Um tempo para quebrar o silêncio. Se estivesse vivo, Martin Luther King Jr. faria 89 anos.

capa king

Simone Nascimento

Vivemos um tempo para quebrar o silêncio, como afirmou Martin Luther King Jr em abril de 1967, um ano antes de ser assassinado. Vivemos um tempo onde a construção de outro mundo só será possível com o fim da exploração capitalista e racista.

A memória de King é um legado, foi um importante líder dos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Sua vida foi interrompida cedo, com apenas 39 anos, mas nunca interromperão seus sonhos. No dia de hoje completaria 89 anos.

Em seu último ano de vida, a luta pelos direitos civis para os afros americanos e da paz para os vietnamitas ficou marcada em um histórico discurso, feito de abril de 1967 , intitulado “Beyond Vietnam — A Time to Break Silence/  Além do Vietnã – Um tempo para quebrar o silêncio, também conhecido como o sermão da igreja Riverside, contra a Guerra do Vietnã, os destinos da América e o próprio caminho do capitalismo. King questionou a sociedade e afirmou seu sonho por um outro mundo, do qual publicamos alguns trechos a seguir, para nos inspirar em tempos de luta antirracista insurgente:

“Estou convencido de que para nos colocarmos do lado certo da revolução mundial, nós, como nação, devemos passar por uma revolução radical de valores. Precisamos agir rapidamente — é preciso urgentemente iniciar a transição de uma sociedade orientada para “coisas” a uma sociedade orientada por pessoas. Quando máquinas e computadores, o imperativo do lucro e os direitos da propriedade são considerados mais importantes que as pessoas, o grande tripé “racismo, materialismo e militarismo” jamais poderá ser superado.

Uma verdadeira revolução de valores logo provocará o questionamento da justeza e da retidão de muitas das nossas políticas, passadas e presentes. Por um lado, somos convocados a fazer o papel do Bom Samaritano na beira da estrada da vida, mas esse será apenas o ato inicial. Um dia precisaremos perceber que toda a estrada de Jericó deve ser transformada para que os homens e mulheres não sejam constantemente açoitados e roubados ao tocarem em suas jornadas na estrada da vida. Verdadeira compaixão é mais do que dar um trocado a um pedinte. Ela cumpre compreender que uma estrutura que produz pedintes precisa ser reestruturada por completo.

Uma verdadeira revolução de valores irá logo ver com inquietude o flagrante contraste entre pobreza e riqueza com justa indignação. Ela voltará seus olhos para o outro lado dos mares e ver capitalistas do oeste investindo enormes quantias de dinheiro na Ásia, na África e na América do Sul, para então extrair o lucro sem nenhuma preocupação com a melhoria social desses lugares, e dizer, “Isto não é justo“. Ela irá olhar para nossa aliança com a elite proprietária da América do Sul e dizer, “Isto não é justo“. A arrogância ocidental de sentir que tem tudo a ensinar aos outros e nada a aprender com eles não é justa.

Uma verdadeira revolução irá enfrentar a ordem mundial e dizer da guerra: “Esta forma de resolver as diferenças não é justa“. Essa história de queimar seres humanos com napalm, de encherem os lares de nossa nação com órfãos e viúvas, de injetar o veneno do ódio nas veias das pessoas, de trazer homens de volta para casa de campos de batalha sangrentos física e psicologicamente debilitados, não pode ser reconciliada com sabedoria, justiça e amor. Uma nação que continua, ano após ano, a gastar mais recursos com defesa militar do que com programas de melhoria social se aproxima de sua morte espiritual.

Os Estados Unidos da América, a mais rica e poderosa nação do mundo, pode muito bem tomar a dianteira nessa revolução de valores. Não há nada exceto uma trágica pulsão de morte, a nos prevenir de reorganizar nossas prioridade, para que a busca da paz tenha precedência sobre a busca da guerra.” *

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*Tradução do discurso “Beyond Vietnam — A Time to Break Silence”: Artur Renzo