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Luciano Floridi: A inteligência artificial já faz parte do nosso cotidiano

Chega de clichês insensatos sobre a inteligência artificial, que se alimentam de preconceitos absurdos pela política e a mídia. As consequências da sua utilização em massa na sociedade e na indústria serão positivas.

· Comunicação,Mundo do Trabalho,Vale a pena ler

Filippo Astone e Chiara Volontè entrevista Luciano Floridi, Industria Italiana/IHU-Unisinos, 21 de agosto de 2020

Chega de falar de inteligência artificial como se fosse algo que vai entrar nas nossas vidas no futuro. A inteligência artificial já faz parte da nossa cotidianidade. Além disso, todos continuam se concentrando na inteligência artificial como se fosse um perigo constante para a nossa sociedade. Mas ela criará valor econômico e, portanto, trabalho. E vai melhorar a qualidade de vida. Desse ponto de vista, devemos partir do exemplo do mundo industrial, no qual a robótica teve um impacto significativo desde os anos 1960. Hoje, a transição não diz respeito tanto à substituição do ser humano, mas sim ao emprego dos dados de forma totalmente diferente.

Luciano Floridi, professor titular de filosofia e ética da informação da Universidade de Oxford, no Oxford Internet Institute, onde dirige o Digital Ethics Lab.

Professor Floridi, gostaria de começar pelos lugares-comuns equivocados sobre a inteligência artificial. Na minha opinião, ela vai criar valor econômico e, portanto, também trabalho. Em vez disso, tende-se a adotar uma visão espetacularizada e negativa do tema com máquinas que se assemelham ao Exterminador do Futuro. E se tende a focar nos aspectos aparentemente negativos. Assim, chama-se mais a atenção do público, mais leitores, mais cliques. Mas se distorce a realidade e se criam muitos danos...

Esse modo de representar a inteligência artificial certamente não ajuda a favorecer a transição que estamos vivendo. Narram-se cenários apocalípticos nos quais a humanidade será destruída pelas máquinas para distrair a coletividade dos problemas sérios que existem e continuarão existindo com o incremento maciço das tecnologias. Temos medo do incerto, e isso é muito grave. Por exemplo, no setor da saúde, já poderíamos fazer coisas muito boas hoje com sistemas de inteligência artificial que permitiriam reduzir o sofrimento humano. Mas não as implementamos. Isso é uma coisa muito grave que deve ser atribuída à política e à mídia. Eu estou no grupo da Comissão Europeia sobre o projeto para a inteligência artificial e estou travando uma batalha, que estou perdendo, para evitar que se insiram cenários apocalípticos nesse documento.

 

O documento está disponível online na primeira versão [aqui, em inglês]: quem o consultar encontrará cenários apocalípticos que são indicados como possíveis e se afirma que a Comissão Europeia combaterá para que eles não ocorram. Mas se, por hipótese, nós defendêssemos que a Comissão Europeia fará de tudo para evitar a propagação de uma epidemia de zumbis, o homem comum não ficará exatamente tranquilo. E dirá a si mesmo, na sua cabeça: “Mas então os zumbis existem e são possíveis”. Em vez disso, é simplesmente uma tolice. O documento final melhorou [disponível aqui, em inglês], mas continua fazendo uma confusão entre o possível (imagine-se: sempre ganharei qualquer loteria da qual participar) e o plausível (isso nunca vai acontecer).

Tentemos imaginar o futuro daqui a cinco, 10 e até 20 anos: qual será o papel da inteligência artificial? Quando ela se tornará um fenômeno amplamente presente na nossa sociedade e na nossa economia, em suma, um fenômeno de massa?

Em parte, já é um fenômeno de massa. Basta pensar na tecnologia que usamos todos os dias. Durante os congressos, por exemplo, fica claro que as pessoas imaginam a inteligência artificial como uma espécie de androide que chega, um pouco como em “Guerra nas Estrelas”. Nada poderia estar mais longe. Se usarmos a Netflix para assistir a uma série de TV, a Amazon para fazer compras, um mecanismo de busca qualquer e até se tirarmos uma foto com nosso celular, por trás disso, muitas vezes, há aplicações da inteligência artificial.

Mas, às vezes, esses softwares não parecem ser tão inteligentes. Por exemplo, a Netflix sempre me recomenda assistir a séries de TV que eu já assisti...

Trata-se apenas de sistemas que aprendem a partir das suas escolhas e as refinam conforme vemos os vídeos, por exemplo. Mas isso não significa que eles não cometam equívocos. Tanto é que nós a chamamos de “inteligência”, mas não é tanto inteligência. Na realidade, é um sistema que olha para o padrão dos dados adquiridos e tenta antecipar as escolhas que o usuário poderá fazer da próxima vez. Por exemplo, os automóveis: já hoje existem sistemas de frenagem assistida e de auxílio de estacionamento. Isso dá uma ideia de aonde iremos no futuro. Mas, nos próximos anos, eu não os vejo como aqueles em que se completará a interação entre humanos e inteligência artificial, mas sim um lugar em que a inteligência artificial ficará nos bastidores para nos ajudar a fazer aquilo que fazemos de modo mais eficaz (melhor) e eficiente (com menor custo).

No fundo, trata-se nada mais do que de software, embora de um “supersoftware”. Por que chamá-los de inteligência artificial, despertando inquietações talvez um pouco supérfluas?

A inteligência artificial é um software um tanto “especial”. Comecemos a partir de um pressuposto: os softwares gerenciam os dados, todos. A diferença está no modo como esses dados são geridos. Se empregarmos uma rede neural que seja capaz de adquirir informações, processá-las e mudar o seu comportamento até se chegar ao fim desejado, então estaremos diante da inteligência artificial. Portanto, há uma diferença fundamental: o software que eu utilizo para escrever alguma coisa não aprende a partir da escrita, enquanto a inteligência artificial, aprendendo com os dados, controla o seu comportamento e, se não o achar adequado, o modifica, tentando melhorá-lo. Em suma, a inteligência artificial aprende e tem alguns mecanismos de funcionamento que emulam (fazem como), mas não imitam (são como) a inteligência humana.

Passemos para o âmbito de aplicação mais relevante para nós, a saber, a indústria: em que ponto estamos na integração entre software e manufatura?

O mundo industrial pode nos ensinar muito, mesmo que apenas pelas suas experiências passadas. Se olharmos, por exemplo, para a indústria automotiva e para o impacto que a robótica teve sobre a produção a partir dos anos 1960 – incluindo a Fiat – podemos ter uma ideia precisa do que aconteceu. A lição mais importante que eu aprendi é que se equivoca quem defende que construímos robôs naquela época ou hoje criando autômatos que dão a volta ao mundo e que são capazes de operar com sucesso, com autonomia, talvez até melhor do que nós. Não, nós, humanos, construímos mundos ao redor deles para que eles possam operar com sucesso. Também no futuro, portanto, o desafio será transformar o ambiente em um ambiente amigável: por exemplo, na disputa sobre o carro de direção autônoma. Mas certamente não imagino veículos capazes de circular por aí com qualquer tipo de clima, sem sinalização, sem controle algum.

Algo assim seria mais útil, então, no transporte público, onde a direção autônoma e o big data permitiriam criar um serviço verdadeiramente na medida do cidadão...

Certamente. A automação, a eficiência e a eficácia permitem que se economizem recursos. Nesse setor específico, o desafio é tão forte quanto a necessidade. Em breve – se é que já não ocorreu – haverá ônibus autônomos circulando em rotas pré-ordenadas. Muito mais difícil, em vez disso, será prever esses serviços fora dos centros urbanos. Lá, a substituição do componente urbano será muito mais complicada. Voltando ao mundo industrial, acredito que o papel da inteligência artificial permitirá transformar o próprio paradigma da manufatura: hoje já é impossível ser competitivo no mercado sem fazer uso do digital em sentido amplo e da inteligência artificial em sentido específico.

 

Em Berlim, eu me encontrei com o CEO da Airbus, que explicou que, nos últimos três anos, a empresa liderada por ele fez uma transição para se tornar um sujeito baseado em dados. Sem entrar em cenários de ficção científica, hoje, as pequenas e médias empresas têm a possibilidade de ter acesso a recursos de tipo computacional, bancos de dados, inteligência artificial, softwares que lhes dão a competitividade necessária no mercado. Hoje, a ideia de que é preciso necessariamente ser gigantes para ter sucesso já está obsoleta.

Por outro lado, uma das vantagens da digitalização é que ela diminui as barreiras em termos de massa crítica...

Exato. Por isso, quando eu penso no sucesso, também posso imaginar realidades com poucas pessoas e grande capacidade inovadora. Na Itália, se conseguíssemos entrar realmente em uma lógica de adoção da inteligência artificial, e do digital entendido de forma mais ampla, criaríamos uma grande novidade em relação ao passado, com um notável impacto positivo em termos sociais, econômicos e culturais. Muito tempo se passou desde a era Olivetti, quando a Itália estava na vanguarda.

Mas depois sempre voltamos para esta questão: a tecnologia traz vantagens em níveis de produtividade, dos quais deriva maior riqueza. No entanto, persiste um problema de distribuição do bem-estar, pois, se as receitas acabam nos cofres de uma multinacional que está nos Estados Unidos ou no Japão, a vantagem social oriunda da inovação fica muito contida.

Isso é certo. A desigualdade gerada por essas “novas” riquezas que foram criadas rapidamente graças ao digital é um problema que só resolveremos com a organização sociopolítica que permitiu esses acúmulos. A sociedade e a política não souberam reagir de forma inteligente e veloz a essa nova fase.

Mas o problema também não é que essas empresas são organizações supranacionais que podem mover os seuscentros de receita com facilidade? A política é local, as multinacionais são globais e têm um poder de negociação infinito. Ou chegamos ao governo mundial sonhado por Altiero Spinelli e pelos federalistas europeus, ou é um jogo perdido desde o início...

A política é fraca, e parte da fraqueza é causada pela própria política. Mas eu sou menos pessimista do que você. Não é preciso um governo mundial, bastaria a Europa, que é suficientemente grande, rica e com um mercado suficientemente grande para poder ditar as regras do jogo. Mas ela deve fazer isso de forma unitária. Enquanto permitirmos na Europa que a Irlanda ou Luxemburgo façam seus próprios jogos, independentemente das outras nações, é claro que as grandes multinacionais irão para Dublin e não para Milão. Portanto, precisamos melhorar a Europa, com mais solidariedade para fazer uma frente comum contra essas empresas. Eu veria com bons olhos uma abordagem continental contra as desigualdades também no que diz respeito aos impostos.

No entanto, continua-se confundindo a ideia da Europa com a política levada em frente pela maioria política que governa a União Europeia neste momento histórico. Uma política feita de austeridade, que está deslegitimando o nobre conceito de Europa.

Sim, vendo que as coisas não funcionam, acabamos perdendo confiança no projeto inicial, que é bom. E, sim, seria útil impulsionar para uma direção unitária, em que não estejam previstos paraísos fiscais e em que a lei seja uma só. Mas a multa pesada imposta ao Google me leva a pensar que algo está se movendo. Há muito a se fazer, especialmente no que diz respeito à igualdade e ao digital.

Mas é difícil que a Europa se torne uma unidade política, a menos com uma maciça concessão de soberania...

De fato, esse não é o futuro: deveremos encontrar uma solução nova, não podemos pensar nos Estados Unidos da Europa, como se fôssemos os Estados Unidos no ato da sua fundação. O mundo mudou, e eu veria com bons olhos uma inovação também sociopolítica, ao pensar como podemos nos coordenar melhor. Devemos inventar um modelo-Europa. Pensar em um modelo que realize uma Europa unida, sem cair em modelos já vistos e anti-históricos. Mas isso requer um esforço sociopolítico que não estamos fazendo.

No que diz respeito ao emprego, permita-me uma análise pessoal. Em curto e médio prazo, a inteligência artificial, a automação e a interconexão criarão mais riqueza e mais postos de trabalho, porque aumentarão a produtividade e porque serão necessárias muitas pessoas para vender, instalar e fazer com que esses sistemas funcionem. Em médio e longo prazo, no entanto, os postos de trabalho vão se reduzir significativamente, porque os sistemas aprenderão muito por conta própria, podem se autoinstalar e se autoconsertar. Nesse ponto, poderá haver uma grande crise. E será determinante o papel do público, com políticas de apoio à renda e ao emprego das pessoas em atividades sociais, culturais, de cuidado pessoal e do território. Em suma, o paradoxo é que as revoluções tecnológicas nos farão redescobrir o papel do Estado. O que você acha?

Eu não concordo totalmente. Parece-me uma leitura um pouco simplista demais. Em vez disso, devemos começar a pensar em quais são os trabalhos que estão surgindo e talvez se tornarão de massa, mas que, neste momento, não podemos sequer imaginar. Por exemplo, há todo um tema ligado à economia da experiência, que é um mundo em constante explosão. E eu ficaria curioso para ver como o mundo será diferente daqui a 20 anos, quando passarmos de uma economia baseada nos objetos a uma economia da experiência, que, por exemplo, envolve o turismo ou a alimentação.

Por exemplo, a China: hoje existem milhões de chineses circulando pelo mundo que gastam dinheiro nos restaurantes, nos museus, em todo o mundo. O seu impacto está transformando a economia chinesa profundamente. No futuro, eles vão se multiplicar, criando empregos. Eu seria mais otimista, mas também ficaria mais incerto ao dizer para onde iremos com os novos postos de trabalho. Pensemos, por exemplo, nos trabalhos repetitivos, nos quais a inteligência humana é desperdiçada.

Porém, haverá profissões que necessariamente serão eliminadas, como, por exemplo, os trabalhadores portuários. Mas o que pode fazer um estivador de 60 anos que, por uma vida inteira, trabalhou em um porto, movimentando manualmente contêineres

que agora são geridos eletronicamente?

Esse também é um problema diferente, e aqui é importante pôr em campo um pouco de realismo social. Se é verdade que essas tecnologias digitais transformam o mundo do trabalho de forma tão radical, há um custo de transição que será pago por esta geração, mas devemos nos conta disso, porque um mínimo de apoio social deverá ser necessariamente previsto. Teremos que distribuir cronologicamente as vantagens dessa tecnologia para aliviar o sacrifício que será enfrentado pela geração atual. Não me parece justo nem humano que, para permitir o crescimento do digital futuro, nos esqueçamos daquelas profissões que hoje vão desaparecer completamente e das pessoas que as desempenhavam.

Reproduzido do IHU-Unisinos. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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