Sobre a apologia à pedofilia

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Gustavo Belisário

Somente nos últimos dias, por duas vezes noticiaram censura à arte porque estariam fazendo “apologia à pedofilia”. Depois de protestos da desgraça do MBL, o banco Santander fechou a exposição Queermuseu em Porto Alegre com esta alegação. Isso abre um importante debate sobre sexualização da infância, liberdade de gênero e direitos das crianças e dos adolescentes.

Em primeiro lugar, é assustadora a hipocrisia da direita moralista em relação ao tema da pedofilia. Para ela, a exposição de arte é motivo de preocupação, mas nunca moveram uma palha sobre a exploração sexual de crianças e adolescentes em circuitos do turismo sexual brasileiro. O MBL nunca fez uma nota sequer contra o combate a prostituição infantil. Parecem desconhecer que a maior parte dos casos de pedofilia acontecem dentro das famílias tradicionais que tanto defendem, por parte de tios, pais, padrastos, etc.

A pedofilia, mais do que atitudes de indivíduos monstruosos, é uma cultura de sexualização dos corpos das crianças. Faz parte inclusive da cultura do estupro (porque pedofilia é estupro) que o MBL tanto nega existir. A mesma cultura que ensina as crianças de 5 anos a sentarem de pernas fechadas. Que criam o ideal de macho comedor para os meninos em tenra idade. A apologia à pedofilia e a sexualização da infância existem sim e são bastante cotidianas e gerais. E o mercado pornográfico e suas tantas fetichizações de aluna e professor, das chamadas milfs, das teens? É comum inclusive que as produtoras de filmes contratem adolescentes com 18 anos bem pequenas, as vistam como crianças, para alimentarem essa fetichização sem incorrerem em ilegalidades.

Outra coisa totalmente diferente é o gênero da criança viada, é a expressão e experimentação da sexualidade por parte das crianças, é a identidade de gênero na infância. O que as crianças brincam, experimentam, fazem com os corpos dela é um direito. Falar que retratar uma criança que desmunheca, que dança, que rebola é pedofilia só provoca o efeito de reprimí-la, de censurá-la. Em nada previne o estupro dessa criança por parte de adultos. Impedir que uma criança brinque de boneca não tem nada a ver com combater a pedofilia.

Além disso, é possível que até parte da esquerda moralista se choque, mas crianças também se masturbam, crianças também brincam com os corpos uma das outras, crianças também sentem prazer. E nem mesmo os adolescentes punheteiros do MBL podem contra argumentar sem uma boa dose de cinismo. A questão é que essa experimentação dos próprios corpos acontecem, os adultos reprimindo ou não. E acontecem também inerentemente da cultura que sexualiza seus corpos e as estupra, porque é um fenômeno independente deste. A pedofilia (estupro de uma criança por parte de um adulto) deve ser combatida sem se confundir com uma repressão da sexualidade infantil, dos beijos com as crianças da mesma idade, da masturbação, da brincadeira com os próprios corpos.

É muita hipocrisia que precisa ser enfrentada para defender os direitos das crianças viadas, das crianças trans, das meninas moleques. Quando nem mesmo expô-las artisticamente é possível, entendemos o quanto são subversivas.

Gustavo Belisário é militante da Insurgência

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