Venezuela: Na crise, a velha esquerda mostra as suas misérias

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 Carlos Carcione, em entrevista ao Aporrea.org

Estamos a mover-nos entre a falsa Constituinte de Maduro, a guerra civil/esmagamento que propõe Atilio Borón ou a recuperação da vigência da Constituição do 1999, sustenta Carlos Carcione, da Maré Socialista venezuelana, nesta entrevista.

Carlos Carcione é jornalista, pesquisador e coordenador da Equipa de Investigação da Marea Socialista. Como militante internacionalista reside desde há uma década na Venezuela, acompanhando a experiência do Processo Bolivariano. É integrante da equipa da Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição e membro da Plataforma pela Auditoria Pública e Cidadã que luta contra o Desfalque da Nação. Colunista em vários média digitais, entre os quais se destacam Aporrea.org, Rebelion.org, Questiondigial.com, MST.org.ar, Portal da Esquerda. Integra na atualidade as equipas de investigação do recentemente criado Centro de Estudos da Realidade Latino-americana (CER/Latino-americana).

 

A complicada e incerta situação venezuelana provocou a abertura de um debate no seio do que genericamente poderíamos denominar de movimento da esquerda latino-americana e internacional. À medida que a situação do país se torna mais crítica, parecem atuar como referência dois sectores mais ou menos claros. Um defendendo o governo de Nicolás Maduro e outro questionando-o. Como vê esta polémica?

O que se expressa assim a nível jornalístico é para mim a simplificação interessada de uma polémica de fundo. Quero esclarecer que, no nosso olhar, nos localizamos como sendo parte do Processo Bolivariano e não só em relação ao governo de Nicolás Maduro. Governo que um querido amigo, Santiago Arconada, batizou acertadamente como o “Governo Maduro, Diosdado, Padrino”[1]. Porque, do meu ponto de vista, o que está em jogo neste debate é a posição em relação ao conteúdo das políticas do Governo/PSUV; a sua orientação, a que sectores sociais dá voz, que interesses representa e que consequências essa orientação provoca no país e na população, e não só sobre as figuras do governo ou os discursos, ou o apelo abusivo, excludente, à disputa geopolítica.

Falando a partir do que genericamente se chama “esquerda”, se analisarmos estes elementos, tendo em conta o que Maduro dizia antes e à luz da sua proposta de Constituinte, vemos que há dois setores que, na Venezuela, poderiam ser referenciados hoje, grosso modo. Por um lado, o das cúpulas do PSUV-Governo-Pólo Patriótico e, por outro, um conjunto de plataformas de luta social e política de carácter amplo e plural, como a Plataforma Cidadã em Defesa da Constituição, a plataforma que luta contra o Arco Mineiro do Orinoco, reagrupamentos de setores sindicais que estão a nascer, e de luta das comunidades, a Plataforma pela Auditoria Pública e Cidadã, Maré Socialista, como organização política, e partidos do Processo localizados recentemente neste espaço, como a UPP-89, além de destacadas personalidades. As correntes dessa esquerda que descrevo defendem propostas opostas para enfrentar o colapso atual do modelo rentista petroleiro venezuelano[2]. Se entendemos isto, se compreendermos quais são as diferenças e que elas são radicais, a polémica torna-se mais transparente. Fica mais claro o que é que estamos a defender uns e outros.

Esta localização dentro do Processo tem uma importância adicional, porque, por exemplo, a Maré Socialista, que no último período saiu do PSUV e mais tarde se definiu primeiro por não se sentir representada nem pelo PSUV nem pela MUD, e depois como oposição de esquerda ao governo de Maduro[3], não renega a sua pertença ao Processo Bolivariano, tal como não o faz um grupo de ex-ministros de Chávez[4], ou o heterogéneo movimento denominado pelos média como “chavismo crítico”. Pelo contrário: as críticas, as advertências, as propostas e políticas que vêm sendo desenvolvidas tanto na Maré como nestes outros espaços, são-no a partir da defesa consciente, isto é critica, dos ganhos e/ou conquistas económicas, sociais e políticas do Processo, entre eles a Constituição de 1999, conquistas que estão a ser atacados ferozmente pelo governo.

Já o sector que nomeámos antes, e aqueles que os acompanham no exterior, que apoiam incondicional e automaticamente o presidente, ao não questionarem as políticas que o governo está a implementar nem questionarem a própria Constituinte, expressam, tacitamente às vezes e explicitamente outras, a aprovação dessas políticas.

 

Poderia esclarecer quais são essas diferenças que afirma existirem entre esses dois sectores da esquerda na Venezuela e internacionalmente?

Em termos esquemáticos, essas diferenças giram ao redor do brutal crash económico que estamos a viver, do pronunciado retrocesso com fortíssimos traços autoritários do sistema político que se pretende consolidar e aprofundar com a Constituinte, e das contrarreformas tremendamente regressivas nas políticas sociais. Vou sintetizar, brevemente, ao que me refiro:

No terreno económico, podem-se distinguir dois períodos claros do governo de Nicolás Maduro. Um primeiro momento de ajuste macroeconómico gradual que fracassa estrondosamente. Este momento podemo-lo localizar no período entre a desvalorização de fevereiro de 2013, um mês antes da morte de Chávez, e o segundo semestre de 2014, quando é aprovado um primeiro pacote de Leis Habilitantes, numa tentativa de ajustar os gastos fiscais e de baixar o investimento social nas Misiones[5]; a redução de importações; e uma redução do nível salarial real através do estímulo ao processo inflacionário. Esta política, que tem uma clara tendência regressiva, de contrarreformas económicas, porque o ajuste atinge fundamentalmente os rendimentos e a possibilidade de acesso a bens básicos das famílias trabalhadoras e dos sectores mais despossuídos, fracassa.

E fracassa entre outras razões porque não só não ataca, como também aprofunda o padrão mafioso da acumulação rentista[6], que se baseia na fuga delituosa de capitais através de dois mecanismos financeiros fraudulentos: as manobras ilegais com a atribuição dos dólares do petróleo para as importações, para as grandes obras ou contratos ou convénios internacionais, e em segundo lugar pela manipulação especulativa, ilegítima, da dívida soberana da nação e da dívida da PDVSA, inclusive da dívida interna que, tal como foi demonstrado, é uma dívida externalizável. Os mecanismos deste endividamento que, segundo um estudo em profundidade de Oly Millán Campos e Paulino Núñez[7] – que participam, tal como eu, na Plataforma pela Auditoria Pública e Cidadã –, elevam dívida a níveis que estariam na ordem dos 80% do PIB. Estes mecanismos convertem essa dívida, como bem insiste Paulino sempre que pode, numa dívida além de ilegitima, odiosa. Apesar de todas as advertências, das investigações apresentadas, das exigências realizadas, o governo paga pontualmente em cada vencimento, reduzindo as importações, o que está a provocar a aguda situação de escassez de alimentos e de medicamentos que nos leva à beira da crise humanitária. E comprometendo seriamente o património da nação.[8]

Em vez de aceitar a nossa proposta de uma Auditoria Pública e Cidadã para que Maduro tenha uma atitude semelhante à de Correa com a dívida equatoriana, ele obstina-se a pagar, sem nenhum tipo de investigação nem auditoria independente, e já se delapidaram desta maneira 60.000 milhões de dólares em três anos. E não nos cansaremos de insistir que esta dívida está a ser paga à custa da fome, literalmente falando, do povo venezuelano, porque o que é destinado ao cumprimento da dívida é retirado das importações essenciais.

O segundo período que assinalamos começa no final de 2014, com a sanção de uma nova Lei Habilitante que permite ao presidente governar por decreto. Estas leis permitiram a criação de Zonas Económicas Especiais, onde não rege a legislação venezuelana. E ganhou um forte impulso a partir da queda dos preços do petróleo. E sobretudo, desde o início de 2016, com os chamados 15 motores da economia produtiva, apresentados como um plano de superação do rentismo petroleiro, quando o que na realidade fazem é ampliar de maneira colossal a fronteira extrativista e a primarização da economia do país. Desde o Motor Mineiro, com o Arco Mineiro do Orinoco, o Motor Energético com a abertura total da Faixa petrolífera, passando pelo motor Florestal e até o Motor Turístico, estão transversalizados por uma política de abertura feroz ao capital multinacional.

A velha esquerda que apoia incondicionalmente Nicolás Maduro não se pronuncia sobre nada disto.  Nem explicam por que razão seria necessário este plano, nem se é conveniente, e também não se lhes tem ouvido nem lido nenhum questionamento sobre o mesmo, nem fazem propostas alternativas. Neste terreno mantêm silêncio, um silêncio cúmplice, é como se isto não existisse, como se a realidade tivesse ficado congelada em 2012. A única coisa de que falam é sobre a chantagem, a extorsão e a guerra económica do imperialismo, que nós não desconhecemos, mas que não teria nem a décima parte do impacto atual, se não se apoiasse nesta política de entrega e no padrão mafioso de acumulação de capital que, existindo muito antes, o governo de Maduro organizou e assim aumentou exponencialmente, até chegar ao nível de saque atual do país.

Como escreve Oly Millán no seu artigo, “É a Economia Estúpido?”[9] A Constituinte tem entre outros objetivos dar sustentação jurídica a esse modelo.

 

Quais são, na sua opinião, as contrarreformas nas políticas sociais?

No que toca às políticas sociais, esta esquerda em solidariedade automática com o governo continua a utilizar as estatísticas de 2012-2013, as últimas publicadas de maneira completa, e fá-lo de forma global. Essas estatísticas falam de um país que já não existe. Aferram-se a esses números porque, se reconhecessem a realidade atual, grande parte de sua argumentação desvanecer-se-ia.

O que na realidade acontece é que: onde havia mercados populares como Mercal ou PDVDAL, nos quais grande parte da população podia aceder a alimentos de relativamente boa qualidade a preços subsidiados, hoje mal existe um sistema de distribuição estatal porta a porta, os CLAP, que ainda não conseguiram regularizar o apoio a um número muito baixo de famílias, que mal podem aceder a essas caixas ou cestas a cada mês e meio.

Onde havia um sistema nacional de cuidados médicos primários, elogiado por todos, os Bairro Adentro, nos quais era realizado o diagnóstico, se faziam estudos elementares e até de certa complexidade e os medicamentos eram fornecidos gratuitamente se fossem necessários, hoje há terra arrasada, com equipas inoperantes, sem medicamentos, sem possibilidade de fazer os mais elementares exames básicos, com uma infraestrutura que, sem manutenção, está em decadência. E onde o número de profissionais foi reduzido de maneira dramática.

Onde havia casas de alimentação nas zonas mais vulneráveis, organizadas de forma a que os necessitados comessem sem custo, sustentadas pelo trabalho voluntário e solidário de donas de casa dos bairros, há já muitíssimos meses, senão anos, que não chegam os fornecimentos para cozinhar, o que provoca um fenómeno que era desconhecido na Venezuela Bolivariana: há cada vez mais cidadãos comendo do lixo. O mesmo com outra longa lista de políticas sociais que tiveram êxito durante anos e que hoje estão desaparecidas.

O mesmo sucede com toda a legislação progressista, como por exemplo a Lei Orgânica do Trabalho. Ficam no papel, que aguenta tudo, mas não são aplicadas. E não falemos do salário, que já foi um dos primeiros na América Latina e caiu a níveis de Haiti. Enquanto isso, o grande capital local e estrangeiro recebe insultuosos benefícios de todo tipo.

Diante disto, essa esquerda prefere não ver a realidade, olha para outro lado e repete as velhas estatísticas, os velhos lucros e conquistas, faz muitos desmentidos pelos quilos perdidos devido ao que os venezuelanos batizaram de “Dieta de Maduro”, pelos maus tratos, pela perseguição aos sectores mais oprimidos e pelo ocultamento criminoso de toda a informação oficial. Hoje não se sabe nem sequer qual é o Orçamento da Nação, que se converteu num segredo guardado sob 7 chaves.

 

O que o leva a considerar que há uma forte tendência autoritária no sistema político?

Há aproximadamente dois anos, vem-se desenvolvendo por parte do governo, diria que como política de Estado, um processo de desmantelamento dos direitos e garantias estabelecidos na Constituição do 1999. Supressão de direitos políticos e sociais, eliminação em grande parte do território nacional de direitos económicos, e eliminação de soberania. Suspensão, obstaculização e eliminação de eleições sindicais, estudantis, eleição de instituições autónomas como as universidades e de cargos políticos como as regionais para governadores, eliminação, de facto, do direito ao Revogatório. Como assinala Edgardo Lander numa recente entrevista, “Acho que após as eleições parlamentares do 2015 o governo parece assumir que a sua continuidade no exercício do poder não é possível nem apelando à votação popular nem respeitando a Constituição.”[10]

Aqui não vou descrever o crescimento, também exponencial, da violência policial do Estado fora dos protestos, em relação, por exemplo, à política das OLP[11], operações de limpeza e extermínio das denominadas pela imprensa “quadrilhas”, contra todas as normas legais e humanas.

Esta tendência que vem de antes, e que tem um marco importante com as fracassadas resoluções 155 e 156 do TSJ[12] de finais de março, resoluções que configuraram um mini autogolpe, mas que tiveram que ser “revistas” pela rejeição nacional e internacional que provocaram[13]. Esta tendência acelerou-se a partir do momento em que começaram os protestos em abril de 2017. Há dois trabalhos recentes que descrevem e avaliam corretamente a situação na qual já ocorreram 60 mortes no marco das manifestações[14]. Mas talvez o símbolo mais contundente do aprofundamento desta tendência é a atuação, contra todo princípio legal, de Tribunais Militares para o julgamento sumário de civis, e a utilização de prédios militares para a detenção desses civis condenados pelos tribunais militares. A Constituinte está desenhada, segundo os objetivos que lhe atribuem todos os porta-vozes oficiais, para consolidar esta tendência autoritária.

Vamos insistir num ponto em que é evidente existirem do lado da MUD setores que aproveitam o clima de protestos para desenvolver ações foquistas. Estes grupos, que sem dúvida são financiados e algum deles treinados pelos Estados Unidos ou pelo Uribismo, não procuram uma saída democrática nem eleitoral à crise, mas sim a liquidação do chavismo[15]. Mas isto, que repudiamos, de jeito nenhum pode justificar a eliminação de facto do direito ao protesto e de outros direitos humanos elementares, nem muito menos a repressão desproporcionada e indiscriminada aos protestos por parte do Estado.

Neste caso ocorre o mesmo que nos anteriores. Essa esquerda que responde com mecanismos de alinhamento automático com o governo de Maduro, carrega as tintas no papel “terrorista” das ações foquistas e retira ao Estado a responsabilidade pela forma como estão a ser tratados os protestos e a repressão. Chegando ao caso extremo de Atilio Borón, que aconselha o presidente Maduro, num recente artigo, a esmagar[16] uns não identificados “terroristas”. Este “esmagar” é um termo que, no contexto do artigo, pode ser lido como “exterminar”.

Por isso, onde essa velha esquerda exige cerrar fileiras incondicionalmente com uma suposta “direção revolucionária” diante das ameaças imperialistas, nós exigimos a aplicação de políticas claras de ruptura com o domínio do capital financeiro, começando pela suspensão dos pagamentos da dívida. E denunciamos todas as políticas que consolidam a dependência com o sistema do capital, depredam o ambiente, eliminam a soberania, desmontan as conquistas sociais, económicas e políticas do Processo, consolidam o rumo de capitulação do governo ao imperialismo e abrem as portas a uma ingerência ou intervenção estrangeira ainda maior. Quatro anos depois de iniciado este período já não se pode falar de erros. Pelo contrário, para nós, o governo Maduro, Cabello, Padrino, desenvolve uma política planeada, com a esperança de atrair esses sectores concentrados do grande capital.

Por isso mesmo, diferente da confusão que instalam os sectores de esquerda que apoiam incondicionalmente a Maduro, ou que timidamente lhe pedem uma mudança política parcial e limitada, a nós não nos desperta confiança essa cúpula do PSUV/Governo. E por isso é que estamos empenhados na construção de uma nova referência ou alternativa política anticapitalista, ecologista, feminista, que recupere as chaves democráticas, anti-imperialistas e bolivarianas do Processo, para lutar para aprofundá-las.

 

Mas a Constituinte não seria um canal de saída para a crise? Não poderia deter a escalada de violência e abrir uma rota de dialogo para estabelecer regras de jogo que todos aceitem?

Antes de responder à sua pergunta é necessário estabelecer uma caracterização do momento atual. E porquê, do meu ponto de vista, a resolução da crise só pode ser favorável ao país e ao povo que vive do seu trabalho, com mais democracia e não com mais autoritarismo. E mais democracia quer dizer, neste momento, recuperar a vigência da Constituição de 1999.

Hoje estamos a mover-nos entre a proposta de Constituinte fraudulenta de Maduro, a guerra civil/esmagamento que propõe Borón, sabendo que estas duas opções procuram o estabelecimento de um sistema autoritário para poder consolidar o modelo de entrega que lhe venho descrevendo, ou, pelo contrário, a recuperação da vigência da Constituição de 1999, a realização das eleições regionais e municipais, e um cronograma claro para a eleição presidencial. Isto com plenas garantias de participação política para todas as expressões do pensamento político nacional, sem exclusões nem proscrições.

Creio também importante fazer outra definição: a caracterização do atual confronto que se dá entre as cúpulas, diferente dos anos 2002/2003, e contra o que sustenta a cúpula do Governo e repetem e enfeitam com rios de tinta os intelectuais que o apoiam a nível internacional, não é uma briga entre os sectores populares contra os oligárquicos. Pelo contrário, é uma luta por definir qual das cúpulas garante, no próximo período, o controlo do Estado para administrar e distribuir os rendimentos. São dois sectores das elites, subordinados ao capital financeiro internacional, um tradicional e outro emergente. E nenhum dos dois sectores é democrático, ambos têm claro que precisam de um sistema político completamente autoritário para conseguir aplicar com sucesso a contrarrevolução económica em curso e as contrarreformas aplicadas às conquistas políticas e sociais que, com todas as suas deficiências e limitações, foram obtidos nos melhores anos do período de Chávez. Porque, como diz a colega Oly Millán no artigo que cito dantes: “Mas também, essa história petrolífera tem outra característica muito sui géneris e é que a cada processo de boom petrolífero, produz-se um reacomodamento dos grupos de poder, isto é, uns caem em desgraça, enquanto outros se fortalecem e emergem novos.”[17] Hoje, no declínio do boom petrolífero e num momento de colapso do modelo, há uma guerra de rapina entre estes dois sectores das elites.

Neste Contexto, outro objetivo da Constituinte é: que a cúpula que hoje tem o controlo do poder do Estado mas está ameaçada de o perder, e com ele os seus privilégios, como castigo pela política antipopular e antinacional que vem aplicando nos últimos quatro anos, tenta mantê-lo por meio de uma Constituinte cuja convocatória é espúria e as suas regras eleitorais são a todas luzes enganosas[18], sem necessidade de revalidar o seu mandato em nenhuma eleição universal, na qual, sem dúvida, segundo todas as sondagens, sairia derrotada.

Nestas condições, a Constituinte não é uma arma de Paz, como diz a cúpula do PSUV/Governo; pelo contrário, é a arma com que se pretende construir um regime autoritário. As eleições regionais marcadas para dezembro[19] ou o próprio referendo aprovatório que Maduro indicou que pediria para a nova Constituição, são apenas a máscara para maquilhar de falsa amplitude democrática o engano. E ao não ser um arma de Paz, o enorme perigo que encerra de se realizar é que acabe por se converter na alavanca com a qual a atual escalada de violência polarizada pelas cúpulas da nova elite que controla o Estado e da antiga elite, que crê, agora sim, chegado o seu momento de recuperar esse controlo, abram a porta a um confronto civil de consequência imprevisíveis.

No entanto, a convocatória abriu outra porta não esperada pela cúpula do PSUV, pela qual começou a passar com força a rejeição de uma parte importante do chavismo. Militantes, deputados e dirigentes médios do partido, funcionários públicos atuais, ex-funcionários públicos, intelectuais e académicos, e muitas informações afirmam que até uma parte substantiva das forças armadas, recusam com sólidos argumentos a manobra antidemocrática. Com este sector coincidimos num ponto essencial: o único caminho democrático, e que portanto não pode ser sequestrado pelas cúpulas que instigam à violência, é a luta pela recuperação da vigência da Constituição de 1999. É esse o nosso caminho, enquanto a velha esquerda, na sua decadência, com o seu alinhamento e disciplina automática a um governo que rompeu com o processo que o levou até ali, continua a mostrar ao mundo todas as suas misérias.

 

Publicado originalmente em Aporrea.org

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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[1]Nicolás Maduro, Presidente, Diosdado Cabelo, Deputado, Vice-presidente primeiro do PSUV e cabeça do segundo grupo de poder mais importante deste trio, e Vladimir Padrino, Ministro de Defesa e Chefe das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB).

[2]É bom esclarecer que estes dois sectores, com todos os matizes e diferenças entre cada um deles, não são apenas nacionais, têm também expressão internacional.

[3]Para deixar taxativamente estabelecido que não tem nada a ver com a oposição de direita organizada na MUD.

[4]As personalidades mais destacadas deste grupo são, entre outros, Héctor Navarro, ex-ministro de Educação e de Energia Eléctrica; Oly Millán Campos, ex-ministra de Economia Popular, e de Comunas e movimentos sociais; Gustavo Márquez Marín, ex-ministro de Comércio Internacional e ex-embaixador na Colômbia; Ana Elisa Osorio, ex-ministra do Ambiente, e destacadas personalidades como o Major General Cliver Alcalá Cordones, os professores Edgardo Lander, Esteban Emilio Mosonyi e Freddy Gutiérrez Trejo, e lutadores sociais como Santiago Arconada.

[5]Referência ao Sistema Nacional de Misiones, também chamado de Misiones Bolivarianas. São uma série de programas sociais desenvolvidos na Venezuela durante o governo de Hugo Chávez, desde o ano de 2003

[6]Este padrão que começa com a exploração petrolífera, atravessou todo o período de governo do Processo Bolivariano e não foi desmontado até a hoje. (Nota do Tradutor)

[7]Situação Atual da Dívida da Venezuela como expressão de um modelo económico de extração delituosa de capitais https://www.aporrea.org/economia/a245302.html. Oly Millán Campos, Paulino Núñez.

[8]Ultimamente tem-se hipotecado o capital acionista da CITGO, subsidiária da PDVSA nos Estados Unidos, empresa que conta com refinarias aptas para o crude pesado venezuelano e uma rede de 17.000 distribuidoras de gasolina, 49% como garantia para um empréstimo de um Fundo Abutre e com a petrolífera russa Rosnef, outros 50%. Esta operação realizou-se para obter liquidez para pagar dívida. E para fechar com chave de ouro, por agora, foi feita a venda, a preço de banana, por parte do BCV, de Bónus da PDVSA que não estavam no circuito financeiro internacional ao Goldman Sachs, banco de que foi diretor o atual Secretário do Tesouro de Trump.

[9]É a economia estúpido? O que está por trás da Assembleia Constituinte https://www.aporrea.org/economia/a246950.html por Oly Millán Campos.

[10]Edgardo Lander: “A Constituinte leva-nos a um ponto sem retorno?

[11]OLP. Operação de libertação do Povo. Política policial que consta em entrar nas zonas mais marginalizadas das grandes cidades para deter, invadir, reprimir e até assassinar, sem nenhum tipo de respeito pelas garantias constitucionais e legais mínimas.

[12]TSJ. Tribunal Supremo de Justiça

[13]O facto mais destacado desta rejeição foi a declaração da Procuradora-Geral da República, Luisa Ortega Díaz, assinalando que essas Resoluções rompiam o fio constitucional.

[14]Balanço dos atos violentos: de 6 de abril a 25 de maio https://www.aporrea.org/actualidade/a247131.html por Keymer Ávila e ¨Repressão e violência Que está a passar?¨ https://www.aporrea.org/actualidade/n308819.html por Maré Socialista Caracas.

[15]Referimo-nos aqui à entrevista a Edgardo Lander, mencionada mais acima.

[16]Venezuela mergulhada na guerra civil, por Atilio Borón https://www.aporrea.org/tiburon/a246559.html

[17]É a economia estúpido? O que está por trás da Assembleia Constituinte https://www.aporrea.org/economia/a246950.html por Oly Millán Campos.

[18]Sobre isto podem-se consultar dezenas de artigos e entrevistas de militantes, intelectuais e académicos chavistas e/ou de esquerda, em Aporrea.org, entre os quais recomendo as entrevistas a Héctor Navarro e Edgardo Lander, Gonzalo Gómez e os artigos de Nicmer Evans, Jesús Porta, Sergio Sánchez, Felipe Pachano Azuaje e Javier Biardeau, entre muitos outros.

[19]Já depois desta entrevista, estas eleições foram antecipadas para outubro. (Nota do tradutor)

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