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Intercept: o twitter também tem culpa pela tragédia de manaus

Dois artigos do The Intercept mostram como o que ocorre em Manaus sintetiza as desigualdades mais brutais do país com os processos de ponta do capitalismo de plataforma.

· Nacional,Últimos artigos,Comunicação

Manaus: o Twitter também tem culpa

Narrativa negacionista genocida se espalha sem ser incomodada na rede social.

Tatiana Dias, The Intercept, 17 de janeiro de 2021

HÁ 20 DIAS, a tropa de choque bolsonarista no Twitter vibrava com o fim do lockdown em Manaus. “Todo poder emana do povo”, tuitou o deputado federal Eduardo Bolsonaro no dia 26 de dezembro. “A pressão do povo está funcionando”, comemorou a também deputada federal Bia Kicis na mesma data. “Manaus tem queda importante de óbitos desde julho”, garantiu o ex-ministro Osmar Terra, com o verniz científico característico que dá às suas postagens negacionistas. Era 4 de janeiro. O post foi retuitado quase 2 mil vezes.

Dez dias depois, todos nós sabemos o que aconteceu: Manaus ficou sem oxigênio por causa da explosão no número de casos de covid-19. Nem os ricos estão a salvo. Mesmo que você tenha milhares de reais, não há jatinhos para sair da cidade em busca de ajuda médica.


Em uma segunda onda ainda mais violenta do que a primeira, emergiu também uma variante do vírus que, relatam os médicos, parece ser ainda mais agressiva. Tão agressiva que outros países já manifestaram preocupação – que não se reflete aqui dentro, como sabemos.

Dentro do governo e do cercadinho bolsonarista, o discurso defendido com afinco é o do “tratamento precoce” – aquele que, sabemos, não funciona. Mesmo sem evidências científicas, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, continua recomendando a cloroquina, a azitromicina e outros placebos – que mal-empregados podem causar problemas à saúde –, e a narrativa continua sendo propagada impunemente. A estratégia não é apenas adotar o “tratamento precoce” como conduta oficial – engloba, também, um esforço para emplacar a tese que o governo está agindo, e que isso seria suficiente para aplacar a pandemia.

Esse discurso, combinado à polarização da vacina – que se transformou em objeto de disputa política entre o governador de São Paulo, João Doria, e Bolsonaro – é criminoso. Vacinação é proteção coletiva, não individual. Para realmente frear a pandemia, é preciso que a imunização tenha adesão da população, e isso só vai acontecer com uma boa comunicação, que explique a eficácia, a segurança e a importância da vacina. O contrário do que a rede bolsonarista tem feito, que é basicamente espalhar temor e insegurança sobre o tema.


No começo da pandemia, o Twitter lançou diretrizes para os usuários se manterem “seguros”. Garantiu que removeria tuítes relacionados à covid-19 que promovessem desinformação ou aumentassem o risco de dano. A rede social explicou que os conteúdos mais preocupantes seriam aqueles que pudessem “aumentar a chance de exposição ao vírus” ou tivessem “efeitos adversos na capacidade de lidar com a crise do sistema público de saúde”.

A minha capacidade de interpretação me permite concluir, sem muito contorcionismo, que os tuítes que incitaram o fim do lockdown em Manaus e os que questionam a eficácia das vacinas se encaixam perfeitamente nessas categorias.

Mas eles continuam no ar.

Nas últimas semanas, as políticas de remoção de conteúdo das redes sociais estiveram em evidência por causa da suspensão das contas de Donald Trump por incitar violência nos protestos do Capitólio. Muita gente questionou: é violação da liberdade de expressão e uma medida arbitrária que pode se voltar contra nós. Sim, é. Mas eu tendo a concordar com o meu colega Sam Biddle, do Intercept norte-americano: a remoção foi o ápice de quatro anos de covardia corporativa.

As empresas têm regras claras, mas falham miseravelmente em aplicá-las.

O pesquisador Fabio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, demonstrou o quanto. Ele coletou dados da guerra narrativa sobre a covid-19 nesta semana no Twitter. Veja o tamanho da sombra de desinformação bolsonarista e compare com os influenciadores que tentam – em um esforço inglório – espalhar a palavra da ciência:


O gráfico deixa claro: estamos perdendo a guerra da informação nessa pandemia.

E não dá para culpar só os emissores da mensagem. É preciso também responsabilizar os intermediários que passam pano para influenciadores de extrema-direita que espalham mentiras, confundem a população e estimulam aglomerações e ações irresponsáveis. Já escrevi que Twitter e YouTube foram coniventes com a barbárie que expôs uma menina de 11 anos, vítima de violência sexual, ao se omitirem da responsabilização. Agora são coniventes mais uma vez. A narrativa negacionista continua se espalhando e dominando o debate público, mesmo claramente violando as próprias regras da rede social. Enquanto o mensageiro continuar se escondendo atrás de termos de uso hipócritas e um discurso de suposta neutralidade, o negacionismo genocida terá o seu palanque.

NÃO HÁ MAIS JATINHOS PARA SALVAR OS ENDINHEIRADOS DE MANAUS QUE VOAM EM BUSCA DE OXIGÊNIO

Voos para pacientes em busca de oxigênio chegam a custar R$ 162 mil. Mas não há vagas.

Nayara Felizardo, The Intercept, 15 de Janeiro de 2021

EM ABRIL, quando o sistema de saúde no Amazonas entrou em colapso pela primeira vez, faltaram leitos nos hospitais, vagas nas UTIs e covas nos cemitérios. Mas os melhores hospitais do país seguiam apenas um táxi aéreo de distância. Até essa semana.

Na quinta, entrei em contato com cinco empresas do Amazonas que transportam pacientes para outros estados e nenhuma tinha aeronaves disponíveis. “Está muito complicado”, me disse um funcionário de uma das empresas de táxi aéreo com quem falei. “Não vou conseguir atender. Amanhã estoura a jornada de trabalho dos pilotos e estou sem outra tripulação para substituir”, me disse outro. Uma das empresas informou só ter vagas para terça-feira. O preço do transporte de Manaus para São Paulo, principal destinos dos doentes, varia de R$ 105 mil a R$ 162 mil. Mas não há voos nem se você pagar mais. A fila do SUS da elite manauara é a fila do jatinho.

Situação bem diferente da vivida pouco tempo atrás, quando o ex-senador e ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio embarcou em um voo privado para São Paulo assim que viu a covid-19 agravar. O tucano se internou por 31 dias no Sírio Libanês, um dos hospitais mais caros do país. Agora, enquanto pacientes morrem asfixiados na capital do Amazonas por falta de oxigênio, nem a riqueza poderia salvá-lo – faltam vagas até nas UTIs aéreas.


No fim da tarde de quinta, enquanto eu fazia ligações, as pessoas começaram a compartilhar um vídeo do ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Era parte do seu discurso em um evento na cidade, no dia 11. Apesar de ter nascido no Rio, Pazuello viveu a infância na capital nortista e ainda tem filha, irmã e sobrinhos morando lá. “Quando cheguei na minha casa ontem, estava a minha cunhada. O irmão [dela] não tinha oxigênio nem para passar o dia. [Eu disse] Ah, acho que chega amanhã. [Ela perguntou] O que você vai fazer? [Eu disse] Nada. Você e todo mundo vai esperar”.

A família do ministro é rica. Tem postos de combustível e também é dona de uma das mais antigas empresas de navegação do estado, fundada em 1948 pelo patriarca, Nissim Pazuello. Se está difícil até para os ricos e parentes do ministro da Saúde, imagine para os pobres.

A empresa White Martins, principal fornecedora de oxigênio para os hospitais do Amazonas, informou que a demanda está muito acima da sua capacidade. Até então, o máximo que ela havia produzido localmente era 30 mil metros cúbicos por dia. Agora, a empresa tem que produzir 70 mil metros cúbicos por dia para salvar os doentes na cidade. Para piorar, a BandNews FM descobriu que dias antes do colapso do oxigênio nos hospitais, o governo federal havia aumentado o imposto de importação sobre os cilindros usados no armazenamento de gases medicinais.


A situação em Manaus era previsível. Pesquisadores do Amazonas alertavam desde agosto para tudo que está acontecendo agora e recomendavam que o governo decretasse lockdown o quanto antes. Como mostrei no começo de outubro, parte dos dados que endossaram a ideia de que a cidade tinha chegado à propalada “imunidade de rebanho” estavam errados. Mas os especialistas não foram ouvidos.

O último alerta epidemiológico divulgado pelo cientista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, mostra que o número de leitos ocupados com pacientes confirmados ou suspeitos de covid-19 aumentou 636% desde setembro. Somente nos primeiros 12 dias de janeiro, morreram 446 pessoas. Esse número é maior do que a soma de todos os óbitos registrados em julho, agosto e setembro do ano passado– 399. Uma quinzena mortal.

Em um vídeo publicado no Instagram, o médico intensivista Anfremon D’Amazonas contou o que presenciou em uma manhã no Hospital Universitário Getúlio Vargas. A equipe, diz, teve que fazer o racionamento do pouco oxigênio disponível “de acordo com a gravidade do paciente”. Das 27 pessoas internadas, três morreram. “Os pacientes morriam e não tinha o que fazer. Você sabe que eles precisam de oxigênio naquele momento e você não tem para ofertar. A deterioração de uma pessoa sem nível adequado de oxigênio é muito rápida. A pressão começa a cair e o doente morre. Foi assustador”. Assista.

No final de dezembro, quando admitiu tardiamente que a situação estava se agravando no estado, o governador Wilson Lima, do PSC, tentou decretar o fechamento do comércio, mas recuou após um dia de protestos pela flexibilização das atividades não essenciais. Deputados bolsonaristas como Eduardo Bolsonaro, Bia Kicis, Carla Zambelli, e o ex-ministro Osmar Terra, consideraram que o recuo do governador foi uma vitória do povo e comemoraram no Twitter.

A despeito dos deputados, duas semanas depois, dezenas de amazonenses estão chorando pelos parentes que morreram dentro dos hospitais. Eram pacientes que tinham leitos mas não tinham oxigênio. Morreram sufocados.

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