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A esperança é necessária para enfrentar novas restrições

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Os sentimentos se entrelaçam na história de muitas maneiras. Dão forma às relações humanas, tanto na família como na política. Permitem ou dificultam a compreensão e a cooperação. Os sentimentos não são singulares, subjetivos e individuais. Ajustam-se aos padrões sociais, obedecem a regras implícitas e explícitas.

Andrés Gómez entrevista Ute Prevert, La Tercera, 18 de dezembro de 2020. A tradução é do Cepat.

Ex-professora da Universidade Yale, Ute Frevert (1954) é uma destacada pesquisadora e membro da Academia de Ciências Leopoldina. Entre suas obras, destacam-se: “As Políticas de Humilhação”, uma história das práticas de humilhação nos últimos 200 anos, publicado pela Universidade de Oxford, e o recente “Emoções poderosas”, uma história dos sentimentos na Alemanha, de 1900 até o presente. Junto a uma vintena de cientistas, Ute assinou, nesta semana, uma carta que pede bloqueios rigorosos para o Natal e o Ano Novo, com o objetivo de evitar uma alta nos contágios.

Como descreveria este ano, do ponto de vista das emoções?

Eu descreveria como um ano de emoções e políticas emocionais altamente ambivalentes. Experimentamos uma pandemia mundial. Experimentamos medo de nos infectar, especialmente naqueles países cujas populações se esqueceram das doenças infecciosas graças ao avanço dos tratamentos médicos e a baixa mortalidade, nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, a pandemia foi enfrentada, nos países afetados, com uma política de fechamento que me recordou as tentativas de controlar as epidemias de inícios do século XIX: fechar fronteiras, retirar-se para pequenas comunidades e famílias. Ao se aproximar do círculo íntimo, as ameaças globais enfrentaram as comunidades emocionais unidas da família e, no máximo, dos amigos próximos.

No início, houve muita incerteza em relação à pandemia. Em sua opinião, qual foi o efeito desta incerteza?

Teve dois efeitos, em ordem cronológica. Inicialmente, as pessoas recorreram à ciência, sobretudo à virologia. Supunha-se que a ciência deveria oferecer certezas em termos de uma explicação clara das causas e os efeitos. Uma vez que as pessoas se sentiram frustradas com as dificuldades inerentes à busca de conhecimento científico, muitos se afastaram da ciência e se aproximaram dos mitos conspiratórios que rapidamente explicavam o mundo a partir de um princípio.

Em muitos lugares, os governos enfrentaram a ameaça da Covid-19 com uma narrativa de guerra. Qual foi o impacto disso?

A narrativa era destinada, assim como em todas as guerras, a unir as pessoas por trás do governo. Ao mesmo tempo, obscureceu o fato de que o vírus não tem intencionalidade. Não tem estratégia, nem intenção de destruir. Não tem moral, nem objetivos. Não produz heróis, nem mártires, mas vítimas indiscriminadas. Conceber o vírus como um agente de guerra perde completamente o sentido e engana as pessoas, fazendo com que pensem que elas próprias podem fazer algo para enfrentar e derrotar ativamente o vírus.

A gestão da pandemia fortaleceu o papel de controle do Estado. Pode ser que estejamos no limiar de uma nova era de vigilância estatal, conforme observam filósofos e intelectuais?

De um ponto de vista histórico, considero essas observações superestimadas e superdramatizadas. Claro, ao menos inicialmente, era o momento do executivo, já que todos dependíamos e seguíamos as ordens do governo. Mas o governo imediatamente solicitou a ajuda da ciência, como parte da sociedade civil. E rapidamente encarou os parlamentos e pediu para que discutissem as medidas tomadas, e que as descartassem, mantivessem ou revisassem em termos de procedimentos legislativos. Aqueles que temem um maior grau de vigilância estatal deveriam, em minha opinião, se preocupar muito mais com a quantidade de monitoramento e vigilância demonstrados pelas corporações internacionais como Google, Facebook e Amazon, incluindo seus pares chineses.

Os sentimentos de perda e angústia estiveram muito presentes nos momentos mais duros da pandemia. Observou empatia por parte dos governos?

As políticas governamentais não tratam de empatia. Buscam proteger os cidadãos nacionais das dificuldades, o fracasso e as agressões externas. Foi surpreendente ver como os governos europeus se uniram para fazer da vida e a sobrevivência dos cidadãos seu principal objetivo. Esta consideração ética triunfou sobre o capitalismo. Esta foi uma lição a aprender.

Este também foi um ano de expressão de ira e indignação: o movimento Black Lives Matter talvez seja seu melhor exemplo. Que relação vê entre a expressão de ira e a busca por justiça?

A ira pela injustiça é a arma mais poderosa nas democracias modernas para mudar a política. As manifestações de rua que dão voz e rosto a tal ira podem e conseguem muito para alertar os governos sobre a necessidade de ajustar a política.

O ano termina com novas ondas, novos fechamentos e a esperança de que a vacina resolva. Neste ponto, qual é o papel da esperança?

A esperança é primordial, e é muito necessária para guiar as pessoas a um ano de restrições e limitações. No entanto, a esperança não é um sentimento elevado, mas fundamentado e reforçado por um fato material: a vacina. Não resolverá todos os problemas, mas nos permitirá recuperar certo grau de segurança em nossas práticas e comportamentos cotidianos.

Um esporte popular e daninho

Na complexa teia das emoções, a humilhação encontra um espaço relacionado às expressões de ira e ódio. Em seu livro “As Políticas de Humilhação: uma História Moderna”, Ute Frevert perseguiu estas práticas do século XVIII até o presente. Lançado em 2018 na Alemanha, neste ano, foi publicado pela editora da Universidade de Oxford.

“Eu estava fascinada e intrigada pelos muitos casos de “mulheres tosquiadas”, mulheres em países ocupados pelo exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial, que tiveram aventuras com soldados alemães ou outros oficiais. Após a libertação, foram expostas publicamente e suas cabeças foram raspadas. Queria entender por que e como isto aconteceu e por que aconteceu em tantos lugares diferentes, tanto na Polônia como na Noruega, Grécia e França. Aconteceu até mesmo, em um formato ligeiramente diferente, na Irlanda do Norte, durante os Troubles, dos anos 1970, quando as jovens católicas que saíam com soldados britânicos eram amarradas em um poste, alcatroadas e cobertas de penas”, conta.

Qual foi o papel exercido pela humilhação pública na história?

Na Europa, a humilhação pública foi amplamente utilizada durante o período inicial da modernidade pelas autoridades locais. Fazia parte integral dos procedimentos legais e ajudou a forjar uma união sólida entre a comunidade e as autoridades. Durante a primeira metade do século XIX, a política legal mudou devido a uma nova compreensão da cidadania e a honra cívica. O Estado se absteve cada vez mais de impor sanções vergonhosas aos cidadãos. O pelourinho desapareceu dos mercados (ou ao menos não eram mais utilizados), assim como a açoitamento público. O Estado também interveio para eliminar as práticas comuns de humilhação pública, como os charivaris e a música dissonante.

Ao mesmo temo, a humilhação persistiu em instituições oficiais, como escolas ou militares. Nelas demorou muito mais tempo para ser abolida. Ao ir à escola nos anos 1960, ainda me lembro de ter que ficar parada no canto da sala de aula, virada de costas, quando fazia algo que desagradava o professor. A punição veio, aqui, sob a forma de vingança pública, como em muitos outros casos e instituições.

Quem exercia e exerce a humilhação?

Aqueles que têm o poder ou assumem poder sobre outros. Podem ser autoridades, o sistema legal, professores, pais, os meios de comunicação. Mas também podem ser indivíduos que buscam melhorar ou fortalecer seu status em um grupo social e para isso menosprezam a outros. Nos últimos tempos, podemos observar o que poderia se chamar de democratização da humilhação: todo mundo faz isso. Tornou-se onipresente graças à disponibilidade das redes sociais.

Qual é o papel das redes sociais neste âmbito, hoje?

Ampliaram tanto a gama de atores como a de espectadores. Todo mundo pode se conectar e publicar um insulto contra outra pessoa no Facebook. E com certeza obterá muitos “likes” que confirmam seu status e estimulam ir além. Todo mundo pode utilizar as diversas plataformas de vergonha e publicar uma foto de alguém que seja muito gordo ou muito magro, muito promíscuo ou muito tímido. A vergonha pública se tornou algo como um esporte popular, mas extremamente daninho às pessoas que são alvo. Dado que a audiência virtual é enorme, você não pode escapar da vergonha, não consegue se esconder. Sua autoestima diminui, você se sente fraco e impotente. Estas práticas podem literalmente destruir as pessoas.

Qual é a sua opinião a respeito das reações de intolerância a comentários inapropriados? Penso no caso de J. K. Rowling.

Como tendência geral, as pessoas se tornaram mais sensíveis ao que consideram um ataque à sua honra e dignidade. Sentem-se mais vulneráveis e querem fazer valer seu direito de não ser envergonhadas, nem humilhadas. Esta é uma grande conquista e seria ainda maior se fosse possível reduzir completamente a vergonha pública, que paradoxalmente não funciona assim.

Por outro lado, existe uma tendência a enfatizar muito as próprias afirmações morais e emocionais à custa dos outros. As sociedades precisam de uma base comum do pode ou não ser dito e feito. Estes motivos são atualmente muito controvertidos, o que fala positivamente da vivacidade e energia de uma determinada sociedade.

A Internet e as redes sociais também são um lugar para discursos de ódio e exclusão. São toleráveis? Como afetam a democracia?

Não, não são toleráveis, e os estados democráticos precisam fazer tudo o que for possível para reduzir essas práticas odiosas. Mas não é apenas uma questão de ação legal e estatal. Também urge que os cidadãos tomem uma postura firme, distanciem-se de tais práticas e ajudem ativamente os afetados. Para ser uma sociedade civil, todos nós precisamosagir de maneira cívica e civilizada, e temos que tomar medidas contra aqueles que não cumprem as regas de comportamento civilizadas.

Ute Frevert é diretora-executiva do Centro de História das Emoções, em Berlim.

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