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China e Hong-Kong: o dragão e a galinha dos ovos de ouro

Esta é a imagem utilizada por Au Loong Yu para representar a relação entre a China e o terrítório de Hong Kong

· Sem Fronteiras,IV Internacional,Vale a pena ler

Pierre Rousset e Dominique Lerouge, L'anticapitaliste, 27 de setembro de 2020

Em 2019, Hong Kong experimentou as maiores mobilizações de sua história. Os jovens foram sua principal força motriz. Eles ficaram impressionados com o desejo de Pequim de adequar Hong Kong aos padrões do continente.

O anúncio de um projeto de lei que permite a extradição de qualquer pessoa para o continente chinês, a fim de que seja condenada por tribunais, põe em movimento as rodas do poder.

Mas apesar do dinamismo e da coragem dos participantes, este movimento tinha duas grandes desvantagens:
- um equilíbrio de poder muito desfavorável: a China continental é quase 200 vezes mais povoada do que Hong Kong, e é um dos estados mais poderosos e repressivos do mundo;
- o regime chinês é capaz de elaborar uma estratégia formidável e alocar recursos materiais e humanos consideráveis para ela.

O movimento de Hong Kong experimentou uma sucessão de diferentes táticas: manifestações de massa com vocação não violenta, confrontos descentralizados do tipo mais violento, ações de vizinhança, apresentação de candidatos em eleições locais, proliferação de sindicatos militantes, etc.

Diante da onipotência do regime, teria sido necessária uma ação convergente do povo do continente e de Hong Kong. Mas apenas uma minoria do movimento tomou tais medidas. Uma ala xenófoba muito mais poderosa, por outro lado, atacou os continentais, tornando essa convergência ainda mais difícil. Uma grande parte da esquerda internacional também falhou em seu dever de solidariedade básica. Por sua vez, alguns hongkongeses procuraram o apoio de governos estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos, o que facilitou a propaganda de Pequim de que o movimento era devido à "interferência estrangeira".

A partir de janeiro de 2020, a Covid-19 tornou as manifestações mais perigosas e o equilíbrio de poder se deteriorou ainda mais.

Tudo isso permitiu que Pequim criasse uma contra-ofensiva coerente. Ela deu um passo decisivo em 30 de junho de 2020 com a promulgação de uma lei sobre "segurança nacional", ainda mais liberticida do que o projeto de lei de extradição que o governo havia sido forçado a retirar.

A crescente repressão afeta principalmente os jovens, mas também acadêmicos, políticos, sindicalistas, etc., que estão sendo cada vez mais reprimidos (2). Em 15 meses, mais de 10 mil pessoas foram presas (3).

Motivos de esperança:
Em 24 de novembro de 2019, quando o movimento parecia estar em um impasse total após o fim desmoralizador da ocupação das universidades, a oposição obteve uma vitória esmagadora nas eleições locais, demonstrando que a grande maioria da população permaneceu favorável ao movimento.

Ao mesmo tempo, prolliferaram novos sindicatos militantes. No início de fevereiro, o sindicato do setor hospitalar público lançou uma greve bem sucedida por cinco dias consecutivos que forçou o governo a finalmente tomar algumas medidas básicas contra a então florescente Covid.

 

Existem, portanto, elementos para uma estratégia de resistência a longo prazo emergir. Resta à esquerda internacional contribuir para isso, notadamente envolvendo-se na solidariedade em face da repressão.

China, 71 anos depois de 1949: a construção de um Estado orwelliano

Os regimes políticos
Por trás da continuidade nominal do poder na China (conhecida como República Popular), encarnada pelo Partido Comunista da China (PCC), encontram-se profundas transformações. A liderança do partido está agora sob o controle de fortunas muito grandes e as desigualdades sociais explodiram em um país que se tornou uma grande potência capitalista.

Até o início do século XIX, a China era considerada o império mais poderoso do mundo, perdendo depois essa posição sob os golpes do capitalismo ocidental. A obsessão de Xi Jinping é que a China deve se tornar novamente o "Reino do Meio".

Esta luta pela hegemonia serve de pano de fundo para a atual disputa entre os presidentes dos EUA e da China. Agora que a China se tornou uma grande potência econômica (4), os líderes chineses não sentem mais a necessidade de se curvar aos países industrializados envelhecidos. Eles não hesitam em pisar nos textos tranquilizadores que seus predecessores assinaram em 1984 em troca da entrega de Hong Kong.

Construindo um estado orwelliano
Os neoliberais ocidentais haviam afirmado que a conversão da China a uma economia de mercado seria acompanhada por uma extensão das liberdades.

O que aconteceu foi exatamente o oposto, especialmente desde 2012 e da chegada ao poder de Xi Jinping. Uma emenda à Constituição deve permitir que ele governe sem contestação pelo resto da vida e que escolha seus herdeiros dentro de seu grupo.

A natureza repressiva do regime foi consideravelmente reforçada, particularmente em termos dos direitos de expressão e organização (incluindo os dos funcionários e das mulheres). O processo de assimilação forçada está aumentando no Tibete, Xinjiang e na Mongólia Interior. Pequim acelerou brutalmente esta política em Hong Kong e sonha em estendê-la a Taiwan.

O PCC apresenta prontamente o regime atual como "socialismo com características chinesas". O que este regime apresenta como "características chinesas" incorpora elementos da cultura política anterior à China imperial, como evidenciado pelo discurso de Xi Jinping de 2017 sobre a necessidade de transmitir o poder a pessoas com "genes vermelhos" (ou seja, a segunda geração de filhos de governantes) (5).

Como Au Loong Yu escreve, "por trás da fé do poder nestes valores pré-modernos, há também algo muito moderno, muito material, ou seja, o interesse fundamental deste regime. (...) O regime atual combina tanto o poder coercitivo do Estado, com suas armas e tecnologia mais modernas, quanto o poder de seu capitalismo industrial e financeiro. Ela alcança seus fins confiando simultaneamente em dois conjuntos de regras, de um lado, a lei, e, do outro, as regras ocultas da burocracia que sempre prevalecem sobre a lei. Seus líderes acham que este regime serve bem a seus interesses. Do alto ao nível das bases, os funcionários do Partido se tornaram, como resultado disso, enormemente ricos. Quanto mais o sistema funciona dessa forma, mais se acumulam segredos sujos que os funcionários do partido precisam esconder. Essa é por si só uma das razões pelas quais eles não podem tolerar opiniões dissidentes. O Partido precisa da construção de um estado orwelliano no continente e, imperativamente, isto deve se estender também a Hong Kong". (6)

Notas

1. Hong Kong in revolt : The Protest Movement and the Future of China (Pluto).
2. Ver principalmente os artigos disponiveis em http://www.europe-solidaire.org/spip.php?rubrique191
3. http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article54764

4. Os pontos fracos da China fazem com que tornar-se duradouramente "a primeira" potencia do mundo seja mais um contexto do que um dado.
5. Na China imperial, não havia legitimação "por sangue" do poder. O feudalismo chinês é anterior ao Império.

6. Entrevista com Au Loong Yu http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article54881

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