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José Luís Fiori: O fim do capitão ficou mais próximo

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Bolsonaro abriu seu jogo com relação às Forças Armadas, o que irá precipitar um processo de separação entre a “turma da farda” e a “turma do pijama”

José Luís Fiori, A terra é redonda, 31 de março de 2021

As mudanças no ministério constituem uma grande derrota do senhor Bolsonaro, seguida de um erro de cálculo clamoroso e passo em falso. O pano de fundo dessas mudanças é conhecido, e quase não precisa ser relembrado: a soma da catástrofe sanitária com o descalabro econômico, o isolamento internacional e a desintegração moral da sociedade brasileira. Mas, do meu ponto de vista, a mudança ministerial propriamente dita teve como objetivo encobrir a grande derrota do governo, que foi a demissão imposta do ministro de Relações Exteriores, o senhor Ernesto Araújo. As pessoas talvez não avaliem a importância deste senhor para o governo Bolsonaro, e por isso também não consigam avaliar o tamanho do tombo que a saída do chanceler representou para o governo.

Independentemente de tratar-se de um idiota quase inconcebível, o senhor Ernesto foi colocado onde estava para ter conexão direta com o governo de Donald Trump e como uma âncora capaz de assegurar o capitão contra as tempestades que ameaçariam seu governo, cuja ignorância e incompetência eram de pleno conhecimento do governo americano. Este contribuiu decisivamente para o golpe de Estado de 2016, e depois participou da operação de instalação do senhor Bolsonaro na Presidência do Brasil, mesmo sabendo que se tratava de uma pessoa inteiramente inepta e insana.

Além disso, Ernesto era o membro mais “ilustrado” da extrema-direita bolsonarista. No meio desta militância, Ernesto fazia papel do sábio idiota capaz de formular as idiotices ideológicas da extrema-direita em linguagem de “clube literário”. Sua importância nesse grupo era tão grande que mesmo depois da derrota de Donald Trump, a decisão era mantê-lo no governo. Já o ministro do meio-ambiente Ricardo Salles não passa de um lobista e pode ser escanteado a qualquer momento sem maior custo para o governo; e o próprio senhor Guedes deve ser desembarcado em breve, trocado por qualquer outro desses “gênios do mercado” que pululam pelas esquinas da Faria Lima e pelas páginas da imprensa conservadora.

A saída do “chanceler apocalíptico”, no entanto, teve, tem e terá um peso muito diferente na história deste governo. Por isso foi necessária uma pressão gigantesca de vários grupos de interesse e um golpe final do Senado brasileiro para enxotá-lo do governo contra a vontade do senhor Bolsonaro. E foi essa grande derrota que colocou Bolsonaro de joelhos e o levou a essa mudança ministerial, que não passaria de mais uma pantomima ridícula do capitão ofendido se não fosse o fato de que desta vez cometeu vários erros de cálculo estratégico que poderão ser definitivos para o futuro do seu governo.

O primeiro grande erro do senhor Bolsonaro foi ter “aberto o jogo” antes do tempo, deixando que todos vissem que não dispõe neste momento de mais do que um “par de setes’’, como se diria no jogo de pôquer. Sofreu uma grande derrota e tentou ocultá-la com uma grande ofensiva e acabou parindo um rato, e assim todos viram que ele não dispõe de mais ninguém disposto a ir para seu governo que não sejam figuras inteiramente desconhecidas e despreparadas, saídas da roda íntima de sua família e de suas tertúlias e churrascos de quintal nos fins de semana tediosos de Brasília.

O que ele fez foi um troca-troca com seus militares de pijama e de confiança, e trouxe três pessoas novas com quem pouco menos que tropeçou no corredor: um funcionário do cerimonial do palácio que foi alçado à condição de novo ministro de Relações Exteriores, sem nunca ter sido embaixador ou feito uma carreira diplomática. Numa escolha do tipo “se não tem outro, vai tu mesmo”, de uma pessoa que não tem currículo, abandonou a carreira diplomática e dedica-se a ensinar “boas maneiras” ao pessoal do Palácio, além é óbvio de ser amigo de um dos “filhos presidenciais”, e de ser um pouco mais “diplomático” que o Ernesto.

Para o Ministério da Justiça, trouxe um delegado de polícia de Brasília mesmo, da “bancada da bala” e obviamente amigo de mais um de seus filhos. E para a Secretaria de Governo, indicou uma deputada que está no seu primeiro mandato, também por Brasília e que foi indicada pelo presidente da Câmara, tendo sido eleita na vaga do seu marido que estava preso ou sob julgamento por ocasião das eleições. E seu principal título, segundo dizem, é saber organizar a distribuição dos recursos do Orçamento entre os pedidos e favores dos membros do Centrão, isto é, sem demérito de uma pessoa que não conheço, ser colocada como pessoa de confiança do presidente da Câmara junto ao Gabinete da Presidência e junto ao caixa do Orçamento da República.

Como se pode ver, um grupo inteiramente mambembe, mas que deixa claro que neste momento a capacidade de convocação do senhor Bolsonaro é próxima de zero, no meio das elites políticas e econômicas da própria direita brasileira. Além disso, ao precipitar-se no seu movimento reativo e vingativo, acabou atingindo um grande amigo e velho seguidor, o ministro da Defesa, que foi defenestrado sem maior complacência exatamente por ser militar e ter que obedecer em silêncio. Mas com isto o senhor capitão deixou claro que não tem lealdade nem com seus amigos mais fiéis e leais, o que o deixa completamente só, uma vez que não tem partido político nem qualquer grupo de apoio que não sejam seus filhos e apaniguados de quintal.

Por fim, Bolsonaro abriu seu jogo com relação às Forças Armadas (FFAA), e com isso deverá precipitar um processo de separação entre a turma da farda e a turma do pijama. Decidiu agredir o comandante em chefe do Exército e o mais provável é que provoque um fechamento de posição da oficialidade das três Armas em torno da posição defendida pelo General Pujol. Ou seja, uma vez mais, o senhor Bolsonaro ficou sem pão nem pedaço, e agora deverá ser colocado na cadeirinha de castigo simultaneamente pelas FFFA e pelo Centrão.

O centrão

A primeira questão é saber em que consiste exatamente esse grupo parlamentar que a imprensa apelidou de “Centrão”? E todo mundo sabe que se trata de um aglomerado de pessoas e siglas que ocupam em geral o submundo fisiológico do Congresso Nacional, representando interesses e demandas individuais ou grupais localizadas e heterogêneas. O grupo de onde saiu o senhor Bolsonaro depois de permanecer ali durante 28 anos sem dizer ou fazer coisa alguma. Este grupo parlamentar, ou a maior parte de seus membros atuais, já fez parte da “base de apoio” do governo de FHC, do governo Lula, do governo Dilma, do golpe do Temer e agora estão embarcando e tomando conta do governo do senhor Bolsonaro, que eles sabem que é uma “canoa furada”’ mas de onde desembarcarão correndo logo que percebam que está afundando definitivamente.

Em síntese, esse grupo parlamentar sempre esteve e estará pendurado em qualquer governo que suas reivindicações locais e corporativas. O problema é que esse grupo não tem a menor condição, interesse ou capacidade autônoma de constituir ou sustentar um governo por sua própria conta, nem muito menos definir algum projeto coerente e nacional para o país. Sua mais completa heterogeneidade de interesses impede que dali nasça qualquer tipo de ideia mais inteligente e unitária, ou qualquer objetivo que envolva todo o país, para além de suas causas individuais ou corporativas.

Os militares

A questão militar constitui o ponto onde o erro do capitão trará consequências mais difíceis de serem administradas, porque, na prática, seu governo é um governo militar – ou pelo menos é um governo dos militares que tomaram conta da maioria de seus ministérios e cargos comissionados – que agora está procurando estabelecer uma aliança com o “Centrão”, que, como já vimos, é um amontoado de siglas que compõem um bloco parlamentar unificado pelo seu denominador comum, o “fisiologismo” que sempre foi objeto das críticas políticas e morais dos militares.

A participação dos militares neste governo, e mais recentemente, a catastrófica gestão do general da ativa, Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, vem atingindo pesadamente o prestigio das FFAA e sua fama de “salvadores da pátria”. Esse despreparo e incompetência vêm sendo demonstrados pelo capitão que ocupa a Presidência, pelo inominável ministro da Saúde que acaba de sair e por uma lista sem fim de personalidades que vão do hilário – como é o caso do ministro de Ciência e Tecnologia – ao absolutamente desastroso – como é o caso dos responsáveis pela segurança institucional do presidente, incapazes de localizar um pacote de 39 kg de cocaína dentro do avião presidencial. Imagina se fosse uma bomba, provavelmente atribuiriam a culpa aos comunistas…

Mas, afinal, esta experiência governamental lamentável dos militares talvez possa ter alguma consequência positiva, porque está cada vez mais forte dentro da oficialidade brasileira a convicção de que cabe aos militares uma função de Estado e de defesa da nação, e não a função de governar ou sustentar um governo que carece inteiramente de quadros que não sejam os amigos dos filhos e da família em geral do senhor Bolsonaro.

Na sociedade cresce cada vez a consciência de que os militares até podem ser homens de boa vontade e boas intenções, mas que foram treinados para tratar de canhões, navios, cavalos ou aviões de guerra, muito mais do que de ciência, educação, saúde, arte, infraestrutura, ou mesmo de tecnologias de ponta, para não falar do seu mais absoluto despreparo com relação à vida política dos partidos e dos demais poderes da República, com seus respectivos deveres e obrigações.

Neste ponto é que muitos podem estar se equivocando, ao pensar que Bolsonaro tomou conta das FFAA ao deslocar seu amigo para o Ministério da Defesa e ejetar os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Do meu ponto de vista, ao contrário, o que ele conseguirá com sua desastrada movida é separar definitivamente as FFAA do seu governo, criando um fosso que deverá aumentar, deixando-o cada vez mais isolado.

Mas, ao mesmo tempo, permitirá que talvez as FFAA aprendam de uma vez por todas que o melhor mesmo é manter-se nos quartéis e não voltar a se meter numa aventura como esta em que se envolveu o General Villas-Boas, levando atrás de si a maior parte do oficialato brasileiro. Esse deslocamento geológico que está em pleno curso talvez explique a distinta receptividade que tiveram o famoso tweet de Villas-Boas em 2018 e a nota apagada, antiquada e inteiramente deslocada que seu amigo de longa data e de larga tradição familiar golpista postou no dia 29 de março no site do Clube Militar. As coisas estão mudando, e talvez esteja chegando a hora da turma de pijama desfrutar as suas aposentadorias e deixar de escrever notas iradas nas redes sociais ou corporativas.

2022

Considero uma completa insensatez discutir neste momento a eleição do ano de 2022. O país está inteiramente desgovernado em meio à maior crise sanitária de sua história, e está assistindo a paralisia e destruição de sua economia, e da própria infraestrutura física, com o fechamento de milhares de empresas, saída de capitais cada vez mais acelerada e tudo isto sobre o cadáver de mais de 300 mil brasileiros e cerca de um milhão e meio de brasileiros atingidos pela perda de seus entes queridos e muitas vezes responsáveis pelo sustento de famílias inteiras.

Este é o grande desafio colocado hoje na frente dos brasileiros. Falar ou calcular a próxima eleição presidencial agora é no mínimo uma postura desumana, pouco solidária, pouco patriótica. E pior ainda, de um humor macabro é falar ou discutir a reeleição do grande responsável pelo morticínio que está acontecendo na frente de nossos olhos. Por isto me parece extraordinário que a imprensa e grande número de analistas gastem tempo com este tema; e pior, considerem que é possível reeleger esse senhor que está sentado em cima da própria tragédia do seu povo e e costuma debochar disto.

Eu te diria, talvez na contramão de muito colegas, que não há a menor possibilidade de este senhor se reeleger depois dessa catástrofe. Deve se dar por satisfeito se conseguir chegar até o final do mandato, coisa que está ficando cada vez mais difícil, e por culpa dele próprio. As manifestações recentes de empresários, banqueiros, economistas e intelectuais do centro e da direita mais conservadora indicam que a velocidade da perda de apoio deste governo é cada vez maior.

No caminho do impeachment

Do jeito que as coisas estão e com a velocidade que está tomando a pandemia, a destruição econômica e a miséria da população, acho que muito mais cedo do que tarde o próprio Centrão abandonará o barco, e neste caso é muito provável que tomem o caminho do impeachment. Mas se as coisas tomarem este caminho, acho que antes os próprios militares se encarregarão de retirar esse senhor da Presidência, obrigando-o a renunciar ou levando-o para ser internado.

Bolsonaro ou qualquer outra pessoa que encarne sua mensagem de ódio, ressentimento e destruição sempre contará no Brasil e em outros países, com o apoio de em torno de 20% da população. Bolsonaro tinha algo em torno de 20% nas eleições de 2018, antes que tivesse início a operação nacional e internacional, política, jurídica, militar e midiática que o conduziu à Presidência. E hoje seu núcleo de apoiadores fiéis deve estar de novo na casa destes 15-20%. E não me parece provável que a velha direita conservadora possa voltar a apoiar esse senhor depois desta verdadeira tragédia que tem sido sua passagem pelo Palácio da Alvorada, onde ainda consegue debochar das vítimas da pandemia mesmo depois dos seus 320 mil mortos até o momento.

Uma outra coisa é saber como ele mantém o apoio fanático desses 15-20% de brasileiros. Acho que esta questão é complexa e remete a várias linhas possíveis de explicação. Porque explicar a necrofilia do capitão não é difícil; difícil é explicar a adesão necrofílica de seus seguidores. Na verdade, este caso sempre me faz relembrar o famoso suicídio coletivo dos fiéis do Pastor Jones, na Guiana, em 18 de novembro de 1978. Também naquela ocasião foi mais fácil para jornalistas e psicanalistas explicarem o suicídio individual do pastor Jones, muito mais do que o suicídio coletivo de centenas de seguidores fanatizados que se mataram junto com seu líder num ritual macabro, no qual as crianças que resistiram foram mortas por seus próprios pais ou pelos ajudantes do pastor, antes de estes também se suicidarem.

Lula

O retorno de Lula ao cenário brasileiro, com a recuperação dos seus direitos políticos causou um impacto enorme, por razões objetivas e também por razões psicológicas. Lula foi eliminado da vida política porque as forças que sustentaram o capitão, na fase final de sua campanha, sabiam que seria impossível elegê-lo se Lula estivesse livre. E agora, estas mesmas forças temem que o senhor Bolsonaro não consiga manter a compostura e interpretar o papel de governante, caso o ex-presidente apareça na sua frente livre, e de volta à liderança da oposição brasileira.

Tudo indica que o capitão perdeu inteiramente o que ainda lhe restava do pouco juízo que tem, e esta é uma das razões fundamentais por que demitiu seu amigo e ministro da Defesa, e resolveu demitir o General Pujol, porque estes decidiram não repetir o caminho do senhor Villas Boas, e não contestaram a recente decisão do STF que devolveu os direitos políticos aos ex-presidente Lula. Independentemente do que faça ou deixe de fazer no futuro imediato, a reentrada de Lula redefiniu os parâmetros da vida política nacional, e todas as forças em presença começaram a se manifestar e fazer suas opções.

Por outro lado, a oposição voltou a ter uma referência comum e um vetor capaz de atingir em cheio o desgoverno do país. Lula é uma pessoa que tem uma inteligência estratégica, um carisma e uma relação afetuosa com a população brasileira, mesmo com seus opositores, que é uma coisa inalcançável para uma pessoa odiosa, odienta e inteiramente desprovida de empatia com seu próprio povo, como é o caso desse senhor Bolsonaro.

Trump

A derrota de Trump atingiu em cheio a articulação da extrema-direita internacional que se utilizava do capitão através de seus filhos. Muitos até imaginaram que o capitão Bolsonaro poderia substituir Trump e tornar-se o novo líder da extrema-direita mundial. Mas o próprio Steve Bannon sabe perfeitamente que o capitão não tem estatura intelectual e política indispensável para desempenhar esse papel. E não haveria como sustentar esta ficção oficializando seu papel de marionete de seus filhos, até porque eles também não conseguem falar abertamente e se escondem sempre atrás de seus robôs.

Não é improvável que as forças conservadoras se desfaçam dele antes das eleições, para poder ocupar este espaço da direita, e mesmo da extrema-direita, com um candidato mais próximo da racionalidade cartesiana e de suas convicções liberal-cosmopolitas.

As tarefas mais urgentes da oposição neste momento consistem em ajudar o povo brasileiro a enfrentar e superar este momento terrível da sua história, propondo medidas parlamentares que possam atenuar o sofrimento da população, o desemprego e a morte de milhares de brasileiros ainda este ano e no próximo. Unir-se e fazer oposição ferrenha a esse governo, para impedir a desintegração completa das redes de sociabilidade que ainda mantém o Brasil unido, e somar forças para que nunca mais volte a acontecer no Brasil uma tragédia dessas proporções.

*José Luís Fiori é professor do Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ. Autor, entre outros livros, de História, estratégia e desenvolvimento (Boitempo).

Artigo editado a partir de entrevista concedida a Eleonora de Lucena no site Tutaméia.

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