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Estrela vermelha, a primeira ficção científica utópica

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Comunismo em Marte? Comentário sobre o livro recém-traduzido do bolchevique Aleksandr Bogdánov, a primeira novela de ficção científica utópica totalmente desgarrada de elementos literários típicos do gênero fantástico, publicada originalmente em 1908.

Pedro Ramos de Toledo, Blog da Boitempo/A terra é redonda,11 de outubro de 2020

A publicação de Estrela vermelha presenteia o público brasileiro com dois ineditismos. Por um lado, traz para a língua portuguesa uma obra que, até então, contava com uma única tradução recente, na língua inglesa, que lamentavelmente se afasta substancialmente do texto original. A edição brasileira conta com a tradução cuidadosa e competente de Ekaterina Vólkova Américo e Paula Vaz de Almeida, que se notabiliza pela forma sensível e fiel com que trataram o texto original.

Por outro, apresenta à comunidade lusófona o autor Aleksandr Bogdánov, praticamente desconhecido por estes trópicos, e cuja vasta obra intelectual exerceu grande influência sobre a intelligentsia radical russa que assaltou os céus em outubro de 1917, caindo no limbo da censura estalinista após sua morte, em 1928. Esse silêncio vem sendo rompido nos últimos anos, graças ao crescente interesse em suas ideias. A publicação da Boitempo acrescenta mais um esforço nessa reabilitação.

Membro fundador da facção bolchevique do Partido Operário Socialdemocrata Russo (POSDR), Bogdánov se notabilizou por uma intensa atividade revolucionária nos primeiros anos do POSDR. Seu prestígio junto à facção bolchevique pode ser atestado pelo papel de destaque que exerceu em diversas de suas instâncias: foi eleito para o Comitê Central do POSDR em 1905, 1906 e 1907; durante a Revolução de 1905, foi o representante bolchevique junto ao soviete de São Petersburgo; além disso, atuou intensamente na redação de diversos veículos informativos bolcheviques como os jornais Vpered (Avante) , Proletarii (Proletários) e Novaia Zhizn‘ (Vida Nova) (Jensen, 1978: 36).

Influenciado pela filosofia natural do final do século XIX, Bogdánov buscou revisar a teoria marxista a partir do empiriocriticismo de Ernst Mach. A partir do conceito machiano de experiência, Bogdánov rejeitou categorias absolutas e dicotômicas – sujeito e objeto, físico e psíquico, matéria e espírito –, definindo a realidade a partir da interface entre o mundo externo e a consciência: o reino da experiência, cujo grau de verdade seria determinado pelo nível organizacional em que tal experiência se realiza.

A realidade passa a ser determinada pela experiência coletiva de uma sociedade (ciência) que organiza constantemente a natureza a partir das ideias que os homens produzem dela com base em sua atividade laboral coletiva. A partir da atividade social, complexos de elementos de natureza organizativa desenvolvem-se na cognição, auxiliando a organizar essas mesmas atividades sociais. Entre 1904 e 1906, Bogdánov publicou sua teoria em três volumes intitulados Empiriomonismo: ensaios em filosofia (Rowley, 1996: 8).

Os esforços revisionistas de Bogdánov não impediram a colaboração estreita entre ele e Lênin durante a maior parte da primeira década do século XX. No entanto, a partir de 1907, as divergências táticas (a participação do POSDR no processo parlamentar para a 3ª Duma) e filosóficas (a crescente influência do revisionismo de Bogdánov junto à intelligentsia) tornaram-se incontornáveis. A publicação, em 1909, de Materialismo e empiriocriticismo, obra na qual Lênin atacou as posições de Bogdánov como subjetivas, reacionárias e fideístas, marcou a ruptura definitiva entre os dois líderes. Ainda naquele ano, Bogdánov seria expulso da facção bolchevique, para a qual não mais retornaria (Sochor, 1978: 43).

Foi em meio à controvérsia estabelecida com Lênin que Bogdánov, em 1908, escreveu Estrela vermelha. Primeira obra de uma trilogia, o livro começa e termina entre as barricadas da revolução. A aventura nos é apresentada na forma de um diário pertencente a Leonid, um jovem cientista e revolucionário bolchevique, cujo paradeiro é desconhecido após ter desaparecido de um hospital psiquiátrico. Leonid inicia sua jornada em meio à Revolução de 1905, em que conhece um camarada chamado Menny, que propõe apresentá-lo a uma sociedade secreta de cientistas. Após passar por um rompimento amoroso, Leonid aceita o convite e viaja com Menny para uma base localizada na Finlândia, de onde parte em um veículo movido a energia nuclear para Marte, a “Estrela Vermelha”.

Ali, Leonid atua como observador de uma sociedade que, em um passado distante, passara por uma revolução socialista global, decorrente de uma catástrofe ambiental que levou à desertificação do planeta (Bogdánov, 2020 [1908]: 70). A revolução e consequente destruição do sistema capitalista trouxe a construção, por meio dos esforços da classe trabalhadora, de uma sociedade coletivista, igualitária e amonetária, onde o Estado inexiste e cuja produção planificada atua de acordo com as leis de equilíbrio econômico, supervisionada por poderosos sistemas organizacionais estatísticos (Bogdánov, 2020 [1908]: 84).

Tratado pelos marcianos como um embaixador entre os dois mundos, Leonid é levado a conhecer diversas instituições marcianas: uma colônia educacional; um museu; uma fábrica de maquinários; um hospital. Conforme a narrativa progride, Leonid torna-se cada vez mais instável, demonstrando crescente dificuldade em se adequar à natureza coletivista do socialismo marciano.

Após sofrer diversos colapsos nervosos, sempre sob os cuidados de Menny e Netty, sua médica e amante, Leonid desperta, de volta à Terra, em um hospital psiquiátrico, de onde foge ao lado de Vladimir, um operário lutador de rua e seu pupilo, e novamente se lança na luta revolucionária, agora sabendo que não caberia à sua geração de intelectuais guiar o processo revolucionário. Sua tarefa seria preparar Vladimir – a classe operária – para a vitória final (Bogdanov, 2020 [1908]: 178).

Três importantes tradições se apresentam de forma imediata em Estrela vermelha: a Ficção Científica (FC); o gênero utópico; e a condição da obra como tributária de uma longeva literatura radical. Sob o ponto de vista dos estudos de FC, Estrela vermelha se insere em uma consolidada linhagem de obras cujo espaço narrativo se passa em Marte, o planeta vermelho. O lugar privilegiado de Marte na FC se deve às possibilidades de vida inteligente que povoaram a imaginação dos escritores desde a primeira descrição do planeta realizada pelo astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli, em 1877, que se utilizou do termo “canalli” para descrever uma rede de linhas perpendiculares na latitude sul do planeta (Stableford, 2006: 29-33).

Já sob o ponto de vista dos estudos utópicos, Estrela vermelha foi considerada por Darko Suvin (1971: 117) a primeira novela de FC utópica totalmente desgarrada de elementos literários típicos do gênero fantástico. É importante ressaltar que, diferentemente da forma canônica do gênero – que apresenta um retrato crítico do real a partir da construção de um enclave perfeito e não-histórico – Estrela vermelha apresenta uma sociedade em crise, cuja história não se encerrou com o advento da utopia. O livro é talvez a primeira realização daquilo que Tom Moylan veio a denominar “Utopia Crítica”, uma vez que é menos o esquema de uma comunidade intencional do que um sonho intransigente que orienta o devir daquela sociedade a partir de seus conflitos e da permanência das diferenças (Moylan, 1986:10).

Finalmente, devemos contextualizar a obra dentro de uma longa tradição esteticamente radical e politicamente subversiva própria da intelligentsia russa. Essa foi uma tradição inicialmente influenciada pelo idealismo alemão de Schiller e Hegel e que, conforme se radicalizava, aproximava-se cada vez mais das correntes materialistas de Feuerbach e, por fim, de Marx (Branco, 2014: 122). Assim, Estrela vermelha se insere em uma tradição literária cuja história não pode ser desvinculada da própria história da intelligentsia que a produziu.

Branco (2008: 24) demonstra a correlação entre o posicionamento estético da produção literária russa e de seus autores à crescente radicalização política dessa arte. Autores como Turgueniev, Goncharov, Tchernichevsky, Pissarev, Gogol, Dobrolyubov e Tolstói produziram uma arte literária cujo papel buscava em grande parte refletir as condições objetivas da vida russa sob o peso do Estado autocrático, exigindo dessa arte um papel ativamente transformador.

Estrela vermelha, como bem apontam as tradutoras no prefácio, filia-se à escola publicista de Tchernichevsky, na qual a arte se submete às demandas da vida. Importa menos para o autor suas características estético-literárias e mais sua natureza engajada, a forma de manifesto que se oculta por trás da narrativa utópica ao mesmo tempo em que a ressalta. Bogdánov não escreve tão somente para os seus pares. Sua obra tem um sentido pedagógico, direcionado à classe trabalhadora. Ao expressar sua insegurança em abandonar a luta revolucionária, Leonid ouve de Netty: “Lá (na Rússia) o sangue está sendo derramado por um futuro melhor, mas, para que se possa levar adiante a própria luta, é preciso conhecer o futuro melhor. E é por esse conhecimento que você está aqui”. (Bogdánov, 2020 [1908]: 59)

Em acordo com esta tradição publicista, Bogdánov utilizou Estrela vermelha como veículo de propaganda para suas ideias e reflexões. O autor introduziu na obra diversas personae, cujos papeis vocalizavam parte de suas ideias, muitas delas em estágio ainda embrionário e que, anos mais tarde, tomariam formas amadurecidas e influenciariam sobremaneira o universo cultural soviético.

Em Menny encontramos o cientista tektológico, a ciência proletária que unificaria toda a experiência, rompendo o fetiche das especializações; em Netty, a médica que apresenta a transfusão de sangue como o ato de camaradagem derradeiro, capaz de solucionar mesmo a mortalidade; em Sterny, o crítico ao caráter individualista e fragmentário da humanidade terráquea, cuja consciência encontrava-se irremediavelmente fraturada pela causalidade do fetichismo burguês; em Leonid, o revolucionário que é transformado por sua experiência em Marte e que retorna cético quanto ao papel de uma vanguarda revolucionária composta por intelectuais eivados de individualismo, incapazes de expressar a visão de mundo coletivista do proletariado.

Em Estrela vermelha, Bogdánov demonstrou ter rompido com o Bolchevismo antes mesmo de sua expulsão: o papel da vanguarda do presente seria o de servir de guia para a formação de uma nova intelligentsia, saída diretamente da classe operária e que comporia no futuro a verdadeira vanguarda revolucionária. Não à toa, após sua expulsão, Bogdánov se retirou gradualmente da atividade militante, concentrando-se em atividades educacionais e científicas, que darão fruto posteriormente na forma do Proletkult e da Tektologia, a Ciência Universal Organizacional.

Estrela vermelha é por fim uma tela em que Bogdánov pincelou sua utopia como crítica ao seu próprio momento histórico. A história da revolução de Marte é, em certa medida, a projeção utópica da história da Revolução Russa de 1905. A título de exemplo, podemos citar a grave crise econômica que se seguiu ao fim das grandes obras dos canais marcianos. Bogdánov parece transpor para o seu romance a crise que se abateu sobre a Rússia após a construção da ferrovia transiberiana, cuja finalização serviu como fator para as greves que se espalharam pela Rússia em 1905 (Pokrovski, 1907 [1944]: 34).

Bogdánov buscou expor suas reflexões e prescrever soluções para os diversos problemas enfrentados pelos socialistas russos a partir do exemplo bem sucedido dos socialistas marcianos. Na obra, também se identificam as opiniões de Bogdánov sobre alguns personagens da intelligentsia do POSDR, principalmente aqueles com os quais Bogdánov se encontrava em debate naquele momento: Mírski, seria a um tempo Plekhánov, um filosofo que “tem por hábito profissional se colocar nos pontos de vista mais diversos e tentar apaziguá-los”; o poeta seria Górky, um homem que “viveu demasiados tormentos, vagando por todas as camadas de seu mundo para que lhe fosse fácil viver, ainda a passagem ao nosso”; e Lênin, o Velho da Montanha, “uma pessoa exclusivamente da luta e da revolução, […] uma pessoa de ferro, e as pessoas de ferro não são flexíveis. Nelas, há muito de conservadorismo espontâneo” (Bogdánov, 2020 [1908]: 176).

É a partir da interface entre essas três tradições que Estrela vermelha nos conta muitas histórias. A obra nos conta uma história político-econômica da Rússia entre a passagem dos séculos XIX e XX; nos conta uma história dos debates intelectuais constitutivos da intelligentsia e suas contradições; nos conta uma história da apropriação e transformação do pensamento pela radicalidade russa. Não se trata de é uma obra original em sua forma ou conteúdo. Ao contrário, é uma obra derivativa cuja originalidade é contextual, caracterizada pela formação, posição e intencionalidade de seu autor. Todas essas histórias encontram-se cruzadas e são transformadas pelas lentes de um intelectual original que as viveu e que participou ativamente de suas tramas, cujo ponto-de-vista só agora vem sendo reconstituído.

Estrela vermelha não é somente a obra inaugural da FC Soviética, ainda que também o seja; não é somente uma obra de FC marxista, um intento no mínimo inusitado para a época. Sua natureza única também se estende à história da literatura utópica através de seu caráter teleológico aberto, em que o conflito não é removido, mas transposto da relação entre os homens para o confronto contra a natureza. A História continua seu movimento, na forma de uma catástrofe ambiental incontornável com que se depara a totalidade marciana.

Essa dimensão aberta e trágica da utopia serve como um negativo para a tragédia da luta de classes na Terra e das difíceis decisões que cabem às gerações de ambos os planetas. Estrela vermelha possibilita um vislumbre da riqueza e diversidade dos debates empreendidos pela intelligentsia russa em seu período pré-revolucionário, caracterizada por um tatear constante em busca de ideias e programas que dessem conta das especificidades da Rússia e de seu povo.

Estrela vermelha assim nos apresenta um panorama amplo do pensamento político e econômico de Aleksandr Bogdánov, dando conta de suas contribuições em diversos campos da atividade intelectual revolucionária russa. Mais do que profícuo, Bogdánov foi um intelectual acima de tudo promíscuo, cuja obra buscou amalgamar a teoria marxiana ao que entendia haver de mais moderno na filosofia da ciência de seu tempo. Como resultado, acabou por produzir uma forma única de marxismo fenomenológico, empiricamente monístico e baseado em um sofisticado modelo funcionalista.

Foi a partir desse caminho único, heterodoxo em seu limite, que Bogdánov buscou compreender o papel dos sistemas ideológicos na formação da consciência e na resiliência das relações autoritárias burguesas. Mais do que qualquer outro intelectual de seu tempo, Bogdánov dedicou atenção central à teoria do fetichismo de Marx e a partir dela elaborou sua critique sobre o caráter fragmentário da consciência e dos riscos inerentes a uma intelligentsia carregada de individualismo, tornando-a linha condutora de sua vasta obra e o fundamento de sua teoria do conhecimento.

A luta contra a autocracia russa aliada a uma centenária tradição radical produziu na passagem entre os séculos XIX e XX uma geração intelectualmente fecunda e diversa, e Bogdánov foi talvez o intelectual que mais fielmente representou esse momento. Bogdánov transitou entre o marxismo e o positivismo; entre a política e a cultura; entre a ciência e a filosofia; entre a arte e a revolução. Esse caráter transicional é talvez a força e a fraqueza de sua obra: força pela originalidade das respostas que elaborou para as questões de seu tempo e fraqueza pela inadequação dessas ideias em um tempo que clamava por ação política.

Ler Estrela vermelha é como navegar no “revoltoso e belo oceano” (Bogdanov, 2020 [1908]: 156) das ideias de Bogdánov, um intelectual polimático, cujo pensamento ainda é relevante para entender nossos tempos tão sombrios.

Pedro Ramos de Toledo é mestre em história pela USP.

Referências

BOGDÁNOV, Aleksandr. Estrela Vermelha: uma utopia. São Paulo, Boitempo, 2020.

JENSEN, K. M. Beyond Marx and Mach: Aleksandr Bogdanov’s Philosophy of Living Experience. Dordrecht: D. Reidel Publishing Company, 1978.

MOYLAN, Tom. Demand the Impossible: Science Fiction and the Utopian Imagination. Bern: Peter Lang, 2014.

POKROVSKI, M. N. Causas Econômicas da Revolução Russa. Rio de Janeiro: Ed. Calvino, 1944.

ROWLEY, David G. “Bogdanov and Lênin: Epistemology and Revolution.” Studies in East European Thought, vol. 48(1), 1-19, 1996.

SOCHOR, Zenovia. Revolution and Culture: The Bogdanov-Lênin Controverse. Ithaca: Cornell University Press, 1988.

STABLEFORD, Brian. “The origins of Science Fiction.” In: The Cambridge Companion to Science Fiction, pp. 13-31. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.

SUVIN, Darko. “The Utopian Tradition of Russian Science Fiction”.  The Modern Language Review, Vol. 2 (1), 112-137, 1971.

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