Uma rebelião popular progressiva e a democracia das ruas

Por Fernando Silva*

Há um levante nacional, com eixo na juventude, com adesão de milhares de trabalhadores e trabalhadoras jovens e dos setores médios contra todo tipo de governo e por reivindicações no geral justas: contra o aumento das tarifas, contra gastos da Copa, fora Feliciano, saúde, educação, corrupção e os temas relativos a isso. Em geral, o signo é muito positivo e claramente colocou, desde ontem, elementos de crise institucional dado a fúria contra os poderes seja quem for o governo – contra governos e prefeituras do PT (como São Paulo e várias outras capitais), contra PSDB (governos do Estados de São Paulo e Minas Gerais), contra ACM Neto em Salvador, contra uma prefeitura do PSB apoiada pelo Aécio (Campinas) e por aí vai. Foram mais de um milhão de pessoas se manifestando em pelo menos 400 cidades do país. E agora com características de mobilizações diárias e pautas variadas.

Isto é um ascenso de lutas, que está mudando a relação de forças e questionando tudo, inclusive a institucionalidade tal como ela está instalada. Por suas características massivas já superam o Fora Collor e pode começar entrar no bojo das comparações com as diretas já. É uma revolta contra tudo, uma “revolução da indignação em andamento.”

Dito isto, não significa que é um passeio, uma via de mão única para a esquerda ou em direção a um processo revolucionário linear. Nada disso, é uma situação deste ponto de vista muito diferente das diretas já e do próprio Fora Collor. Não há uma direção deste processo. A esquerda reformista tradicional está destroçada nesta massa (PT e PCdoB) – e isso é o que está por trás do anti-partido que a direita está capitalizando em algumas capitais. E a esquerda alternativa e socialista — seja ela a partidária ou autonomista — é pequena para aparecer claramente como a direção do processo, em que pese a importante liderança do Movimento Passe Livre na luta pela redução da tarifa. Ou seja, a direita está sim disputando o processo num vazio de referência e direção, inclusive em alguns locais com espaço para grupos fascistas que já existiam. Não nos esqueçamos que já existia uma movimento meio de direita contra a corrupção e anti-partido que fez atos expressivos em 2011, como em Brasília, que existe o fascismo das milícias no Rio de Janeiro e grupos de extermínio de São Paulo. Claro que isso pode aparecer em uma situação de maior enfrentamento. Mas isso não é o tom do processo, o tom é a revolta juvenil e popular progressiva.

Isso reforça o componente de enfrentamento com as policiais. No dia 20, o eixo sequer foi São Paulo. Onde tem os jogos da Copa das Confederações as características de enfrentamento tendem a ser muito mais fortes e com justas reivindicações do movimento em relação a Copa. Ontem o Maracanã cantou o hino, mas cantou “o povo unido jamais será vencido” e isto não tem a ver com eixo de direita, embora fascistas estivessem agindo no Rio.

Outro tema: é um erro igualar hino nacional e bandeira nacional com direita. Outra coisa é que a direita pode se valer disso, mas o sentimento da massa é honesto, de resgate da nação contra quem ela considera que está usurpando e roubando o país, isto é e sempre foi a simbologia da massa em relação a bandeira e ao hino. Nos anos 80, com grande peso de massa da esquerda era muito comum os atos das diretas já e mesmo assembléias operárias de massa no ABC serem encerradas com o Hino Nacional. Nós temos que disputar essa consciência da massa para a esquerda, mas entendendo o valor do sentimento nacionalista anti-regime ou anti-corrupção no caso atual, no caso da minha geração era uma nacionalismo anti-ditadura do tipo dizer “o hino e a bandeira são nossos e não da ditadura”. Hoje tem isso de fundo “a bandeira, o hino, a nação são nossos e não dos corruptos”. Esquerda que não entender isso vai virar pó nesse movimento.

Temos que partir do princípio que o movimento conseguiu uma enorme vitória que foi a redução das tarifas. Uma enorme e inédita vitória no estado de São Paulo. Não é um movimento que larga com derrota e acuado, larga com uma grande vitória e isso impulsionou o crescimento da mobilização, pois já teve VITÓRIA.

A conjuntura não é de golpe de estado

Não há perigo de golpe de estado ou golpe fascista, não é essa a linha da grande burguesia e dos seus partidos, e quando falo partido, falo Globo que é principal partido da direita. Sua linha é manifestações pacíficas, rechaço contra qualquer tipo de violência, e moralização e preservação do regime, claro que nesse marco desgastando o PT. E falamos isso porque tá rodando já carta dos movimentos sociais governistas pedindo governabilidade da Dilma, daqui há pouco vão agitar o fantasma de golpes e fascismo. Atenção, o governo Dilma é um governo da classe dominante, de direita, inimigo nosso e esse povo em movimento está furioso com as mazelas oriundas deste modelo que o PT aplica. Por isso essa coisa difusa na consciência média da massa sem uma direção clara, mas não vamos igualar essa massa com direita organizada. E não vamos cair na lorota do petismo sobre golpe, fascismo, que se explodam com a massa.

Não temos que compartilhar da ideologia do anti-partido; sempre defendemos a importância dos partidos políticos. Mas temos que entender a fundo o que está ocorrendo, porque em relação a PT e PCdoB nós não temos que brigar com a massa por conta destes que venderam o povo para governar com as empreiteiras, os negócios da Copa e o agronegócio, isto sim seria empurrar a massa para os braços da direita. Não vamos ceder a pressão petista. Como não ser furioso contra o PT em Brasília que colocou a tropa de choque para esculachar o povo e os movimentos? Ou seja, a fúria contra o PT é legítima porque o PT governa e frustrou e Dilma atacou direitos, fez todas as concessões imagináveis para os grandes capitalistas por conta da Copa. O governo Dilma é uma inflexão à direita em relação ao segundo mandato de Lula que fez mais concessões à classe. Com Dilma, vieram cortes nos gastos, arrocho setor público, bandalheira grande nas obras da Copa, aliança a fundo com o agronegócio, ataques aos direitos dos povos indígenas. Em resumo, é uma revolta contra o sistema político e uma revolta legítima também contra o PT.

Este tipo de revolta e os fenômenos que geram estão inseridos em uma quadro internacional. Por acaso vi um documentário muito interessante sobre a situação atual na Turquia. Parecia que estavam falando do Brasil. 80% dos jovens nas ruas não tem partido e não gostam de partidos, a esquerda é fragmentada em muitos grupos com pouca inserção social e a direita lá são os islâmicos fundamentalistas anti-laicos. Na Grécia, mesmo com inúmeras greves gerais, uma esquerda quase ganhando eleições tem também uma extrema direita fortíssima e organizada. Ou seja, ascensão e polarização social geram luta de classes polarizada entre os extremos, tem também a contra-revolução ganhando espaço. Mas não é isso que está dando o tom no Brasil. A essência do movimento é progressiva, mas que será disputada à esquerda e à direita.

O problema é aqui o como disputar. Há uma crise institucional se gestando, uma multiplicidade de reivindicações e isso nos conduz para a questão política do poder, a questão da corrupção, a questão de que democracia precisamos, o que fazer com os desmandos, etc. Não podemos centrar só na pauta sócio-econômica (digamos assim) das reivindicações e deixar na mão da direita a pauta do regime, da política, das questões democráticas e da corrupção, porque tem grande chance disto ganhar peso, basta ver a pauta do Anônimos, limitadíssima, mas que vai nessa direção e tem e terá apelo popular (Fora Renan, contra a PEC 37, que a PF investigue as obras da Copa). Isto terá apelo de massas e temos que entrar no debate até porque é um escândalo se a PEC 37 passar – é acabar com o poder de investigação do Ministério Público (o que o petismo corrupto adoraria). Não pode ser então que deixemos uma reivindicação que é anti-bonapartista do ponto de vista da democracia, como é o caso da PEC 37, nas mãos da direita.

A pauta é a das revindicações populares e democráticas

Então temos que combinar a manutenção da pauta das reivindicações populares: tarifa zero, moradia, educação, contra privatização com a pauta democrático-política.

É preciso politizar o tema da corrupção e do regime e rápido. A essência da nossa pauta política é a democratização do poder e reforma política com controle e participação popular. Isto tem que se traduzir em medidas como desmilitarização da PM (à qual devemos dar muito peso), quebra de sigilo de todos os parlamentares e dos grupos que os financiaram, revogação de mandatos, salário de parlamentar não pode ser maior que professor. Enfim, vai por aí. Sem se chocar com as medidas anti-corrupção que estão sendo pautadas porque elas são progressivas. Pior coisa agora é ficarmos com preconceito com a pauta que se desdobra do repúdio à corrupção. E outro tema político democrático que temos que entrar é democratização dos meios de comunicação e controle social da mídia.

O programa para essa etapa vai na direção de combinar a pauta das reivindicações populares (eixo nos direitos e serviços públicos), desmilitarização da PM, democratização do poder (as bandeiras da reforma política popular) e democratização da grande mídia.

é muito importante buscar construir uma proposta de um fórum e uma reunião nacional dos movimentos da esquerda combativa, com os setores que estão na linha de frente, como o MPL, para esse tipo de política para articular um programa e uma pauta do movimento. Temos que colocar na agenda a construção de um espaço amplo da esquerda (sem o PT e sem o PCdoB), Nada de bloco com PT e PCdoB. São inimigos e não aliados. Como disse o companheiro André Ferrari em sua análise que circulou nas redes sociais: “que o PT pague pela sua traição histórica”.

A rua é nossa!

Não vamos sair das ruas, nem rebaixar nossas reivindicações, o que temos é que estar melhor organizados e mais unidos aos setores de esquerda combativos para disputar os rumos deste ascenso, ao lado da juventude e dos movimentos populares nas usas mobilizações nos centros, na frente dos palácios dos governos, na frente dos estádios da Copa da Confederações, na periferias das grandes capitais e regiões metropolitanas, onde para serem ouvidos nas suas reivindicações bloqueiam as estradas.

É nesta autêntica democracia das ruas, auto-organizada e com muitas espontâneas manifestações que o povo, os trabalhadores e a juventude vão construir um outro país.

Este é o lugar de uma nova esquerda combativa, que quer reconstruir os laços com o povo para um projeto de transformação social e deixar para trás de vez a herança maldita das traições do PT e do PCdoB.

*Fernando Silva é jornalista e membro do Diretório Nacional do PSOL