Temer a morte?

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Remom Bortolozzi

Só gostaria que ela me avisasse três horas antes. E que não viesse na forma de caveira, com foice, mas como o fantasminha Pluft. Eu me arrumaria toda. Queria ser enterrada num caixão de vidro. Antes que endurecesse, as bichas me esticariam. Meu irmão faria a maquiagem. Na lápide, estaria escrito: “Aqui jaz a maior estrela do transformismo nacional”[1]. (Rogéria)

Ontem pairou uma divina nuvem de purpurina aqui no lado de baixo do equador. O Brasil perdeu sua última grande vedete. As cortinas dos palcos fecharam para a maior estrela transformista, as luzes das casas de LGBT se apagaram deixando apenas na memória a beleza e talento de uma de nossas mais sublimes divas. A comunidade LGBT brasileira chora a perda daquela que foi seu primeiro grande ícone apresentado ao grande público. Rogéria havia completado 52 anos de carreira, tendo sua estreia ocorrido no tempestuoso ano de 1964, em 29 de maio, no mítico reduto gay da Galeria Alaska em Copacabana. Considerada a última vedete do país, Rogéria que sempre deixou bem claro que antes de travesti, era uma artista (e, por sinal, de inegável talento), teve em seu currículo diversas montagens teatrais como Gay Girls, Gay Fantasy (dirigida por Bibi Ferreira), Rio Gay, Alta Rotatividade, Roque Santeiro, Querelle, Adorável Rogéria, Rogéria Solta, Divinas Divas, Diva, Taí – Carmem Miranda e O Tom da Bossa; diversas participações em elencos de produções cinematográficas como O homem que comprou o mundo, Gigantes da América, Copacabana e Tudo Azul; além de participação em novelas televisivas na maior emissoras nacional em Tiêta e Lado a Lado. O carisma de Rogéria rodou o mundo atravessando o Atlântico e encontrou enorme sucesso, de África à Europa.

Como nos lembra Trevisan, de forma surpreendente, Rogéria teve seu trabalho consagrado em 1980, quando ganhou o Troféu Mambembe, outorgado pelo Instituto Nacional de Artes Cênicas (Inacen), como Revelação de Atriz por seu trabalho na peça O desembestado, de Ariovaldo Matos. Esse prêmio marca uma das raras ocasiões de valorização e consagração da arte produzida pelas artistas transformistas, travestis, drag queens e transexuais.

Dentre suas sublimes performances que mexeram com o imaginário feminino e com o desejo masculino, uma das mais marcantes é sua interpretação da música ‘Je Suis Toutes Les Femmes’:

 

Rogéria é todas as mulheres. Maior ícone da sublime arte transformista, Rogéria decreta: “O artista não tem que ‘se achar’, ele tem que ‘ser’. E quem o julga é o público”. Com toda certeza é com essa arte de ser ambígua que nossa comunidade criou e cria raízes e devolve uma cultura que afeta e transforma o mundo. “Sou a primeira a levantar a bandeira gay. Mas não confio muito neles não (…) se fossem unidos dominariam o mundo.”

Fica aqui nosso agradecimento e reverência à Rogéria, a maior estrela do transformismo nacional.

* Remom Bortolozzi é militante da Insurgência Babadeira, em São Paulo. É pesquisador sobre cultura e memória LGBT. Coordena o Acervo Bajubá, voltado para preservação, salvaguarda e investigação historiográfica da arte, memória e cultura LGBT brasileiras.

 

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[1] https://extra.globo.com/famosos/ser-gay-nao-anula-fato-de-eu-ser-homem-meto-porrada-mesmo-diz-rogeria-em-entrevista-imperdivel-8421607.html