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Ao redor do teletrabalho: origem e aproveitamento na atual crise

Duas matérias mapeiam o passado e o presente do teletrabalho, para que possamos discutir seu futuro

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O teletrabalho não era isto, alertam os especialistas

Alicia Rodríguez de Paz, La Vanguardia, 18 de maio de 2020. Reproduzido do IHU-Unisinos. A tradução é do Cepat.

Com a declaração do estado de alerta, a Espanha passou de um dia para o outro a ter milhares de pessoas ocupadas trabalhando em casa. Transcorridas algumas semanas e quando se começa a propor um lento processo de suspensão das restrições de mobilidade e atividade, também começam as reflexões sobre que tipo de teletrabalho está ocorrendo. Em uma primeira análise sobre a experiência desde o início do confinamento, pesquisadores do Centre d’Estudis Sociològics sobre la Vida Quotidiana i el Treball (QUIT), da Universidade Autônoma de Barcelona, não oferecem um balanço especialmente otimista. “A dimensão presencial está sendo transferida para o teletrabalho, com um controle dos trabalhadores através do aumento de videoconferências, chamadas e mensagens a qualquer momento. É como ter o chefe em casa”, destaca Óscar Molina, autor, juntamente com Alejandro Godino e Alba Molina, de um estudo sobre teletrabalho, durante a crise da Covid-19.

Com essa mudança abrupta para muitas empresas e trabalhadores, os pesquisadores do QUIT analisaram como se espalhou o teletrabalho com a pandemia, tomando como indicador a forma pela qual as empresas controlam o desempenho da força de trabalho. A avaliação de resultados e objetivos está presente em quase metade dos entrevistados, mas outros 28% falam em “reuniões e comunicações com superiores e gerentes por meio de diferentes canais (e-mails, chamadas, videoconferências)”, segundo pesquisa online, realizada entre 27 de março e 17 de abril, e que foi respondida por 670 funcionários de diferentes setores. Deles, 16% também fizeram referência a esse tipo de comunicação com os colegas. Molina explica que uma parte da troca de e-mails e chamadas, às vezes não muito produtivas, pode ser interpretada como um mecanismo de controle tradicional, que acaba complicando também o cumprimento de objetivos.

 

“O teletrabalho não é um trabalho presencial a distância. E menos 12 horas por dia. O teletrabalho não era isto”, afirma, de Barcelona, Raül, um profissional de 43 anos. “Às 21 horas, enquanto preparo o jantar, começo a olhar o celular, a ler e-mails. Telefonam-me fora do horário de trabalho... Você fica constantemente pensando em trabalho”. Além disso, Raül lembra que, como muitos outros trabalhadores, precisa combinar o trabalho diário com o cuidado de seus filhos pequenos, ausentes das salas de aula há alguns meses.

 

Embora a professora de Estudos de Economia e Empresa da UOC, Mar Sabadell, considere difícil fazer uma avaliação do teletrabalho da Covid-19 porque “o padrão é muito diferente”, reconhece que estão produzindo “muitas ineficiências e desajustes”. “Nesse contexto excepcional, não é possível planejar, não houve uma mudança na cultura empresarial e, em seguida, uma mudança organizacional, os trabalhadores tiveram que se adaptar, tiveram que aprender pelo caminho. Passou de um teletrabalho escasso para um caráter massivo”, ressalta.

 

Tanto Molina como Sabadell concordam com o risco de aplicar modelos baseados na presencialidade, que tendem a demonstram que se está disponível 24 horas por dia, sempre conectados. Um perigo, portanto, de “intensificação” do trabalho e de ampliação da jornada de trabalho e, junto a isso, situações de estresse laboral. Ao mesmo tempo, em casa, existem legiões que enfrentam o desafio de trabalhar em conjunto com seu parceiro (que também pode estar trabalhando remotamente) e seus filhos.

 

As jornadas de trabalho aumentaram de maneira generalizada, explica a especialista da UOC, ao mesmo tempo em que as vincula às “ineficiências” já mencionadas quanto à incerteza, ao medo de perder o trabalho nas circunstâncias atuais. “Mas temos que superar isso, não podemos ir para uma quarentena dos direitos, da intimidade, da seguridade e da saúde laboral, mas ter uma jornada, cumprir o horário e os descansos”, defende Mar Sabadell.

 

A ampliação do teletrabalho também dinamitou a aplicação do registro horário - uma ferramenta obrigatória desde maio de 2019 -, indica a análise do QUIT. Apenas 6% dos entrevistados pela equipe de Molina afirmam que estão registrando sua jornada diária. Por outro lado, outros 15% declaram “não prestarem contas de nenhum tipo”. Teletrabalho não era isto. A professora Sabadell lembra que o teletrabalho é uma fórmula mais flexível, uma alternativa ao trabalho presencial, com a qual devem ganhar empresas e funcionários: um com mais produtividade e o outro com a possibilidade de ter uma vida mais equilibrada e saudável. O trabalho remoto, insiste, é baseado na confiança e não no controle, na capacidade de se organizar do trabalhador e em sua responsabilidade.

 

“Assume-se que o teletrabalho é bom por si só, pois permite conciliar, reduzir as emissões... nunca paramos para pensar que devemos ter padrões de qualidade (no trabalho remoto deve-se respeitar as garantias individuais e coletivas dos trabalhadores, ter representação sindical, horários, disponibilidade...) ”, lamenta Óscar Molina.

 

O teletrabalho chegou repentinamente à vida de milhões de europeus. Um estudo recente da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho (Eurofound) estima que quase 40% dos empregados na União Europeia começaram a teletrabalhar como consequência da pandemia. Na maioria dos países, o percentual é de cerca de 30%. Destacam-se os países nórdicos (cerca de 60%) e a região formada pela Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Dinamarca (cerca de 50%).

 

A análise da agência tripartite da União Europeia também conclui que boa parte dos teletrabalhadores durante o confinamento já possuíam algum tipo de experiência anterior em seguir com o seu trabalho de forma remota.

 

Antes da crise da Covid-19, a Espanha estava entre os países europeus que menos recorriam ao teletrabalho, com apenas 4,8% dos funcionários trabalhando de suas casas em 2019. No entanto, a pandemia forçou a ampliar esta modalidade de emprego. O Instituto Valenciano de Pesquisas Econômicas (IVIE) estima que se superou a porcentagem de trabalhadores que tinham em suas empresas os meios necessários para o teletrabalhar, situado em torno de 25%.

 

O que acontecerá quando terminarem as restrições? “Os resultados de nossa pesquisa - defende o professor da UAB - nos levariam a pensar que, apesar do otimismo predominante, não haverá um aumento significativo no teletrabalho sem alterar as dinâmicas organizativas e de controle tradicionais. O mais provável é que se retornará à lógica presencial e a maioria voltará para o escritório”.

 

Por sua parte, Mar Sabadell aposta em aprender com os erros cometidos. “É necessário fazer uma análise das dificuldades que ocorreram, individualmente e no nível da organização. Avaliar essa experiência. E, como se prevê que a situação vai se repetir, é bom nos preparar. Não podemos dizer que não estávamos preparados”.

O teletrabalho nasceu de outra crise

Carlos Joric, La Vanguardia, 21 de maio de 2020. Reproduzido do IHU-Unisinos.

O teletrabalho se tornou um dos aspectos distintivos dessa nova realidade de trabalho pós-covid-19. Uma medida excepcional, forçada pelas circunstâncias e favorecida pela tecnologia, que em determinados setores poderia se tornar a norma. Qual a origem dessa forma de trabalho?

Na verdade, se olharmos para trás (muito) para trás, o trabalho em casa foi mais a norma do que a exceção. Assim como a revolução digital propiciou a expansão do teletrabalho, a revolução agrícola do neolítico, ocorrida cerca de 10.000 anos atrás, permitiu que as sociedades de caçadores-coletores parassem de se movimentar em busca de alimentos e pudessem cultivá-lo ou criá-lo em suas casas.

Com o desenvolvimento dos assentamentos humanos, aumentou a divisão e a especialização do trabalho. Os grupos sociais começaram a se diferenciar, entre outros aspectos, de acordo com o seu ofício. No entanto, com poucas exceções - boiadeiros, transumantes, vendedores ambulantes, pescadores... -, a maior parte dos trabalhadores realizava seu trabalho na esfera doméstica: granjas, oficinas, comércios, palácios, edifícios religiosos...

De fato, os ofícios que envolviam certo nomadismo não eram bem vistos. Inclusive se chegou até a discriminar quem os desempenhava, como na Espanha, os maragatos (León), pasiegos (Cantabria), vaqueiros (Astúrias) ...

Sair para ganhar o pão
Com o início de outra revolução, a industrial, o sistema produtivo se transformou completamente. Não era mais o comerciante que ia à casa do artesão, mas o artesão que ia à “casa” do comerciante, à fábrica, para trabalhar nela.

 

Diante da impossibilidade de competir com a produção em massa, grande parte dos artesãos não teve escolha a não ser se tornar um trabalhador assalariado. Junto com eles, foi incorporada uma grande força de trabalho não qualificada, principalmente camponeses empobrecidos que se mudaram do campo para os centros industriais. Nascia o proletariado.

 

Na primeira metade do século XX, o desenvolvimento da sociedade de consumo gerou uma maior variedade de profissões, permitindo o crescimento da classe média urbana. O mercado de trabalho se diversificou e se estratificou como nunca. No entanto, a maioria dos funcionários ainda tinha algo em comum: trabalhavam fora de casa. Alguns deixavam suas casas rumo às fábricas ou explorações industriais e outros se mudavam para o centro da cidade, onde estavam as oficinas e os estabelecimentos comerciais.

 

Fora deste sistema, restavam poucos. A maioria eram pequenos comerciantes e profissionais liberais (artistas, advogados, médicos, arquitetos), que tinham a oficina, a loja ou o escritório em sua casa. Assalariados que tradicionalmente moravam no local de trabalho, como professores, clérigos, empregados e porteiros de edifício, foram pouco a pouco residindo em sua própria casa.

 

As primeiras “teletrabalhadoras”
Na maioria das casas ocidentais, na segunda metade do século XX, apenas permaneciam as donas de casa. Algumas, por necessidade ou interesse (muitas mulheres foram expulsas do mercado de trabalho após ingressar nele durante a Segunda Guerra Mundial), decidiram combinar seus trabalhos domésticos com o trabalho remunerado.

 

Os trabalhos mais comuns tinham a ver com suas próprias habilidades domésticas: costurar e passar, principalmente. Outros implicavam algum tipo de formação diferente: mecanografia, cabeleireiro, aulas particulares... A maioria eram trabalhos esporádicos praticados fora da economia oficial.

 

Também existia um tipo de emprego muito popular - e bastante precário - que ainda continua funcionando: os trabalhos manuais. Empresas que pagam trabalhadores para que, de suas casas, montem bijuterias, canetas, coloquem cartas em envelopes, montem caixas (como as pizzas que aparecem no filme recente Parasita).

 

Foi nesse contexto doméstico onde surgiu um novo método de trabalho: vender em casa. Empresas como a popular Tupperware implementaram, com grande sucesso, um sistema de vendas por demonstração articulado através das chamadas party plan, reuniões organizadas por uma “anfitriã” em sua casa, onde apresentava e vendia os produtos ao seu círculo social. Embora hoje em dia a figura da “anfitriã” tenha sido separada da vendedora (que se desloca para outras casas), no início, durante os anos 1950, costumava ser a mesma pessoa.

 

O “pai” do teletrabalho
“Teletrabalho” (telecommuting, em inglês) foi um termo cunhado pelo engenheiro da NASA Jack Nilles. A ideia surgiu como uma resposta à escassez de combustível que ocorreu nos Estados Unidos, em 1973, devido ao embargo de petróleo decretado por exportadores árabes aos países que apoiavam Israel na Guerra do Yom Kipur.

 

Em seu inovador estudo Telecommunications-Transportation Tradeoff (1976), Nilles argumentou que “se um em cada sete trabalhadores não precisasse se deslocar para seu local de trabalho, os Estados Unidos não precisariam importar petróleo”.

 

A partir dessa crise, o teletrabalho esteve muito presente no debate público. Em 1979, o Washington Post publicou o influente artigo “Working at Home Can Save Gasoline”, em que se tratava desta questão. Junto às vantagens relacionadas à economia e a menor dependência energética, os defensores do teletrabalho acrescentaram outras: redução de engarrafamentos, revitalização social e comercial de bairros residenciais e cidades-dormitório, favorecendo a conciliação trabalho-família e, portanto, acesso das mulheres ao mercado de trabalho (a questão da paridade ainda estava em sua infância), diminuição da poluição...

 

No entanto, também houve vozes contra. Os sindicatos temiam que os empregadores usassem o teletrabalho para cortar salários, prolongar a jornada de trabalho e evitar custos sociais contratando (falsos) autônomos. O patronato, por sua vez, via com bons olhos as economias que implicava a redução de infraestruturas, mas desconfiavam da falta de controle físico sobre o empregado, tanto para encorajá-lo, como para discipliná-lo.

 

Como vemos, esses argumentos são praticamente idênticos aos que estão atualmente em debate. Embora com uma grande diferença: uma parte do ceticismo que gerava o teletrabalho durante seu início esteve motivado pela precariedade dos sistemas de armazenamento de informações e telecomunicações existentes.

 

Apesar dessas limitações, algumas empresas estadunidenses, como IBM, American Express e General Electric, começaram a experimentar trabalhos remotos nos anos 1980. Uma década depois, com a expansão da Internet e dos computadores pessoais, o teletrabalho começou a ser visto como uma alternativa viável ao trabalho presencial. Os governos começaram a implementá-lo em suas próprias administrações e a promovê-lo como parte dos planos para a conciliação da vida pessoal e profissional (na Espanha, o Plano Concilia de 2005).

 

Hoje, coincidindo significativamente com outra crise global, as previsões feitas por Jack Nilles, há quase meio século, podem se tornar realidade. O experimento já está feito. Grande parte do mundo está ou esteve em teletrabalho durante várias semanas. Agora é o momento de analisar os resultados. O teletrabalho fará parte da esperada “nova normalidade”?

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