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Daniel Bensaïd e Michael Löwy: um marxismo da bifurcação

Um balanço daquilo que, para Michael Löwy, é a contribuição fundamental de Daniel Bensaïd ao pensamento revolucionário

· Formação,Últimos artigos

Michael Löwy, Mediapart, 23 de fevereiro de 2020

Dez anos após sua morte, o pensamento de Daniel Bensaïd permanece mais vivo do que nunca: é lido e discutido não apenas na França, mas também no Brasil, Espanha, Estados Unidos e em outras partes do mundo. Raramente a imaginação revolucionária encontrou uma expressão tão poderosa no nosso tempo.

Antes de mais nada, algumas observações pessoais. Daniel Bensaid e eu tínhamos militado juntos na Liga Comunista Revolucionária; também participamos da fundação do Novo Partido Anticapitalista. Nem sempre estivemos na mesma tendência na LCR, mas compartilhamos o desejo de associar Leon Trotsky a Ernesto Che Guevara, assim como a paixão pelas lutas revolucionárias na América Latina. Em várias ocasiões interviemos juntos nos debates entre os marxistas brasileiros. Também tivemos algumas discordâncias, pois Daniel era um leninista autêntico – mas capaz de uma leitura sutil e inovadora de Vladimir Ilitch – e eu era um seguidor, melhor, um apaixonado, por Rosa Luxemburgo.

A descoberta de Walter Benjamin, no final dos anos 80, aproximou-nos muito mais. Ele estava interessado no meu livro Redenção e Utopia de 1988, que discute longamente Benjamin, apesar de seu desinteresse pela religião. Nessa altura, sugeri que escrevessem juntos um artigo sobre o autor das Teses sobre O Conceito de História e ele respondeu: "Porque não escrever um livro juntos?”. Mas no final ele mesmo o escreveu, e foi uma das suas obras mais importantes. Por outro lado, tínhamos algumas diferenças: Daniel estava longe de compartilhar meu entusiasmo pelo romantismo anticapitalista, pela utopia comunista e pela teologia da libertação. Ele observava com ironia, à distância. enquanto eu caminhava pelas areias movediças; mas nós compartilhávamos uma atração comum por Charles Péguy – um autor que descobri através de Daniel; eu simplesmente o via como um romântico e um socialista cristão e Daniel como um clássico e um socialista apaixonado por Joana d'Arc...

Em 2005 escrevemos um artigo em quatro mãos sobre "Auguste Blanqui, comunista herético", uma definição que se aplica muito bem ao próprio Daniel. Ele foi publicado em um livro coletivo editado pelos nossos amigos Philippe Corcuff e Alain Maillard, Les socialismes français à l'épreuve du pouvoir. Pour une critique mélancolique de la gauche (Paris, Textuel, 2006). Admiramos muito Blanqui, esse implacável opositor da burguesia, da ideologia positivista e das doutrinas do progresso, e concordamos com a interpretação dos seus escritos durante as discussões amigáveis no Café "Le Charbon". Nossa principal divergência não dizia respeito a Blanqui, mas a Marx: Daniel criticava o que ele considerava uma "abordagem sociológica" do pai fundador: a crença de que a concentração de trabalhadores em fábricas leva necessariamente à consciência e à organização; eu insistia que, para a filosofia da práxis marxista, é a experiência de luta que produz a consciência de classe. Encontramos um compromisso...

Como muitas pessoas, senti sua morte como uma perda irreparável para a nossa causa. Mas ele nos deixou seu trabalho, cujo potencial crítico e emancipatório é inesgotável.

O giro de 1989

Daniel tinha escrito alguns livros importantes sobre estratégia revolucionária antes de 1989, mas a partir daquele ano, com a publicação de Moi la Révolution: Remembrances d’um bicentenaire indigne (Gallimard, 1989), começou um novo período, caracterizado não só por uma enorme produtividade – dezenas de livros, incluindo vários dedicados a Marx – mas também por uma nova qualidade literária da escrita, um fantástico borbulhar de ideias, uma espantosa inventividade. As razões para esta reviravolta, ao mesmo tempo pessoais, políticas e históricas, são complexas e permanecem em parte misteriosas.

Apesar da sua grande diversidade, estes escritos não são menos tecidos de alguns fios vermelhos comuns: a memória de lutas – e derrotas – passadas, o interesse por novas formas de anticapitalismo e a preocupação com os novos problemas que a estratégia revolucionária enfrenta. Sua reflexão teórica foi inseparável de seu compromisso militante, quer tenha escrito sobre Joana d'Arc – Jeanne de guerre lasse (“Joana cansada de guerra”) (Gallimard, 1991) – ou sobre a fundação do NPA, Prenons parti (“Tomemos partido”, com Olivier Besancenot, 2009).

Os seus escritos têm, portanto, uma forte carga pessoal, emocional, ética e política, o que lhes confere uma qualidade humana invulgar. A multiplicidade de suas referências pode confundir: Marx, Lenin e Trotsky, certamente, mas também Auguste Blanqui, Charles Péguy, Hannah Arendt, Walter Benjamin, sem esquecer Blaise Pascal, Chateaubriand, Kant, Nietzsche e muitos outros. Apesar desta surpreendente variedade, aparentemente eclética, o seu discurso não deixa de ser notavelmente coerente.

A aposta melancólica (1997)

Todos os livros de Daniel enriquecem a cultura revolucionária, mas o que eu prefiro é Le Pari Melancolique (Fayard, 1997). É uma escolha pessoal e, portanto, arbitrária. Mas parece-me que é neste livro que ele vai mais longe na renovação do pensamento marxista. Foi escrito num momento crítico dos anos 90, ao mesmo tempo atormentado pela carga negativa da restauração capitalista, sem qualquer resistência real, na Rússia e nos outros países do Leste, mas também iluminado pela estrela da esperança, graças à sublevação zapatista de 1994 e, sobretudo, ao formidável movimento de revolta operária e popular de 1995 na França.

No meu exemplar do livro, Daniel escreveu uma dedicatória, que se refere aos nossos interesses comuns, mas não renuncia a marcar, num pequeno parêntese, a sua diferença: "Para Michael, A Aposta Melancólica, sobre a atualidade (profana) da razão messiânica, amigavelmente, Daniel".

A primeira parte do livro é um diagnóstico lúcido do "desajuste do mundo" que resulta da globalização capitalista. Ele não se limita, como muitos outros marxistas, a falar da crise econômica, mas se situa desde o início em uma perspectiva ecológica, observando a discordância explosiva entre o tempo mercantil e o tempo biológico. Ele é um dos primeiros, no movimento marxista revolucionário, a perceber a importância capital da crise ecológica.

Daniel constata que a regulação mercantil é míope: sua lógica deprecia o futuro e ignora os efeitos irreversíveis próprios da biosfera. Pressupõe uma natureza que pode ser explorada e corrompida à vontade. Como escreveu este grande precursor do liberalismo contemporâneo, Jean Baptiste Say, "as riquezas naturais são inesgotáveis porque sem isso nós não as obteríamos gratuitamente". Enquanto os ritmos naturais se harmonizam ao longo de séculos ou milênios, a razão econômica capitalista busca ganhos rápidos e lucros imediatos.

A biosfera, diz Daniel Bensaïd inspirando-se nos trabalhos de Réné Passet, tem a sua própria racionalidade imanente, irredutível à razão mecânica do mercado. Os valores ecológicos não são convertíveis em valores mercantis, e vice-versa. Como ilustra a controvérsia sobre os impostos ecológicos, os efeitos e os custos ecológicos não são traduzíveis na linguagem miserável da mensuração mercantil. Precisamos de uma alternativa anticapitalista: o ecocomunismo.

A globalização é atravessada também por outra contradição, não menos perigosa: a racionalidade formal da globalização capitalista favorece por toda a parte a irracionalidade dos pânicos identitários, a universalidade abstrata do cosmopolitismo mercantil desencadeia particularismos e endurece os nacionalismos. Neste universo governado pela lei do lucro, submetido à tirania sem rosto do capital, os muros não são abolidos, eles se deslocam: assim a Europa de Schengen, rodeada de torres de vigia. Poderíamos acrescentar em 2020: e afogando dezenas de milhares de migrantes nas águas do Mediterrâneo.

O internacionalismo de classe continua a ser a melhor resposta ao nacionalismo tribal e ao imperialismo. É o herdeiro da universalidade da razão proclamada pela filosofia do Iluminismo e da concepção revolucionária de cidadania – aberta aos estrangeiros – da constituição republicana de 24 de junho de 1793, adotada por uma Convenção onde se sentavam – mas não por muito tempo! – Anarcharsis Cloots e Thomas Paine. Enfim, a solidariedade com o "outro" baseia-se numa velha tradição que remonta ao Antigo Testamento: não oprimirão o estrangeiro porque foram estrangeiros – e indocumentados – na terra do Egito...

A última parte do livro, "A revolução nos seus labirintos", é na minha opinião a parte mais inovadora e "inspirada" do livro. Há numerosas referências ao antigo testamento. Judeu não-judeu - no sentido dado a este termo por Isaac Deutscher - ateu e antissionista, Daniel não estava menos interessado na tradição judaica, no messianismo, no marranismo e nos profetas. O profeta bíblico, como Max Weber já havia sugerido em seu trabalho sobre o judaísmo antigo, não opera com os ritos mágicos, mas nos convida a agir. Ao contrário da atitude de espera apocalíptica e dos oráculos de um destino inexorável, a profecia é uma antecipação condicional, que procura afastar o pior, para manter aberto o feixe de possibilidades.

Na origem da profecia, no exílio babilônico, há uma exigência ética que é forjada na resistência a qualquer razão de estado. Esta alta exigência atravessa os séculos: Bernard Lazarus, o defensor de Dreyfus e socialista libertário foi, segundo Péguy, um exemplo de profeta moderno, animado por uma "força de amargura e desilusão", um sopro de resistência indomável à autoridade.

Aqueles que resistiram à autoridade e ao destino, todos aqueles "príncipes do possível" que são profetas, hereges, dissidentes e outros insubmissos, sem dúvida, muitas vezes se enganaram. Mas eles não deixaram de marcar o caminho, ainda que pouco legíveis, e salvaram o passado oprimido da pilhagem bruta dos vencedores.

Segundo Daniel Bensaid, há profecia em toda grande aventura humana, seja ela amorosa, estética ou revolucionária. A profecia revolucionária não é uma previsão, mas um projeto, sem qualquer garantia de vitória. A revolução, não como um modelo pré-fabricado, mas como uma hipótese estratégica, permanece o horizonte ético sem o qual a vontade renuncia, o espírito de resistência capitula, a fidelidade falha, a tradição (dos oprimidos) é esquecida. Sem a convicção de que o círculo vicioso do fetichismo e a ciranda infernal da mercadoria podem ser quebrados, o fim se perde nos meios, o objetivo no movimento, os princípios nas táticas.

A bifurcação e a aposta

Daniel tem o mérito de ter introduzido no léxico marxista um novo conceito: a bifurcação. Ele esboçou, por assim dizer, as linhas gerais do que poderia ser chamado de um marxismo da bifurcação. Blanqui usou o termo, mas em um contexto astronômico; Rosa Luxemburgo não usou a palavra, mas a ideia está no coração do Folheto Junius de 1915: socialismo ou barbárie. Daniel cita pouco Rosa Luxemburgo: parece-me que isto é uma limitação... Mas a sua abordagem vai mais longe.

A sua releitura de Marx, à luz de Blanqui, Walter Benjamin e Charles Péguy, leva-o a conceber a história como uma série de ramais e bifurcações, um campo de possibilidades onde a luta de classes ocupa um lugar decisivo, mas cujo resultado é imprevisível. A ideia de revolução se opõe à sequência mecânica da temporalidade implacável. Refratária ao desdobramento causal dos acontecimentos ordinários, ela é, para Walter Benjamin como para Bensaid, uma interrupção.

Segue-se que o compromisso político revolucionário não se baseia em nenhuma "certeza científica" progressiva, mas numa aposta fundamentada sobre o futuro. Daniel inspira-se aqui nas obras notáveis – hoje demasiado esquecidas – de Lucien Goldmann sobre Pascal: para o pensador jansenista do século XVII, a existência de Deus não pode ser demonstrada por fatos; só pode ser, para o crente, uma aposta na qual ele engaja sua vida. Segundo Goldmann, um raciocínio semelhante – mas profano – aplica-se ao futuro socialista da humanidade: é uma esperança que não pode ser demonstrada "cientificamente", mas na qual se deve apostar e assim comprometer toda a própria existência. A aposta é inevitável, em um sentido ou em outro: como escreveu Pascal, devemos apostar, estamos a bordo; qualquer ação, qualquer compromisso é necessariamente baseado numa aposta, é portanto um "trabalho para a incerteza". Na religião do deus oculto (Pascal) como na política revolucionária (Marx), Daniel conclui, a obrigação de apostar define a condição trágica do homem moderno.

Como Enzo Traverso observa apropriadamente em seu belo livro Melancolia da Esquerda (Belo Horizonte: Âyné, 2019 – que tem um capítulo dedicado a Bensaid, que é sem dúvida inspirador de sua pesquisa), o pensamento de Daniel Bensaid rompia com o historicismo estalinista da PCF, que reproduzia algumas das características da socialdemocracia alemã criticada por Walter Benjamin: uma visão linear da história como o crescimento das forças produtivas, a confiança no "progresso" e a certeza da vitória final.

Nada é mais estranho ao revolucionário, insistiu Daniel, do que a fé paralisante em um progresso necessário, em um futuro garantido. Pessimista, ele não está disposto a se render. A sua utopia é a do princípio da resistência a uma provável catástrofe. Sua aposta não é um desejo piedoso, uma simples opção moral: como Lucien Goldmann já assinalou, ela se traduz em ação – ou seja, para Daniel, ação estratégica, intervenção militante no coração das contradições da realidade.

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