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O PSOL tem o molho

26 de fevereiro de 2026

Carlos Bittencourt, Glória Trogo, Nadja Carvalho

A história está quente, nos exige o melhor. O Brasil mostra seu tempero ao mundo e cobra dos socialistas um projeto de país soberano. Nossa principal missão em 2026 é reeleger Lula presidente, ampliar a base da esquerda na Câmara dos Deputados e impedir que a extrema-direita conquiste maioria no Senado. Não estamos apenas diante de uma disputa eleitoral, mas de uma reorganização do campo progressista após o ciclo bolsonarista. A vitória depende da capacidade de combinar unidade ampla com diversidade estratégica.

Nos últimos anos, o Partido Socialismo e Liberdade conseguiu combinar maturidade no compromisso com a unidade e coragem para manter as bandeiras da esquerda erguidas. Ao mesmo tempo em que fomos base do governo Lula no Congresso Nacional e estivemos na linha de frente da defesa da democracia, votamos contra as medidas da austeridade neoliberal. Priorizamos a luta unitária contra o perigo do neofascismo e nos posicionamos contra a temerária exploração petrolífera na Foz do Amazonas. Estivemos na linha de frente contra o Congresso inimigo do povo. Participamos decisivamente das mobilizações de rua que derrotaram a PEC da bandidagem em setembro de 2025 e abriram caminho para a governabilidade do Lula, que começou ameaçada por Hugo Motta e foi afirmada numa equação política que incluiu o elemento decisivo da mobilização popular. A recente revogação do Decreto 12.600, que privatizava o Rio Madeira, Tapajós e Tocantins foi a prova viva da importância da mobilização indígena (fator decisivo), com 33 dias de luta e ocupação, combinado com a batalha institucional, protagonizada por Boulos e Sonia, cujo resultado foi fazer o Governo recuar de uma medida que nunca deveria ter sido proposta. Esse percurso mostra que o PSOL não é obstáculo à unidade, e sim um dos seus motores.

A recuperação da popularidade do governo (que caía até o início de 2025) aconteceu por uma linha política mais firme e altiva, pela defesa da soberania nacional diante dos ataques do Trump, pela fórmula do “nós contra eles”, aplicada pelo governo nas propagandas do gov.br, pela aprovação de medidas populares como a isenção do IR e taxação dos super-ricos, pelo compromisso com o fim da escala 6×1, etc. Contra a mesquinhez cotidiana foi justamente uma linha mais combativa que fez o governo ser mais popular, rompendo uma lógica cartesiana de ir ao centro como único caminho para isolar a extrema direita.

A lição política é evidente: governos progressistas se fortalecem quando assumem conflito, não quando o evitam. A popularidade cresceu quando o Planalto deixou de falar uma linguagem de centro e passou a nomear adversários, defender direitos concretos e mobilizar expectativas populares.

A proposta de federação com o PT é legítima e deve ser debatida com responsabilidade estratégica. No entanto, neste momento político, a prioridade central não é a fusão organizativa, mas a ampliação da capacidade da esquerda de disputar a sociedade com múltiplas ferramentas e diferentes polos de organização. O foco imediato deve estar na montagem das chapas, na reeleição de Lula e na construção de um plano coletivo para superar a cláusula de barreira em 2026, fortalecendo o campo progressista como um todo.

Ter duas federações de esquerda comprometidas com a reeleição de Lula pode ampliar, e não reduzir, a força do projeto comum. Estruturas organizativas distintas permitem maior capilaridade territorial, diversidade política e alcance social ampliado. As tarefas da federação do PT e da federação do PSOL podem ser complementares, como já ocorreu em 2022: diferentes caminhos que convergem para o mesmo objetivo estratégico. A unidade necessária para derrotar a extrema-direita não exige uniformização, mas coordenação entre forças diversas.

Ao apoiar Lula no primeiro turno, o PSOL reconhece a liderança do PT na tarefa imediata de derrotar a extrema-direita. Ao mesmo tempo, não pode abrir mão de sustentar um projeto anticapitalista e de fortalecer uma esquerda com identidade própria, presença social e densidade estratégica. Hoje, a federação PSOL-REDE reúne condições políticas e eleitorais para ultrapassar a cláusula de barreira e contribuir como mais uma força organizada para sustentar o futuro governo Lula.

Isto é político, mas também é matemático. Com duas federações, poderemos ter, mais ou menos, o dobro de candidatos a deputado federal e deputado estadual apoiando o Lula. Se em uma única federação caberiam cerca 540 candidatos à deputado federal em todo país, somando duas federações, poderemos ter 1.080 candidaturas federais na base de apoio do Lula. Isso amplia muito a capilaridade e a capacidade de buscar os votos com mais candidaturas em mais lugares.

Isso não é ambiguidade; é estratégia política. Coalizões vitoriosas são policêntricas: quanto mais polos organizativos comprometidos com um projeto comum, maior a capacidade de mobilização social, disputa de ideias e conquista de votos.

É possível ultrapassar a cláusula mantendo a federação com a Rede

A pergunta concreta é: podemos ultrapassar a cláusula de barreira renovando a federação com a Rede? A resposta evidente é: sim! Nenhuma eleição se ganha de véspera, mas nas eleições de 2022 já ultrapassamos os critérios exigidos para 2026. Não há por que duvidar do PSOL, um partido que vem crescendo e pode crescer mais. Pela regra de 2026 (2,5% dos votos válidos nacionais, com pelo menos 1,5% em 9 estados), o PSOL, sozinho, já teria ultrapassado a cláusula com base na votação de 2022: 3,57% nacional e desempenho acima de 1,5% em 11 unidades da federação. Ou seja, acima do mínimo exigido. Não é uma hipótese otimista — é um dado objetivo.

Quando somamos a este dado os resultados da federação com a Rede, o cenário é ainda mais confortável: 4,29% dos votos nacionais e 1,5% em 14 estados. Isso significa que a federação PSOL-Rede supera a regra com boa margem tanto no percentual nacional quanto na distribuição regional.

Em termos políticos, isso significa algo simples: a superação da cláusula depende de manter ou ampliar a votação nacional já conquistada na eleição anterior. E na legislatura 2023-2026 o PSOL desempenhou um papel ainda mais destacado do que na legislatura anterior. Especialmente no ano de 2025 a conjuntura fortaleceu as agendas e a audiência do PSOL. Portanto, o debate não deve ser guiado pelo medo da sobrevivência institucional, mas pela estratégia de expansão da esquerda.

O deslocamento da agenda política e o lugar do PSOL

Quem imaginaria que no final de 2024 a luta pela redução da jornada de trabalho se tornaria uma pauta com influência de massas? Quem imaginaria que seria possível aprovar por unanimidade a isenção do imposto de renda para milhões de trabalhadores, taxando grandes fortunas? Quem diria que Lula ia se comprometer com a luta pela Tarifa Zero? Se terminamos 2024 com um governo tido como sem marca, entramos em 2025 com uma linha clara, “nós contra eles”!

E não dá pra ignorar o protagonismo do PSOL nisso tudo. Rick Azevedo, liderança do movimento Vida Além do Trabalho, se elegeu pelo partido como vereador na capital do Rio de Janeiro trazendo o fim da jornada 6×1 como seu carro-chefe. Ao lado de Erika Hilton, fez essa bandeira ultrapassar a bolha da esquerda e se tornar uma pauta dos trabalhadores do Brasil. A tarifa zero é uma agenda histórica de nossa Erundina e das campanhas do PSOL por todo o país. A verdade é que em meio ao conformismo e ao pragmatismo, emergiram pautas e lutas disruptivas, que mobilizaram o Brasil para ir adiante e o PSOL está conectado com isso. O PSOL não apenas vocalizou pautas, mas ajudou a organizá-las socialmente.

Além disso, ninguém aposta mais do que o PSOL de que um contrapeso fundamental na governabilidade de Lula é a mobilização de rua, o debate de ideias, o enfrentamento aos inimigos do povo. E também nesta trincheira foi possível ver o protagonismo do partido no país inteiro, mobilizando e organizando atos em centenas de cidades.

A vinda de Manuela D’Ávila fortalece e o poder de atração do PSOL

A recente filiação de Manuela D’Ávila ao Psol é mais do que uma imensa vitória política, é também um fator eleitoral concreto na equação da cláusula de barreira. A presença de uma liderança com capilaridade nacional, votações históricas no Sul do país e capacidade de dialogar com novos segmentos amplia o potencial de votos proporcionais em estados estratégicos e fortalece a distribuição regional exigida pela regra de 2026.

Na disputa do Senado no Rio Grande do Sul, Manuela é um nome de unidade de toda a esquerda. Mesmo fora de cargos públicos desde 2018 e tendo disputado sua última eleição na corrida municipal de 2020, Manuela aparece em primeiro lugar em várias pesquisas eleitorais, em alguns deles empatada tecnicamente com nomes como o Governador do Estado do Rio Grande do Sul, o que mostra um enorme potencial. Sua trajetória permite dialogar com setores populares, juventude e eleitorado progressista ampliado.

Manu amplia a base social e territorial do PSOL. Credencia o Psol para disputar novas figuras como Luizianne Lins (PT-CE) e Duda Salabert (PDT-MG), além de já ter feito a diferença no retorno de um para a política de uma liderança imprescindível que mudou a história do Psol Minas Gerais: a ex-deputada federal Áurea Carolina. Em vez de enfraquecer a identidade para sobreviver, o PSOL pode ultrapassar a cláusula expandindo sua influência.

Lula precisa de aliados fortes, não absorvidos

A história das vitórias de Lula mostra que coalizões plurais são mais resilientes do que estruturas homogêneas. Reeleger Lula é uma tarefa imprescindível. Mas Lula sempre liderou coalizões plurais. Respeitamos o papel do PT, mas não pensamos que ele deva ser o único partido da esquerda brasileira. A existência do Psol não enfraquece a luta contra nossos inimigos comuns, ao contrário, a fortalece. Em muitos momentos os posicionamentos pioneiros do Psol abrem caminhos. Em outros momentos, o PSOL pode vocalizar posições de defesa do próprio governo, que o PT não pode sustentar por conta dos acordos para a governabilidade.

A pressão que o PSOL pode exercer sobre Hugo Motta vinha justamente da localização política do PSOL de maior independência frente ao Centrão. A confrontação direta do partido com o presidente da Câmara e a incorporação da consigna “Congresso Inimigo do Povo” foi um elemento chave para criar as condições de um reposicionamento da Câmara Federal diante do governo. Sem o PSOL, dificilmente essa pressão teria força suficiente para atingir tais resultados.

Ir longe exige caminhar juntos, mas a pluralidade fortalece a esquerda

O Partido Socialismo e Liberdade foi pioneiro em colocar no centro da política institucional pautas como o feminismo, o antirracismo e a luta LGBTQUIA+. Isso não ocorreu por acaso, mas como resultado de um projeto político que combinou programa, intervenção social e abertura à renovação. Mulheres, pessoas negras e lideranças LGBT+ chegaram à frente das chapas porque o partido construiu um espaço mais permeável a novas ideias, menos hierarquizado por figuras tradicionais e mais aberto ao surgimento de novas vozes. Essa dinâmica não apenas fortaleceu o PSOL, mas ajudou a renovar a própria esquerda brasileira.

Se tudo se funde em uma única estrutura, a diversidade tende a se reduzir e, com ela, a capacidade de experimentar novos caminhos e ampliar a representação social. A pluralidade organizativa não é sinônimo de fragmentação; ao contrário, pode ser uma fonte de vitalidade política. A própria extrema-direita demonstrou capacidade de expandir sua influência a partir da multiplicação de lideranças e espaços de atuação, em diversos partidos. A esquerda também precisa compreender que ampliar sua presença exige multiplicar polos organizativos, linguagens e formas de atuação, mantendo coordenação estratégica em torno de objetivos comuns.

A esquerda cresce quando amplia seu alcance social e simbólico, não quando concentra toda sua energia sob um único teto organizativo. Unidade não deve significar homogeneização, mas articulação consciente entre diferentes forças que compartilham horizonte estratégico. É dessa combinação entre diversidade e coordenação que surgem as condições reais para vencer disputas políticas complexas e enfrentar adversários poderosos.

É assim que se constrói as condições para vencer.

A esquerda precisa de utopia concreta

Há um elemento mais profundo nesse debate. A esquerda só cresce quando combina disputa institucional com imaginação política. Realismo com radicalidade. Ação imediata concreta com perspectiva estratégica.

O PSOL se consolidou como voz que conecta luta concreta com horizonte transformador. É capacidade de encantar, de mobilizar, de enxergar um novo mundo possível.

A extrema direita alimenta distopias regressivas, incentiva a luta de todos contra todos diante da escassez. A esquerda também precisa construir sonhos. E isso exige identidade, pluralidade, não apagamento. Unidade não é homogeneização; é coordenação entre diferentes forças para vencer.

O PSOL é mais que necessário!