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Espanha: o projeto de Sánchez, depois das eleições catalãs

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Manuel Monereo analisa o projeto de Pedro Sánchez, após as eleições catalãs, afirmando que o primeiro-ministro de Espanha assume o “consenso de Bruxelas”, como “única política possível”, e que para ele tudo o mais é “secundário”. No texto, aborda ainda a “operação Draghi” em Itália.

Esquerda.net, 20 de fevereiro de 2021

Avaliar os processos eleitorais é sempre uma tarefa árdua que deve combinar a atenção aos dados com a busca das tendências de fundo que os regem. Nada fácil. É já um hábito comum nas noites eleitorais ver partidos políticos a proclamarem-se vencedores e a criticarem adversários novos ou antigos. Não é este o caso.

As eleições catalãs têm resultados complexos e admitem leituras contraditórias. O fundamental: os problemas básicos continuam lá e a dinâmica dos blocos não mudaram demasiado. Resta saber se as transformações no seu interior levarão a ruturas nos alinhamentos tradicionais e se a médio prazo estes mudarão, gerando novas dinâmicas e novos cenários.


As eleições serviram para resolver alguns dilemas no interior dos blocos ou espaços políticos consolidados. No primeiro, a luta pela primazia entre independentistas resolve-se a favor da ERC; Junts cai para um significativo terceiro lugar, num contexto definido pela maioria parlamentar das forças independentistas. A segunda está relacionada com a hegemonia no chamado constitucionalismo. A partida resolve-se claramente a favor do PSC que retorna à sua centralidade e contra o Ciudadanos, que se afunda dramaticamente. O terceiro, as querelas das direitas espanholas. Vox ganha claramente e terá consequências no conjunto do Estado. O partido de Abascal atrai deputados em todas as províncias catalãs e implanta-se solidamente na cintura metropolitana de Barcelona. Há uma quarta questão que tem a ver com En Comú Podem. Jéssica Albiach fez uma excelente campanha que lhe permitiu derrotar as sondagens que lhe eram muito desfavoráveis e manter o mesmo número de deputados.

A operação Illa funcionou e diz muito sobre a audácia da equipa eleitoral que governa o partido socialista a partir da Moncloa. Colocar como alternativa na Catalunha o responsável pela gestão da pandemia era uma decisão particularmente arriscada. Agora diz-se que foi uma vitória agridoce; não é. Pedro Sánchez sabia perfeitamente que Illa não ia conseguir maioria para governar, mas duplicar os lugares e tornar-se a primeira força política é um feito que legitima o candidato e, indiretamente, o secretário do partido socialista. Pode dizer-se que o Governo é aprovado na primeira avaliação pública e que o desgaste foi menor do que o esperado.


O que vai acontecer agora na Catalunha? Receio que a proposta que Jéssica Albiach fez reiteradamente não seja aceite. O independentismo tem uma clara maioria parlamentar que os obriga a colaborar por muito que existam diferenças programáticas ou simplesmente de poder. Junts não pode dar-se ao luxo de passar para a oposição e deixar a ERC governar, sozinha ou acompanhada. Eles precisam tocar o poder, continuar a emitir mensagens de antagonismo face ao Estado e continuar a levantar o “direito de decidir” como uma política possível no curto prazo. O nó não foi totalmente resolvido e haverá uma longa batalha política pela frente. A Esquerra vê-se obrigada a pressionar em Madrid, mas sem romper, jogando forte com os seus deputados e apoiando a agenda social que a Unidas Podemos defende.


Como estes resultados influenciarão o resto da Espanha? Aqui está uma grande coincidência: Pedro Sánchez saiu reforçado. O que deve ser especificado é se este fortalecimento pertence ao Governo no seu conjunto ou apenas ao partido do presidente. Por enquanto, a oposição está muito debilitada e vai acelerar-se o conflito na direita. O Vox, desde o início, viveu um dilema: mudar o PP ou ser uma alternativa a ele. Depois destas eleições, a dúvida desaparece; a batalha será muito dura à direita e algo semelhante a uma guerra civil está à vista. Para o PSOE, o cenário é agora mais favorável porque permite polarizar-se com o Vox e tirar partido de uma bancada parlamentar em decadência como a do Ciudadanos.


Como fica a correlação de forças dentro do governo? Intuo que Pedro Sánchez ganha capacidade de manobra e Pablo Iglesias a perde. O PSOE recompõe-se como partido a partir de umas nada fáceis eleições autonómicas na Catalunha e no meio de uma crise que pôs em causa todos os dispositivos do Estado. Acrescento mais um dado, a gestão dos fundos de recuperação rompe a dinâmica do governo e converte a senhora Calviño na autêntica protagonista, juntamente com a Ministra das Finanças. A tensão será enorme entre o fator tempo (os projetos devem ser aprovados rapidamente para sair da crise o mais rápido possível); uma administração em muitos aspectos obsoleta (que deve ser reformada rapidamente); as exigências de uma crise social e sanitária cada vez mais dramática e, sobretudo, o cumprimento das estritas orientações políticas da Comissão Europeia.

Costuma dizer-se que Pedro Sánchez é um político sem princípios e sem projeto. Nunca acreditei nisso. O Primeiro-Ministro é um político normalizado que se adapta ao discurso dominante, que cria o seu próprio espaço e que atribui às ideias um papel não muito relevante. Como todos. No entanto, sempre teve um projeto: converter de novo o PSOE na centralidade política do país, garantindo-lhe uma longa permanência no Governo. A palavra chave é reconhecimento. O que Pedro Sánchez sempre pretendeu é ser reconhecido como o interlocutor indispensável dos grandes poderes económicos, o homem capaz de garantir a estabilidade da monarquia parlamentar, neutralizar os conflitos sociais e impedir o surgimento de uma alternativa ao sistema de poder dominante. Ele teve que fazer isso em condições muito difíceis num país que estava a mudar, com um movimento social como o 15M, com uma força política como o Podemos; diante de um velho e modesto aparato partidário, muito inclinado à direita e, isto é decisivo, num momento em que a história se acelera e se transforma.

Talvez valha a pena procurar uma perspetiva mais ampla, fazendo referência à "Operação Draghi". A Itália surpreende sempre. Ver o “fascista” Salvini, os “populistas” do Movimento 5 Estrelas governar com os políticos “corruptos” de Berlusconi em sagrada união com a casta política republicana, tem impacto. Os intelectuais sistémicos e os guardiões do politicamente correto terão que aprender que são os dispositivos do poder que delimitam e definem o peso real das ideologias e dos projetos políticos. Os que mandam põem de novo um deles à frente de um governo (de espetro muito amplo) para reestruturar pela enésima vez um capitalismo em crise permanente, domesticar uma sociedade que já não se reconhece a si própria e suspender a democracia em nome de regras económicas únicas e verdadeiras. Bonapartismo de manual ao serviço do capitalismo monopolista-financeiro, a verdadeira face do populismo realmente existente.

A Itália foi sempre um laboratório estratégico e um precedente político para os países do sul da Europa. A “operação Draghi” ensina: a) que o alinhamento férreo com as instituições da União e as suas diretrizes é a política, única, dos poderes económicos e das classes dirigentes; b) que as decisões fundamentais são tomadas por um aparato tecnocrático especializado em sintetizar os projetos das grandes corporações e dos fundos de investimento compatíveis com os interesses de uma Alemanha todo-poderosa; c) A democracia como a conhecemos está a desaparecer a marcha forçada. Cada crise aprofunda a contradição entre a lógica dos poderes fortes e os procedimentos constitucionais legitimados pela soberania popular.


Pedro Sánchez conhece “o consenso de Bruxelas” em primeira mão e assume-o como a única política possível. Tudo o resto é secundário, inclusive o governo de coligação. A tarefa agora é administrar os fundos de recuperação, assegurar a transferência de fundos públicos para as grandes empresas financeiras, realizar a reconversão tecnológica do aparelho produtivo industrial e de serviços, garantindo (diz Draghi) que os fundos não impeçam a necessária e urgente "destruição criativa" de empresas ineficientes e pouco competitivas. Colocar no centro os direitos de assalariados e assalariadas; pôr fim a um modelo laboral baseado nos baixos salários, na precariedade e, além disso, reforçar o Estado Social é algo que está bem como enunciado sempre que não se pretenda realizar em tempos de crise. Mais adiante. Agora toca a alinhar com a Comissão, disciplinar-se em torno dela. A Europa o exige.

Artigo de Manuel Monereo, publicado em Cuarto Poder, a 17 de fevereiro de 2021. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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