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Levante e repressão brutal. Como dói, Colômbia!

A Colômbia é hoje uma espécie de estado de sítio. Estar na rua, seja você quem for, significa ser alvo.

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As forças de segurança do Estado entram nas casas, praticam detenções indiscriminadamente. Não há números precisos de quantos mortos, feridos, detidos ou desaparecidos esta barbárie está deixando.

Esther Rebollo, Público, 7 de maio de 2021. A tradução é do Cepat.

De forma recorrente, fala-se em mais de 50 anos de conflito armado na Colômbia, o que se supõe que deve ter terminado em 2016, após a assinatura da paz com a guerrilha das FARC. Gabriel García Márquez já nos contou que eram Cem anos de solidão (ou de morte, violência e repressão). Estudiosos contemporâneos remontam a 200 anos, quando ocorre a façanha bolivariana que desembocou na independência e na etapa republicana, seguida de guerras civis e disputas.

Mas os historiadores, e sobretudo os povos originários, datam o início da grande violência há mais de 500 anos, com a colonização espanhola e a instauração da encomenda, esse modelo feudal de conferir terras e pessoas aos lugar-tenentes, tornando-os donos de tudo e de todos, tornando-os rolos compressores de qualquer direito humano.

A Colômbia é há tanto tempo um regueiro de morte que não se conhece geração que tenha vivido em paz. Um país que tem capacidade para produzir alimentos para todos os seus habitantes e com sobra para as nações vizinhas; com ouro, prata e recursos naturais, incluídos energéticos, suficientes para que se tornasse uma das nações mais ricas do mundo, mas hoje é uma das mais desiguais. Era a terra prometida, O País da Canela, na qual o conquistador Gonzalo Pizarro, em vez das cobiçadas especiarias, se deparou com outros tesouros, como relata William Ospina, em sua literatura.

Um território rico em biodiversidade, línguas, ritos ancestrais, cheio de camponeses humildades e trabalhadores, mas os colombianos só sofrem o flagelo do tirano. Paradoxalmente, foi o único país da América do Sul que não sofreu uma ditadura da chamada Doutrina de Segurança Nacional. Não foi necessário que os Estados Unidos dessem um golpe nos anos 1970 ou 1980, como ocorreu em outros Estados latino-americanos, porque as oligarquias de Bogotá eram tão dóceis que a Casa Branca podia governá-las de Washington.

A Colômbia também é o único país da América do Sul que não teve reforma agrária, em consequência de uma manobra perfeitamente orquestrada pelo poder econômico. Era melhor provocar, e mais ainda quando se conta com forças militares que sabem amedrontar o povo. E assim nasceram as guerrilhas. Primeiro as liberais, durante a guerra civil detonada, em 1948, após o assassinato do caudilho do novo liberalismo, Jorge Eliécer Gaitán. E depois as socialistas e comunistas, que beberam da revolução cubana: FARC, ELN, EPL, M-19 e algumas outras com diferentes siglas.

A ausência dessa necessária reforma agrária, que poderia ter amputado as heranças da encomenda, foi a origem do conflito armado contemporâneo, baseado na espoliação progressiva da terra, essa espoliação que encheu o país de massacres, êxodo e deslocamento em massa pelo fator mais desestabilizador: o paramilitarismo. O germe foram algumas organizações de civis armados chamadas Convivir, nascidas em Antioquia, nos anos 1990, sob o amparo do então governador desse departamento, Álvaro Uribe. Daí às temíveis Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) foi um passo. A violência chegou a limites impensáveis e o revolutum de atores armados estava servido.

Na Colômbia aprendi o significado da palavra “resiliência” quando conheci as mães que foram arrancadas de seus filhos vítimas dos falsos positivos, um eufemismo intolerável para denominar as execuções extrajudiciais do Exército. Também quando entrevistei os sequestrados que, após anos de cativeiro, encontravam a liberdade; ou quando escutei com um nó na garganta mulheres estupradas e usadas como armas de guerra; jovens recrutados de maneira forçada para combater contra o seu próprio povo; ou camponeses que veem como destroem suas plantações de mandioca e só lhes resta semear coca em troca de alguns pesos. Sim, os cocaleiros sempre foram o elo mais frágil da cadeia do narcotráfico porque as bombas caíam sobre eles, nunca sobre o patrão.

Na Colômbia ressoam dois nomes que provocam amor e ódio e permitem entender o horror: Pablo Escobar e Álvaro Uribe, ambos de Medellín. O chefe do cartel de drogas mais famoso do mundo (sua história deu de comer até mesmo a roteiristas de Hollywood) tomou o controle do país, durante os anos 1980, e se apoderou, com dinheiro do narcotráfico, das instituições do Estado. Chegou inclusive a ser congressista suplente.

E Uribe ocupou oficialmente o poder entre 2002 e 2010, embora para muitos ainda o mantenha. Durante seu governo, efetivou a chamada Política de Defesa e Segurança Democrática, um pretexto para a guerra total contra as guerrilhas e opositores incômodos, álibi para exercer o terrorismo de Estado.

Mas os dois ganharam o apoio do povo porque se parecer com eles é se considerar um homem formado. Parecer-se com Escobar ou Uribe significa ser forte. A triste cultura do narcotráfico permeia uma ampla parcela da sociedade colombiana.

Contudo, a Colômbia também tem uma capacidade de luta inaudita. Em sua história democrática, abundam assassinatos de candidatos em campanhas eleitorais. Mesmo assim, os movimentos sociais e comunitários são incrivelmente corajosos, suas lideranças femininas também. As chamadas forças obscuras (outro eufemismo para denominar os perpetradores do terrorismo de Estado e a seus aliados) sabem muito bem quem não deve atingir a meta, e por isso fazem com que desapareçam antes de obter qualquer vitória que possa atrapalhar o plano previsto.

Sua história democrática está cheia de perseguição a jornalistas críticos. Por isso, a maioria dos grandes meios de comunicação segue o jogo do poder. E, aqui, meu reconhecimento aos comunicadores das regiões e das periferias, de lugares onde a guerra e a violência estão mais presentes, longe da capital. Considero que são as pessoas mais corajosas que conheci, pois muitos morrem exercendo o ofício. A história democrática da Colômbia também está cheia de luta comunitária, de organizações sociais e culturais, de vizinhos que se alertam entre si para evitar o azar de cair nas mãos de um verdugo.

Este último ponto é a Colômbia que há uma semana foi às ruas para protestar contra uma reforma tributária apresentada pelo presidente Iván Duque, o golfinho de Álvaro Uribe, o mesmo que desrespeita o processo de paz com as FARC. Os acontecimentos que transcorrem, nesses dias, na Colômbia, resumem décadas de espoliação, de governos indignos, de violência. O esgotamento de um Estado que alimenta uma indústria militar multimilionária que ninguém quer perder, em detrimento da saúde, a educação e a prosperidade. Somente durante os anos em que se executou o Plano Colômbia (2001-2016), os Estados Unidos destinaram mais de 9 bilhões de dólares para esta guerra.

Não vou me estender sobre o que aconteceu na última semana. Só um apontamento: os massacres de camponeses, os esquartejamentos com facões, os bombardeios em regiões pobres e esquecidas, ainda que levavam adiante meninos e meninas, se voltaram esta semana para armas de precisão, disparadas por policiais nas ruas das cidades. A Colômbia é hoje uma espécie de estado de sítio. Estar na rua, seja você quem for, significa ser alvo. As formas de segurança do Estado entram nas casas, praticam detenções indiscriminadamente. Não há números precisos de quantos mortos, feridos, detidos ou desaparecidos esta barbárie está deixando.se

Mas os colombianos resistem nas ruas, mesmo depois de Álvaro Uribe ter pedido aos gritos, pelo Twitter, a seu filho político predileto, o presidente Iván Duque, que utilizasse novamente o Exército para combater o povo. E assim se fez...

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