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Louçã: Dançando sobre os túmulos da nossa gente

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Esta montanha-russa de bolsas que caíram e agora estão delirantes diz pouco sobre a economia e demasiado sobre as finanças.

Francisco Louçã, Público, 29 de agosto de 2020

Ao longo desta semana, o índice S&P, que registra as principais empresas nas bolsas norte-americanas, atingiu o seu máximo de todos os tempos. Nunca houve tanto entusiasmo, perspectivas tão risonhas, tesouros tão florescentes. O problema é que esta montanha-russa de bolsas que caíram e agora estão delirantes diz pouco sobre a economia e demasiado sobre as finanças.

Nuvens e sol

Este índice, que vivera momentos de euforia até meados de fevereiro (já se sabia há dois meses da pandemia e havia vítimas na Europa e nos EUA, mas isso não perturbou a bolsa até essa data), caiu depois disso. Caiu a uma velocidade inaudita, reduziu-se em 34% durante o mês de março. Era de esperar, começava o confinamento, muitas empresas fecharam provisoriamente e surgiu logo a ameaça de falências, o comércio mundial congelou, a recessão era inevitável, os défices públicos aumentaram. O mesmo se passou com o outro índice de referência, o Dow Jones, que sofreu no mesmo período um tombo de 37%. Foi mais e mais rápido do que durante os dias trágicos do colapso bolsista de 1929, a maior crise do século XX; foi mais e mais rápido do que ocorreu em 2008, na crise do subprime, até então a mais grave crise do século XXI.

E depois veio a bonança: enquanto continuava o confinamento e a pandemia devastava os Estados Unidos, que superam agora os seis milhões de casos e as 180 mil mortes, as suas bolsas recuperaram, primeiro devagar, depois em ritmo alucinante. O S&P alcançou, assim, o seu máximo histórico, com mais 2% do que em fevereiro, e o Dow Jones está só a 4% desse valor anterior.

Ao mesmo tempo, a Apple tornou-se a primeira empresa de todos os tempos a valorizar mais de dois trilhões de dólares na bolsa, um décimo do PIB norte-americano. Este valor de capitalização é 33 vezes o montante dos seus resultados, o que exprime uma confiança inabalável no futuro. Devemos perguntar se isto tem sentido.

Maná dos céus

A euforia bolsista é, em alguma medida, um processo autossustentado, é uma avalancha. Há pelo menos duas razões para este entusiasmo. A primeira, paradoxalmente, é a própria estagnação econômica: como há pouco investimento, está disponível um mar de poupanças mundiais que procuram a especulação financeira. Isso desencadeia uma inflação financeira até agora imparável. Mas este processo não ocorreria sem a segunda razão: está consolidada a certeza de que os Estados e os seus bancos centrais não deixam cair os bancos e agentes financeiros e, mais, que injetam liquidez sem limites, estimulando assim as transferências para este sector.

Uma consequência desta mudança da política monetária é o enriquecimento de quem está no topo dos rendimentos e detém títulos financeiros. Segundo a “Forbes”, nos últimos 20 anos quadruplicou o número de pessoas com mais de um bilhão de dólares (são agora 2095); os 1% de cima detêm 44% da riqueza mundial e é para eles que vai pelo menos metade do benefício desta valorização bolsista; segundo a Bloomberg, desde o início da pandemia os 20 mais ricos de entre eles reforçaram a sua fortuna em mais um quarto do seu valor.

Enquanto isso, no planeta Terra

A descolagem entre este auge bolsista e a realidade das economias e das sociedades é gritante. Temos esta semana, enquanto se comemora o recorde do S&P, 23 milhões de pessoas já infetadas no mundo e mais de 820 mil mortos. Há vários países com milhões de doentes e descontrole sanitário. Se os efeitos sociais são pesados, os econômicos ameaçam os próximos meses: a economia europeia pode vir a cair 10% ou mais durante o ano. A reunião do Banco Central Europeu de 15-16 de julho concluiu, contra as suas previsões iniciais, que o pico do desemprego será em 2021, ou seja, traduzindo o ‘banquês’, que ainda teremos uma grande vaga de demissões por mais tempo que o antecipado.

A exaltação de Wall Street parece ­ignorar tudo isso e mesmo os seus riscos. Os bancos tiveram que aumentar as suas provisões, temendo falências de empresas e incumprimento de créditos. Se muitos pequenos negócios desaparecerem, o efeito na procura global arrastará os bancos e agravará a recessão, prolongando-a por mais tempo. Mas que importa? Os índices estão felizes e as fortunas acumulam-se, a dança da finança é o compasso do nosso mundo.

Artigo publicado no Expresso, 29 de agosto de 2020

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