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Mandel e Ross: a necessidade da internacional revolucionária - 1

Este documento pode ser considerado um dos mais importantes do período em que Ernst Mandel foi o principal elaborador político da IV

· Formação,Documentos,IV Internacional

O texto abaixo, de Ernest Mandel e John Ross foi originalmente publicado em inglês com o título de "The need for a revolutionary International" na International Marxist Review (London; later: Montreuil) [ISSN 0269-3739] - 1.1982 (1): pp. 27-52. Ele pode ser considerado, junto com o texto de John Ross, "Partido ou fração-seita" e a resolução "Democracia socialista e ditadura do proletariado" (cuja discussão foi iniciada no Congresso Mundial da IV Internacional de 1979 e foi aprovada no Congresso seguinte, em 1985), a culminância da elaboração política da Quarta Internacional no período em que Mandel se destacou como o principal formulador político da Internacional - papel que, na sequencia, seria ocupado por Daniel Bensaid.

Esse texto ainda se situa em marcos clássicos, na continuidade de elaboração de Leon Trotsky (o funcionamento da Internacional como partido mundial com base no centralismo democrático), mas já aponta para a elaboração posterior da Quarta Internacional a partir da década de 1980, que daria um destaque qualitativamente maior tanto à heterogeneidade da classe trabalhadora e a necessidade do pluralismo político de suas organizações, quanto à ruptura de qualidade na passagem do social para o político. O próprio Mandel formularia uma abordagem mais historicista do marxismo em um texto introdutório, O lugar do marxismo na história.

Ernest Mandel e John Ross, Perspectiva Internacional, maio-junho de 1982

A construção de organizações revolucionárias em escala nacional e a batalha por uma internacional revolucionária são tarefas complementares e conjuntas

1. A internacionalização das forcas produtivas

Deste seu nascimento, o capitalismo orientou-se para o mercado mundial. A especialização do comércio internacional, a exportação de produtos manufaturados pelos primeiros países capitalistas industrializados, a importação de bens provenientes dos países "subdesenvolvidos", a conquista de mercados nestes países, acompanharam cada passo dado pelo modo capitalista de produção. O imperialismo levou esta tendência a um nível mais elevado. Pela sua própria natureza expansiva, o capitalismo criou um sistema mundial. Qualquer sistema social superior que o substituir deverá, necessariamente, ter a esse respeito um caráter ainda mais internacional que o sistema imperialista. Não somente do ponto de vista político, mas também do ponto de vista diretamente econômico, qualquer teoria do "socialismo em um só país" é ao mesmo tempo reacionária e utópica.

Entretanto, a ascensão mundial do capitalismo caracterizou-se pelo desenvolvimento desigual e combinado. A indústria de massa dos centros capitalistas desenvolvidos destruiu a produção pré-capitalista dos países que eles dominam (indústria a domicílio, indústria camponesa, primeiras formas de manufatura) sem, no entanto, criar um desenvolvimento massivo da indústria moderna nestes países.

Na época imperialista, a exportação de capitais, a aparição, a nível internacional, de enormes grupos de capital financeiro que controlam o mercado financeiro de quase todas as regiões do mundo, o controle político e militar, direto ou indireto, dos países subdesenvolvidos pelas potências imperialistas, impedem estes países, mesmo com alguns decênios de atraso, de seguir o modelo geral de industrialização, de desenvolvimento econômico e de modernização estabelecido pelos países que primeiramente se industrializaram. Seu desenvolvimento orgânico é desviado sob o peso da dominação imperialista. O progresso da indústria moderna coincide com a manutenção, e mesmo a consolidação, de formas de produção e de exploração pré-capitalistas: usura e condições de semi-servidão; elevadas rendas fundiárias, prestações de serviços semi-feudais, peso preponderante dos proprietários fundiários, comerciantes e banqueiros estrangeiros dominando a política comercial, etc. Mesmo onde, após a II Guerra Mundial, uma industrialização capitalista mais intensa teve lugar, ela foi realizada às custas de desproporções e desequilíbrios enormes, que acentuam a desigualdade e a desagregação sociais.

Decorre desse processo que a economia capitalista internacional tornou-se uma unidade estruturada em favor dos centros imperialistas. Hiper-especializadas na extração e exportação de matérias-primas, tendo uma indústria cada vez mais orientada para o mercado de exportação, as economias dominadas pelo imperialismo estão à mercê de subidas e quedas bruscas dos preços das matérias-primas no mercado mundial. Mesmo as economias que atingem um desenvolvimento industrial relativamente importante permanecem submetidos à situação que prevalece, nos centros imperialistas (endividamento enorme, dependência tecnológica, etc), enquanto as economias neo-coloniais mais fracas sofrem golpes que condenam as massas de camponeses pobres e trabalhadores a viverem no limite da miséria, senão na verdadeira fome. As desigualdades sociais e os desequilíbrios crescentes têm por conseqüência a instabilidade política e crises freqüentes. É esse o processo que se desenrolou ao longo de todo o período que começou com a crise do sistema imperialista e que continuou nos últimos anos no Irã, na Nicarágua, Brasil. Coréia do Sul, El Salvador, Zimbabwee em vários outros países.

No capitalismo da "terceira idade" (um sub-período da época imperialista que começa com o fim da II Guerra Mundial), a emergência de sociedades multinacionais reflete ainda mais claramente xtma fase mais elevada da internacionalização das forças produtivas. Esta internacionalização não se manifesta apenas através do comércio mundial e do movimento mundial de capitais, enquanto as unidades produtivas permanecem essecialmente nacionais. Ela se manifesta, agora, pela organização cada vez mais internacional da própria produção industrial. As sociedades multinacionais organizam uma divisão internacional do trabalho em seu próprio seio. Elas fabricam peças sobressalentes em um continente e possuem as linhas de montagem em um outro. Elas transferem de um país para outro, senão de um continente para outro, a fabricação de tal ou qual tipo de seus produtos. Não há melhor prova do fato de que, não-somente a propriedade privada capitalista, como também o Estado-Nação, foram ultrapassados pelo nível de desenvolvimento atingido pelas forças produtivas. Muitos ramos industriais atingiram hoje um tal nível tecnológico que mesmo uma única máquina não pode ser utilizada com lucros se ela não trabalha para um mercado que englobe vários países ao mesmo tempo.

Aliás, todos os problemas econômicos chaves enfrentados hoje pela humanidade — o problema de vencer a fome e o subdesenvolvimento do Terceiro Mundo, o problema de assegurar e manter o pleno emprego, o problema de subordinar o desenvolvimento "espontâneo" da ciência e da tecnologia às necessidades da humanidade, o problema da resolução da crise ecológica — não podem ser resolvidos senão à escala internacional.

A idéia de uma "soberania nacional" ilimitada, idéia que é progressista enquanto é utilizada contra os restos do feudalismo ou as usurpações do imperialismo (isto é, a opressão e a exploração), torna-se reacionária não-somente nos Estados imperialistas, mas também quando aplicada à construção de um mundo socialista unificado, de uma federação mundial de repúblicas socialistas. Isso explica também porque todas as tentativas feitas pelas burocracias dos Estados operários deformados e degenerados para construir "o socialismo em um só país" são reacionárias e utópicas. Nenhuma repartição racional dos recursos mundiais em favor de uma rápida superação do subdesenvolvimento, da eliminação da fome e da miséria, da eliminação das desigualdades entre nações "ricas" e "pobres", não é possível se cada país quiser "marchar só", cada um construindo sua própria siderurgia, sua própria indústria automobilística, sua própria indústria eletrônica, independentemente dos custos e virando as costas às grandes vantagens da divisão internacional do trabalho. Isto será ainda mais verdadeiro no caso de revoluções nos países industrializados avançados.

Certamente, a divisão internacional dó trabalho que funcionou sob o capitalismo, que a burocracia privilegiada usurpadora do poder na URSS aplicou, isto é, uma divisão do trabalho fundada na desigualdade, aumentou terrivelmente as suspeitas e prevenções a respeito da solidariedade internacional em muitos povos (na Europa Oriental, assim como na Ásia e outros lugares). Mas isso não é uma razão para que os marxistas revolucionários fechem os olhos diante da evidência: o socialismo mundial só é possível no mais alto nível de organização e de planificação internacionais da vida econômica e política. Isto não é possível sem que numerosas restrições á "soberania nacional", com base em uma estrita igualdade entre as nações, sejam livremente aceitas pela massa dos trabalhadores que serão senhores de seus destinos em uma Federação socialista mundial. Esta livre aceitação é impossível sem um alto nível de educação internacionalista de organização.

2. A luta de classe é internacional

Por sua própria natureza, isto é, pelos seus vínculos com a propriedade privada e a concorrência, a exploração e a desigualdade, a classe capitalista e seu séquito (a parte da pequena burguesia que partilha de sua ideologia) são organicamente incapazes de encontrar uma solução mundial aos problemas da humanidade. O enorme fosso entre a internacionalização objetiva das forças produtivas, de um lado, e a sobrevivência do Estado-Nação burguês, de outro, foi tapado em parte por todas as espécies de instituições e mecanismos internacionais. Mas, se observarmos mais de perto a maneira como essas instituições e mecanismos funcionam, sempre se descobrirá que é em favor de certos grupos de capitalistas (geralmente os mais fortes) e às custas de outros, em favor do capital em geral c às custas dos explorados e oprimidos de todo o mundo.

O capitalismo só pode se desenvolver impulsionando simultaneamente o desenvolvimento do trabalho assalariado. A acumulação do capital tem sua fonte na mais-valia, que só pode ser produzida por trabalho assalariado vivo. Desde seu nascimento, uma luta de classe contínua entre o Capital e o Trabalho acompanhou o capitalismo.

Esta luta de classe não cresce continuamente e não atinge a todo momento uma expressão consciente. Ela conhece altos e baixos, sobretudo em suas formas mais agudas (greve de massa em larga escala, ações políticas de massas em grande escala; situações pré-revolucionárias; lutas revolucionárias pelo poder). Mas mesmo quando ela recua temporariamente, por parte da classe operária, ela é continuada cotidianamente, ao nível da fábrica, pela classe capitalista. Cada nova máquina introduzida em uma empresa, cada tentativa de racionalizar a organização da produção, é uma tentativa do capital para extorquir do trabalho assalariado mais sobre-trabalho, mais mais-valia. Toda demissão de um trabalhador de uma empresa é uma tentativa de enfraquecera classe operária.

Periodicamente, os trabalhadores respondem a esses ataques contínuos conduzidos pela classe capitalista, a essa luta de classe cotidiana de seu inimigo de classe, através de reações massivas e não mais individuais, fragmentárias e limitadas. Suas reações massivas vão da greve de massa à forma mais elevada da luta de classe proletária: a luta pela derrubada da propriedade e o poder de Estado da burguesia, a luta pela' vitória da revolução socialista.

Quanto mais elevado o nível da internacionalização do capital e das forças produtivas, mais a luta de classe torna-se internacional. Tomemos um exemplo bastante elementar: já na segunda metade do século XIX, os patrões tentaram esmagar as greves transferindo encomendas para países estrangeiros ou importando mão-de-obra estrangeira. Uma reação nacionalista da parte dos grevistas, pretendendo apresentar os "estrangeiros" como inimigos, joga em favor dos patrões e rapidamente se mostra ineficaz, mesmo para ganhar greves. A longo prazo, isto só pode ajudar ainda mais a classe capitalista, que tenta dividir de maneira permanente a classe operária, que tenta introduzir ao seio da classe operaria a concorrência e a luta entre trabalhadores de diferentes nacionalidades, que é do interesse do Capital, mas é contrário aos interesses do Trabalho.

A experiência rapidamente ensinou aos trabalhadores que a melhor resposta a essas manobras dos capitalistas era estender as greves e a organização sindical ao nível internacional. Esta foi uma das principais razões que permitiram a Marx e Engels organizar a primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) em 1864. Contrariamente à classe capitalista, a classe operária não tem nenhuma ligação orgânica com a concorrência, que é ligada à existência da propriedade privada. Seus interesses fundamentais, determinados pela própria maneira como ela trabalha na empresa e pela maneira como ela se defende contra o inimigo de classe, são fundados na cooperação e solidariedade.

O capital, operando cada vez mais em escala internacional, internacionalizando cada vez mais a luta de classe, obriga a classe operaria a responder, estendendo a cooperação e a solidariedade a nível internacional, para não ser batida de antemão em um jogo desigual, em que as cartas estão marcadas.

É verdade que a consciência de classe proletária desenvolve-se bastante atrasada diante das necessidades objetivas da luta de classe. Agora e sempre, a burguesia e as burocracias operárias que a servem, conseguiram utilizar o nacionalismo, o chauvinismo, o racismo, as diferenças étnicas e religiosas, para dividir os trabalhadores, jogando-os uns contra os outros, em lugar de uni-los contra o inimigo comum de classe. Mas cada vez que isto aconteceu, cada vez que a classe operaria não consegue compreender suas tarefas internacionalistas, a experiência mostrou que somente os capitalistas lucraram e que os trabalhadores foram justamente as grandes vítimas.

Assim, no inicio da I Guerra Mundial, a maioria dos trabalhadores europeus primeiro baixaram a cabeça ante a enorme pressão da propaganda chauvinista burguesa, transmitida às suas fileiras pelos dirigentes de seus partidos de massa e sindicatos que haviam capitulado diante da burguesia imperialista. Essa foi a causa do desmoronamento da II Internacional. Em 1914, esses trabalhadores aceitaram a guerra como sendo guerra de "defesa nacional", embora ela fosse, na realidade, uma guerra de pilhagem imperialista. Mas, rapidamente eles pagaram um preço altíssimo por esse recuo, milhares de trabalhados foram mortos por seus próprios irmãos de classe de outros países. Dezenas de milhões viram baixar rapidamente seu nível de vida como o preço de sua aceitação da colaboração de classe com os patrões, e do compromisso em não fazer greve em nome da "união" sagrada. Então, tornou-se possível aos intemacionalistas, que não passavam de uma pequena minoria no início da guerra, convencerem setores cada vez mais amplos da classe operária de que o internacionalismo prático não era nem uma utopia nem um "ideal" abstrato, aplicável somente por uma pequena vanguarda, mas sim uma necessidade real que correspondia ao interesse comum imediato e material dos trabalhadores de todos os países.

Do mesmo modo, no inicio das guerras contra-revolucionárias de reconquista colonial, como a guerra conduzida pelo imperialismo francês contra a revolução argelina a partir de novembro de 1954, a massa dos trabalhadores foi influenciada por preconceitos chauvinistas e racistas, sobretudo porque não foram vigorosamente combatidos, desde o começo, pelas direções das organizações de massa reformistas da classe operária. Eles se furtaram ao dever de solidariedade com o combate pela liberação travado pelos oprimidos por sua própria burguesia imperialista. Também ai pagaram um preço elevado por este abandono de um princípio fundamental da luta de classe: milhares de mortos, e no caso da França, uma ameaça crescente contra suas próprias liberdades democráticas, conduzindo, em 1958, à queda da IV República e ao estabelecimento de um Estado muito bonapartista sob o general De Gaulle. Esta experiência ajudou as pequenas minorias intemacionalistas a convencerem setores da classe operária da necessidade de se bater contra as sórdidas guerras coloniais e de se opor aos esforços de guerra por todos os meios necessários.

A necessidade de se levar a luta de classe ao nível internacional também se manifestou claramente em lutas mais recentes. Hoje, quando as empresas multinacionais organizam a produção em escala mundial, quando a política é, antes de tudo, uma política mundial, as tentativas de se resolver no plano estritamente nacional mesmo as questões canden-tes da defesa dos interesses econômicos imediatos da classe operária tornam-se cada vez mais difíceis.

Enquanto nestes últimos dois anos a crise da siderurgia se estendia a toda a Europa Ocidental, levando ao desemprego mais de 100.000 trabalhadores da siderurgia em 12 países, os trabalhadores da siderurgia da Alemanha Ocidental foram abandonados pelos sindicatos dos outros países no momento da primeira greve exemplar pela semana de 35 horas,e embora, se esta greve tivesse sido ganha internacionalmente, teria permitido salvar, ao menos de imediato, todos aqueles empregos. Da mesma forma, a potência da greve dos siderúrgicos britânicos foi enfraquecida, apesar da determinação exemplar, porque nenhuma tentativa séria de solidariedade internacional foi organizada. Não se estabeleceu seriamente nenhum bloqueio do transporte de aço proveniente das laminadoras européias, através de caminhões, estradas de ferro e portos do continente. Mesmo um número limitado de sindicalistas resolutos, coordenando suas ações em todos os países europeus, poderiam atingir um sucesso parcial e poderiam exercer uma pressão suficientemente grande para que. ao final, em suas estruturas sindicais, a solidariedade prevalecesse.

Esses exemplos mostram como a realidade internacional da luta de classe se impõe de fato nos processos sociais objetivos. Isto indica os deveres e as possibilidades da classe operária e dos revolucionários.

As raízes objetivas da necessidade do internacionalismo proletário são muito simples. A luta de classe implica que cada derrota de uma classe é uma vitória para a outra. Isso é verdade não só nacional como também internacionalmente.

A burguesia compreende este fato muito bem. Seus círculos dirigentes têm uma consciência internacional extremamente desenvolvida. Suas organizações contra-revolucionárias (OTAN, CEE. Tratados de "defesa", tipo AS E AN) e suas operações, (Vietnã, golpe de Estado na Bolívia, intervenções no golfo pérsico e em El Salvador) têm uma dimensão plenamente internacional. Quaisquer que sejam os desacordos particulares que existem entre seus diferentes setores, eles cooperam integralmente com as mais decisões contra-revolucionárias.

Em oposição, o proletariado está gravemente freiado por suas direções stalinista e social-democrata. Ele sofre grandemente cada vez que falha em suas obrigações internacionais.

A incapacidade do movimento operário na Grã-Bretanha em responder as necessidades de solidariedade a Irlanda criou, diretamente, não-somente a divisão do país, como também um enclave ultra-recionário no seio do Estado britânico. A incapacidade das direções do movimento operário nos países imperialistas de se solidarizarem plenamente com a luta contra a burocracia stalinista na Europa Oriental deixou a porta aberta às correntes mais direitistas em seus próprios países para vestirem o manto de "defensores da democracia".

Pelo contrário, cada vez que aplicou uma verdadeira política de solidariedade internacional, mesmo se por motivos confusos a princípio, o movimento operário obteve ganhos importantes.

Assim, a crescente recusa dos trabalhadores e jovens de Portugal em prosseguir as guerras coloniais na África, a penetração desta recusa no exército, levaram à derrubada da ditadura fascista de Salazar-Caetano, em 1974.

Um outro exemplo convincente, justamente porque ele se iniciou sobre um ponto de partida limitado, no seio do mais possante Estado imperialista do mundo, foi o caso do movimento contra a guerra do Vietnã. Em meados dos anos 60, a escalada da ofensiva militar americana no Vietnã não foi imediatamente seguida, nos EUA, por uma oposição de massa ativa. Mas o número crescente de mortos causados pela guerra suas conseqüências para a economia americana, a visão hedionda da agressão imperialista que a guerra revelou à juventude, engendrou uma oposição crescente, tanto através de protestos ativos como através da recusa passiva em aceitar os sacrifícios que esta guerra exigia. Os intemacionalistas, que no início não representavam senão uma pequena minoria eram os únicos capazes de realizar pequenas ações de protesto, chegaram a influenciar ações de centenas de milhares de pessoas e se encontravam mergulhados no coração da maré do sentimento popular. O resultado desta luta, baseada e estimulada pelo incrível heroísmo da luta do povo vietnamista, impôs a mais dura derrota que a classe dirigente americana sofrerá em toda a sua história. O internacionalismo na ação não é então, nem um "gadget", nem uma "preocupação exótica", nem uma "utopia". Em cada país, ele afeta diretamente as relações de força entre as classes, e portanto as possibilidades de vitória da classe operária. Esta é a implacável lógica objetiva da luta de classe.

A necessidade de uma organização internacional da vanguarda da classe operária não está fundada apenas sobre as realidades econômicas do mundo contemporâneo. Ela se funda igualmente sobre a realidade global da luta de classe. "A emancipação do proletariado não pode ser senão um ato internacional"'(Carta de Engels a Paul Lafargue, 26.6.1893).

3. As bases políticas do internacionalismo proletário

Pelo menos a partir do século XX (parcialmente já no século XIX), o agravamento das contradições internas do capitalismo tem conduzido periodicamente a violentas explosões. A época imperialista toma-se a época das guerras, revoluções e contra-revoluções adquirem cada vez mais a forma de revoluções e contra-revoluções internacionais.

De fato, nenhuma revolução importante ocorreu no século XX sem ter sido impulsionada por desenvolvimentos internacionais e sem se estender a outros países. A revolução russa estendeu-se rapidamente à Finlândia, Polônia, Alemanha, Áustria, Hungria e, parcialmente, à Itália. Em 1936, a revolução espanhola começava a se estender à França. A revolução chinesa de 1946-1949 estendeu-se à Coréia, Indochina, Indonésia, Malásia. A revolução indo-chinesa, estendeu-se à Argélia. A revolução argelina estendeu-se a Angola, Moçambique. Guiné-Bissau e de lá. a Portugal. A revolução cubana espalhou-se pela América Latina. Diante de nossos olhos, a revolução nicaragüense se estende hoje para El Salvador e a outros países da América Central.

Da mesma fora, como já vimos, a contra-revolução se organiza em escala internacional. Ela não se contenta em financiar e armar a classe dirigente de qualquer país ameaçado pela revolução, seja para permanecer no poder, seja para, após a derrubada, retomar o poder. Ela organiza a chantagem comercial e financeira e o bloqueio econômico de cada revolução, uma após outra. Ela organiza grupos internacionais de mercenários para desestabilizar e ajudar a derrubar os regimes revolucionários. E quando tudo isto não é suficiente — e que as relações de forças no seio dos países imperialistas o permitem — ela organiza intervenções militares abertas em apoio da contra-revolução na guerra civil (como ela o fez na Finlândia em 1918, na Rússia em 1918-1920, na Polônia em 1920, na Espanha em 1936, na China em 1946-49) ou mesmo empreende uma intervenção militar massiva e generalizada contra a revolução, como foi o caso na China nos anos 30, na Coréia em 1950-53, na Indochina (primeiro a França, em seguida o imperialismo americano) durante 30 anos, na Argélia em 1954-62, etc.

A internacionalização das revoluções e das contra-revoluções constitui a base política da necessidade de uma Internacional revolucionária. O sucesso de uma revolução nacional não depende apenas de elementos nacionais. Uma direção revolucionária deve levar em conta a situação nacional, bem como a internacional. Em nossa época, as tarefas de uma Internacional não podem ser reduzidas simplesmente à oposição, pela organização da solidariedade internacional, aos fura-greves. Suas tarefas são de uma amplitude política cada vez maior. Ela deve reunir as condições para que ao sublevar-se para conquistar sua liberação nacional e social a classe operária e os povos oprimidos não tenham que fazer face, de uma maneira completamente dispersa, senão isolada, às alianças imperialistas mundiais e à sua violência concentradas. Neste caso, sua vitória tornar-se-á mais difícil, o preço da vitória mais elevado, e poderá até transformar-se em derrota.

"A crise da humanidade é a crise de sua direção revolucionária". A direção proletária necessária é aquela que ajudará as massas a ultrapasar o fosso entre o seu nível de consciência e a realidade objetiva, uma direção que fará face às suas tarefas intemacionalistas, que reeducará o movimento operário no espírito do internacionalismo. O único internacionalismo que é decisivo é aquele que se verifica na prática. Finalmente, isto só é possível pela construção de uma real Internacional que funcione como tal.

É precisamente em relação com às necessidades objetivas da luta de classe, para pôr suas "conclusões organizacionais" de acordo com suas análises políticas, que a atividade dos revolucionários em toda a história política do movimento operário está ligada à luta para a criação de uma real Internacional revolucionária. A idéia de que bastam os partidos nacionais, ou que é preciso primeiro construir fortes organizações revolucionárias nacionais antes de poder começar a construir uma real Internacional revolucionária, é totalmente falsa. Ela não responde à necessidade de garantir um mínimo de coerência organizacional e programática. irrealizável entre organizações nacionais construídas separadamente umas das outras. Ela não responde à questão de saber como uma educação internacionalista sistemática é possível sem a experiência prática cotidiana de uma atividade internacional comum. E sobretudo, ela não responde à questão de saber como uma análise adequada de uma situação internacional extremamente complexa e das suas evoluções é possível sem o teste de uma prática comum em uma grande parte do mundo, mediatizada por organizações e camaradas que são membros de um mesmo partido mundial.

4. O combate histórico por uma Internacional Revolucionária

A maior acumulação de experiência internacional, possível através de uma organização internacional, através da organização formal de uma Internacional, através da intervenção e da organização em escala internacional não se opõe, mas, ao contrário, contribui para a criação de fortes direções nacionais e de poderosos partidos nacionais.

Este fato é confirmado por toda a história do movimento revolucionário internacional. Decorre de sua própria natureza. Em certo sentido, a primeira "Internacional" na historia do marxismo foram Marx e Engels que, durante toda a vida, jamais construíram uma organização nacional em primeiro lugar, mas que sempre construíram simultaneamente, seja com as massas sejam com forças absolutamente minúsculas, uma Internacional e partidos nacionais (Liga Comunista, projeto de Internacional com o dirigente cartista Ernest Jones, I Internacional, projeto da Internacional com os blanquistas, II Internacional). Tornou-se um lugar comum, mas é preciso extrair disto todo o significado: desde suas origens, o marxismo não era um produto nacional e sim internacional. De acordo com uma fórmula famosa, ele é o produto da filosofia alemã, da política francesa e da economia política britânica. Desde o início, Marx e Engels formaram-se no mais amplo campo internacional — onde eles foram obrigados a procurar respostas em função das próprias necessidades da luta revolucionária na Alemanha.

A "obsessão" pelos desenvolvimentos internacionais, a recusa em construir simples organizações nacionais, o cuidado de sempre construir uma organização internacional, não levaram Marx e Engels a "perder o contato" com as realidades e as particularidades nacionais, como já se afirmou algumas vezes? Muito pelo contrário. Justamente porque eles foram internacionalistas tão completos em sua prática e em suas idéias é que eles puderam discernir mais claramente os elementos universalmente decisivos. Em relação às outras correntes na Alemanha, Marx e Engels tiveram, de longe, a melhor compreensão do processo revolucionário de 1848. Quaisquer que sejam os erros secundários que eles possam ter cometido, eles tiveram a melhor compreensão da situação concreta, da tática a aplicar e da intervenção a seguir na Alemanha. O ponto de partida internacional levou-os à linha nacional mais correta, enquanto as forças "localistas" cometeram erros após erros. Da mesma forma, Marx e Engels demonstraram "uma incapacidade em construir o partido" ou "uma incapacidade de captar os traços nacionais específicos em suas atividades posteriores"? De forma alguma. Foram os que melhor compreenderam como construir a I Internacional e suas seções, como captar o significado e a linha de desenvolvimento da Comuna de Paris, assim como os traços particulares da luta na Alemanha. Em sua agitação pela criação de um partido operário de massa na Inglaterra, sem pré-condições programáticas, Engels esteve 20 anos na frente dos que estavam pretensamente orientados com base nas "realidades nacionais", quanto à compreensão da linha de desenvolvimento histórico do movimento operário daquele país.

Trata-se, na realidade, de uma lei geral do desenvolvimento do movimento revolucionário internacional. As correntes mais corretas e as mais revolucionárias no terreno nacional são aquelas que não só tiveram uma experiência revolucionária avançada em seu próprio país, como também as que estavam melhor organizadas internacionalmente. Podemos ilustrar esta regra com vários exemplos da história do movimento operário.

A ala mais revolucionária e a mais internacionalista do SPD alemão era conduzida por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Mas Rosa Luxemburgo era uma dirigente que havia conseguido integrar totalmente as concepções e experiências internacionais. Nascida na Polônia dividida, ela teve a chance de ser militante em três partidos ao mesmo tempo: o polonês, o russo e o alemão. Além do seu trabalho no seio do Bureau e dos Congressos da II Internacional, ela atuou simultaneamente na construção da organização polonesa, dirigiu uma ala do partido alemão e participou pessoalmente da revolução russa de 1905 e das lutas internas do partido russo. Comparada a todos os pregadores das "paticularidades nacionais", sua corrente internacional era a mais realista e a mais revolucionária na própria Alemanha. Qual foi a conclusão que Rosa Luxemburgo tirou de toda esta experiência? Que ela foi excessivamente internacionalista? Pelo contrário: ela pensava que o movimento operário não havia sido organizado suficientemente no plano internacional. Assim escrevia ela, em seguida à catástrofe de agosto de 1914 e ao desmoronamento da II Internacional:

"O centro de gravidade da organização do proletariado enquanto classe é a Internacional". De maneira alguma ela não a limitava a uma simples "troca de idéias", ela a compreendia como uma real organização internacional.

Rosa Luxemburgo chegou exatamente às mesmas conclusões teóricas de Marx e Engels, a saber o movimento da classe operária jamais pode ser uma soma de movimentos nacionais, ele deve ser construído simultaneamente enquanto Internacional e enquanto partidos nacionais.

O segundo exemplo é dos bolcheviques. A necessidade de encontrar idéias e soluções revolucionárias, que decorria da crise social permanente na Rússia a partir dos últimos decênios XIX, combinada ao exílio forçado de dezenas de milhares de opositores do czarismo, deram ao partido russo um quadro de compreensão e uma experiência internacional inigualáveis por qualquer outro partido no mundo. Como disse Lênin, o partido russo estava a par da "última palavra" em matéria de idéias e de desenvolvimentos revolucionários internacionais. Isto não era uma idéia simplesmente abstrata. Era uma constatação realmente material. A política russa era fortemente determinada pela política mundial. As revoluções de 1905 e 1917 eclodiram em seguida a guerras. Os revolucionários russos, por causa do exílio, possuíam muitos contatos internacionais com militantes de quase todos os países. A tradução em russo da literatura revolucionária de todo tipo era superior à de quase todos os outros países. Os bolcheviques, manifestamente o partido mais capaz de compreender "as particularidades nacionais da Rússia", era também o partido mais internacional de toda a II Internacional.

Como Rosa Luxemburgo, os bolcheviques não tiraram de sua experiência a conclusão de que eles teriam sido "internacionais" demais. Esta conclusão, eles a deixaram para os reformistas da social-democracia que após a virada decisiva de 1914, jamais criaram uma organização internacional com o mínimo de coesão e de representatividade da II Internacional.Os bolcheviques, ao contrário, concluíram que eles tinham sido insuficientemente internacionais em particular, ao não criarem uma corrente internacional organizada. Este erro foi, sem dúvida, uma das razões pelas quais Lênin foi incapaz de compreender mais cedo a degenerescência do SPD. Eles o corrigiram após o terrível choque de 1914.

Desde o começo da guerra, os bolcheviques empreenderam a criação de uma nova organização revolucionária internacional, concretizada por suas atividades em Zimmerwald, em Kienthal e nos preparativos para a criação da Internacional Comunista. Naturalmente, a revolução russa deu-lhes a chance de criar rapidamente uma Internacional revolucionária numa verdadeira escala de massa. Mas sua decisão de criar uma nova organização internacional já era clara antes da eclosão da revolução de 1917.

Da mesma forma, Trotsky, após a catástrofe na Alemanha, em 1933, não se voltou para a construção de um ou de vários partidos nacionais, mas, desde o início, para a construção de uma nova Internacional. Ele seguia os passos já traçados e seguidos por Marx, Engels, Luxemburgo, Lênin e outros dirigentes do movimento revolucionário. Todos estes dirigentes revolucionários, e a vanguarda que eles representavam, chegaram à conclusão, não somente na teoria, como também na prática, que era necessário construir simultaneamente uma Internacional e partidos revolucionários nacionais.

Estas conclusões lhes foram impostas pela realidade objetiva do processo revolucionário internacional. Hoje, todo revolucionário que não constrói simultaneamente uma Internacional revolucionária e partidos nacionais não se baseia nas conclusões e na prática mais avançadas do movimento revolucionário internacional, mas, ao contrário, na lógica dos reformistas e dos centrístas.

Finalmente, mesmo se o sucesso não foi completo, a construção de uma Internacional revolucionária sempre deixou um saldo positivo. A 1ª Internacional difundiu o marxismo e um início de organização da classe operária em quase todos os países capitalistas avançados. Em toda uma série de países, os mais importantes do mundo, a II.ª Internacional estimulou o desenvolvimento de partidos operários de massa, pela primeira vez na história.

Apesar de sua degenerescência final, também é o caso da Internacional Comunista. Ela, assim como o processo que a criou, conduziu a avanços não somente programátícos mas também de grande importância prática para a revolução mundial e a classe operária.

Quando, em Brest-Litovsk, a Rússia Soviética foi obrigada a fazer a paz com o imperialismo alemão e austro-húngaro em condições desastrosas, sacrificando grandes extensões de território para manter o Estado operário e obter um mínimo de prazo de sobrevivência, os bolcheviques fizeram, ao mesmo tempo, tudo o que foi possível para ajudar os revolucionários alemães através da agitação, da propaganda, de apoio financeiro. O resultado a longo prazo que sua agitação revolucionária encontrou (particularmente a de Trotsky) entre os trabalhadores e os soldados alemães e austríacos, o resultado desta ajuda organizacional fornecida aos revolucionários, e, subsidiariamente, o resultado da educação revolucionária e da organização dos prisioneiros de guerra austríacos e húngaros na Rússia revolucionária, foram as rápidas eclosões das revoluções alemã, austríaca e húngara no início de novembro de 1918, apenas seis meses após a assinatura do tratado de Brest-Litovsk.

Quando, em 1920, o imperialismo britânico se prepara para intervir militarmente na guerra entre a Polônia e a Rússia, ameaçando destruir o regime soviético exangue após numerosos anos de guerra, de guerra civil e de declínio catastrófico da produção (sobretudo da produção alimentar), os apelos da Internacional Comunista ao movimento operário britânico para que ele se opusesse ativamente a estes preparativos de guerra foram coroados de sucesso. Um comitê de ação agrupando o Partido Trabalhista e os sindicatos convocou a preparação de uma greve geral nacional de duração ilimitada em caso de intervenção militar da Grã-Bretanha. Este apelo foi apoiado pela criação de comitês de ação locais para preparar a greve geral em mais de 400 cidades em todo o país. O imperialismo britânico bateu em retirada diante desta ameaça. Uma guerra entre a Grã-Bretanha e a Rússia Soviética foi evitada. A Rússia Soviética foi salva. Este foi o resultado prático da ação coordenada da classe operária européia.

No começo dos anos 20, a revolução chinesa entrou em uma nova etapa, com confrontações massivas entre intelectuais, trabalhadores, assim como na fração da burguesia chinesa, de um lado, e o imperialismo e seus títeres de outro. A Rússia Soviética enviou uma ajuda militar massiva à China, ajudou a organizar a resistência anti-imperíalista, e a estender a luta em grande escala. É verdade que o resultado do político errada de seguidismo em relação à burguesia do Kuomintang (KMT), levou, na primeira etapa, à derrota sangrenta da ciasse operária chinesa em abril de 1927. Ajudou Chiang-Kai-Chek a estabelecer sua ditadura reacionária e mantê-la durante dois decênios. Mas não se pode negar que esta ajuda soviética impediu, de uma maneira decisiva, que a China se tornasse uma simples colônia do imperialismo. Ao dar, nos anos 20, um forte impulso à criação do Partido Comunista Chinês (PCC) e à sua transformação em partido de massa, ela contribuiu indiretamente para a vitória da 3ª revolução chinesa em 1949, isto é, a derrubada final do capitalismo na China, quaisquer que tenham sido as intervenções contra-revolucionárias ulteriores da burocracia soviética contra a revolução chinesa.

Do ponto de vista econômico, social e político, os trabalhadores e os revolucionários têm que fazer face a uma realidade cada vez mais internacional. As tarefas que decorrem das necessidades objetivas da luta de classe, em particular no que concerne às revoluções, tendem a se situar cada vez mais a nível internacional. Hoje, é fundamental que o movimento operário reate com suas origens — as tradições do internacionalismo que estiveram na base da 1ª organização revolucionária, a de Marx e Engels, e da Internacional Comunista, em seu período revolucionário. A tarefa que elas se fixaram: coordenar, em escala mundial, a luta da classe operária para derrubar o capitalismo, coordenar, em escala mundial, o esforço para paralisar a contra-revolução internacional, é indispensável à luta de classe prática. A história demonstrou que a incapacidade de levar a bom termo essas tarefas conduziu o movimento operário a enormes recuos, a perdas consideráveis, senão a derrotas sangrentas.

5. A necessidade de uma nova direção revolucionária internacional

Já dissemos: a consciência das massas segue muito atrasada frente aos imperativos da realidade objetiva. Durante anos, elas foram deseducadas por suas direções reformistas que, em lugar de elevar sua consciência orientando-a para o internacionalismo, ensinaram-nas a defender seu "próprio" país e portanto seus "próprios" capitalistas, contra os trabalhadores e os oprimidos dos outros países do mundo.

Com a degenerescência da Internacional Comunista em simples instrumento dos giros e guinadas da política externa da burocracia soviética, a ausência de uma força dirigente e coordenadora das lutas revolucionárias internacionais se fez sentir cruelmente — justamente porque estas lutas não desapareceram Ao invés de ajudar a apoiar a revolução espanhola, o Comintern stalinizado a estrangulou, tornando por isto inevitável a conquista de toda a Europa por Hitler, assim como sua agressão à União Soviética em bases extremamente favoráveis. Em lugar de ajudar a apoiar os ascensos revolucionários dos trabalhadores da Grécia, Itália e França, em 1944/48, Stálin entregou-os ao imperialismo ocidental (somente na Iugoslávia uma tentativa semelhante foi derrotada pelos próprios comunistas iugoslavos). Em lugar de organizar, desde o início, um apoio à revolução indochinesa, Stálin, depois Kruschev e Brezhnev só lhe forneceram um apoio em conta-gotas, evitando que ela desmoronasse face à agressão imperialista, mas adiando por vários decênios uma vitória que poderia ter sido atingida muito mais cedo. As conseqüências materiais de três decênios de agressões e guerras jogaram um papel importante no encadeamento de tragédias que se seguiram à vitória da revolução indochinesa.

A necessidade de uma nova Internacional revolucionária portanto se fez sentir objetivamente a partir do momento em que o fimdo; Comintern, enquanto instrumento da revolução mundial, foi confirmado por acontecimentos internacionais decisivos, isto é, a partir da conquista do poder por Hitler em 1933. Desde então, ela constitui a base política do combate da IV Internacional.

a) Revolução Permanente ou "socialismo em um só país"

O fracasso da revolução russa em se estender vitoriosamente no período 1917-1923 aos países industrializados decisivos, deixou-a em um país relativamente atrasado. Em conseqüência, um processo de burocratização crescente do Estado soviético e do PC da União Soviética foi deflagrado. Ele conduziu a Internacional Comunista ao declínio e, em seguida, à sua destruição como instrumento da revolução mundial. Este processo, do qual o stalinismo é a expressão política e ideológica, reflete o fato de que uma nova camada privilegiada, a burocracia soviética — que não é uma nova classe dirigente — expropriou a classe operária soviética do exercício do poder político, concentrou em suas mãos o controle do sobreproduto social, e com isso, monopolizou o poder em todas as esferas da sociedade soviética. Ela usa este poder para defender seus próprios privilégios materiais, que são consideráveis em comparação com o nível de vida médio do trabalhador e do camponês russo.

A primeira revisão fundamental do marxismo, que exprimiu esta usurpação do poder pela burocracia soviética, foi a elaboração da teoria segundo a qual se podia concluir a construção de uma sociedade socialista na Rússia, no isolamento do resto do mundo. Trata-se da "teoria do socialismo em um só país". Esta teoria exprimiu o conservadorismo fundamental da burocracia soviética, seu abandono da revolução mundial em favor da manutenção do "status quo" internacional, isto é, em favor da coexistência pacífica com o imperialismo ou da divisão do mundo em esferas de influência entre a burocracia soviética e o capitalismo internacional.

Se os marxistas revolucionários jamais conclamaram a União Soviética ou o seu governo a "provocar" artificialmente revoluções em outros países ou a "estimulá-las" através de aventuras militares externas, nem a "esperar a revolução mundial" antes de começar a desenvolver a economia e a sociedade soviéticas em direção ao socialismo, eles compreendiam perfeitamente que a sorte da União Soviética (inclusive a evolução e as mudanças de sua estrutura interna) permanecia ligada ao resultado das lutas de classes em escala mundial. Da mesma maneira que a classe operaria internacional tem o dever de defender a União Soviética contra as tentativas do imperialismo de lá restaurar o capitalismo, a União Soviética tem o dever de ajudar e de fazer avançar a revolução mundial, em todos os casos onde lutas revolucionárias de massa e crises revolucionárias profundas, em um ou vários países, atestam possibilidades objetivas de obter novas vitórias revolucionárias. Este dever mútuo corresponde a um interesse comum. Cada derrota da revolução mundial enfraquece objetivamente a União Soviética, reforçando o imperialismo mundial. Da mesma forma, a restauração do capitalismo na União Soviética (e em outros Estados operários) reforçaria terrivelmente o imperialismo mundial, e com isso enfraqueceria objetivamente a revolução mundial, c proletariado mundial e todas as forças anti-imperialistas em todo o mundo.

A ruptura com esta posição clássica do internacionalismo proletário, tal como foi aplicada pela Internacional Comunista nos primeiros anos de sua existência, não era somente uma ruptura com os interesses da revolução mundial e do proletariado mundial. Ao mesmo tempo, ela impôs enormes sacrifícios evitáveis aos trabalhadores soviéticos na defesa de seu Estado. Suas conseqüências mais graves foram reveladas mais tarde, se bem que Trotsky e a Oposição de Esquerda soviética tivessem-nas previsto desde o início.

A "teoria do socialismo em um só país" implica na subordinação dos interesses dos trabalhadores do mundo inteiro aos pretensos interesses da "fortaleza socialista" ou do "campo socialista" (na realidade, aos interesses da burocracia soviética, inteiramente distintos dos do proletariado soviético e do Estado operário enquanto tal). Mas esta subordinação implica numa concepção, que Trotsky denominou 'função messiânica" atribuída a um país particular ou, ao menos, ao movimento operário ou ao proletariado deste pais. No entanto, nada limita tal "nacional-comunismo" messiânico a um só país (a União Soviética) e a este país somente. Ao contrário, uma vez que "a teoria do socialismo em um só país" foi plenamente assimilada por todos os dirigentes e quadros dos PCs educados sob o stalinismo, pode ser reproduzida à vontade em qualquer país onde o capitalismo tenha sido derrubado.

Assim, o PC chinês, após a abertura dc conflito sino-soviético, considerava que ele se tornara "o bastião da revolução mundial", ao contrário da União Soviética, onde o capitalismo teria sido restaurado. Assim, toda associação contra-revolucionária repugnante com forças reacionárias burguesas através do mundo contra a União Soviética (com o Xá do Irã, com as ditaduras militares do Paquistão, com o imperialismo americano, com Franz-Josef Strauss, com Sadat, com o carniceiro militar chileno Pinochet, com a ditadura militar tailandesa) é justificada em nome da defesa da "fortaleza socialista", identificada com o Estado chinês. O trágico resultado final as falsas doutrinas do "nacional-comunismo" são as guerras entre "países socialistas", de que as burocracias privilegiadas governantes são os únicos responsáveis e não o socialismo, ou o comunismo, ou a classe operária.

b) A necessidade de uma Internacional fundada no centralismo democrático

Os frutos amargos do "nacional-comunismo" também acentuaram o nacionalismo e as desconfianças nacionais entre as nações, mesmo após a derrubada do capitalismo. Eles criaram, por todo um período, uma desconfiança em relação a toda organização internacional em setores importantes do proletariado e dos movimentos de massa de todo o mundo. Esta desconfiança é o produto da experiência desastrosa com o stalinismo em todas as suas variantes e em todas as ramificações ideológicas, inclusive o maoismo, que identificou o internacionalismo proletário com a subordinação dos interesses dos trabalhadores e dos revolucionários de diferentes países às manobras do aparelho de Estado burocratizado de um só país. Numa reação exagerada contra o centralismo burocrático stalinista internacional (o dirigente stalinista do PC francês, Maurice Thorez, inventou muito bem a fórmula: "o internacionalismo proletário hoje é a solidariedade com a União Soviética") muitos revolucionários acabaram por jogar o bebê junto com a água do banho recusando toda forma de organização internacional que implique um real engajamento baseado no centralismo democrático internacional.

 

Esta reação, se bem que compreensível, é um enorme passo atrás, não somente em relação às necessidades objetivas, como também com relação ao que a teoria e a prática revolucionárias haviam estabelecido no curso dos primeiros decênios de nosso século. Apesar da sua atração superficial — e freqüentemente demagógica — esta reação deve ser vigorosamente combatida. Tal como os revolucionários não podem rejeitar a ditadura do proletariado, ou a própria idéia da luta de classe, simplesmente porque elas foram monstruosamente deformadas e manchadas pelo stalinismo, eles não podem rejeitar o internacionalismo proletário ou a necessidade de uma Internacional revolucionária em razão do cínico abuso que fizeram desses conceitos o bando e o sub-bando das burocracias. Confrontado com as formas cada vez mais internacionalizadas da revolução e da contra-revolução, às ações e à estratégia contra-revolucionária imperialistas cada vez mais centralizadas, toda separação das forças anti-imperialistas e proletárias em setores puramente "nacionais" ou "regionais", operando independentemente uns dos outros, sem organização internacional comum, só pode enfraquecer gravemente as forças da revolução, em benefício exclusivo do inimigo de classe. A centralização do papel contra-revolucionário do imperialismo exige uma coordenação internacional das atividades revolucionárias. Rejeitar a organização internacional não tem sentido, de um ponto de vista teórico e prático, exceto se pensarmos que o "socialismo em um só país" é realmente possível, como o pensam, de fato, não somente os stalinistas e os eurocomunistas, mas também os reformistas de esquerda e diferentes formações centristas.

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