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Michael Roberts: A temperatura da crise

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O mainstream enfrenta desafios históricos?

Michael Roberts, A terra é redonda, 7 de fevereiro de 2021

Recentemente, a recém-confirmada secretária do Tesouro dos EUA e ex-chefe do Federal Reserve, Janet Yellen, expôs, em uma carta a sua equipe, os desafios que o capitalismo americano agora enfrenta. Disse: “a crise atual é muito diferente daquela ocorrida em 2008. A sua escala é igualmente grande, se não for ainda maior. A pandemia causou uma devastação total na economia. Indústrias inteiras pararam suas operações. Dezesseis milhões de americanos ainda dependem do seguro-desemprego. As prateleiras dos bancos de alimentos estão ficando vazias.”

Tudo isso já aconteceu, mas o que o porvir lhe reserva? Sobre o futuro, Yellen diz que os Estados Unidos enfrentam agora “quatro crises históricas: a da COVID-19 é apenas uma delas. Além da pandemia, o país também enfrenta uma crise climática, uma crise de racismo sistêmico e uma crise econômica que se arrasta há cinquenta anos.”

Ela não explicou em que consiste essa crise que já dura cinquenta anos. Mas, apesar disso, afirmou que estava confiante de que a teoria econômica mainstream pode encontrar as soluções. “A teoria econômica não é apenas algo que se encontra nos livros. Nem é simplesmente uma coleção de modelos. Na verdade, passei da academia para o governo porque acredito que a política econômica pode ser uma ferramenta poderosa para melhorar a sociedade. Podemos – e devemos – usá-la para enfrentar a desigualdade, o racismo e as mudanças climáticas. Ainda tento ver minha ciência – a ciência da economia – da maneira como meu pai via a dele: como um meio de ajudar as pessoas.”

São belas palavras! Mas a economia dominante foi realmente projetada para “ajudar as pessoas”, para melhorar as suas condições de vida, assim como para lhes garantir os meios de subsistência? Indo mais fundo, está a ortodoxia realmente oferecendo uma análise científica das economias modernas, uma análise que pode gerar políticas capazes de resolver aqueles “quatro desafios históricos”, tal como Yellen afirma?

Ora, o fracasso da economia dominante em prever, explicar ou lidar com a crise financeira global, assim como a subsequente Grande Recessão de 2008-9, está bem documentado. Como já mostrei no blog The next recession, as evidências dificilmente corroboram as afirmações de Yellen. O estado de alienação dos economistas do mainstream é profundo e não tem mais cura.

A teoria econômica do próprio sistema não pode entregar o que promete. Ela, em seus dois ramos da microeconomia e da macroeconomia, está fundada em suposições que não estão de acordo com a realidade. A “corrente principal”, na verdade, não pode ser tomada como uma análise científica das economias modernas (capitalistas).

Primeiro, ela se funda na teoria da utilidade e no marginalismo; adota um modo de raciocinar sobre o sistema econômico que denomina de “análise do equilíbrio geral”. Ora, pergunta-se, de onde vem a “riqueza” nessa sociedade, como ela poderia ser medida? Os economistas clássicos, Adam Smith, David Ricardo etc. reconheceram que havia apenas uma medida confiável e universal de valor: a quantidade de trabalho (horas) despendida para produzir bens e serviços. Mas esta teoria do valor-trabalho foi substituída, em meados do século XIX, pela teoria da utilidade ou, mais precisamente, pela teoria da utilidade marginal.

A utilidade se tornou, então, a explicação mais aceita para o valor. No entanto, Engels foi capaz de observar a sua miséria: “A teoria da moda agora é a de Stanley Jevons. Ela diz que o valor é determinado, por um lado, pela utilidade e, por outro lado, pelo limite da oferta (isto é, pelo custo de produção). Ora, essa é apenas uma maneira confusa e tortuosa de dizer que o valor é determinado pela oferta e demanda. Trata-se simplesmente de economia vulgar – e não de ciência”.

Contudo, a teoria da utilidade marginal original rapidamente se tornou insustentável mesmo para os economistas do mainstream porque o valor subjetivo (segundo o qual, cada indivíduo valoriza um mesmo bem maneira diferente de acordo com sua inclinação ou segundo as circunstâncias) não pode ser observado, medido ou mesmo agregado. A base psicológica da utilidade marginal foi logo abandonada. Passou-se, então, a manter essa noção como uma mera convenção explanatória. Para saber mais sobre as suposições falaciosas da teoria do valor dominante, consulte-se o excelente livro de Steve Keen, Debunking Economics (Desmascarando a Teoria Econômica) ou mesmo a crítica mais recente de Ben Fin à microeconomia e à macroeconomia.

Engels chamou a economia mainstream de “vulgar” porque não pode considerá-la como uma análise científica e objetiva do modo de produção capitalista. Ela nunca passou, para ele, de uma justificativa ideológica para o capitalismo. Eis como Fred Moseley a caracterizou: “A teoria da produtividade marginal fornece um suporte ideológico crucial para o capitalismo, na medida em que justifica o lucro dos capitalistas, argumentando que o lucro é produzido pelos bens de capital de propriedade dos capitalistas. Assim, tudo é justo no capitalismo, pois não há exploração de trabalhadores. Em geral, todos recebem uma renda igual à sua contribuição para a produção”.

Em contraste, diz ele ainda: “a principal teoria alternativa sobre a origem do lucro é a teoria de Marx. Ela conclui que há exploração dos trabalhadores, que os conflitos entre trabalhadores e capitalistas estão sempre presentes, que as crises e depressões ocorrem de modo recorrente etc.). Ela é subversiva demais para ser aceitável aos economistas do sistema. Mas essas são razões ideológicas, não científicas. Se a escolha entre a teoria de Marx e a teoria da produtividade marginal fosse feita estritamente com base em critérios científicos, tais como rigor materialista, consistência lógica, poder explicativo empírico, a teoria de Marx venceria facilmente.”

O resultado lógico do desenvolvimento da economia vulgar é a teoria do equilíbrio geral. Aí se argumenta que as economias modernas tendem ao equilíbrio e à harmonia. O fundador da teoria do equilíbrio geral, Leon Walras, caracterizou uma economia de mercado como um lago gigante. Às vezes, ocorrem ondulações, por exemplo, quando uma pedra menor ou maior é nela lançada. Eventualmente, na ausência de choque exógenos, as ondulações desapareceriam; o lago se tornaria assim tranquilo. A oferta pode exceder eventualmente a demanda em um mercado por meio de algum choque, mas os mercados se ajustariam rapidamente para equilibrar as ofertas e as demandas como um todo.

Walras estava – bem ciente de que sua “teoria” era uma defesa ideológica do capitalismo. Veja-se o que o seu pai lhe escreveu em 1859, quando Marx estava ainda preparando O Capital: “Eu aprovo totalmente seu plano de trabalho para permanecer dentro de limites menos ofensivos em relação aos proprietários. É necessário fazer a ciência da economia política do mesmo modo como se faz a ciência da acústica ou da mecânica”.

Mais recentemente, em 2017, a ganhadora do prêmio Nobel, Esther Duflo, em um discurso dirigido para os membros da American Economics Association, avaliou que os economistas deveriam desistir das grandes ideias; ao invés de teoria, eles deveriam proceder como os encanadores: “instalem os canos e consertem os vazamentos” – proclamou sem se ruborizar!

Mas vale perguntar: as economias e os mercados realmente tendem ao equilíbrio quando são afetados por “choques”? Para responder a essa pergunta, basta apenas olhar para as oscilações nos mercados de ações ocorridas nesta última semana. Uma dúvida atroz logo acudiria ao investigador honesto. Na verdade, as economias modernas parecem oceanos com ondas gigantes e endógenas, submetidos às marés ocasionadas pela atuação da lei gravitacional do lucro, sacudidos constantemente por tempestades que ele própria cria conforme regula o clima atmosférico.

Na verdade, não há tranquilidade nem equilíbrio, mas sim um movimento turbulento contínuo que é endogenamente gerado. A economia marxista, que não quer esconder a realidade, procura examinar as “leis dinâmicas do movimento” que afetam o capitalismo ao longo do tempo. Em contraste, a teoria econômica mainstream suspende a temporalidade imanente do capital; vê as flutuações como “distúrbios” causados por “choques externos”, os quais apenas perturbam ocasionalmente os “mercados livres”.

Claro, alguns economistas do mainstream que não querem parecer “burros” admitem que as teorias da utilidade marginal e do equilíbrio geral são absurdas. Ocasionalmente, cientistas que trabalham no campo das “ciências naturais” atacam os pressupostos dessa teoria padrão. O mais recente crítico é o físico britânico Ole Peters. Eis o que ele afirma peremptoriamente: tudo o que supostamente aprendemos da teoria econômica moderna está errado. Pois, segundo ele, os modelos econômicos convencionais presumem algo que chama de “ergodicidade”. O devir não é dependente de trajetória, não está aberto ao possível não probabilístico. Ao conhecer a média de todos os resultados possíveis de uma dada situação, descobre-se já aquilo que vai acontecer.

Peters aponta que a teoria da utilidade convencional, segundo a qual fazemos sempre uma análise de custo-benefício quando tomamos qualquer decisões, supõe que agimos adequadamente para maximizar a nossa riqueza. (N. T.: a crítica que se segue admite, pois, que o uso dessa convenção explanatória tem sentido e que é admissível cientificamente).

A solução para apreender os mercados nessa perspectiva foi tomar emprestada da Física, a matemática comumente usada na termodinâmica para modelar resultados econômicos que são obtidos usando a “média correta”. O problema, diz Peters, é que isso não consegue prever como os humanos realmente se comportam. A matemática empregada, segundo ele, é falha. A utilidade esperada é calculada como uma média de todos os resultados possíveis para um determinado evento. O que falta acrescentar é que um único ponto fora da expectativa pode, com efeito, distorcer toda a percepção. Ou, dito de outra forma, o que se pode esperar em média tem pouca aderência àquilo que maioria das pessoas vai experimentar de fato.

Peters diz que a realidade econômica, mais frequentemente, comporta-se segundo “leis de potência”. Os mercados, a evolução da riqueza, o movimento do emprego etc. não tendem para a média ou para o equilíbrio, como postulou Walras. Em vez disso, a desigualdade pode se elevar extremamente, o desemprego pode aumentar de modo contínuo etc. Os pontos fora da regularidade estatística podem ter impactos decisivos no comportamento das variáveis econômicas.

Porém, é preciso convir que reconhecer a incerteza e o acaso, que inserir esses eventos nos modelos matemáticos, não vai também muito longe. É preciso fundar os “modelos” econômicos na realidade da produção capitalista, ou seja, no fato de que a produção capitalista é exploração do trabalho para a obtenção de lucro. É preciso considerar as crises regulares e recorrentes como resultantes do investimento e da produção capitalista, ou seja, as leis do movimento do capitalismo.

Um economista marxista do início do século XX, Henryk Grossman, apresentou já acuradamente a falha central da teoria econômica que aqui se critica: ela está baseada na análise estática, na estática comparativa. Ora, o capitalismo não avança gradativamente, recebendo às vezes choques pontuais, de um modo sempre harmonioso em direção à superabundância e à sociedade do lazer. Ao contrário, ele é cada vez mais impulsionado por crises, desigualdades e pela destruição do planeta.

Diante de toda evidência, a economia mainstream apenas inventa possíveis causas exógenas ou “choques” para explicar as crises, porque não quer admitir que elas são endógenas. Para ela, a Grande Recessão de 2008-9 foi uma ocorrência fortuita, “uma chance em um milhão”, ou mesmo um “choque inesperado”. Tratou-se de um “cisne negro”, um desconhecido-desconhecido, algo que para ser explicado talvez exija um novo modelo matemático mirabolante. Da mesma forma, a pandemia COVID-19 figura aparentemente como um “choque exógeno imprevisto” – não como uma consequência previsível da busca enlouquecida do capitalismo por lucros; não da invasão descontrolada de áreas remotas do mundo na quais residem esses patógenos perigosos. Ora, a ortodoxia não quer uma teoria das causas endógenas das crises.

No campo da macroeconomia, a teoria keynesiana moderna também tem de ser considerada como insuficiente. O keynesianismo moderno (ou ‘keynesianismo bastardo’ como foi chamado por Joan Robinson) baseia a sua análise das crises do capitalismo como se elas decorressem de “choques” que perturbam o equilíbrio. Ela emprega os chamados modelos de equilíbrio geral estocástico e dinâmico (DGSE) para analisar o impacto desses “choques” no sistema econômico.

Entre outros, o jornalista econômico keynesiano Martin Sandbu abriu uma campanha modesta contra essa abordagem. “Há poucas dúvidas” – disse ele – “de que a macroeconomia convencional está precisando de uma profunda reforma. A questão que sobra é saber se essa abordagem padrão, a modelagem DSGE, pode ser melhorada ou se deve ser totalmente descartada”. Como ele próprio convém em adição: “a macroeconomia DSGE não permite realmente considerar o pânico financeiro em grande escala visto em 2008. Não permite optar, também, por algumas das principais explicações conflitantes para a lenta recuperação e para um nível de atividade econômica que permanece muito abaixo da tendência pré-crise”. Sandbu quer que a análise econômica avance no rumo de “uma forma mais expansiva e liberal de DSGE” .

Recentemente, ele elogiou a ideia dos chamados equilíbrios múltiplos como uma característica padrão que deve ser adotada nos modelos macroeconômicos. “Ela permite que possam existir vários estados de auto reforço em que a economia pode cair, não apenas um único equilíbrio em torno do qual flutua. Pois, com equilíbrios múltiplos, não existe uma tendência central única. No mínimo, existem várias. Embora seja possível prover a distribuição de probabilidade associada a cada equilíbrio possível, prever em qual deles a economia se encontrará é uma questão bestial completamente diferente.Sandbu apresenta essa abordagem de múltiplos equilíbrios como um método que torna possível obter melhores resultados na análise econômica: “torna-se claro que, de longe, a questão de política mais importante é a seleção de equilíbrio: como tirar a economia de um estado ruim de auto reforço ou evitar rupturas que a tirem de um bom estado”.

Ora, isso não parece ser muito diferente do que se apresenta nos modelos de equilíbrio geral tradicionais. E, pior ainda, havendo agora “equilíbrios múltiplos” como possibilidade na representação das economias modernas – considera Sandbu – “fica ainda mais difícil para os economistas saber como aconselhar”.

Se for assim, então não podemos esperar que a teoria econômica ortodoxa possa enfrentar de fato os quatro desafios históricos apontados por Janet Yellen. Quais eles eram mesmo? O capitalista precisa lidar com as futuras pandemias; precisa resolver a crise climática; precisa acabar com a desigualdade e o racismo; precisa superar a crise que já dura 50 anos, desde os anos 1970. Ora, só é possível esperar que os discursos de Janet feitos para instituições financeiras em Wall Street, bastiões do capital financeiro internacional, os quais lhe renderam mais de US$ 7 milhões nos últimos anos, tenham apresentado soluções para os quatro desafios históricos. Mas, leitores, não prendam a respiração aguardando qualquer resposta convincente.

Michael Roberts é economista. Autor, entre outros livros, de The Great Recession: a Marxist View. Tradução: Eleutério Prado. Publicado originalmente em The next recession blog.

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