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Gilbert Achcar: Quando o comunitarismo acredita ser laico

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Se as caricaturas anti-muçulmanas tivessem sido exibidas numa aula cívica como ilustração da indignidade da islamofobia, podemos apostar que teriam sido os "laicos" apoiadores da dita "liberdade de expressão" que teriam gritado e não os muçulmanos.

Gilbert Achcar, Esquerda.net, 24 de março de 2021

Já passaram quase cinco meses desde o assassinato do professor Samuel Paty da forma abominável que conhecemos. As paixões não se acalmaram verdadeiramente. E não se acalmarão em breve, pela razão óbvia de que aqueles que exploram este assassinato e outras atrocidades do mesmo tipo para fomentar o ódio ao Islão e aos muçulmanos não deixarão de o fazer, tanto mais que a França entrou agora num período pré-eleitoral. Mas o mais marcante desta corrida desenfreada é que o chamado homem do centro, Emmanuel Macron, participa alegremente de um roteiro escrito pela extrema-direita, melhorando assim as hipóteses de um novo avanço de Marine Le Pen nas próximas eleições presidenciais. A França bem pensante corre para o abismo, acreditando que está a correr na direção oposta.

O assassinato de Samuel Paty foi um poderoso indicador desta deriva. Passemos brevemente em revista as circunstâncias particulares deste trauma nacional. Há todos os motivos para acreditar que o professor da escola secundária Conflans-Sainte-Honorine tinha a melhor das intenções. A opção de deixar sair das aulas os alunos que ficassem chocados pelas caricaturas que supostamente retratavam o profeta do Islão não foi dada, obviamente, com o objetivo de evitar chateá-los? O professor pensava assim conciliar o dever que lhe era imposto, através de uma educação cívica sobre o tema da liberdade de expressão, por uma República Francesa que, em relação ao Islão, confunde irreligiosidade com anti-religiosidade, com um desejo muito louvável de poupar as sensibilidades dos seus alunos de origem muçulmana.

No entanto, é inegável que a generosidade do professor foi contrária ao princípio anti-comunitário que é suposto governar as instituições republicanas e, em particular, a educação pública secular. O que seria da "escola republicana" se os alunos fossem convidados a abandonar a sala de aula sempre que uma aula fosse suscetível de ofender os sentimentos religiosos ou a identidade da comunidade religiosa a que pertencem as suas famílias? A questão que se coloca então é porque é que Samuel Paty sentiu a necessidade de poupar alguns dos seus alunos de uma provação que ele julgou ser potencialmente ofensiva para eles.

Poderá ser devido à especificidade do Islão, que assim confirmaria o seu estatuto de religião incompatível com o "laicismo republicano", a menos que seja amordaçado pelo Estado? Um Estado que, a propósito, parece esquecer em relação ao Islão, e apenas ao Islão, que o princípio secular fundamental é o da separação entre religião e Estado e não o da gestão dos assuntos religiosos pelo Estado. Ou será porque o Islão não goza em França do respeito especial devido a qualquer religião minoritária de populações oprimidas, como justamente goza o judaísmo?

Poder-se-ia afirmar que os manuais escolares mostram caricaturas antissemitas para ilustrar a abjeção do nazismo ou do regime de Vichy. Isto é verdade, mas estes caricaturas não são de forma alguma exibidas como uma ilustração da liberdade de expressão. Se assim fosse, seria – e deveria ser – extremamente chocante. Pelo contrário, se as caricaturas anti-muçulmanas tivessem sido exibidas numa aula cívica como ilustração da indignidade da islamofobia, podemos apostar que teriam sido os "laicos" apoiantes da dita "liberdade de expressão" que teriam gritado e não os muçulmanos.

O que parece ser uma obstinação francesa de mau gosto em exibir caricaturas anti-muçulmanas é algo amplamente desaprovado nos países ocidentais de língua inglesa. Vale a pena perguntar por que razão existe esta diferença de atitude. Claro que não tem nada a ver com qualquer apego à liberdade de expressão que aconteceria menos do outro lado do Canal ou do Atlântico. Pelo contrário, este apego é mais forte aí, em particular nos Estados Unidos, do que em França: sabemos que o culto americano da "primeira emenda" tolera modos de expressão que, em França, seriam abrangidos pela lei.

E é de facto a tolerância que está em jogo, uma noção que, recorde-se, foi imposta para pôr fim às guerras de religião e outras "guerras santas", das quais o Islão está longe de ser o único perpetrador, quaisquer que sejam os usos que possam ter sido feitos historicamente desta noção.

É a cultura do liberalismo político e da tolerância que faz com que, nas sociedades de língua inglesa ocidental, as caricaturas ofensivas contra os seguidores de uma religião, tais como as "caricaturas dinamarquesas" ou as do Charlie Hebdo, sejam relegadas para uma franja extremista que geralmente recebe pouca atenção (exceto, claro, quando começa a tornar-se um perigo público, como é o caso nos Estados Unidos atualmente). Na cultura francesa dominante, estes valores são denegridos, sobretudo devido ao domínio histórico que dá azo à intolerância: a arrogância supremacista em nome de um "chauvinisme" cujo nome é tão francês que foi adotado como tal nas outras línguas europeias.

Este chauvinismo atingiu um clímax na epopeia colonial da "missão civilizadora", uma fórmula muito francesa. O artigo da enciclopédia online Wikipedia dedicado a esta reproduz uma citação de um certo Achille Ségard, que fornece a chave do secularismo unidirecional caraterístico da gesta colonial francesa – tendo a metrópole secular promovido as religiões francesas, em particular o catolicismo, nas suas colónias. A citação é retirada de um discurso proferido a 24 de Outubro de 1901, no grande anfiteatro da Sorbonne, na reunião anual da Alliance Française [1].

Ségard aí explica "porque é que todos os nossos ministros dos Negócios Estrangeiros sem exceção [...] apoiaram no Oriente, com encorajamentos e subsídios, as mesmas pessoas religiosas que se achavam na obrigação de controlar em França. É uma tradição longínqua. Lembram-se da resposta daquele grande patriota Gambetta àqueles que tiveram a estupidez de lhe pedir para suprimir essa proteção e esses subsídios às nossas escolas do Oriente: "Jules Ferry, o admirável homem de energia e previsão a quem devemos em grande parte a reconstituição do nosso império colonial, o mesmo homem que mandou executar os decretos de 1880, em França, estava, quase ao mesmo tempo, a aumentar a verba dos nossos subsídios no Oriente e a chegar a um acordo com a Companhia de Jesus para a criação da Universidade de Beirute".

Se a esquerda francesa verdadeiramente de esquerda acaba por ser mais liberal e tolerante com a religião das populações nascidas da colonização que as correntes políticas que afirmam ser liberais e as quais apenas aderem a este realmente no aspeto económico, é na sua tradição anti-colonial que devemos procurar a razão e não num "islamo-esquerdismo" fantasioso. É certo que esta tradição tem sofrido mudanças do tipo de abordagem "terceiro-mundista" que levou alguns a ver o Islão "em si mesmo como uma força por natureza 'progressista", como Maxime Rodinson escreveu, em 1968, [2]. Mas, em suma, um excesso de simpatia pelos oprimidos é muito melhor do que uma antipatia que participa na sua opressão.

Gilbert Achcar é professor na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres. As suas publicações incluem "The Clash of Barbaries: Terrorisms and World Disorder" (2002, 2004, 2017), "The Middle East Powder Keg" com Noam Chomsky (2007), "Arabs and the Holocaust" (Árabes e o Holocausto). The Arab-Israeli War of Narratives" (2009), "A Radical Exploration of the Arab Uprising" (2013), e "Marxism, Orientalism, Cosmopolitanism" (2015). Publicado na revista Contretemps. Traduzido por António José André para Esquerda.net

Notas:

[1] Artigo «Mission civilisatrice" na Wikipédia: https://fr.wikipedia.org/wiki/Mission_civilisatrice#cite_ref-25

[2] Maxime Rodinson, "La Fascination de l’Islam", Paris, François Maspero, 1980, p. 100. Ver a este propósito «L’orientalisme à rebours: sur certaines tendances de l’orientalisme français après 1979», em G. Achcar, Marxisme, Orientalisme, Cosmopolitisme, Arles : Sindbad/Actes Sud, 2015, pp. 53-91.

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