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A corrida à vacina da Covid19: pesquisa, produção, distribuição

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Com base na OMS há, atualmente, 193 candidatas a vacinas para a Covid-19. Destas, 32 encontram-se em ensaios clínicos e são já 10 as que já atingiram a fase 3, a fase mais avançada dos testes em humanos.
 

Ana Isabel Silva, Esquerda.net, 12 de outubro de 2020

O mundo está em suspenso enquanto não é encontrada uma vacina para a covid-19. Vários laboratórios têm anunciado o desenvolvimento e produção de potenciais vacinas. Com base na Organização Mundial de Saúde (OMS) há, atualmente, 193 candidatas. Destas, 32 encontram-se em ensaios clínicos e, são já 10 as que já atingiram a fase 3, a fase mais avançada dos testes em humanos. Prevê-se que, ainda este ano, sejam atribuídas licenças para distribuição de algumas delas. As mais promissoras encontram-se já a ser produzidas em grande escala, de modo a facilitar a sua distribuição após possível aprovação. Os principais candidatos a vacina estão a ser desenvolvidos principalmente nos continentes americano, europeu e asiático.

As abordagens dos investigadores ao desenvolvimento de uma vacina têm sido variadas. Enquanto alguns optam pela abordagem mais tradicional, como vírus inativado ou atenuado para promover uma resposta imune pelo nosso corpo, outros decidiram inovar e usar tecnologia mais recente, como a administração de parte do material genético do vírus.

Antes de serem aprovadas, as vacinas têm de passar por diversas fases de testagem. Inicialmente, são testadas em animais não primatas e, se verificados bons resultados, prossegue-se para ensaios clínicos, que são divididos em 3 fases. Na fase 1, testa-se um número bastante reduzido de pessoas apenas com o objetivo de garantir a segurança da mesma. Na fase 2, para além de se avaliar a segurança é também testada a eficácia da vacina, agora num número alargado de pessoas, normalmente centenas. Se os resultados foram animadores, passa-se para a fase 3 onde milhares de pessoas são testadas. Apenas 10 vacinas se encontram atualmente nesta fase. Dentro destas, as abordagens para o seu desenvolvimento foram variadas.

Numa infeção natural por Sars-Cov-2 mostrou-se importante para a eliminação do vírus a presença de anticorpos neutralizantes e linfócitos T (que atacam e matam as células infetadas). Aliás, em fase precoce da doença são, por vezes, administrados anticorpos que se pensam ser eficazes para o controlo da mesma. Apesar de não se ter a certeza que seja suficiente para prevenir a infeção, a presença de anticorpos e linfócitos T tem sido o foco dos que estão por detrás do desenvolvimento da vacina e portanto são os principais indicadores do sucesso da mesma.

Vacinas com vírus inativado

Estas vacinas são produzidas cultivando o vírus Sars-Cov-2 em cultura celular e depois inativando-o quimicamente. Este procedimento é realizado em laboratórios com o maior nível de segurança. Um exemplo deste tipo de vacina é a que está a ser desenvolvida pela empresa Sinovac Biotech Ltd. sediada na China e por Wuhan Institute of Biological Products e Beijing Institute of Biological Products, ambos em conjunto com a farmacêutica estatal chinesa Sinopharm.

A vacina desenvolvida pela Sinovac teve bons resultados na fase 1 e 2 dos ensaios clínicos (identificação do ensaio clínico - NCT04352608). Na fase 2, a empresa dividiu os ensaios clínicos em voluntários entre 3-17 anos, 18-59 e mais de 60 anos. A vacina é administrada intramuscularmente em duas doses, com intervalo de 14 dias. No total, foram testadas 1718 pessoas. Não foram registadas reações adversas graves e 90% dos voluntários mostraram presença de anticorpos no sangue, doses maiores nos mais novos e doses menos nos mais idosos. Contudo, não foi medida a presença de linfócitos T. Esta vacina foi já aprovada para uso de militares chineses.

A vacina da farmacêutica Sinopharm é também constituída por 2 doses com administração intramuscular. Conseguiram já obter licença para administração na população chinesa, nomeadamente pessoal médico e doentes de risco. Foi já solicitada licença de distribuição da vacina a toda a população, que a empresa espera obter ainda em outubro do presente ano.

Vacinas de proteínas recombinantes

As vacinas constituídas por proteínas recombinantes expressam uma proteína do vírus de maneira a estimular o sistema imunitário. Apresentam, portanto, a vantagem de não ser necessário lidar diretamente com o vírus. A única vacina deste tipo em fase 3 é a Novavax (NCT04368988), empresa sediada no estado de Maryland, Estados Unidos. Esta vacina é constituída pela glicoproteína do Sars-Cov-2 e é também injetada intramuscularmente em 2 doses. Foi já testada em 131 adultos e praticamente todos revelaram presença de anticorpos (em doses maiores do que pessoas naturalmente infetadas com covid) e linfócitos T. Alguns participantes reportaram reações adversas como cansaço e dores de cabeça. Um número muito reduzido de participantes tiveram reações adversas mais severas como dores musculares, vómitos e dor nas articulações. Apesar do referido acima, esta parece ser a que apresenta melhores resultados em termos de imunidade e menos reações adversas. Começou já a fase 3 no Reino Unido (2020-004123-16), com a particularidade de estar a ser testada a segurança de se administrar ao mesmo tempo a vacina contra a Covid-19 e contra a gripe.

Vetor viral não-replicativo

Estas vacinas são constituídas por outro vírus que não o novo coronavírus e que é alterado de maneira a expressar uma proteína do Sars-Cov-2 - a spike protein (ou proteína da espícula) – mas não tem capacidade de replicação. É também administrada intramuscularmente e uma vez dentro do humano expressa a spike protein e estimula o nosso sistema imunitário. Esta vacina encontra-se na fase 3 de ensaios clínicos pela Universidade de Oxford/AstraZeneca, CanSino Biological, Gamaleya Research Institute e a empresa farmacêutica Janssen.

A CanSino publicou os resultados da fase 2 dos ensaios clínicos (NCT04341389) [2] e tem já a sua vacina licenciada para uso no exército chinês. A mesma já foi testada em 2 doses em 508 adultos e verificou-se a presença de linfócitos T e anticorpos. Verificaram-se algumas reações adversas, como febre, fadiga e dores de cabeça em mais de metade dos participantes, tanto piores quanto mais alta a dose administrada. Este estudo apresenta algumas limitações visto a fase 2 ter sido iniciada sem a conclusão da fase 1 e todos os participantes serem oriundos de Wuhan, China (sabe-se que a imunidade pode variar entre adultos de diferentes zonas do globo) e apenas refere imunidade de 28 dias pós vacinação, ficando por esclarecer se a imunidade será duradoura. Esta vacina passou já para a fase 3 (NCT04526990, NCT04540419).

A Universidade de Oxford, em colaboração com a empresa AstraZeneca, testou a vacina em 1077 participantes entre os 18-55 anos nas duas primeiras fases dos ensaios clínicos, ensaios estes que foram suspensos a 6 de setembro após complicações com um dos participantes. Apesar de ter causado grande preocupação, principalmente visto que é esta a vacina encomendada pelo governo português, esta suspensão demonstra-nos que os sistemas de verificação de segurança e testagem funcionam devidamente, apesar de grandes pressões políticas para a sua saída. Os ensaios clínicos foram entretanto retomados.

Na sua maioria, os testados receberam apenas uma dose, tendo ficado reservado para um grupo pequeno a segunda dose. Demonstrada a imunidade, percebeu-se que, a produção de anticorpos e linfócitos T, durou até pelo menos 54 dias após a administração. Foram reportadas dores de cabeça e fadiga, mas a vacina parece apresentar um alto nível de segurança. Será, brevemente, testada em fase 3 em vários países em cerca de 5000 participantes em todo o mundo (NCT04516746). Esta empresa tem já um contrato de venda de vacinas aos países da União Europeia e dizem que a venda será feita ao preço de custo.

Vacina de RNA

Estas vacinas dependem de uma tecnologia extremamente recente e nunca nenhuma com esta tecnologia foi ainda colocada no mercado. É constituída pelo material genético do vírus, que é o responsável por dizer às células aquilo que têm de produzir. Assim, uma vez dentro do nosso corpo, irá levar à produção de uma proteína em específico do vírus que será reconhecida pelo nosso sistema imunitário. Como é uma abordagem recente, há ainda muitas incógnitas, como: se será possível a sua produção em grandes doses, ou como será feito o seu armazenamento. Em fase 3 estão já a Moderna e a Pfizer.

A Moderna (empresa sediada no Massachusetts, Estados Unidos) entrou na primeira fase dos ensaios clínicos logo em Março, pouco depois do Sars-Cov-2 ter sido descoberto. Foi testada em 45 participantes, num regime de 2 doses com intervalos de 4 semanas. Menos de 50% dos participantes apresentaram presença de anticorpos neutralizantes após a primeira administração, no entanto esta presença aumentou após a segunda administração. Mostraram também presença de linfócitos T. Foram testadas várias doses e as reações adversas verificaram-se em em doses mais elevadas. Apenas uma dose está a ser testada na fase 3 NCT04470427, em norte-americanos tendo começado enquanto ainda se está a estudar os efeitos da fase 2.

A Pfizer (empresa baseada em Nova Iorque e uma das maiores farmacêuticas a nível mundial) também testou 45 adultos, em 2 doses crescentes com 3 semanas de intervalo. As reações adversas parecem, uma vez mais, depender da dose administrada e incluem febre, fadiga e dores de cabeça (um participante reportou problemas de sono). Verificou-se a presença de anticorpos mas não de linfocitos T. Estará agora a ser processada a fase 3 (NCT04368728), com mais 40.000 participantes de diferentes áreas do globo. Tem já um contrato assinado com o governo dos Estados Unidos, que insiste em ter a vacina pronta até ao final do ano.

De todas as vacinas acima referidas, há algo em comum. Como serão injetadas intramuscularmente, estimulam apenas o sistema imunitário sistémico (sistema respiratório inferior). Contudo, o sistema mucoso (sistema respiratório superior – por onde ocorre a entrada do vírus) não irá ser imunizado. Isto significa que podem prevenir ou diminuir as consequências da doença mas não necessariamente induzir uma imunidade à entrada do vírus, algo que apenas aconteceria se fosse injetada pelas vias respiratórias, evitando a transmissão da doença. Isto é o que cientistas portugueses estão a tentar fazer. Esse estudos são a grande esperança portuguesa na entrada da “corrida à vacina”.

O que esperar num futuro próximo

A OMS emitiu já um documento com os critérios para uma eventual vacina para a Covid-19. Essa normativa centra-se, nomeadamente, nos riscos que considera como aceitáveis para a sua distribuição. Tem os critérios preferenciais e os critérios mínimos que devem respeitar. Esses parâmetros são: contraindicações; população alvo; segurança; eficácia; doses; duração da proteção e acessibilidade (não são os únicos, são os mais importantes). Preferencialmente, a OMS pede para que não haja contraindicações mas aceita que pessoas imunocomprometidas possam não tomar a vacina. Preferivelmente, todas as idades deverão ter acesso a vacina mas, no mínimo, deverá estar disponível para adultos e idosos. Considera também aceitável a vacina conferir imunidade apenas durante 6 meses.

Apesar de os estudos para a vacina da Covid-19 terem evoluído como nunca, ainda se colocam muitas dúvidas e incertezas. Será necessário mostrar que as vacinas que entraram agora em fase 3 são eficazes numa população bastante alargada. É também especulado que a presença de anticorpos neutralizantes seja sinónimo de imunidade. No entanto isto ainda tem de ser demonstrado em humanos.

Ana Isabel Silva é bioquímica e pesquisadora da área da saúde.

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