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Colapso: Amazônia próxima de uma inflexão catastrófica

Dois estudos mostram que parte importante da Floresta Amazônica está à beira do colapso, tendendo a degradar-se em uma savana empobrecida

· Ecologia,Nacional,Sem Fronteiras,Últimos artigos

Adam Lowenstein, Florida Institute of Technology/EcoDebate, 24 de setembro de 2020. Tradução de Henrique Cortez.

Em um novo artigo publicado nos Annals of the Missouri Botanical Garden, o professor de biologia da Florida Tech, Mark Bush, descreve como a vasta floresta amazônica poderia ser substituída por savana, que é uma pastagem com poucas árvores, durante nossa vida.

As florestas tropicais dependem de alta umidade e não têm adaptação para resistir ao fogo. Bush usa pólen fóssil e carvão recuperado de sedimentos de lagos que datam de milhares de anos para rastrear mudanças na vegetação e na frequência de incêndios ao longo do tempo. Ele descobriu que os incêndios eram quase desconhecidos na Amazônia antes da chegada dos humanos.

Perturbações relativamente de pequena escala causadas pelos primeiros habitantes da Amazônia nos últimos 10.000 anos não trouxeram o sistema a um ponto de inflexão porque ele poderia se recuperar desses eventos menores. Mas os efeitos modernos do aquecimento do clima e elevado risco de seca – ambos produtos da mudança climática antropogênica – estão se combinando com o desmatamento em escala muito maior e as queimadas na Amazônia para criar as condições em que vastas áreas de floresta tropical podem fazer a transição para savana em questão de décadas.

“A imensa biodiversidade da floresta tropical está em risco de incêndio”, disse Bush.

Um dos pontos-chave do artigo, “Novos e recorrentes pontos de inflexão: a interação do fogo, mudança climática e desmatamento nos ecossistemas neotropicais”, é que embora nenhum governo individual possa controlar a mudança climática, o fogo pode ser regulado por meio de políticas. Quase todos os incêndios na Amazônia são provocados deliberadamente por pessoas e tornaram-se muito mais frequentes nos últimos dois anos, devido a alterações na política, do que na década anterior.

Os dados de Bush mostram que o ponto de inflexão provavelmente será alcançado se as temperaturas subirem mais 2 a 3 graus Fahrenheit. O aquecimento antropogênico traria essas temperaturas até o final deste século, mas o aumento das queimadas cria paisagens mais quentes, mais secas e menos sombreadas que poderiam acelerar essa transição.

“O aquecimento por si só pode induzir o ponto de inflexão em meados do século, mas se as políticas atuais que fecham os olhos para a destruição da floresta não forem interrompidas, podemos chegar ao ponto de inflexão muito mais cedo”, disse Bush.

Ele acrescentou: “Além da perda da vida selvagem, os efeitos em cascata da perda da floresta tropical amazônica alterariam as chuvas em todo o hemisfério. Este não é um problema remoto, mas de importância global e significado crítico para a segurança alimentar que deve preocupar a todos nós”.

O artigo está disponível aqui.

Florestas tropicais terão árvores extintas devido à falta de chuva, aponta estudo

Um estudo do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) aponta que as florestas tropicais, responsáveis por dois terços da biodiversidade mundial, correm o risco de terem suas espécies de plantas reduzidas e extintas por causa do aumento da temperatura e da ausência de chuvas. Intitulado de Esecaflor (Seca da Floresta), o experimento está sendo realizado ao longo de duas décadas na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará. O seu principal objetivo é entender como o aumento de temperatura causado por fenômenos como o El-Niño – caracterizado por mudanças nas temperaturas das águas do Oceano Pacífico – e mudanças climáticas podem afetar a floresta.

Marcos Furtado, ((o))eco, 22 de setembro de 2020

Originado no Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD), o Eseclafor se concentra em duas faixas da floresta, de um hectare cada (equivalente a um campo de futebol). Em uma delas, os especialistas instalaram 6 mil painéis de plásticos transparentes a uma altura média que fica entre 1,5 e 3,5 metros acima da superfície. Essas telas ajudam a simular as altas temperaturas e condições semelhantes às projetadas para a região amazônica por estudos climáticos, pois impedem que a água penetre o solo.

Quando comparada a outra faixa da floresta, que estava sem os painéis, especialistas observaram que a área coberta com plástico apresentou uma taxa duas vezes maior de mortalidade de árvores. Houve redução de espécies de árvores, arbustos, epífitas e palmeiras.

“Há também uma nítida modificação da composição de espécies, sendo a parcela experimental representada por indivíduos mais tolerantes à redução da umidade do solo. A única forma de vida beneficiada com a redução da umidade do solo na parcela experimental foram os cipós, que aumentaram em número de espécies, indivíduos e biomassa”, conta Leandro Valle Ferreira, ecólogo e coordenador do projeto.

A Amazônia foi o local e o principal foco do experimento. Leandro Valle Ferreira revela preocupação com a floresta sul-americana. “A Amazônia se tornará mais seca e pobre em espécies, confirmando as previsões pessimistas dos cientistas”, afirma.

De acordo com o pesquisador, os impactos sobre a Amazônia podem se estender a outros biomas. “Reduzindo a quantidade de chuvas na região amazônica, outros biomas ficarão mais secos também. Eles são interligados e têm uma dinâmica climatológica entre eles. Portanto, qualquer alteração vai consequentemente prejudicar os outros biomas, como o próprio Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica”, explica.

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