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Dossiê: Igrejas e religião nas Américas

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Massimo Faggioli: O cisma nos EUA está próximo?

Os bispos podem unir uma Igreja cada vez mais viciada em sua própria polarização, quando eles próprios são responsáveis pelas amargas divisões entre os católicos estadunidenses? A presidência de Biden pode acelerar a queda rumo a um cisma.

Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA. The Tablet, 11-02-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

A Igreja Católica nos Estados Unidos está dividida há algum tempo: um sistema político bipartidário produziu uma Igreja bipartidária, com uma sólida maioria de bispos favoráveis ao Partido Republicano – até mesmo ao Partido Republicano de Donald Trump.

 

Mas agora existe o risco de a Igreja dos EUA ficar ainda mais dividida – não uma comunidade com uma grande variedade de culturas e espiritualidades diferentes, algumas vezes em tensão entre si, uma “grande tenda”, mas sim duas versões distintas do catolicismo, cada uma reivindicando a ortodoxia e existindo em um regime de excomunhão mútua.

 

Escritores e acadêmicos cristãos conservadores e pensativos, veteranos de longa data das “guerras culturais”, reconhecem que, em um nível político, eles perderam. Eles concluíram que os EUA não são mais um país cristão – na verdade, eles o veem se tornando cada vez mais hostil ao cristianismo tradicional. Mas os “guerreiros culturais” católicos não baixaram as armas nem se resignaram a recuar.

 

As lutas internas da Igreja e da nação se sobrepõem. Trump deu seu apoio àqueles que se recusam a questionar o mito dos EUA como uma nação dotada de uma bênção especial, com um destino inscrito no plano divino. Ele recebeu o apoio de muitos eleitores que se opõem não apenas ao Partido Democrata, mas também a qualquer reavaliação crítica desse mito estadunidense fundacional.

 

O mito estadunidense tem conotações religiosas e teológicas que precedem o discurso das Igrejas e religiões. O discurso de Joe Biden na noite em que ele aceitou a sua nomeação na Convenção Nacional Democrata foi dominado pela imagem da luz se opondo às trevas – a escuridão da desordem e da ameaça à constituição que Trump e o trumpismo causaram, mas também a escuridão de um caos cosmológico real que eles não causaram, mas revelaram ainda mais: um caos cosmológico que põe em xeque as raízes morais e religiosas dos EUA.

 

“Guerras culturais” católicas

A ascensão de Barack Obama teve dois efeitos opostos. Por um lado, sua eleição reassegurou aos liberais e progressistas o valor fundamental e a vitalidade do projeto estadunidense no fim do “século americano”; por outro lado, sua presidência desencadeou uma reação – alimentada pelas ansiedades de uma ameaçada “supremacia branca” – de conservadores políticos e religiosos contra a nova face do país.

 

O fenômeno político de Trump, com sua insistência na teoria da conspiração de que Obama não era realmente um cidadão estadunidense, começou ao lado do movimento Tea Party, que muitos tentaram retratar como uma expressão de simples ansiedade pelo futuro econômico do país que lida com a grande recessão que começou em 2008, ignorando suas evidentes conotações racistas.

As “guerras culturais” católicas prosperaram não só por causa da ascensão e da queda (devido à sua incapacidade de cumprir seus compromissos nas questões pró-vida) da “coalizão do New Deal” entre democratas e católicos, mas também porque essas lutas político-teológicas revelaram a apostas do jogo. A atual fase das “guerras culturais” não tem a ver com a economia, mas com a cultura, no sentido que Terry Eagleton a descreveu: “A cultura (...) pode ser definida hoje em dia como aquilo pelo qual você está preparado para matar ou morrer”.

 

As “guerras culturais” alcançaram outro estágio em seu desdobramento como guerras teológicas: elas dividiram o catolicismo de uma forma muito mais profunda e mais visível do que dividiram outras Igrejas, levando a Igreja Católica dos EUA para perto de uma situação de um cisma suave. Tomar uma posição nas “guerras culturais” agora se tornou uma parte inevitável da vida para os católicos; não apenas onde se está no espectro entre a esquerda e a direita na política e na Igreja, mas também onde se está dentro de cada ala da Igreja. Mesmo na academia católica, as credenciais ideológicas e o posicionamento político tornaram-se mais importantes do que outras habilidades ou conquistas.

 

Muito mais evidentemente na direita, mas não totalmente ausente na esquerda, a presidência de Trump e as eleições de 2020 revelaram até que ponto os dois lados da divisão católica adotaram as plataformas dos dois partidos políticos, curvando a ortodoxia teológica para se encaixar na ortodoxia ideológica e deixando muito pouco espaço para a divergência de posições específicas em ambos os lados.

 

Polarização extrema da Igreja

Há dois pacotes em oferta e, por mais relutantes que eles possam ser em relação a alguns dos itens em cada um, os católicos são pressionados a adotar um ou outro. Isso é evidente, por exemplo, na dificuldade que os católicos têm em articular uma interpretação apartidária do movimento “Black Lives Matter”. Cultivar uma distância de cada lado e tentar escolher partes de cada um apresentaria o risco de deixar a Igreja em um beco sem saída, não apenas politicamente, mas também moral e espiritualmente.

 

O desafio para a Igreja dos EUA, tanto político quanto eclesial, na emergência atual é reconstruir uma unidade que marginalize os extremos tanto da direita quanto da esquerda – e esmagar o sectarismo crescente que é a epítome do espírito não católico. Não vai ser fácil. Os bispos lideram uma Igreja que está cada vez mais viciada em sua própria polarização extrema – graças em grande parte à liderança fortemente partidária que eles próprios ofereceram.

 

O front da Conferência Episcopal mais hostil ao governo Biden – e simultaneamente ao papado de Francisco – não é mais o velho conservadorismo católico, mas sim uma nova Vendeia que reage àquilo que ela percebe como uma revolução política e social em que a questão do aborto se uniu à de gênero e das identidades sexuais.

 

Aquilo que o teólogo jesuíta Mark Massa chamou de “Revolução Católica Americana” dos anos 1960 foi, ao que parece, seguida por uma insurreição, uma contrarrevolução católica; e a eleição do segundo presidente católico representa um revés, não uma solução.

 

Pode-se falar de “Trumpismo Católico” como um fenômeno de recepção cultural e simbólica dentro da Igreja do exemplo moral de um presidente que, como nunca antes na história das relações EUA-Vaticano, se opôs diretamente ao papa, não com base em uma agenda secular, mas religiosa, neoconstantiniana. O resultado foi um dano grave à autoridade moral, ao prestígio cultural e à força de coesão do catolicismo aos olhos de uma nação já em processo de secularização.

 

A vida intelectual do catolicismo conciliar e dialogante nos EUA, que Biden em grande medida reflete, está agora, do ponto de vista da estratégia eclesial, em uma terra de ninguém; as ideias do ensino social católico progressista são articuladas hoje em uma linguagem amplamente pós-teológica, pós-eclesial e pós-católica. Isso deixa um vazio no catolicismo estadunidense que é preenchido pelo neofundamentalismo e pelo neointegralismo, tanto na política quanto no debate intelectual. É um processo que continuará mesmo após a derrota de Trump nas eleições.

 

Trump e o trumpismo forçaram os EUA a se confrontarem consigo mesmos em um momento de crise que a pandemia do coronavírus apenas agravou. A presidência de Trump, que o Partido Republicano abraçou quase totalmente, levantou o véu sobre os frutos desastrosos da “anglobalização”, as doutrinas econômicas laissez-faire do pequeno Estado do mainstream anglo-americano, desde os anos Thatcher-Reagan. Isso foi uma revelação dos fracassos não apenas da liderança desajeitada de Trump, mas também de toda uma geração intelectual e política, incluindo os governos Clinton e Obama e o establishment democrata no qual Joe Biden foi uma figura central por quase 40 anos.

 

Neoconservadorismo e neofundamentalismo

Estamos em uma crise política, mas também teológica. O futuro do catolicismo vivido, nos EUA assim como no resto do mundo, não terá necessariamente a aparência de um liberalismo teológico magnífico e progressista. Na política estadunidense e especialmente no Partido Democrata, Biden, aos 78 anos, é – para adotar o termo usado pelo ex-primeiro-ministro italiano Romano Prodi – um dos últimos “católicos crescidos”: aqueles católicos do século XX que se recusaram a permitir que seu próprio “respeito religioso pelo intelecto e pela vontade” em relação ao ensino da Igreja (como o Vaticano II o descreve) prevalecesse sobre a consciência de um político que serve ao bem comum de um país multirreligioso, tanto crentes quanto não crentes, e que distinguem entre os diferentes papéis da Igreja e do Estado na sociedade.

 

Agora há menos políticos democratas católicos. Além do número cada vez menor de católicos “boomers”, isso se deve em parte aos riscos de incorrer na excomunhão informal pelas autoridades da Igreja, mas principalmente porque o partido não tolera desvios da linha partidária em relação à questão do aborto.

 

O Partido Democrata em 2020 falava, por meio de Biden, com a sua piedade obviamente sincera, uma linguagem que era inteligível para muitos eleitores religiosos, inclusive católicos. Do outro lado, católicos enfurecidos com a relutância de Biden em aplicar a sua fé às questões da vida vêm em grande parte de uma tradição que vai de um neoconservadorismo moderado inspirado em João Paulo II e Bento XVI a um neofundamentalismo mais extremo, cujo profeta é o filósofo e teórico conservador alemão Carl Schmitt.

 

A Igreja dividida dos EUA de hoje é uma reminiscência daquela Igreja francesa entre o fim do século XIX e meados do século XX. Mas – de modo preocupante para quem espera deter a queda rumo ao cisma absoluto –, entre a nova geração de pensadores e ativistas políticos católicos estadunidenses, há muito mais do nacionalismo reacionário de Maurras do que da democracia católica de Maritain.

Jean-Pierre Bastian: Católica latino-americana ainda mantém seu poder sobre a sociedade

Apesar do crescimento de evangélicos e pentecostais na América Latina, a Igreja Católica não está necessariamente em declínio, de acordo com o sociólogo Jean-Pierre Bastian.

Samuel Lieven, La Croix International, 16-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Jean-Pierre Bastian, professor de sociologia da religião na Faculdade de Teologia Protestante de Estrasburgo, acredita que as mudanças religiosas na América Latina e o avanço dos evangélicos não implicam necessariamente em um declínio do catolicismo no continente.


A América Latina está em processo de se tornar evangélica?

Os evangélicos, particularmente os pentecostais, fizeram grandes progressos nessa parte do mundo ao longo das últimas duas décadas. Em termos de porcentagem da população, eles cresceram de 10% no fim dos anos 1990 para mais de 15% em 2010, incluindo picos de quase 30% no Brasil e na Guatemala. Essencialmente, essas Igrejas prosperaram na pobreza e na marginalização social. Portanto, não há razão para que elas entrem em estagnação em breve. Nesse ritmo, os pentecostais, que são extremamente fragmentados, serão, sem dúvida, a maioria até o fim deste século. No entanto, a sociedade latino-americana não está em processo de abandonar a Igreja Católica. A Igreja Católica continua sendo o elemento mais estruturante.

Mesmo assim, os pentecostais têm algumas posições poderosas, particularmente no Brasil...

Depois do fim da Guerra Fria, da transição democrática e da abertura da economia mundial, esses movimentos decolaram. Inicialmente, eles se apropriaram da mídia, incluindo televisão e rádio. No Brasil, a Igreja Universal do Reino de Deus é dona da TV Record, uma das maiores redes do país, com audiências que são quase tão altas quanto as da TV Globo. As práticas religiosas populares, incluindo curas, exorcismos etc., também ajudaram a garantir que os pentecostais tenham um grande público e pressionem os católicos a seguirem os seus passos. Finalmente, a sua influência política cresceu continuamente com a aparição de partidos evangélicos confessionais em todos esses países.

Que ferramentas a Igreja Católica possui para lidar com esses desdobramentos?

Os anos 1980 e 1990 testemunharam a aparição de padres carismáticos como o Pe. Marcelo Rossi, no Brasil, que procurou imitar os pastores pentecostais. Os canais de televisão católicos se multiplicaram, a liturgia foi pentecostalizada... Mas o resultado não foi muito convincente. À medida que se acostumaram a se mover entre universos que realmente se tornavam mais semelhantes, as pessoas, no fim, optaram por ir aonde o milagre fosse mais impressionante. E os pentecostais sempre serão os vencedores nesse campo, porque os bispos católicos sempre advertiram contra excessos carismáticos entre os fiéis. Assim, a estratégia católica de assimilar as práticas religiosas dos seus rivais acabou sendo uma espada de dois gumes.

No entanto, você não concluiu que haverá um declínio no catolicismo no continente...

Enquanto a Igreja conseguir manter o seu poder sobre a sociedade de cima, ela não terá muito com que se preocupar. As elites econômicas e sociais latino-americanas ainda são católicas e são principalmente educadas em universidades pontifícias. O catolicismo continua sendo a religião dos Estados-nações em toda a região. A Igreja ainda possui os recursos intelectuais, teológicos e culturais para continuar orientando a sociedade. O problema para a Igreja é como ela será capaz de gerir esse legado histórico permanecendo atenta aos mais humildes, que já começaram a virar as costas para ela.

México: Protestantismo está começando a ultrapassar o catolicismo

Cada vez mais mexicanos estão se identificando como protestantes, enquanto a Igreja Católica assiste à sua população lentamente ficar para trás.

Youna Rivallain, La Croix International, 11-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

México é o segundo país com a maior população católica no mundo, atrás apenas do Brasil. Mas uma recente pesquisa mostrou que apenas 77.7% dos mexicanos identificam-se hoje como católicos. Esse é o percentual mais baixo já registrado.

Ao longo das últimas duas décadas, a porcentagem de católicos neste vibrante país latino-americano continuamente declina. Caiu dez pontos entre 2000 e 2020, indo de 88% para 77.7%. A mesma coisa aconteceu no período entre 1950 e 2000. Quase 98% dos católicos eram católicos e caíram para 88%. Isso foi revelado pelo censo decenal, a cargo do INEGI, Instituto Nacional de Estatística e Geografia do México.

Enquanto o catolicismo se demonstrou em declínio, as comunidades protestantes – pentecostais, em particular – estão registrando o maior crescimento já observado. Enquanto apenas 7.5% dos mexicanos diziam ser protestantes em 2010, mais de 11% deles disseram ser membros de alguma denominação em 2020. Em um país com forte tradição católica, um em cada dez mexicanos agora é protestante. Essa é a primeira vez na história do México.

O aumento de evangélicos e dos “sem religião”.

Além do crescimento do protestantismo, a pesquisa do INEGI menciona um significativo aumento no número de pessoas “sem religião”. Eles são atualmente um pouco mais que dez milhões, ou 8,1% da população. Em 2010, apenas 4.7% dos mexicanos disseram não pertencer a um grupo religioso.

O censo também pesquisou a proporção de agnósticos (pessoas que acreditam sem pertencer a uma religião). Em 2020 eles representavam 2,5% da população, ou 3 milhões de pessoas.

O censo de 2010 não registrou essa categoria.

“A pluralização religiosa na América Latina, a qual se tornou evidente em 1990, está agora ‘galopando’, para a grande preocupação de uma série de líderes religiosos concorrentes”, disse a pesquisadora de religiões Blandine Chelini-Pont, professora de História Contemporânea na Universidade de Aix-Marseille, na França.

Ela disse que o crescimento do protestantismo na América Latina está ligado ao “movimento de globalização religiosa, desconectando religiões das tradicionais autoridades superiores (notavelmente o Estado e a Igreja) e disseminando praticantes através de conversões e migração”.

Um dos fatores explicativos poderia ser a imigração e a influência dos Estados Unidos, no norte mexicano.

Mais de 1 milhão de estadunidenses vivem no México e incontáveis números de mexicanos foram para os Estados Unidos. Muitos deles se converteram ao protestantismo. E aqueles que retornaram ao México evangelizam seus pares.

Um fenômeno observado em toda a América Latina

As estatísticas no México ilustram um declínio gradual do catolicismo por toda a América Latina. Isso em parte se deve ao crescimento do Evangelicalismo.

Em seu livro de 2018, “Jésus t’aime” (“Jesus te ama”, em tradução livre), a jornalista Lamia Oualalou conta sobre a penetração do Protestantismo Evangélico no Brasil.

Ela aponta que os católicos frequentemente entram nas “igrejas concorrentes” porque são mais dinâmicas e carismáticas – em qualquer sentido da palavra.

O jornal evangélico estadunidense Christianity Today apoia essa análise.

Eles dizem que – especialmente no México – Batistas, Metodistas e Presbiterianos tendem a “se pentecostalizar” mais e mais, através da oração enérgica, o aprimoramento dos dons espirituais e curas.

Mas a denominação protestante mais fortemente representada no México é “não denominacional”, o outro nome para evangelicalismo.

O instituto mexicano de pesquisa Latinobarómetro apresentou estatísticas que mostram que os evangélicos tendem a praticar sua fé mais do que os católicos.

Uma pesquisa de 2018 mostrou que 63% dos mexicanos que se identificaram como cristãos não denominacionais disseram que praticavam sua fé, em comparação com apenas 41% dos católicos.

Os evangélicos e o poder na América Latina

De uma atitude de distância, passando pelo colateralismo, até chegar ao compromisso político direto, o cmainho do movimento pentecostal latino-americano praticamente completou seu caminho. O crente de fé protestante que meio século atrás se cuidava muito para se envolver na política, agora considera completamente natural que o “irmão deve votar pelo irmão”. Tendo alcançado a maioridade, os modernos herdeiros da antiga Reforma Protestante levantam as bandeiras da política partidária praticamente em todo o continente. Porque os evangélicos – escreve um atento estudioso da sua encarnação e desenvolvimento na América Latina, o peruano José Luis Pérez Guadalupe – “chegaram ao continente latino-americano para ficar, ficaram para crescer e cresceram para conquistar”. A que se deve essa transformação que na realidade foi surpreendente e relativamente rápida, da visão tradicional do evangelismo latino-americano?

Alver Mettalli, Vatican Insider, 13-02-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

A metamorfose evangélica, ao passo do proclamado distanciamento ao neocolateralismo e dali ao compromisso político, com partidos e candidatos próprios é, em primeiro lugar, o resultado de sua mesma expansão e, portanto, da consciência de que constituem uma força de choque eleitoral capaz de modificar os equilíbrios políticos de um país e de uma região.

Os estudos sobre as modificações do universo religioso no continente latiinoamericano não são muitos, e entre os poucos eu há convém citar aqueles mais conhecidos: os da Corporation Latinobarometro, uma agência privada com sede central em Santiago do Chile e os da Pew Research Center, uma think tank estadunidense com sede em Washington, ambos especializados em pesquisas de opinião sobre temas de alcance continental. Segundo um informe da primeira dessas instituições, Latinobarometro, o catolicismo latino-americano diminuiu 13 pontos percentuais entre 1995 e 2014, com retrocessos mais acentuados em países da América Central como Nicarágua (-30), Honduras (-29) e Costa Rica (-19). Nesses mesmos países, os evangélicos cresceram de maneira inversamente proporcional ao retrocesso católico, confirmando dessa maneira que a grande maioria dos herdeiros de Lutero na América Latina são novos convertidos provenientes das filas católicas.

Os resultados do Pew Research Center atualizados também em 2014 mostram que os católicos latino-americanos baixaram a 69% da população total, enquanto os evangélicos em seu conjunto subiram a 19%. Nos três países da América Central anteriormente citados – Nicarágua, Honduras e Costa Rica – a realidade evangélica pentecostal cresceu a tal ponto que no futuro próximo poderia tirar a Igreja Católica de seu primado histórico, alcançando a distância que ainda a separa do catolicismo romano (6% em Honduras, 7% na Guatemala e Nicarágua e 10% no Panamá).

Frente ao generalizado crescimento evangélico, há duas exceções que vale a pena apontar porque poderiam constituir a tendência no futuro. Uruguai é o único país da região latino-americana onde o segundo grupo majoritário não são os protestantes em suas diversas denominações, mas sim os ateus sem filiação religiosa declarada. Ainda mais anômalo é o caso chileno, que se caracteriza por uma impressionante perda de confiança na Igreja Católica que nesse momento tem 124 processos de pedofilia em curso, com 222 vítimas declaradas e 178 investigados, dos quais 105 são padres e 8 bispos. A última pesquisa de 2018, feita pelo Centro de Estudios Públicos, uma fundação acadêmica chilena dedicada a análise de temas públicos, mostra que somente um de cada 10 chilenos conserva certa confiança na Igreja, com uma diminuição dos que avaliam positivamente sua doutrina e sua obra de 51% a 13%, em duas décadas. Mas a diferença de outros países como Brasil ou Guatemala, onde os evangélicos conquistam quase todo o terreno que Igreja Católica deixou livre, no Chile o maior crescimento se observa entre aqueles que não se identificam com nenhuma religião, que se triplicaram nas últimas duas décadas, passando de 7% aos 24% atual.

Fica compreensível que a força religiosa crescente do evangelismo e o enfraquecimento do catolicismo se traduza também na vontade dos evangélicos de conquistar espaços e condicionar processos a favor da realidade que representam. A tentação de envolver na política uma massa de votantes de consideráveis proporções se tornou irresistível com o passar do tempo. E se no começo do século XX a luta dos protestantes – luteranos, anglicanos, presbiteranos, batistas, metodistas e pentecostais – se orientava a afirmar e promover a liberdade de consciência e a separação entre a Igreja e o Estado, ainda o preço de audazes alianças com a maçonaria e outros movimentos declaradamente anticatólicos, hoje os objetivos mudaram completamente e as multas denominações pentecostais mostram uma aguda sensibilidades pelas batalhas eleitorais onde estão em jogo valores que caracterizam no sentido antropológico a convivência de uma sociedade.

Observando o comportamento político dos evangélicos em um número crescente de países da América Latina, se pode ver que sua força eleitoral se coagula em primeiro lugar em torno de muitos “nãos” pronunciados em relação com a modificação de leis para “atualizar” os parâmetros morais vigentes em um país, em função das mudanças culturais profundas que se produziram na sociedade. Os pastores das denominações pentecostais se opõem ao aborto, às uniões homossexuais, à legalização da maconha, à introdução da educação de gênero nas escolas, ao que se soma a luta contra a corrupção em nome da moralização da política e o endurecimento de leis contra a criminalidade. E quando esses temas entram nos programas eleitorais dos partidos laicos, a convergência dos evangélicos em candidatos próprios ou “externos” para neutralizá-las foi sendo cada vez mais maciça.

Cabe perguntar qual foi a fisionomia, ou a performance mais recente, do movimento evangélico que incorporou a participação política direta como forma de sua presença e de sua relação com as sociedades da América Latina. Samuel Escobar, professor emérito de Missiologia, na Palmer Theological Seminary of Pennsylvania, fala da sua própria experiência como pastor, de uma “segunda onda de missionários, mais modernos e de evidente influência conservadora américa” que “conseguiu posicionar socialmente os evangélicos ao ponto de que já não se fala de protestantes: ser evangélico é uma forma especial de ser protestante”.

O teólogo protestante alemão – e pastor luterano – Heinrich Schäfer, aponta a mudança profunda que se produziu nas filas dos descendentes de Lutero centrando a atenção no conceito de graça, que “no protestantismo histórico é fortemente objetivo e assume a missão e a educação como modos de exercer influência na sociedade”, quanto no protestantismo evangélico prevalece “um conceito de missão, fortemente de conversão, orientado a um crescimento quantitativo da igreja e sua ética social está subordinada aos interesses da missão”.

A incursão na política partidário dos novos evangélicos não se produz em razão de um pensamento social que tenha acompanhado seu desenvolvimento e transformação, mas sim pelo potencial eleitoral e uma clara influência conservadora americana, baseada em uma teologia da prosperidade e uma visão reconstrucionista do mundo. Em síntese, estamos na presença de “um novo tipo de protestantismo, politicamente mais conservador, anticomunista e antiecumênico, vale dizer anticatólico que, contrariamente aos seus predecessores, alcança um notável crescimento numérico por meio de estratégias de evangelização e difusão massivas, incluindo os meios de comunicação e tecnologias de informação”.

Falar de meios de comunicação massivos é falar de poder, e falar de poder é falar de política. Os evangélicos aprenderam com rapidez e na América Latina implantam amplamente e em função política o poderoso arsenal de meios dos quais dispões, apontando sempre a novas aquisições. A última foi anunciada no início de 2019 e se refere nada menos que à cadeia de televisão CNN. Douglas Tavolaro, neto e biografo do magnata brasileiro e pastor evangélico Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, será o administrador chefe da CNN Brasil, uma franquia da cadeia estadunidense. É um negócio sem precedentes na história do Brasil que se concretizou quando Macedo alinhou publicamente seu império midiático com a posição do governo do presidente eleito Bolsonaro. Para ter uma ideia da magnitude do projeto basta pensar que, segundo as declarações publicadas pela agência argentina Télam, a CNN se dispõe a incorporar 800 pessoas, entre elas 400 jornalistas, e terá redações em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

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