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Assassinato em Coyoacán, à meia-noite do século XX

Oitenta anos depois de que se fechassem sete chaves sobre seu sepulcro, Trotsky segue sendo um de nossos enlaces no tempo

· IV Internacional,Vale a pena ler,Formação,Documentos

Pepe Gutierrez-Álvarez, Viento Sur, 23 de agosto de 2020
 

O momento de seu assassinato foi pródigo em notícias. Depois de se anexar a Áustria (13/03/1938) e de invadir a Tchecoslováquia (15/03/1939), se assina o pacto nazi-soviético (22/08/1939), ocorre a ocupação da Polônia (1/08/1939), começa a II Guerra Mundial, em junho de 1940 os nazistas ocupam Paris, e dias antes de que Mercader cumpra seu mandato, estamos no início dos bombardeios sistemáticos da Luftwaffe sobre a Grã-Bretanha.

Aos militantes do POUM, a notícia de sua morte lhes chega nos campos de concentração ou na clandestinidade francesa. Não se trata, evidentemente, de uma conjuntura com muito espaço para que se provocasse a “indignação e a dor” entre a “classe trabalhadora”, tal como declarava Joseph Hansen, o jovem secretário e militante do Socialist Worker’s Party (SWP, seção estadunidense da Quarta Internacional), que foi quem arrancou o piolet de Ramón Mercader.

Seu funeral – que no início estava previsto em Nova York mas o governo de New Deal não se atreveu a dar um visto nem a seu cadáver – foi acompanhado por trezentas mil pessoas, em sua imensa maioria pobres que, de alguma maneira, sentiam que a vítima podia ser algum familiar. Pelas ruas ressoava o “Grande Funeral de Leon Trotsky”, composto por um bardo anônimo, e no qual se destacam estrofes como a seguinte: “Morreu Leon Trotsky assassinado/ da noite para a manhã/ porque haviam premeditado/ vingança cedo ou tarde. Foi uma terça-feira pela tarde/ essa tragédia fatal/ que comoveu o país/ e toda a capital”.

Por sua vez, tampouco a imprensa diária aprofundou especialmente sobre a questão. Em linhas gerais enfocou o drama como um “ajuste de contas” entre comunistas, quando não comentou favoravelmente o assassinato reclamado não somente pelos jornais comunistas oficiais mas também por setores da direita, como por exemplo os da cadeia Hearts. Na URSS, Pravda intitulou a notícia como “A morte de um espião internacional”, de um “homem cujo nome pronunciam com desprezo e maldições os trabalhadores do mundo inteiro”. Num artigo aparecido em dezembro de 1987, o historiador e general Dimitri Volkogonov detalhava a reação de Stalin, contando que “leu com atenção o artigo e fez uma careta… Resulta que tudo era um caso de espionagem e eu lutei todos estes anos contra um espião. Por que tanto luxo de detalhes? Parece como se o assassinato tivesse ocorrido em Moscou!”. Parecia evidente que a “atualidade da revolução” proclamada desde a III Internacional, havia desaparecido. Manuel Fernández Grandizo (G. Munis), que havia embarcado para o México no fim de 1939, estabeleceu por então uma relação pessoal com Trotsky e sua companheira, Natalia Sedova, e Trotsky lhe pediu que se fizesse responsável da seção mexicana, muito desorientada depois do abandono de Diego Rivera. Foi Munis quem tomou a palavra no funeral de Trotsky no Panteão Moderno e “interveio repetidamente no processo iniciado contra o assassino como representante da parte acusadora. Enfrentou decididamente os parlamentares stalinistas, também a campanha da imprensa stalinista mexicana, que acusava Munis, Victor Serge, Julian Gorkin (ainda no POUM) e Marceau Pivert de agentes da Gestado. Apesar da ameaça de morte realizada pelos stalinistas, Munis desafiou os deputados mexicanos que o caluniavam a renunciar a imunidade parlamentar para enfrentá-los num tribunal” [1].

Frente à indiferença ou à maldição erguem-se algumas poucas vozes ilustradas que denunciam o assassinato e que acusam sem rodeios os responsáveis. Foi o caso do companheiro de viagem do SWP, James T. Farrell (1904-1979), célebre autor do romance Stud Ludigan, que recordava em seu particular “tributo ao grande velho” como ao final de sua vida, ao declarar ante a Comissão Dewey, Trotsky, evocando um momento de sua adolescência, resumiu assim toda sua trajetória e sua fé: “Senhoras e senhores da Comissão: a experiência de minha vida, na qual não faltaram êxitos e fracassos, longe de destruir minha fé no futuro brilhante e claro da humanidade, me deu pelo contrário, uma têmpora indestrutível. Esta fé na razão, na verdade, na solidariedade humana que aos 18 anos me levou ao bairro operário da provinciana cidade russa de Nikolaief, lhe conservou total e inteiramente. Voltou-se mais madura, mas não menos ardente. Na formação mesma desta Comissão… veio um novo e magnífico reforço do otimismo revolucionário que constitui o elemento fundamental de minha vida”. Farrell destaca como aquele “intelectual que sai em busca dos operários (“sem esperar nem perguntar a ninguém”) até o revolucionário veterano, grande em seu desterro, persiste confessando sua ‘fé na razão, na verdade e na solidariedade humana’”.

Igualmente aparecem vozes potentes na América Latina, em parte pela proximidade do evento, em parte também pela paixão que ainda suscitava o “processo da revolução russa (que) continua aberto e estará isso ainda durante muito tempo”, dizia Ciro Alegría [2], que declara: “Esta revolução do ano 17 trava ainda sua batalha, que será mais dura no momento em que decida campar pelo mundo ou quando seus adversários balancem numa tentativa de afogá-la”. Desde esta perspectiva, contempla “com tristeza e angústia” a morte de Leon Trotsky, ao qual define como “um homem de pensamento e um homem de ação e, sobretudo, na acepção mais ampla do termo, um revolucionário”. Isso por mais que seus inimigos tenham levado uma “campanha mundial de desprestígio”, o que não era “mais que enésima repetição de como a ‘história mostra que a humanidade chama sonhos às realidades distantes”.

Em opinião de Ciro, Trotsky não foi um simples idealista; isso havia demonstrado “manejando o método marxista e uma vez conseguida a vitória inicial dentro da Rússia, arquitetou um plano revolucionário factível e cuja eficácia, em todo caso, é impossível negar a menos que se assuma, o papel de adivinho cigano”. Não cabe falar pois de “falta de realismo”, esta é – dentro da linguagem revolucionária – “uma palavra perigosa”. O “realismo” de Trotsky é o de Lenin que soube conjugar a NEP com o “espírito revolucionário”. Trotsky combateu “por fazer triunfar seu conceito, viveu uma existência heroica de cujo mérito está chamado a testemunhar o tempo”.

Destaca “de modo especial seu labor de escrito, pois em Trotsky, escrever era também uma maneira de atuar (…) Dono de um estilo brilhante, com uma clareza expositiva e uma habilidade polêmica realmente extraordinária, escrever significava para ele combater, atacar, defender, semear. Numa palavra, atuar. Seu pensamento trabalhava por se fazer ação a cada dia e é como um símbolo o fato de que Trotsky tenha morrido com o crânio cindido por um golpe de picareta”.

Ciro concluirá dizendo que “se cale o alvoroço, Trotsky surgirá na história como um homem que interviu com decisão e lucidez, numa grande parte da jornada do mundo”, por outro lado, Ciro entende que em relação à “contenda entre Trotsky e Stalin se disseram muitas palavras inúteis e será muito rara a voz que tenha falado por cima das necessidades subalternas de uma ou outra facção. De todos os modos, o fato de que Stalin ganhasse a partida Trotsky prova já que é um lutador hábil. Com isso não aludo aos cruentos expurgos moscovitas que feriram de má maneira o coração dos revolucionários do mundo. Me refiro ao tempo em que ambos enfrentaram dentro da mesma Rússia e Stalin venceu. Mas a prova de quem teve a razão não chegou ainda…”.

Por sua vez, Ernesto Montenegro intitula seu trabalho Trotsky, professor de consciências [3], no qual começa recriando uma cena da miséria de um estrangeiro nos EUA para assegurar que de “haver presenciado essa simples cena, que a muitos pareceria grotesca ou quando mais divertida, o grande coração de Trotsky teria se emocionado. Teria sorrido e estreitado a mão do velho, com efusão de camarada”.

Depois se refere ao “heroísmo moral de um padre La Casas”, para estabelecer uma comparação de uma atitude que “pressupõe não somente o risco da vida, mas também o sacrifício cotidiano de amigos, família, comodidades corporais, resignação ao mal-entendido do vulgo e à calúnia dos grupos interessados, e a renúncia a isso que os teólogos chamam o respeito humano”.

O escritor crê que no revolucionário assassinado “tudo é claro, firme e rotundo. Seus sessenta anos correm retos atrás de sua missão, sem um desfalecimento. Seu inimigo salvou-o de ver emporcalhar-se seu ideal nos acordos e claudicações de que, entretanto, devia de ser acusado um dia e nas quais seu rival tinha de cair realmente anos mais tarde. A orgulhosa vida de Trotsky, disse alguém. Magnífico orgulho esse que sustenta a um homem por mais de vinte anos de desterro, e que na agonia lhe impulsiona a confirmar sua fé no porvir da humanidade. Ante seu exemplo, algo não pode deixar de ser dito: pode que o comunismo de Trotsky não seja “toda” a verdade, é possível que sua doutrina chegue a ser superada por uma fórmula mais flexível, que abrace toda a complexidade da natureza humana e nas aspirações inefáveis do espírito, uma sociedade na qual o lutador encontre ocasião de se empregar na luta, o sonhador em seus sonhos e até o místico em recolhimento ultraterreno. Mas a vida de Trotsky, seu pensamento, sua consciência, iluminarão o porvir como uma tocha acesa e faiscante, na qual um herói genial fundiu suas experiências e suas angústias, o fracasso político, seus filhos mortos em reféns, sua errância pelo mundo ante o acosso de seus inimigos, esvaziando seu pensamento em palavras fortes e polidas de artista, de apóstolo e de pensador”. Em seu obituário El último combatiente[4], o escritor chileno Manuel Rojas (1896-1973) escreverá que sua morte punha “um ponto final à história do partido bolchevique russo. Um grande partido morre com o grande homem que era seu último combatente. Com o partido e com o homem termina, de uma vez e para sempre, em todos seus aspectos vitais imediatos, o movimento social e político que esse partido e os homens que os formam promoveram na Rússia e que tanto alcance e transcendência teve no mundo. Começou a declinar com a morte de Lenin, que trouxe como consequência o isolamento e a perseguição de Trotsky; morre definitivamente com este. Definitivamente, porque o que resta, aquele que no terreno social e político foi realizado por esse partido e por esses homens é um organismo que está muito longe desses homens e desse partido: um Estado operário degenerado, como o próprio Trotsky dizia”.

De fato, esta definição pertencia a Vladimir Ilich Lenin, que nas palavras de Rojas “morreu a tempo, ou seja, quando a revolução russa parecia ser ainda uma revolução, o solitário de Coyoacán deveu contemplar, durante todos os anos de perseguição e de desterro, como sua obra, à que dedicou muitos ou todos seus anos de juventude e maturidade, ia sendo – como o mesmo denunciou – traída. Isso, contudo, doloroso para ele, o engrandeceu em si mesmo e ante os demais”. Mas a grandeza de Trotsky não radicava em ser um homem de partido, ou de haver realizado a revolução, mas, em primeiro lugar, porque criou partido e acontecimentos ou contribuiu a criá-los, e em “segundo lugar, porque enquanto um, uma vez saído de suas mãos, degenerou, e o outro se apagou com ele mesmo, ele, em contrapartida não fez senão crescer e afirmar, de modo que podemos estimar eterna, sua personalidade. Poderá o Estado operário degenerado de hoje descender até chegar a ser não mais que uma aldeia burocrática idiota e poderá amanhã o partido bolchevique, depois de frio exame, ser declarado um organismo mais perniciosos que benéfico para a causa da revolução socialista; tudo isso poderá suceder. Apesar disso, e apesar de muitas coisas mais, Trotsky permanecerá. Este homem não pertence somente à classe operária, aos partidos revolucionários ou ao socialismo. Pertence à humanidade, assim como pertencem já Lenin, Engels e Karl Marx”.

Rojas admirava o revolucionário mas também o escritor, sua “entidade humana”. Sua figura – diz – “não tem, dentro das fileiras dos manifestantes do socialismo, semelhante algum nem o terá em muitos anos. Talvez não o terá nunca mais. Tampouco o tem em outros campos. Sua profundidade de visão, sua certeza de previsão, a honradez de sua conduta, seu valor moral, mental e físico, seu fundo sentido do que é o homem e do que deve ser, são qualidades que se dão dificilmente num só ser humano. Nele se deu tudo junto e com uma generosidade exemplar”. E conclui dizendo: “O homem que o matou e os homens que mandaram matá-lo não souberam o que faziam. Ao assassinar Lev Davidovich eliminaram o único homem que podia ter-lhes dito como poderiam eles sobreviver”.

Outro sul-americano ilustre, o advogado nicaraguense Adolfo Zamora, companheiro de Sandino [5], autor do prólogo de uma edição popular mexicana de alguns dos últimos escritos de Trotsky relacionados com a conspiração que culminaria com seu assassinato e que, com o título de Los gángsters de Stalin (Ed. América, México, 1940, pp., 11-12; reedição em Ed. Renacimiento, Sevilla, 2020) apareceu no final de setembro de 1940, e no qual escreveu: “Certamente, o assassinato de Trotsky é um triunfo que consegue o Kremlin. Com Trotsky foi totalmente liquidado o grupo diretivo da revolução de outubro. O ‘imenso erro’ de 1928 – desterrar Trotsky – foi ‘corrigido’. A morte privou a classe operária do guia certeiro dos aziagos decênios do fascismo ascendente, da decomposição stalinista, da segunda guerra geral imperialista. Triunfante até hoje em todos as frentes, a reação – pelo braço de Stalin – triunfou uma vez mais… A morte de Trotsky marca o momento mais profundo das trevas do mundo capitalista. Ao mesmo tempo denuncia por sia encarniçada pressa as angústias em que se debate o regime burocrático da União Soviética. E por aí marca o nascimento de uma nova aurora vermelha. Stalin raciocina agora: sem Trotsky, a Quarta Internacional não poderá empreender nada. Como bom burocrata antes e como bom déspota agora, Stalin se equivoca. Trotsky, nos dias de seu desterro, somente, perseguido, possuía todo o poder da ideia revolucionária, era o princípio de um novo impulso da classe operária. Stalin, com seu imenso aparato, seu poderio momentâneo e sua GPU, somente representava o refluxo histórico de efêmera existência. A nova Internacional, criada pelo gênio de Trotsky, alcançou já uma etapa de desenvolvimento que a capacidade para fazer frente às grandes tarefas revolucionárias que lhe reserva o próximo futuro da humanidade. A Komintern, em contrapartida, com toda sua vasta arquitetura de asseclas, de delatores, de Pedros (Geröe) e Carlos (Vidali), misteriosos e perversos, se desmoronará como um castelo de naipes ao primeiro enérgico sopro da revolução”. Uma revolução que foi detida durante as jornadas de junho de 36 na França, mas sobretudo na Espanha republicana.

No qual foi talvez o primeiro artigo à altura do personagem, publicado, se não na Espanha, sim para a Espanha, escrito por Francisco Fernández Santos para a revista Cuadernos de Ruedo Ibérico (nº 2, agosto-setembro, 1965), com o título “Trotsky, nosso contemporâneo”, o autor recorda: “Neste mês de agosto, exatamente no dia 22, se cumpre o vigésimo quinto aniversário do assassinato de uma das personalidades mais poderosas e fascinantes, ao mesmo tempo que as mais trágicas, do século XX: Leon Davidovich Trotsky. Em 22 de agosto de 1940, morria um dos fundadores da União Soviética, revolucionário até o heroísmo, pensador marxista de grande classe e escritor de exuberantes dotes e fecundidade: uma das principais figuras dessa extraordinária galeria de revolucionários-filósofos que marcaram ao mundo para sempre com a garra da Revolução de Outubro, fato fundamental do século XX. Com o assassinato de Coyoacán se encerrava o ciclo de uma das tragédias mais representativas de nossa época: a dos bolcheviques do ano 17; se rompia o arco de aço de uma vida estendida constantemente para o objetivo da revolução socialista mundial; se extinguia um europeu universal que havia defendido até o último alento a herança do marxismo clássico e o espírito da Revolução de Outubro. Significativamente, no mesmo momento de sua morte o mundo se afundava num período de barbárie e de criminalidade como não havia conhecido como nunca. Os lobos nazistas uivavam triunfalmente pelas planícies da Europa, o mundo carcomido da democracia burguesia parecia se derrubar estrepitosamente, e na União Soviética, depois dos sangrentos processos de Moscou que liquidaram a toda uma geração de revolucionários, o stalinismo se estabilizava como estrutura ao parecer insubstituível do primeiro país socialista. A revolução socialista mundial parecia um sonho mais utópico que nunca”.

Depois, Francisco Fernández Santos extraía de sua própria memória, ligada à esquerda socialista, “a impressão que me produziu a notícia do assassinato de Trotsky. Tinha eu por então onze anos. Algum tempo antes, registrando nas caixas de lixos perigosos em algum canto de minha casa, havia descoberto dos livros de Trotsky: Como fizemos a Revolução de Outubro e Mis peripecias en España [este último traduzido por Andreu Nin e com um prólogo de Julio Álvarez del Vayo em que este mostrava suas simpatias pela figura do autor]. Ambos os livros foram meu primeiro contato consciente com a Revolução Russa e com Trotsky, que em meu espírito ficaram desde então profundamente unidos. Minha admiração por uma e por outro se fundiam numa mesma admiração. Daí que o assassinato de Trotsky fosse para mim como se tivessem assassinado a Revolução de Outubro”. E proclamava: “Passaram vinte cinco anos. Minha admiração dos onze anos por Trotsky se manteve intacta: ou seja, se aprofundou e enriqueceu, à medida que ia conhecendo sua obra de revolucionário e de escritor. Admiração, naturalmente, crítica, não dogmática nem beata”.

No entanto, não foi assim. Tiveram que chegar os anos sessenta para que Trotsky fosse novamente reconhecido, e que obras como a trilogia que lhe dedicou Isaac Deutscher [6], impactaram nas novas gerações e marcaram o início de uma revalorização crescente. Esta trilogia é muito criticada por Broué, e antes que por Broué por Jean Van Heijenoort, entre outros, mas obteve uma ressonância impressionante em seu momento ainda que perde força no terceiro volume. Este se encerra assim: “Trotsky em algumas ocasiões comparou o progresso da humanidade com a marcha dos peregrinos descalços que avançam para o santuário dando somente alguns quantos passos para diante de cada vez e depois retrocedendo ou saltando para um lado no sentido de avançar e desviar-se ou retroceder; assim, ziguezagueando todo o tempo, se aproximam penosamente sua meta. Trotsky pensou que sua missão era a de incitar os peregrinos a seguir avançando. A humanidade, no entanto, quando ao cabo de certo progresso sucumbe a uma debandada, permite que aqueles que lhe instam a continuar seu avanço, sejam injuriados, difamados e atropelados até morrer. Somente quando reativou sua marcha para adiante rente uma triste homenagem às vítimas, entesoura sua memória e recolhe devotamente suas relíquias; então lhes agradece cada gota do sangue que entregaram, pois sabe que com esse sangue nutriram a semente do futuro”.

Este texto foi lido e relido por muitos jovens antifranquistas de uma época na qual começava a crise da esquerda tradicional que havia ocupado o cenário da guerra fria. Enterrado como um leproso ou um herói magnífico, mas quase tão próximo como Aníbal, Trosky aparecerá no centro de uma recuperação da memória plural do movimento operário clássico. Suas obras começarão a ser reeditadas. No Estado espanhol, essa tarefa será começada por Ruedo Ibérico, depois será ampliada por editoriais militantes como Akal, Fontamara (especialemente) ou Júcar… Assim foi no período que vai desde a metade dos anos sessenta até início dos anos oitenta. E, depois do buraco causado pela decomposição do socialismo real, e pela vitória quase total do neoliberalismo que se impõe na antiga Rússia e na China, seu aporte pessoal, intelectual e moral emerge quando novamente o lugar de Sísifo, quem depois de cair ao abismo, voltou a levantar de novo a pedra para levar a chama dos deuses aos humanos. Trotsky pode ser reconhecido por uma soma de aportes. Sendo o mais jovem da esquerda social-democrata foi um crítico do lado autoritário de certo bolchevismo, o líder mais reconhecido da revolução de 1905, esboçou uma atualização da teoria da revolução permanente já expressada por Karl Marx em 1848 quando ficou claro que a burguesia temia sua própria revolução, assim como o autor do Manifesto de Zimmerwald; em sua fase bolchevique sua atuação no processo de 1917 foi legendária, sobretudo quando liderou a tomada o Palácio Inverno, mas antes de tudo e sobretudo como o personagem que foi capaz de criar e de levar até a vitória a um Exército Vermelho que quase se tirou da manga, e também foi um dos principais artífices e teóricos dos quatro primeiros Congressos da III Internacional…

Sua trajetória posterior em oposição à burocracia ascendente a teve que liderar quase em solitário, e aportou os primeiros e mais depurados análises do desenvolvimento da burocracia que unia a “de sempre” (herdada do czarismo que tingiu de vermelho), e a nova surgida dos “perigos profissionais do poder” (Christian Rakovsky). Desde seu terceiro exílio passou a ser um pesadelo para Stalin enquanto tratou de criar uma nova Internacional contra o relógio, consciente de que somente a revolução podia evitar a eclosão de uma nova Guerra Mundial que converteria a anterior num mero ensaio. Assassinado há 80 anos, seu legado e seus aportes foram recuperados por uma parte das novas gerações contestatórias: não como o final de uma tradição marxista senão como o nexo mais potente entre o passado e um presente no qual o dilema entre o socialismo – reinventado – e a barbárie, resulta mais tenebroso que nunca.

Pepe Gutiérrez-Álvarez é escritor e membro do Conselho Assessor de Viento Sur

Este texto é uma adaptação do último capítulo de meu livro El fantasma de Trotsky (España 1916-1940), publicado na Espuela de Plata, Renacimiento, Sevilla, 2012.

Notas

[1] Documentos sobre el trotsquismo español (Ed. De la Torre, Madrid, 1996; 27-28). O discurso de Munis está reproduzido na seção 3.32. Personagem singular, Munis participou na criação da IV Internacional e coincidiu com Trotsky e Natalia Sedova no México. Ao final dos anos quarenta rompeu com a Internacional e se exigiu como o autor de um Nuevo Manifiesto Comunista desde o qual tratou de liderar, sem êxito, uma nova corrente marxista internacional.

[2] Escritor peruano (1897-1967), Ciro conseguiu um prestígio mundial com seu romance El mundo es ancho y ajeno. Alegría, como José Maria Arguedas, mostrou em algum momento uma viva simpatia por Trotsky. Ciro foi aluno de César Vallejo, quem disse que Trotsky era “a parte mais vermelha da bandeira proletária”. Desde muito jovem interviu em atividades políticas e em defesa dos indígenas e das classes sociais mais exploradas. Foi um dos mais importantes representantes da literatura indigenista americana. Em 1931 esteve um ano na cárcere e posteriormente foi deportado para o Chile, em 1934. Nesta etapa se dedicou de cheio à literatura e escreveu páginas significativas de sua literatura, obteve vários prêmios por seus romances, outorgados por editoras chilenas, pela editora Farrar & Rinehart Company dos EUA e outros. Viveu durante vários anos nos EUA, Porto Rico e Cuba; e regressou em 1957 ao Peru. Depois de seu romance premiado, El mundo es ancho y ajeno (1941), não teve uma grande produção, salvo alguns contos e relatos. Este trabalho –Perfil de un revolucionario– foi publicado em 1940 no Chile durante seu exílio. Ciro Alegría nasceu na fazenda Quilca, Provincia de Sánchez Carrión, Departamento de La Libertad, Peru em 4 de novembro de 1909 e realizou seus primeiros estudos em Cajamarca e na Universidade nacional da cidade de Trujillo, próxima da costa. Fez incursões no jornalismo, nos diários El Norte e La Industria de Trujillo.

[3] Escritor chileno (1885-1967), destacou como jornalista no Chile e nos EUA, onde viveu longos anos e fundou uma revista. Foi fundador, professor e diretor da primeira Escola de Jornalismo no Chile, autor Puritania e de Mi tío Ventura. Algunos escritores modernos de Estados Unidos (1937), semelhanças e crítica. Postumamente apareceram Mis contemporáneos (1968), Viento norte, viento sur (1968) e Memorias de un desmemoriado (1970). Sua crônica sobre a morte de Trotsky está datada em Nova York, el 12 de outubro de 1940.

[4] Escritor nascido em Buenos Aires e incorporado à literatura chilena, depois de radicar no Chile desde 1924. Sua obra principal é narrativa e se caracteriza por uma observação de meios e caracteres própria do realismo, mas que supera as receitas tradicionais desta tendência. Abundam em suas novelas os deserdados da fortuna, os pequenos delinquentes e demais habitantes dos bairros pobres e marginais, retratados sem truculência nem compaixão. De 1932 data seu inicial Lanchas en la bahía, à que seguem quatro novelas protagonizadas por uma sorte de heterônimo do autor, Aniceto Hevia: Hijo de ladrón (considerada seu trabalho mais típico e logrado, 1951), Mejor que el vino (1958), Sombras contra el muro (1964) e La oscura vida radiante (1971). Publicou, assim mesmo, recompilações de contos como Hombres del sur (1926) e El bonete maulino (1968, em sua forma definitiva), um livro de poemas Tonada del transeúnte (1927) e um tomo de memórias, Imágenes de infancia (1955).

[5] Adolfo Zamora Padilla, estudeu direito em Paris e México, e foi professor, advogado e amigo de Trotsky, verdadeiro tutor de seu neto Esteban Volkov. Seu irmão Francisco Zamora Padilla, jornalista e reconhecido marxista, foi o único membro mexicano da Comissão Dewey.

[6] [Nota da redação. A trilogia está composta por: “El profeta armado: Trotsky, 1879-1921” (1054), “El profeta desarmado: Trotsky, 1921-1929” (1959) y “El profeta desterrado: Trotsky, 1929-1940” (1963). Edición de la trilogía el año 2015 en LOM Ediciones, Santiago de Chile, 2015]

Reproduzido do Observatório Internacional. Tradução de Charles Rosa

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