Nele convergem diversas correntes – o MLN-Tupamaros, o PVP, o MRO e nossos camaradas do PST junto com um setor importante de indivíduos independentes.

 

Em 2003 reafirmamos:

(2) “A luta por tais partidos passará por etapas, táticas e formas organizativas que serão específicas em cada país. Semelhante recomposição anticapitalista, em primeiro lugar, procura alcançar um objetivo fundamental que será o de: promover uma efetiva e visível polarização entre ela e todas as forças comprometidas com o neoliberalismo (social democracia, pós-stalinismo, ecologistas, populistas) a fim de acelerar a crise destas últimas, visando uma saída positiva desse processo.

Isto requer:

– A presença de forças políticas significativas donde as correntes marxistas revolucionárias colaboram com correntes ou representantes importantes ou emblemáticas que rompem com os partidos reformistas sem alcançar por isso posições marxistas revolucionárias.

– Uma relação respeitosa, mas estreita com o movimento social, cuja recomposição altere as demandas e as ações.

– Uma representatividade reconhecida na sociedade que rompa o monopólio dos partidos social-liberais, graças a presença de assembleias eleitas mediante o sufrágio universal, a nível local, regional e internacional (Europa).

– Um funcionamento pluralista que, mais além da simples democracia interna, favoreça ao mesmo tempo a convergência e o debate, e que possibilite a manutenção e o funcionamento de uma corrente marxista revolucionária como parte de um todo mais amplo.

Para o caso da América Latina, nosso objetivo é construir partidos e/ou grupamentos anticapitalistas amplos, pluralistas e com uma real inserção no proletariado e os movimentos sociais que articulam a resistência anti-neoliberal no marco da luta contra a mundialização capitalista. Como corrente marxista revolucionária, estamos empenhados na construção do ‘núcleo duro’ da esquerda. Esta perspectiva não pode ser construída suplantando o pensamento estratégico, a ação radical e as iniciativas audazes, por uma atitude sectária de ‘auto-afirmação’ e conservadora de ‘nossa identidade’”.

 

Em 2010, nosso acento mudou de direção. Da prioridade pela busca de possíveis relações com organizações de esquerda existentes, passamos a privilegiar a reconstrução da esquerda:

  1. Queremos nos envolver na reorganização para criar uma nova esquerda que seja capaz de enfrentar o desafio deste século e de reconstruir o movimento dos trabalhadores e das trabalhadoras, suas estruturas, sua consciência de classe, sua independência das burguesias a nível político e cultural. (o grifo é nosso)
  • Uma esquerda anticapitalista, internacionalista, ecologista e feminista;
  • Uma esquerda que seja uma clara alternativa à social democracia e seus governos;
  • Uma esquerda que lute pelo socialismo do século XXI, auto gestionário e democrático e que tenha um programa coerente para alcançá-lo;
  • Uma esquerda que seja consciente de que para alcançar este objetivo tem que romper com o capitalismo e sua lógica e de que, portanto, não pode governar com as representações políticas daqueles com os quais se deseja romper;
  • Uma esquerda pluralista enraizada nos movimentos sociais e nos centros de trabalho que integre a combatividade dos trabalhadores, as lutas pela libertação e a emancipação das mulheres e LGBTs e as lutas ecológicas;
  • Uma esquerda não institucional que baseie sua estratégia na auto-organização do proletariado e das oprimidas e dos oprimidos sob o princípio de que a emancipação dos trabalhadores será tarefa dos próprios trabalhadores;
  • Uma esquerda que impulsione todas aquelas formas de auto-organização por parte dos trabalhadores e das classes populares, que favoreça e estimule os mesmos a formularem suas políticas e a tomarem suas decisões por conta própria;
  • Uma esquerda que integre novos movimentos sociais, novos temas como os expressados no Fórum Social Mundial de Belém, e, sobretudo, as novas gerações, já que não se pode construir o novo apenas com os militantes mais velhos;
  • Uma esquerda internacionalista e anti-imperialista que lute contra a dominação e a guerra, que lute a favor da autodeterminação dos povos e que construa o marco para uma Internacional democrática de massas;
  • Uma esquerda capaz de vincular a herança preciosa do marxismo crítico e revolucionário com as contribuições do feminismo, do ecossocialismo e dos movimentos indígenas da América Latina;
  • Uma esquerda que se baseie na independência de classe, que lute pela mais ampla ação unificada contra a crise e a favor dos direitos e as aspirações das trabalhadoras e dos trabalhadores, bem como de todas as oprimidas e todos os oprimidos;

Estes são os critérios e o conteúdo genérico que temos para construir novos instrumentos políticos anticapitalistas úteis para combater o atual sistema.

 

Diferentes caminhos para um mesmo objetivo: rupturas e bifurcações

Como temos reiterado nestas resoluções, a decisão sobre qual instrumento político pode ser construído, segundo a nossa definição, em um determinado país, em qualquer momento, tem que ser baseada sobre o entendimento fundamental da situação do mesmo – sobre as dinâmicas e as forças presentes neste país. Nenhuma receita vinda de fora com qualquer etiqueta pode substituir a compreensão da situação concreta.

Mesmo que a utilidade de um instrumento político somente possa ser determinada por dita compreensão, o tipo de instrumento político necessário muda conforme muda a situação. Isso quer dizer que, pode haver uma mudança na organização que construiremos.

O melhor cenário seria aquele que o instrumento em que estamos envolvidos para a  construção de mudanças se encontre em sintonia com as necessidades que também mudam – portanto, devemos lutar para desenvolver a base política/e os programas dos partidos que fazemos parte. Neste caso, temos que estar preparados para romper e formar um novo instrumento quando avaliamos que perdemos a batalha política.

No entanto, isto não quer dizer que a opção anterior fosse incorreta (sabemos também que os partidos que proclamavam ter o programa completo da Revolução bolchevique, acabaram traindo-a e se converteram em reformistas. Temos que avaliar em que ponto na história estes partidos foram formados e se, em seus primeiros tempos (um período mais ou menos longo) tiveram um efeito positivo sobre a situação nacional.

Por mais que julgamos a evolução do PT do Brasil ou a Refundação Comunista da Itália, como algo que em última instância não nos levou a lugar nenhum, isto não quer dizer que tivesse sido incorreto a nossa participação nos mesmos (durante um período mais ou menos longo) ou que não foram expressões positivas das aspirações daqueles que desejavam uma mudança sistêmica, tampouco quer dizer que não foram capazes de alcançar êxitos concretos.

Também pode ser o caso do instrumento politico ser transitório e que sua razão deva ser lutar , de forma rápida, pela criação de um novo partido político.

Já que dizemos que a natureza do instrumento político transforma-se de acordo com a situação. Sabemos que quando a revolução está no horizonte: iremos necessitar de um partido que seja capaz de entender e aproveitar essa oportunidade. Ainda assim, sabemos que afirmar o partido revolucionário, hoje, na maioria dos casos não necessariamente nos permite cumprir com o requisito que temos de que o mesmo seja útil para a luta de classes.

Isto não quer dizer que, não podemos assinalar as experiências que tiveram impacto dos partidos que abertamente se caracterizam como revolucionários: o Socialist Workers Party (SWP), nos Estados Unidos no movimento anti-guerra, a Liga Comunista Revolucionária (LCR) da França, ou fora de nosso movimento o SWP britânico com o lançamento da sua Anti-Nazi League nos anos setenta. Seu impacto foi o produto de uma simpatia política particular, que somente pode ser entendido em seus próprios contextos. Mais bem, seu impacto foi moderado e estes partidos nunca alcançaram um peso específico na vida política de seus respectivos países – com exceção da LCR em suas duas campanhas com Olivier Besancenot em 2002 e 2007, durante a última década de sua existência.

 

O balanço de nossas experiências no início dos anos noventa

Quase todas as organizações da IV Internacional, a partir da análise da situação concreta de seus respectivos países, decidiram construir formações políticas amplas ou simplesmente participar das mesmas.

As primeiras experiências foram nos anos oitenta, e estas tomaram diferentes formas. Os camaradas no Brasil participaram da criação e construção do PT desde os anos 80 em diante. Podemos recordar a formação do Solidarity nos Estados Unidos pelo reagrupamento de três organizações da esquerda revolucionária em 1986, e a Aliança Vermelha-Verde na Dinamarca em 1989 através de um acordo entre o Partido Comunista, o Partido Socialista de Esquerda[3] e a nossa própria seção nesse país. Dez anos depois, em 1999, o Bloco de Esquerda de Portugal foi criado pela seção da IV Internacional, uma corrente do Partido Comunista e uma organização maoísta.

Na Ásia, várias organizações que vinham de outras correntes – nas Filipinas, os camaradas em ruptura com o maoísmo, no Paquistão, os camaradas anteriormente membros da Tendencia Militante, no Sri Lanka, os camaradas com suas raízes na ex-seção antes de 1964 e estando, momentaneamente com o Comitê para uma Internacional Operária (CWI, por sua sigla em inglês) – também se uniram a nós durante os anos 90 e no princípio do novo milênio.

Estas organizações confrontam-se, particularmente, com situações de violência extrema de várias formas. Nas Filipinas, através da auto-organização das comunidades ameaçadas e através da organização armada clandestina, apoiando negociações com o governo, e no Paquistão por uma campanha política aberta, denunciando a violência do Estado e dos Talibãs.

Algumas das nossas organizações nacionais, particularmente, mas não exclusivamente na Europa, participaram de vários projetos para construir duradouras organizações amplas durante estas décadas. Por exemplo, na Itália ou na Grã-Bretanha, mas também na África do Sul e em Porto Rico. Os camaradas brasileiros também, após a traição do PT, participam da construção do PSOL.

Algumas tentativas de fusão por parte de correntes revolucionárias têm fracassado mais ou menos rapidamente (no Estado Espanhol com os maoístas MC/MKE, na Alemanha com os pós-stalinistas no VSP), enquanto outras como o Solidarity nos Estados Unidos, o Socialist Resistance na Grã-Bretanha continuam existindo depois de mais de 15 anos. Um ponto central nos balanços tem sido o fato de que estas iniciativas sobrevivem quando há acordo sobre as tarefas na situação nacional.

Outras experiências fracassaram ao tentarem atingir o seu potencial, sendo um dos mais notáveis a criação de Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA) pela seção francesa em 2009 e o Left Unity na Grã-Bretanha em 2014. Em ambos os casos, um fator inesperado que surgiu ao longo do processo foi o aparecimento de uma corrente de esquerda dentro da social democracia (o Parti de Gauche na França e o fenômeno Corbyn na Grã-Bretanha), as quais minavam, comprometiam a dinâmica destes novos processos. No entanto, em nenhum dos dois casos foi demonstrado que, este novo instrumento político seria confiável, duradouro e radical, ou seja, um instrumento que representasse a sobrevivência da social democracia diante da sua decadência. Isto não quer dizer que a crise do NPA foi causada somente por este fator.

Por outro lado, tanto a Aliança Vermelha-Verde da Dinamarca e o Bloco de Esquerda em Portugal continuam desempenhando o papel e tendo influência como partidos de esquerda em seus respectivos países. Da mesma forma que estes dois, é preciso destacar também o Podemos, cujo ímpeto e base estão muito mais ligado ao desenvolvimento de movimentos espontâneos de resistência e de radicalização que caracterizou o movimento dos Indignados.

Neste momento, o Podemos é a única força política que pode ser caracterizada como produto deste tipo de movimento, ainda que o apoio a Bernie Sanders nos Estados Unidos ou Corbyn na Grã-Bretanha tenham elementos em comum. No entanto, estes últimos aparentam estar em contradição com uma das características das novas radicalizações: a rejeição dos partidos políticos em geral, como o resultado da desilusão com os partidos políticos existentes, ainda que nos casos de elementos mais radicais, também devido ao comportamento elitista ou sectário de grupos da esquerda radical dentro dos movimentos sociais.

Apesar disto, durante o último período, nos Estados Unidos e na Europa, é possível notar que enquanto segue a desconfiança com relação aos partidos, notamos uma mudança na arena político-eleitoral; neste cenário é possível notar também o exemplo das revoluções árabes, que foram projetadas para a derrubada de governos e de regimes, cujas dificuldades para se obter vitórias somente podem ser superadas através da luta; e sobretudo é possível notar a profundidade do desprestigio das elites políticas em si em diversos países, que revela uma imagem cada vez maior de debilidade.

Tragicamente, o processo revolucionário árabe não produziu forças políticas capazes de dirigir o movimento de massas, com exceção da Frente Popular na Tunísia.

Nossa experiência na construção de organizações úteis para a luta de classes tem sido limitada à participação em partidos, que conseguiram alguma influência em seus países, ainda que fossem partidos minoritários (com uma porcentagem de votos habitualmente inferior a 10%). Isto se deu em situações políticas nas quais havia certa estabilidade relativa e nas que não foi possível antecipar o colapso dos partidos tradicionais, donde a “questão do poder” não foi planejada, ou somente em termos de sua relação com a social democracia. Contudo, há alguns casos em que estivemos envolvidos em outro tipo de situação que nos mostraram outras questões: situações de crise política, donde se pode prever que partidos sem laços com as classes dominantes se convertam em uma maioria política, formem um governo, etc… O  PT é um, Podemos é outro, e no caso de um grupo com que temos relações fraternais, DEA em Syriza é outro; um outro exemplo seria o Maré Socialista, que esteve no PSUV durante vários anos, ainda que neste último caso foi através de um longo processo sob um governo de esquerda no poder.

Teríamos que gastar muito tempo para fazer uma lista de todas as experiências nos mais distintos países, mas várias contribuições sobre balanços têm sido publicadas, particularmente no International Viewpoint (“Building new parties of the left” – “Construindo novos partidos da esquerda”)

Em qualquer caso, para concluir, podemos afirmar que enquanto nenhum modelo tem conduzido a avanços importantes: a incapacidade para aproveitar as oportunidades que aparecem (quando podem materializar-se avanços quantitativos ou qualitativos no agrupamento de forças úteis para a luta de classes) teria um efeito negativo duradouro.

 

Lições dos balanços

As lições extraídas coletivamente destas experiências variadas têm sido codificadas nas resoluções dos Congressos Mundiais e nas contribuições desde o Congresso Mundial de 2010, através de uma série de discussões levadas a cabo nas reuniões do Comitê Internacional.

Volta e meia há a necessidade de lançarmos batalhas políticas no seio das forças políticas sobre as quais estamos construindo, que seriam:

  • a participação nos movimentos sociais e nas lutas dos oprimidos e explorados, mas não como uma elite política intervindo desde o mundo exterior, e sim como uma parte orgânica destes movimentos e lutas, desenvolvendo análises e defendendo reivindicações, bem como continuando a luta por essas demandas até o final. Neste processo também aprendemos com estes movimentos, a fim de aprofundar e enriquecer nosso próprio programa – como temos feito com relação ao feminismo, a ecologia, e as demandas da comunidade LGBTIQ;
  • a construção de sindicatos ativos, radicais e da luta de classes, seja através de atividades em sindicatos existentes ou a construção de novos sindicatos de trabalhadores quando for necessário e apropriado;
  • a atitude com relação ao Estado e às instituições; com relação às eleições, como ponto de apoio para as atividades do movimento de massas, que deve seguir sendo o centro de gravidade de nossa atividade; o papel e a relação com o partido dos representantes institucionais, que são muitas vezes os representantes mais visíveis do partido, cujas ações (através de votos) possam causar um grande efeito e serem as mais úteis em curto prazo. É reponsabilidade do partido, determinar o marco político de sua ação;
  • a importância de uma Internacional e da compreensão internacional da situação política mundial que leve ao desenvolvimento de campanhas internacionais e a uma solidariedade ativa e prática, assim como a participação no CI (ver abaixo);
  • a necessidade de um funcionamento transparente e democrático, incluindo o direito de tendência, contra o pensamento verticalizado, baseado na participação dos membros da base nas atividades e na tomada de decisões do partido, com as estruturas organizativas necessárias para assegurar isto; a compreensão do fato de que a opressão continua existindo mesmo dentro dos partidos que lutam contra as opressões de todos os tipos, a fim de desenvolver estruturas, procedimentos e funcionamento adequados para por fim a estes problemas.
  • a importância de compreender as novas demandas que aparecem nas lutas e revoltas dos oprimidos e explorados (o feminismo, a ecologia, LGBTIQ);
  • uma luta incessante contra todas as formas de racismo –, o antissemitismo, a islamofobia, incluindo também aquelas que se dão contra as populações indígenas – e a favor da liberdade do movimento dos imigrantes, sobre a base da solidariedade e da unidade;
  • a importância da renovação das organizações através de uma atitude dinâmica e aberta para o recrutamento de jovens em processo de radicalização, a fim de integrá-los ao partido.

 

A importância da IV Internacional

Um elemento essencial que se manifestou no balanço, começando pela corrente DS no PT, foi a necessidade absoluta de manter, tanto a nível nacional como internacional, o marco da IV Internacional como um espaço para trocar, contrastar e debater experiências, não somente com relação à compreensão que temos da situação política mundial, mas também das experiências da construção de organizações políticas na atualidade. Para isto, é preciso que estejamos organizados como quartistas – mantendo a possibilidade de discutir entre camaradas que compartem um marco político, e lutar pela  renovação de dito marco sobre a base das experiências em curso.

Buscamos ativamente construir organizações com forças e indivíduos que não compartilham a totalidade de nossa história, ainda que desde a perspectiva de criar uma força política baseada sobre seus elementos mais essenciais. No entanto, consideramos que nosso marco compartido, conformado por todo o alcance de eventos históricos e políticos, em particular desde as primeiras contribuições do pensamento e da análise marxista até as experiências e contribuições da atualidade, cria um espaço insubstituível para a discussão frutífera: donde o peso das experiências nacionais possa ser contrabalançado por outras, donde a troca de experiências e de opiniões possa ajudar a traçar perspectivas para nossos camaradas em seus diferentes contextos nacionais. Assim, os encontros anuais dos nossos camaradas, cara a cara, nas reuniões do Comitê Internacional são indispensáveis.

A nível nacional, as formas exatas destas discussões e as formas correspondentes de organização variaram, assim como as formas de organização política ampla. Por um lado, haverá tensões entre a necessidade de ir mais além do marco das correntes políticas que originalmente participaram na construção de novos partidos – implicando na dissolução das organizações existentes – e, por outro lado, nossa convicção de que a manutenção do marco da IV Internacional é indispensável, devido às razões acima expressadas. Um dos caminhos que enfrentamos é o de resolver esta tensão de maneira apropriada em cada contexto específico.

A nível internacional, nossa imprensa (impressa e eletrônica) também é um elemento neste intercâmbio. Esta presença deve ser fortalecida pelo lançamento de uma página da IV Internacional, que seja atualizada e que sirva como um arquivo para nossas resoluções e outros textos importantes, pelo menos, nos três idiomas funcionais da Internacional, e em outros idiomas em que os textos estejam disponíveis.

Nossas escolas e seminários representam oportunidades incalculáveis para formar nossos camaradas e também para convidar companheiros de forças políticas com que estamos desenvolvendo relações. A participação nas escolas tem um papel crucial, por exemplo, no fortalecimento das nossas relações com camaradas das Filipinas (antes deles se unirem). O desenvolvimento do IIRE nas seções regulares de Manila (capital das Filipinas) e de seminários em Islamabad (capital do Paquistão) são aspectos importantes no desenvolvimento de uma presença real como Internacional nesta região do mundo.

O acampamento de jovens é, essencialmente para as organizações europeias, uma oportunidade para atrair camaradas jovens, simpatizantes e organizações amigas para uma iniciativa política em torno dos elementos fundamentais do programa da IV. Deste modo, é possível incluí-los nas discussões sobre as atividades nas quais estes participam como jovens.  Isto é uma parte importante na formação de novos quadros com uma compreensão internacionalista, desde as complexidades de diferentes experiências. Entretanto, o Acampamento precisa ser mantido como uma iniciativa europeia por razões práticas (os custos, a autogestão, etc…). A participação de jovens de outros lugares, sobretudo combinado com a assistência à Escola de Jovens ou a algum seminário, representa um investimento importante para nosso futuro.

 

Rumo a uma nova Internacional?

As dificuldades que se apresentam na construção de novas organizações a nível nacional são, todavia, maiores a nível internacional. No entanto, o contato internacional entre as organizações políticas da esquerda radical é para nós uma prioridade. Isto pode realizar-se através do desenvolvimento de nossas relações bilaterais com outras organizações da esquerda radical tradicional ou com novas correntes emergentes. Por nossa própria vontade participamos de fóruns organizados por outros, ou tomamos a iniciativa de promover tais fóruns. Com o declínio do movimento do Fórum Social Mundial, as possibilidades são menos frequentes que durante a primeira década deste século (deste milênio), mas devemos manter-nos alertas diante de todo o tipo de iniciativa.

 

Notas:

            

[1] Uma moção no Congresso Mundial de 2010 decidiu celebrar um seminário sobre o balanço da orientação da construção de “partidos amplos”. O CI de 2011,a partir da proposta dos camaradas dinamarqueses, decidiu fazer o seminário como parte da reunião ordinária do CI. E, em 2013, foi decido que este debate deveria continuar como parte das reuniões do CI. Em todas as reuniões do CI que foram realizadas de 2012 em diante, foram discutidos os balanços das seguintes experiências: 2012: PT no Brasil, Aliança Vermelha-Verde na Dinamarca, Bloco de Esquerda em Portugal, Rifondazione/Sinistra Critica na Italia; 2013: LPP/ AWP no Paquistão, LCR/Anticapitalistas no Estado espanhol, LCR/NPA na França; 2014: RPM-M nas Filipinas, Respect/Left Unity na Grã-Bretanha, Antarsya/Syriza na Grécia; 2015: Podemos no Estado espanhol; 2016: Podemos no Estado espanhol, Bloco de Esquerda em Portugal. Um debate geral sobre algumas conclusões provisórias em 2013 levou à decisão de continuar as discussões do “seminário”.

[2] Em 1968, baseando-se na análise de uma radicalização da juventude em todo o mundo, a resolução do IX Congresso Mundial concentrou-se unicamente na construção de organizações juvenis revolucionárias vinculadas ao partido. Em 1974 estabelecemos que era preciso “termos hegemonia” na “nova vanguarda de proporções massivas” com o objetivo de construir partidos revolucionários baseados na classe operária mediante um giro à indústria. Esta orientação desenvolveu-se em 1985 como um giro em direção ao povo, às mulheres e aos jovens.

[3]  “O partido socialista de esquerda, desde o seu início, é formado por uma mistura de todos os elementos da nova esquerda: hippies, anarquistas, maoístas, trotskistas, leninistas e demais manifestações da oposição antissistema” Michael Voss, SAP.

 

Tradução: Carlos Alberto Coutinho

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