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Governo chinês turbina fábricas locais de microchips

Dois artigos publicados no Blog Paulo Gala - economia & finanças

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Governo da China “compra” engenheiros na Ásia para turbinar fábricas 

Com a guerra comercial e tecnológica entre EUA e China, a Huawei aprendeu que precisa controlar os elos da cadeia de suprimentos, como muitos outros perceberam depois que a globalização foi revertida quando o coronavírus chegou. Com isso, a estratégia chinesa é absorver conhecimentos do mundo no setor, aplica engenharia reversa, para avançar em sua curva de aprendizado

Uallace Moreira, Blog Paulo Gala - Economia & Finanças, 13 de janeiro de 2021

 

China contrata cientistas japoneses, gerando temores de fuga de tecnologia. Ao mesmo tempo, compra fábricas de chips para aplicar o “learning-by-doing” para acelerar a inovação no país. Ainda em 2016, Toshitaka Kajino, 64, professor do National Astronomical Observatory do Japão, tornou-se o primeiro diretor do International Research Center for Big-Bang Cosmology and Element Genesis at the Beijing University of Aeronautics and Astronautics. Conhecida como autoridade em física teórica, Kajino aceitou um convite irrecusável do governo chinês que oferecia uma remuneração anual superior à de outros professores que trabalhavam na China.

O número de acadêmicos japoneses trabalhando na China tem aumentado constantemente. Cerca de 8.000 deles estavam na China em outubro de 2017, disse o Ministério das Relações Exteriores do Japão. O número de acadêmicos japoneses que permaneceram na China por menos de um mês no ano fiscal de 2018 chegou a 18.460, um aumento de cerca de 25% em relação ao ano de 2014 e marcando um aumento pelo quarto ano consecutivo, de acordo com o Ministério da Educação, Cultura e Esportes do Japão, Ciência e Tecnologia. A China está recrutando ativamente acadêmicos.

De acordo com o Australian Strategic Policy Institute, a China tem mais de 600 “estações de trabalho de recrutamento de talentos no exterior”, incluindo 46 no Japão. Eles costumam ser administrados por grupos simpáticos a Pequim, em todo o mundo. Assim funciona o processo da construção de aprendizagem para internalizar conhecimento e lograr o catch up tecnológico. Essa a estratégia de inovação na China para fabricação de Chips. A China adquiriu máquinas japonesas de fabricação de chips para entrar em fábricas 3G. A Intang Intelligent Controls assumiu a Pioneer Micro Technology e planeja enviar suas 5 máquinas de litografia para a China. A ideia é que isso lhe permita ‘projetar’ um salto para a fabricação de chips de computador de ponta, o componente crítico que falta atualmente no continente. No ano passado, as importações chinesas de chips de computador totalizaram US$ 300 bilhões, ultrapassando o total das despesas nacionais com petróleo – U$ 240 bilhões.

Com a guerra comercial e tecnológica entre EUA e China, a Huawei aprendeu que precisa controlar os elos da cadeia de suprimentos, como muitos outros perceberam depois que a globalização foi revertida quando o coronavírus chegou. Com isso, a estratégia chinesa é absorver conhecimentos do mundo no setor, aplica engenharia reversa, para avançar em sua curva de aprendizado. É importante lembrar que o governo da China construiu um Plano de US$ 1,4 trilhão para dominar a indústria mundial de semicondutores, principalmente em resposta às restrições dos EUA, a China elabora plano para dominar a indústria mundial de semicondutores até 2025. Os chips de computador, a tecnologia central da era digital, são uma prioridade no plano de cinco anos proposto pela China de US $ 1,4 trilhão para ultrapassar os EUA. As iniciativas chinesas incluem 4 dimensões:

1º dimensão: Contratação de milhares de engenheiros de fabricação de chips de Taiwan para trabalhar no continente pagando o dobro dos salários. As empresas chinesas já haviam contratado 3.000 engenheiros de chips taiwaneses no final do ano passado, de acordo com vários relatórios. No início deste ano, a China atraiu 100 dos principais engenheiros da Taiwan Semiconductor Manufacturing (TSMC).

2º dimensão: Nova aliança de pesquisa com a Rússia, uma potência científica que forma mais engenheiros a cada ano do que os EUA. A Huawei está expandindo suas operações de P&D, principalmente na Rússia, onde também está construindo o sistema nacional de banda larga 5G. O fundador da Huawei, Ren Zhengfei: “Depois que os EUA nos incluíram na Lista de Entidades, transferimos nosso investimento nos EUA para a Rússia, aumentamos o investimento russo, expandimos a equipe de cientistas russos e aumentamos o salário dos cientistas russos”.

3º dimensão: Um programa de enorme orçamento para aumentar a produção de chips de última geração na China. Somente a TSMC e a Samsung podem produzir os chips de 7 nanômetros nos telefones tops de linha da Huawei. As probabilidades são de que a Huawei será capaz de produzir um chipset Kirin de 7 nanômetros de última geração dentro da China sem equipamento dos EUA antes de 2021.

4º dimensão: Linhas de produção de semicondutores sem equipamentos americanos. A Huawei planeja construir suas próprias fábricas. O projeto de fabricação do chip “Tashan” da Huawei foi em agosto. Resultado: soberania nacional via política industrial e de inovação.

Referências

O comércio mundial depois da Covid-19. Disponível aqui.

China snaps up Japanese scientists, sparking fears of technology outflow. Disponível aqui.

China acquires Japanese chipmaking machines for leap into 3G fabs. Disponível aqui.

China - Plano de US$ 1,4 trilhão para dominar a indústria mundial de semicondutores. Disponível aqui.

UALLACE MOREIRA: A China vai superar os EUA no domínio tecnológico mundial? Disponível aqui.

Huawei, o campeão nacional da China!

Fundada em 1987 por Ren Zhengfei (ex membro do exército chinês, PLA) a multinacional tem sede em Guangdong, na China e se destaca hoje como a segunda maior produtora mundial de smartphones, superando a Apple e perdendo apenas para Samsung. A Huawei se tornou a maior empresa de equipamentos de telecom do mundo. Especialistas a consideram a empresa mais avançada no desenvolvimento da tecnologia 5G, crítica para um futuro baseado em inteligência artificial e internet das coisas. O campeao nacional gigante! (Subsídios para a empresa).

Wilson Andrade e Felipe Augusto Machado, Blog Paulo Gala - Economia & Finanças, 11 de janeiro de 2021

Os contratos militares com o governo chinês foram desde o início combustível importante sua expansão. Um dos empréstimos recebidos do banco estatal China Development foi da ordem de U$30bi. O foco inicial da Empresa foi a fabricação e desenvolvimento de switchs e roteadores de Telecom para atender as necessidades do exército chinês desde anos 90 e os aportes do governo para companhia foram o pilar para seus desenvolvimento. Teve inúmeras proteções contra empresas estrangeiras no início e uma série de benesses do governo chinês. Segundo a AFP, em 10 anos, foram pelo menos US$ 1,6 bi de subvenções reconhecidas nos balanços da empresa. Ainda, engenheiros seus receberam centenas de milhares de dólares e enormes terrenos foram concedidos por apenas 1/10 do valor de mercado pelo Governo de Shenzhen (detalhes aqui).

Acusada de proximidade com o Governo chinês, a empresa, cujas ações seriam controladas pelos empregados, afirma ter total autonomia. Contudo, 99% das ações são controladas pelo Comitê do Sindicato, e os Sindicatos são todos submetidos à supervisão do PCC (detalhes aqui).

Financiamentos de dezenas de bilhões de dólares foram fornecidos por Bancos chineses a estrangeiros que contratassem bens e serviços da empresa. A Telemar/Oi já contratou US$ 1,7 bi em empréstimos do Banco de Desenvolvimento Chinês para contratar equipamentos da Huawei. Hoje deve US$ 650 milhões ao Banco chinês. Como mostra o caso da Huawei, não se pode simplificar o debate sobre pol. de desenvolvimento. O Governo chinês impulsionou um campeão nacional num setor estratégico para o futuro do desenvolvimento econômico.

Como prova de ter conseguido notável upgrade e inserção virtuosa no mercado mundial, a Huawei inova agora com o smatphone P30 Pro, um celular premium da marca. O smartphone P30 Pro traz uma câmera que supera a do Iphone XS Max. O destaque do smartphone é a sua câmera traseira quádrupla, com sensores de 40, 20 e 8 megapixels e 3D (“Time of Flight”), ou seja, baseia-se no princípio de que cada um dos pixels determine a distância da câmara e do objeto mediante a medida precisa do tempo de atraso. Estas câmaras permitem capturar imagens em tempo real sem necessidade de movimento. Ao enviar um sinal óptico por um transmissor, iluminando a cena a qual pretende-se extrair a informação 3D. Traz também uma câmera de com 32 MP para selfies.

Para muitos no mundo o produto chinês ainda é sinônimo de baixa qualidade ou falsificação. Essa ideia não corresponde mais com a realidade. O Estado chinês conseguiu promover uma estratégia de desenvolvimento que catapultou as empresas chinesas pra fronteira tecnológica em muitos setores. A Huawei é um belo exemplo disso. Essa mudança de patamar é comum no processo de desenvolvimento econômico. Ainda no século 19, o mesmo aconteceu com os produtos industriais alemães, que surgiam para competir com os ingleses, e eram vistos como de baixa qualidade e pouco confiáveis. Com o Japão, a mesma história, os primeiros Toyotas foram ridicularizados.

Recentemente o Departamento de Justiça dos EUA revelou denúncias criminais que acusam a Huawei de fazer esforços extremos para roubar segredos comerciais de empresas americanas, incluindo uma tecnologia de robô da operadora americana T-Mobile usada para testar smartphones. Os passos pra Enriquecer, sobretudo nos países asiáticos que se desenvolveram nos últimos 50 anos, seguem uma trajetória semelhante: cópia, espionagem industrial, não respeitar patentes, engenharia reversa. A partir disso as empresas desses países aprendem e passam a produzir equipamentos próprios, constroem marcas e eventualmente conquistam o mercado das indústrias que eles copiaram. Um movimento impressionante de aprendizado tecnológico. Tornam-se “Learning Societies”!

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