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China e campismo: quando o inimigo de inimigo não é amigo

· Sem Fronteiras,IV Internacional,Vale a pena ler

John Clarke. Europe Solidaire Sans Frontière, 7 de março de 2021. Tradução de Hudson Valente.

Em um mundo baseado na exploração e opressão, a resistência está sempre presente. Na maioria das vezes, ela fervilha abaixo da superfície, mas às vezes assume a forma de enormes explosões sociais. Pareceria natural que aqueles na esquerda desejassem que tal resistência em massa ocorresse em uma escala verdadeiramente global. Há, no entanto, um fator complicador. Uma seção da esquerda adotou uma visão “campista”, de certa forma uma ressaca do período da Guerra Fria, que vê a política global principalmente em termos de um conflito entre um grupo de países predadores liderado pelos EUA e outro “campo anti-imperialista” [1]. Que devamos odiar e nos opor ao imperialismo norte-americano, com sua agenda de dominação global, certamente não é uma dúvida. No entanto, há resultados práticos que decorrem da posição campista que impedem a solidariedade internacional da classe trabalhadora e que precisam ser contestados.
 

Os EUA e seus parceiros competem com seus principais rivais e representam uma terrível ameaça aos países pobres e oprimidos que eles procuram dominar e explorar. No entanto, não podemos esquecer que esses países são eles mesmos sociedades de classes, divididas e que nem toda a exploração e opressão que suas populações enfrentam vem de Washington. Os capitalistas domésticos também são o inimigo e os governos desses países, mesmo onde entram em conflito com os objetivos dos EUA, ainda representam os interesses desses exploradores locais.

O problema com a perspectiva campista é que ela se fixa tanto no papel do imperialismo e coloca tanta ênfase em seu "campo anti-imperialista" que acaba tendo uma visão muito indulgente dos regimes opressores. Além disso, quando a classe trabalhadora local desafia essa opressão nas ruas, os campistas acham tais lutas muito inconvenientes. De fato, eles estão frequentemente prontos para lançar acusações de que tais movimentos de resistência, por mais reais que sejam suas reivindicações, são simplesmente o produto da manipulação ocidental. O material divulgado pelo The Grayzone é um exemplo particularmente gritante desta abordagem.
Há uma diferença igualmente séria e relacionada sobre a questão da China, claramente o principal rival global dos EUA. Nesse caso, as divergências sobre o apoio à resistência social são agravadas pela insistência de alguns de que a China não é um mero componente de um campo anti-imperialista, mas de uma sociedade socialista. Sugere-se que, sob a liderança do Partido Comunista, está sendo desenvolvida uma "economia de mercado socialista com características chinesas". Ao avançar a perspectiva de que a hostilidade ao imperialismo liderado pelos EUA não deve impedir a solidariedade com a luta da classe trabalhadora em todas as partes do mundo, a natureza da sociedade chinesa terá que ser abordada com mais detalhes. No entanto, primeiro vou olhar para a mudança da agenda de dominação global dos EUA, pois é necessário reconhecer adequadamente o grande grão de verdade que contribui para a desorientação política do campismo.

O Inimigo Principal

A administração Trump certamente impulsionou uma agenda de rivalidade global, mas suas estratégias e métodos eram grosseiros e erráticos. Biden representa uma restauração da “liderança global dos EUA” que procura colocar uma cara de “direitos humanos” em uma agenda que será ainda mais brutal, mas significativamente mais eficiente e confiável. Para Biden, conter o crescente poder econômico da China será a principal consideração. Certamente, a rivalidade com a Rússia ainda será mantida, o esforço para conter as ambições regionais do Irã continuará e haverá iniciativas contínuas para avançar a capacidade dos EUA de explorar em escala global. Entretanto, o período imediato após o colapso da União Soviética, quando a hegemonia dos EUA parecia muito mais segura, já se foi há muito tempo e é a China que representa a maior ameaça de longe. O Fórum Econômico Mundial analisa “setores e indústrias globais” chave e mostra que os EUA ainda detém a posição dominante, mas “a China está subindo muito rápido”.

Os EUA, portanto, continuam sendo o principal inimigo e traz consigo um agrupamento de potências imperiais menores, incluindo o Canadá. Aqueles de nós que vivem nestes países têm o dever particular de se opor e desafiar seu contínuo roubo com violência. Quando eles tentam impor regimes clientelistas a países pobres e oprimidos, devemos fazer tudo o que pudermos para expor e interromper seus planos. Não podemos dar apoio a sua rivalidade com outras grandes potências. Quando eles expressam uma indignação moral seletiva contra os "abusos dos direitos humanos" desses rivais, devemos denunciar sua hipocrisia e desafiá-los sobre os crimes dos quais são parte. No entanto, nada disso significa que a opressão não está ocorrendo dentro do "campo anti-imperialista" e também não significa que devemos considerar os desafios a essa opressão com desdém ou hostilidade

O papel da China

Recentemente vi um comentário no Facebook de alguém que via a China como uma sociedade socialista. Ele sugeriu que a classe trabalhadora está no poder e, embora às vezes haja problemas com os capitalistas, o Estado invariavelmente toma o lado dos trabalhadores. Esta visão está simplesmente em desacordo com as amplas e prontamente disponíveis evidências do contrário.

Eu já apontei para o enorme crescimento da economia chinesa nas últimas décadas. Ela surgiu como uma potência econômica que tem um papel central na cadeia de fornecimento global que se desenvolveu durante as décadas neoliberais. Em 2020, ela substituiu os EUA como o principal parceiro comercial da UE. Ao mesmo tempo, também ultrapassou os EUA como o "principal destino do mundo para novos investimentos estrangeiros diretos". Exemplo após exemplo pode ser aproveitado para mostrar conclusivamente que a China está se tornando cada vez mais poderosa às custas dos EUA, a um ponto que ameaça sua posição hegemônica.

Entretanto, a liderança política supostamente socialista que supervisionou esta incorporação no mercado capitalista global falhou em impedir muitas das coisas que poderiam ser esperadas de um regime capitalista. A desigualdade de renda agora rivaliza com a dos EUA. A participação da propriedade pública na riqueza nacional diminuiu de cerca de 70% em 1978 para cerca de 30% em 2015. Mais de 95 por cento do parque habitacional é agora propriedade de famílias, em comparação com cerca de 50 por cento em 1978". No ano passado, a China tinha 389 bilionários, ficando atrás apenas dos EUA, o que é enormemente revelador. O fato de que tão poucas pessoas detêm um controle tão maciço da riqueza do país aponta para uma situação que vai além de uma questão de simples desigualdade e privilégios adicionais. Tanta riqueza individual traz grande poder e influência, algo que até mesmo um “regime político socialista” teria que reconhecer.

A classe trabalhadora que cresceu enormemente durante este período de expansão econômica, surgiu como parte da reordenação da força de trabalho global da era neoliberal. Esse crescimento e vulnerabilidade à exploração foi criado por meio de um nível de migração interna das áreas rurais que é histórico em escala. Em 2009, existiam 145 milhões de migrantes rurais-urbanos na China, compreendendo 11% da população. Naquele mesmo ano, o número de trabalhadores de fábrica no país foi estimado em 99 milhões. O maior empregador era a notória Foxconn, empregando 1,3 milhões de trabalhadores. As terríveis condições de trabalho enfrentadas por estes trabalhadores deram origem ao termo “suicídio da Foxconn”.

A fábrica da Foxconn em Longhua, nos arredores de Shenzhen, tem uma placa afixada fora de seus portões que diz: “Esta área da fábrica está legalmente estabelecida com a aprovação do estado. A invasão de propriedade não autorizada é proibida. Os infratores serão enviados à polícia para serem processados”. Um antigo trabalhador resumiu as condições na fábrica com a observação de que, “Não é um bom lugar para os seres humanos”. Ele e outro homem falam de “um ambiente de trabalho de alta pressão onde a exploração é rotineira e onde a depressão e o suicídio se normalizaram”. Estes suicídios são descritos em um artigo no Guardian.

“Em 2010, os trabalhadores da linha de montagem Longhua começaram a se matar. Trabalhador após trabalhador se atiraram dos imponentes dormitórios, às vezes em plena luz do dia, em trágicas demonstrações de desespero – e em protesto contra as condições de trabalho no interior. Foram relatadas 18 tentativas de suicídio somente naquele ano e 14 mortes confirmadas. Vinte outros trabalhadores foram convencidos a desistir do suicídio pelos funcionários da Foxconn”.

A liderança política e as agências estatais na China não podem ser seriamente apresentadas como socialistas supervisionando um processo de acumulação que tem simplesmente feito algumas concessões necessárias aos métodos capitalistas. Os esforços dos trabalhadores e das comunidades para desafiar as injustiças e exigir seus direitos são enfrentados com repressão. A organização sindical é uma atividade repleta de riscos e de grandes conseqüências. São fáceis de encontrar exemplos de esforços para esmagar a resistência da classe trabalhadora. Em 2018, trabalhadores do fabricante de equipamentos de solda Shenzhen Jasic Technology tentaram formar um sindicato. Seus principais problemas foram as multas arbitrárias impostas pela empresa e a recusa também por parte da empresa de fazer pagamentos adequados a um fundo governamental para cobrir seus custos de moradia. Seis trabalhadores que estavam envolvidos na formação de um sindicato foram demitidos e levados para a delegacia de polícia quando apareceram para trabalhar. Outros vinte que marcharam para a delegacia em apoio também foram presos. Um dos trabalhadores em protesto disse à polícia: “Quando o chefe diz que estamos criando problemas, vocês, os policiais, confiam neles e correm para a fábrica, nos espancam e nos levam para a delegacia... Aos seus olhos somos como insetos minúsculos esperando para serem pisados”.

Os protestos comunitários também são muito comuns na China e as autoridades empregam uma combinação hábil de concessões e repressão para contê-los. Em 2019, milhares de pessoas saíram às ruas por vários dias em Wuhan para desafiar os planos de construção de uma usina de incineração de resíduos tóxicos em sua comunidade até que a polícia de choque esmagou a ação comunitária. A ameaça de agitação social e o esforço contínuo para contê-la são preocupações para aqueles que governam a China.

Os Uigures são uma das várias minorias nacionais e, sem dúvida, enfrentam uma migração em larga escala de colonos da maioria étnica Chinesa Han para sua terra natal, juntamente com um “colonialismo de recursos” que é muito parte da incorporação da China na ordem global do capitalismo neoliberal. Vale notar que, em seus esforços para se apresentarem como nobres defensores dos direitos humanos dos Uigures, os conservadores que apresentaram a moção no parlamento canadense nada tinham a dizer sobre o envolvimento de empresas mineradoras deste país no processo de opressão e exploração que se desenrola em Xinjiang [região do território chinês terra natal dos uigures].

Deve-se reconhecer que a atividade econômica chinesa no cenário internacional também é carente de credenciais socialistas. As empresas chinesas estão operando em todo o mundo e seu histórico é muito pouco diferente do tipo de exploração e abuso que associaríamos às corporações ocidentais. No ano passado, dois trabalhadores no Zimbábue, empregados por uma empresa mineradora chinesa, que reclamavam de salários não pagos, foram baleados e feridos [pelo próprio patrão!]. A Associação dos Advogados Ambientais do Zimbábue (ZELA) emitiu uma declaração que dizia em parte: “O problema dos maus-tratos aos trabalhadores é sistemático e generalizado e o que esse tiroteio fez foi expor o abuso desenfreado dos trabalhadores. Os salários são freqüentemente muito baixos e, em muitos casos, não são pagos a tempo”.

Não há dúvida de que, em relação ao modelo de sociedade capitalista existente no Ocidente, o setor estatal na China é muito maior e a capacidade das autoridades governamentais de intervir na economia é maior. A recente concentração de recursos, mesmo depois de um atraso dispendioso, para lidar com a crise de saúde pública da pandemia mostra isso, assim como as medidas tomadas para garantir uma recuperação econômica mais rápida do que foi possível no Ocidente. No entanto, a restauração do capitalismo privado ocorreu em uma escala enorme. Já mencionei que a China tem agora o segundo maior número de bilionários do mundo (e está produzindo mais deles a uma taxa inigualável) com um número muito maior de capitalistas menores. Seria absurdo sugerir que esta classe social, com sua vasta riqueza, não possui um enorme poder político. As evidências sugerem claramente o contrário.

Em 2001, as regras do Partido Comunista foram alteradas para permitir que os capitalistas se tornassem membros, “atraindo assim as pessoas que tem o status social e o poder econômico para governar”. Em 2011, cerca de 90% dos mil capitalistas mais ricos da China eram membros ou funcionários do Partido Comunista. Em 2017, cerca de 100 dos delegados ao parlamento chinês eram bilionários e os 209 delegados mais ricos tinham uma riqueza média de 300 milhões de dólares. Juntos, este grupo valia 500 bilhões de dólares, aproximadamente o equivalente ao PIB da Bélgica.

Sem dúvida, o regime autoritário chinês intervém muito mais vigorosamente nos assuntos econômicos do que no Ocidente e os capitalistas individuais têm muito menos espaço de manobra. No entanto, interligada em seus negócios e na vida política e vinculada socialmente à grandeza da estrutura estatal, a classe capitalista chinesa é decisivamente influente. Dada a existência desta classe, o enorme papel do investimento estrangeiro, o lugar dentro da cadeia de abastecimento neoliberal e o papel predatório em escala global, sinto que a China deve ser vista como uma sociedade capitalista. Em minha opinião, mesmo com empresas estatais ainda detendo 48,1% do estoque de capital empregado na indústria, a partir de 2017, a subserviência deste componente às necessidades de uma economia de mercado e do capital privado cria uma realidade muito diferente daquela que levou à caracterização da União Soviética como um estado proletário degenerado ou como capitalista de estado.

Entretanto, a visão que apresenta a China atual como uma sociedade de transição não prejudicaria a conclusão inescapável de que a classe trabalhadora naquele país enfrenta a exploração às mãos de um regime opressivo. Daí decorre que a resistência diante dessa opressão não só é admissível, mas essencial e que o caminho para o socialismo não se encontrará numa aliança entre uma burocracia estatal e várias centenas de bilionários, mas através da revolução da classe trabalhadora.

Internacionalismo

Se tomarmos o lado dos trabalhadores chineses e das minorias oprimidas e rejeitarmos a noção de que o regime repressivo de Pequim está defendendo o socialismo, devemos também apoiar a resistência da classe trabalhadora e as lutas populares em todo o “campo anti-imperialista”. Devemos rejeitar a noção de que podemos construir um movimento global com uma lista de países onde celebramos a luta de classes e outra onde ela deve ser rejeitada. Eu sugeriria que há algumas considerações básicas que devem informar um conceito válido de solidariedade internacional.

Primeiro, eu repetiria e enfatizaria que os campistas têm razão quando apresentam o imperialismo liderado pelos EUA como o principal inimigo e a derrota desse inimigo em sua terra natal é sempre nosso principal foco e responsabilidade.

Em segundo lugar, nunca devemos nos envergonhar da luta de classes. Se a classe trabalhadora tomar as ruas em um país em que o imperialismo liderado pelos EUA tem sua bota firmemente colocada, como está acontecendo no Haiti no momento, faremos tudo o que podemos para apoiar sua luta. Entretanto, com o mesmo entusiasmo e com um espírito de independência da classe trabalhadora, apoiamos a resistência em países que são grandes rivais dos EUA. Também apoiamos a resistência social em países onde os EUA procuram apertar seu aperto opressivo, como o Irã. Fazemos tudo o que podemos para criar uma consciência e um senso de solidariedade com a luta da classe trabalhadora onde quer que ela esteja sendo travada.

Em terceiro lugar, não fugimos das complicações e contradições que existem no contexto da rivalidade global e da dominação imperialista. Os campistas não estão errados que o Departamento de Estado dos EUA e as agências de inteligência ocidentais procurem ganhar influência sobre os movimentos de resistência em países com governos com os quais estão em desacordo. Em Hong Kong, cerca de dois milhões de pessoas saíram às ruas para proteger os direitos democráticos. Elas sabem que suas liberdades limitadas e pressionadas são vitais se quiserem resistir ao inferno neoliberal que o regime de Beijing e os capitalistas locais lhes impõem. No entanto, os partidários desse regime à esquerda ignorarão essa expressão em massa de sentimento popular e alegremente apontarão para alguém na multidão acenando a Estrelas e Listras [Bandeira Estadounidense]. A esquerda em Hong Kong está bem ciente do papel que os “localistas de direita” desempenham e de suas ligações com políticos ocidentais reacionários. Infelizmente, não podemos exigir uma luta de classes descontaminada nas realidades confusas do capitalismo global.

Finalmente, precisamos entender que a crise desencadeada pela pandemia e suas conseqüências desencadearão lutas enormes e explosivas em uma escala verdadeiramente internacional. Em tal contexto, construir um sentido muito mais forte de solidariedade global será essencial e não podemos operar com dois pesos e duas medidas campistas. A luta de classes será travada e deve ser totalmente apoiada em todas as partes do mundo.

John Clarke

Postado originalmente no blog de John Clarke, 03/07/2021: https://johnclarkeblog.com/node/59

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