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Michel Husson: O capitalismo no fio da navalha

Combinar objetivos sociais e ambientais é essencial, já que a crise vai ser tomada como um pretexto para adiar a transição ecológica ou relaxar regulações, em nome do emprego.

· Sem Fronteiras,Formação,Vale a pena ler

Michel Husson, CADTM, 23 de junho de 2020. Tradução de Antonio Souza

A experiência da nossa geração: o capitalismo não morrerá de causas naturais. Walter Benjamin [1]
O futuro, não tens que prevê-lo, tens que permití-lo. Antoine de Saint-Exupéry [2]

Essa contribuição, cujo título foi tomado da OCDE [3], é, na verdade, para continuar a metáfora, um barbeador com várias lâminas. Tentamos mostrar, em primeiro lugar, que uma recuperação sincronizada está fora de alcance, e que a forma que o capitalismo tomará é uma questão eminentemente social. [4]

O vírus estava na fruta?
O coronavírus não chegou a atingir um corpo sadio. Desde a crise de 2008 o capitalismo funcionava em uma forma instável que reproduzia quase o mesmo que conduziu a crise anterior, por falta de um modelo alternativo. Os sinais de advertência de uma nova recessão estavam se acumulando, a globalização cessava seu avanço, os lucros de produtividade estavam em seu ponto mais baixo e o endividamento das empresas privadas em seu ponto mais alto, etc. Tudo isso são fatos, e não voltaremos a tratar sobre eles aqui.

Mas é possível dizer que “o coronavírus adianta a crise, não a causa” como dizem Frédéric Boccara e Alain Tournebise? Segundo eles, deveria se “distinguir o fator acelerador ou precipitador (o vírus) e a causa (superacumulação financeira)” [5]. Encontra-se quase a mesma posição em Michael Roberts: “Estou seguro de que quando termine esse desastre, a economia dominante e as autoridades alegarão que foi uma crise exógena que não tem nenhuma relação com os defeitos inerentes ao modo de produção capitalista e a estrutura social: é culpa do vírus! (...) O COVID-19, enquanto um colapso financeiro, não é um relâmpago, um choque que golpeia uma economia capitalista cujo crescimento foi harmonioso em si mesmo.” [6] Por sua vez, Eric Toussaint disse: “não, o coronavírus não é o responsável pela queda das bolsas de valores” [7].

Estes autores, reivindicando outra parte do marxismo, possivelmente tinham escrito muito rápido (foi em março). Mas esse reflexo indica a dificuldade existente para termos noção da especificidade dessa crise. Certamente, a possibilidade mesma de uma pandemia remete aos efeitos de uma agricultura produtivista nos ecossistemas [8] e ao intenso movimento de pessoas e mercadorias em todo o globo. O fato é que esta crise não é uma crise clássica. Portanto não se pode analisá-la como tal, nem imaginar cenários para o depois da mesma maneira que poderíamos fazê-lo com a crise precedente.

Sua característica principal, sem precedentes, é o envolvimento entre uma crise sanitária e uma crise econômica sob a insígnia do confinamento. Depois da Grande Depressão, esse é o Grande Lockdown, para usar o termo do FMI [9]. A classificação cara aos economistas tradicionais entre choques de oferta e de demanda perde todo o seu significado, se alguma vez ter um. Essa distinção é válida apenas se pensamos sobre o pequeno esquema clássico, que os estudantes de economia conhecem muito bem, onde uma curva de oferta se cruza com uma curva de demanda. Essa representação estática não corresponde à realidade do capitalismo, que é um processo de reprodução do capital. É bastante divertido observar como um prêmio Nobel em economia, Paul Krugman [10], pode extasiar-se com um estudo [11] que descobre as interações entre oferta e demanda.

Dessincronização da crise… e da recuperação
Uma das características essenciais dessa crise é fracionar a economia, em outras palavras, atingir seus diferentes segmentos de maneira desigual. As medições globais sobre a diminuição do PIB são, de fato, apenas uma média de desenvolvimentos muito diferenciados. Certos setores se veem diretamente afetados por medidas de fechamento puro e simples, especialmente no comércio varejista não essencial, outros o são menos. Os cálculos realizados pela OFCE [12] estabelecem que, a nível mundial, a perda de valor agregado oscilaria entre 47% para o ramo de hotéis e restaurantes, até 7% para a indústria de alimentos e 3% para a administração pública. Outro estudo [13] estabelece que são os setores a montante cuja atividade está mais reduzida, ou seja, os setores mais prejudicados da demanda final. Tudo acontece como se o vírus rastreasse as filiais passando da jusante (a demanda) até a montante (a oferta).


Portanto, os danos não estão sendo infligidos que maneira justa. Por exemplo, os setores de serviços mais afetados geralmente empregam uma grande mão de obra, frequentemente a baixos salários, com contratos precários, para os quais o trabalho a distância costuma ser impossível. Segundo a OCDE, mais de um terço das empresas teriam problemas financeiros após três meses de confinamento [14]. Daí surgem as medidas de apoio (pagamento atrasado de impostos, mora de dívidas, encargo de uma parte do salário). Mas outra pequena música começa ao amanhecer: não seria a crise uma boa oportunidade para eliminar as empresas zumbis que não merecem sobreviver? Três economistas [15] sugeriram inclusive que corresponderia aos bancos decidir o seu destino, o que, segundo eles, permitiria “uma seleção eficiente, preservando as empresas socialmente viáveis, sem subsidiar as empresas zumbis”.


A mesma heterogeneidade aparece entre países. O estudo já citado da OFCE mostra que a queda do PIB varia de 36% na Espanha para 12% no Japão. Mas aqui é necessário ter em conta a transmissão através das cadeias de valor. Um estudo estima que cerca de um terço da queda do PIB é resultado dos choques transmitidos pelas cadeias de suprimentos mundiais. Como esta queda foi de uma média de 31.5%, “um país que não impôs nenhum confinamento, haveria registrado uma contração média de 11% do PIB devido aos confinamentos em outros países [16]”. Por isso não se pode pensar país por país: a seguinte infografia é particularmente esclarecedora nesse ponto, se trata da origem e do valor dos componentes estrangeiros incorporados a produção de veículos montados na França. Existe uma forte interdependência regional (mais de 75% dos componentes de produzem na Europa) que torna impossível a produção em um contexto de confinamento-relaxamento não sincronizado. A interrupção da produção em um ponto da cadeia paralisa o restante da produção, tanto mais rapidamente porque a indústria opera com níveis de estoque muito baixos, que não permitem absorver a menor desaceleração na produção [17].


O vírus e a fome golpeiam o sul
O número de casos tem diminuído na Europa, assim como o número de mortes. Mas não acontece o mesmo no resto do mundo, onde outras regiões tem tomado a dianteira, especialmente na América Latina e parte da Ásia, como se mostra no gráfico abaixo que dá o número de novos casos em nível mundial [18].


A extensão da epidemia está afetando muitos países que já enfrentam dificuldades econômicas imensas, que se agravam com a crise atual: queda de preço das matérias primas, evasão de divisas, afundamento do câmbio, aumento da dívida. Para dar apenas um exemplo, os países africanos gastam mais a serviço da dívida que em saúde pública. Além disso, há uma crise alimentar e social desencadeada pela interrupção de atividades e agravada pela ausência de entradas adicionais, especialmente do setor informal. Como disse a ONG Grain, milhões de pessoas se veem obrigadas a escolher entre a fome e a COVID-19 [19]. A ofensiva diferenciada do vírus proíbe considerar uma recuperação equilibrada, ou seja, uma recuperação em que todos os setores reiniciariam ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo.


“Nunca desperdice uma crise grave”
“Nunca desperdice uma crise grave” (Never Let a Serious Crises Go To Waste), eis o princípio estabelecido em 2008 por Rahm Emanuel, chefe de gabinete de Obama. Elas são, disse ele, “uma oportunidade para fazer coisas que antes se acreditava não ser possível fazer”. Estava em sua mente por uma boa causa: “o que antes se considerava problemas a longo prazo, seja no campo da saúde, da energia, da educação, dos impostos, da reforma regulatória, tantas, tantas coisas que havíamos esperado muito tempo agora estão na agenda” [20]. Milton Friedman disse mais ou menos a mesma coisa: “somente uma crise, seja real ou percebida, conduz a uma verdadeira mudança. Quando se produz essa crise, as medidas que se tomam dependem das ideias que estão em sintonia com os tempos.” [21]


De fato, temos assistido a um verdadeiro giro. Os Estados e as instituições tem jogado a toalha para todos os seus princípios, e podemos dizer inclusive que sua reação tem estado a altura da crise: tem atuado como se nossas vidas valessem mais que seus lucros. Meçamos o risco que assumimos com essa declaração provocativa, e esperemos que não se cite sem o conteúdo que segue. Mas sigamos a partir desta chave: uma boa parte da economia está parada, a maioria das entradas se mantiveram e todas as regras da ortodoxia orçamentária foram abandonadas. É certo que essas declarações devem ser postas em perspectiva: inúmeros trabalhadores assalariados são mais ou menos obrigados a trabalhar, e os precários, alguns autônomos ou comerciantes, tem visto cair suas entradas. Porém não é menos certo que se estão investindo somas consideráveis para compensar os efeitos da crise. Não faz falta dizer também que a gestão da crise revelou enormes disfunções que deverão ser avaliadas e extraídas delas todas as consequências. Porém a observação é clara: o capitalismo aceitou diminuir temporariamente suas fontes de mais-valia e as autoridades começaram seus discursos.


Mas essa adoção incongruente de políticas heterodoxas tem seu revés: se fará de tudo, a seu devido tempo, para preencher o vazio. Por isso se deve esperar uma reação, onde a violência das medidas tomadas será de um tamanho equivalente aos prejuízos que o capitalismo teve de consentir. A risco de atribuir-lhe uma personalidade, se poderia dizer que vai querer vingar-se do que se viu obrigado a sofrer. De fato, haverá uma recuperação em forma de V, mas será o melhor das políticas neoliberais. Gilbert Achcar tem toda razão ao dizer que o próximo desejo de todos os governos neoliberais é o de “descarregar na classe trabalhadora a enorme dívida que se está contraindo atualmente, como já fizeram na Grande Recessão, reduzindo o poder aquisitivo das pessoas e sua propensão ao gasto, levando assim o mundo a um maior agravamento do atual estancamento secular [22]”.


Backlash
Achcar tem especial razão ao evocar as contradições inerentes a essa reação violenta (backlash para usar o termo utilizado pelas feministas). As políticas de retorno ao “business as usual” correm o risco de autodestruir-se e conduzir a uma trajetória em zigzag das economias. Desse modo, não há simetria garantida entre os dois ramos da recuperação em forma de V. Uma vez mais, a queda não ocorreu homoteticamente: todos os setores e zonas da economia mundial não se viram afetados e não se reiniciarão no mesmo ritmo. A reativação das políticas neoliberais não terá lugar de maneira coordenada e sem dúvida desencadeará reações em cadeia que conduzirão a novas formas de recessão.


O primeiro exemplo se dá no mercado de trabalho. Não podemos esquecer que os benefícios também se verão afetados, como explica o economista Eric Heyer: “as empresas sofreram perdas de 40 bi de euros. Isso significa que em oito semanas perderam o equivalente ao Crédito Fiscal Para a Competitividade e Emprego (CICE) estabelecido por François Hollande. Todo esse esforço econômico, essa transferência do Estado para as empresas, desapareceu durante o confinamento. Isso corresponde a uma queda de 3 pontos na taxa de margem das empresas, é gigantesco [23]”


Tudo aponta ao fato de que avançamos em direção a sistemas que farão da massa salarial uma das principais variáveis de ajuste que permitirão restaurar a rentabilidade das empresas. Redução parcial do desemprego, acordos de manutenção do emprego, aumento da jornada de trabalho, automatização acelerada [24]: todos os sinais estão aí. Isso significa que tendemos a uma recuperação sem emprego, ou seja, relançar a economia reduzindo ao máximo os trabalhadores efetivos. Mas o efeito de retorno é um freio a retomada do consumo: de fato não se pode congelar, ou diminuir, a massa salarial ao mesmo tempo que se impulsiona o consumo. A menos que se conte com uma reconversão da economia forçada dos lares cuja renda se preservou um pouco, enquanto o consumo estava confinado.


Esse círculo vicioso pode estender-se a toda a economia europeia, ou mundial. A dessincronização das economias levanta a questão das respostas coordenadas. Em termos de saúde, está claro que a coordenação tem sido quase inexistente: cada país reagiu a sua maneira e como pôde, apesar do vírus não conhecer fronteiras. Essa pergunta se levantará outra vez de forma aguda quando se dispuser de uma vacina, ou de vacinas, com as quais devemos nos preocupar, já que a União Europeia até agora tem dependido de pesquisa em parceria com empresas privadas guiadas por critérios distintos do interesse público [25].


Com a recuperação econômica, todos os países buscarão, com possibilidades muito desiguais de sucesso, capturar a maior fração possível da retomada do comércio de mercadorias. A curto prazo, a forma mais adequada é ganhar competitividade reduzindo o custo salarial: certamente, a competitividade depende de muitos outros fatores, mas sobre os quais não se pode intervir rapidamente. Então nos encontraríamos com uma configuração, completamente clássica, onde todos, ou quase todos, perdem neste pequeno jogo: no passado recente já vimos recessões autoinfligidas por tais políticas.


Há, por certo, um corretivo poderoso aos progressos, certamente tímidos, na coordenação das políticas fiscais europeias. Os mesmos países que, no pátio, concordam, inclusive arrastando os pés, em pedir emprestado juntos para cobrir suas dívidas, se enfrentarão no jardim, pela conquista ou preservação de suas cotas de mercado. Essa competição bem poderia combinar-se com uma tendência ao protecionismo, invocando a necessidade de recuperar uma soberania minada pela globalização. O tema da relocalização, ainda que legítimo, levanta importantes problemas, já que pode utilizar-se para recuperações soberanistas. Demonstra uma pesquisa recente que uma esmagadora maioria está a favor de promover a autonomia agrícola da França, a relocalização de indústrias e a pesquisa e produção de laboratórios farmacêuticos no país [26]. Muitos países têm tomado medidas protecionistas, e o enfrentamento de Trump contra a China se intensificará. Independentemente de sua legitimidade, e até mesmo de sua viabilidade, tais medidas exercerão uma pressão recessiva sobre a dinâmica da economia mundial, que também terá efeitos muito diferenciados.


Essa combinação paradoxal de competitividade ofensiva e protecionismo defensivo é um fator duradouro na desorganização da economia mundial. Mas em última instância é bastante coerente com o mix de neoliberalismo e autoritarismo que caracteriza a governança de muitos países na atualidade.


O boomerang da consolidação financeira
Por agora, os países europeus avançam lentamente em direção a mutualização e a monetização das dívidas públicas, em qualquer caso ao menos da dívida adicional vinculada àcrise [27]. Mas se deve esperar o retorno dos argumentos ortodoxos. Dadas as baixas taxas de juros, sendo inclusive negativas, hoje tem pouca ressonância. Alguns brandiram o espantalho da inflação sem muita convicção. Dois economistas do Banque de France (provavelmente a pedido do governador François Vileroy de Galhau), trataram de fazer um trabalho educativo demonstrando que não há “dinheiro mágico” e advertindo ao risco de uma “espiral inflacionária” [28]. Esse é o único argumento que resta para os defensores da ortodoxia contra as políticas pouco convencionais.


Não resistimos a tentação de reproduzir o seguinte gráfico, que é suficiente para ridicularizar esse argumento: se vê que, desde 2010, as previsões sucessivas do BCE (linha pontilhada) antecipavam sistematicamente uma recuperação da inflação (com meta de 2%), sendo todas desmentidas.


Nesse momento, os mercados financeiros estão jogando o jogo comprando títulos da dívida pública que o BCE recompra imediatamente. Mas estes mercados não são pura abstração: estão constituídos, como recorda Adam Tooze, “de um grupo discreto de atos mais ou menos importantes, unidos por redes especializadas de informação e intercâmbio [29]”. Tooze evoca em termos violentos suas intervenções anteriores: “desempenharam menos o papel de guardiães da livre concorrência que os esquadrões da morte paramilitares que atuam com a cumplicidade das autoridades”. As políticas não convencionais são toleradas no contexto atual, mas se se estenderem além dos que os mercados hoje aceitam, assistiríamos a volta da “disciplina de mercado” e os Estados deveriam de novo submeter-se ao que Wolfgang Streeck [30] chama de “nação dos mercados” (Marktvolk).


As significativas distorções feitas na ortodoxia orçamentária europeia sem dúvida deixaram um amargo sabor a seus defensores mais convencidos. Quanto tempo passará antes que se deem conta de que foram muito longe, e que é necessário, logo que seja possível, voltar às políticas de consolidação, ou seja, de austeridade? É uma nova espada de Dâmocles que pesa sobre a trajetória econômica que está por vir, inclusive mesmo se pode pensar que o retorno à ortodoxia não será imediato

Corrigir o capitalismo?
Todas as incertezas que flutuam sobre o retorno a normalidade conduzem ao regresso da ideia de que a pandemia apenas desencadeou uma crise que já estava em processo. Se essa análise pode ser criticada, é certo que a recuperação será ainda mais caótica, já que deveria ser feita em um sistema que já estava muito mal das pernas. A crise de 2008 poderia ser analisada como a crise de respostas as crises anteriores. A crise atual é, portanto, uma crise ao quadrado.

Será uma oportunidade para que o capitalismo se regenere? Segundo o historiador Walter Scheidel [31], os episódios de redução das desigualdades se desencadearam historicamente por um choque inicial que tomou quatro formas: guerra, revolução, colapso de um Estado ou… pandemia mortal. São para eles os “quatro cavaleiros da nivelação”, em resumo, os “Quatro Cavaleiros do Apocalipse” (para os ricos).

Estamos neste cenário com a pandemia atual? Depois da Segunda Grande Guerra, o capitalismo se transformou, com uma maior regulação do mercado de trabalho e o estabelecimento, em diversos modelos, de um estado de bem estar. Mas as circunstâncias foram particulares em vários pontos: parte do aparato produtivo havia sido destruído, os ativos financeiros haviam sido derrubados, os lucros potenciais de produtividade eram significativos e uma ameaça interna ou externa flutuava sobre a ordem social. Hoje não estão reunidos os ingredientes, ao menos nesta fase inicial de consideração. Por agora, os dominantes têm certo lucro em soltar o lastro, inclusive do seu ponto de vista. Além de eventuais considerações éticas (ou tomando em consideração o grau de aceitabilidade social), não era possível enviar todos à morte sem pôr em perigo toda a reprodução geral do sistema.

O fato é que ao abandonar os dogmas que regem o funcionamento da economia, os governos têm minado toda a ideologia neoliberal. Sinal dos tempos, sem dúvida. Olivier Passet escolhe chamar “progressista” (sem as aspas) a esse pensamento. Mas assinala a “falência” do mesmo: “tudo o que forjava nossa representação de uma economia eficiente está derrotado: não, a abolição das distâncias, o alargamento das cadeias de valor, a divisão do trabalho cada vez maior, não são o indiscutível Alfa e Ômega da eficiência econômica,etc.” [32].

Quem sabe deveria se recordar aqui que o capitalismo é um sistema econômico e também uma ordem social. Dito de outra forma, é um sistema que funciona em benefício de uma camada social. Corrigir o seu funcionamento atual implica modificar os mecanismos econômicos em específico, mas também atacar, em última instância, os privilégios da classe dominante.


Portanto é fácil prever que o capitalismo resistirá. Resistência a uma revalorização dos salários, a regulação do mercado de trabalho e às restrições ambientais: porque é necessário restabelecer a taxa de lucros. Resistência também às relocalizações: porque o benefício das multinacionais depende da exploração da mão de obra dos países periféricos e seus recursos naturais.


Nos coloquemos, por um momento, no lugar da burguesia frente a pandemia. Ela descobre que necessita de mão de obra no trabalho mas que não pode, politicamente, enviar as pessoas para a morte; que não previu as máscaras, os testes e que tem reduzido muitas camas de hospital para poder oferecer algo além de confinamento. Portanto, se vê obrigada a renunciar parcialmente a suas regras e tabus para acompanhar a situação. Depois de um tempo, toma a medida de impactar em seus interesses e avançar os peões para o dia seguinte. O princípio geral é afirmar que as medidas excepcionais tomadas na tempestade são provisórias. Além disso, se lançam balões de teste para dizer que deverão ser tomadas medidas de recuperação.


A grande revelação
Uma das propriedades notáveis dessa crise é ter gerado efeitos de revelação. Foi descoberto, ou redescoberto, que os trabalhos essenciais para um mínimo de vida social e econômica estavam ocupados por aqueles que Macron dizia que não eram nada. Descobriu-se, ou se redescobriu, que não havia correspondência entre os salários concedidos a essas trabalhadoras e trabalhadores e a sua utilidade social. Também se constatou que numerosos empregadores predadores estavam dispostos a expor seus assalariados ao risco da pandemia, enquanto que alguns deles foram matriculados no desemprego parcial. Uma das grandes contribuições de Marx é a sua análise do fetichismo da mercadoria da qual Antoine Artous deu uma definição sintética; é “o fato de que uma relação social entre homens se apresente como uma relação entre coisa, nesse caso, o valor dos bens, através do qual se organiza a troca, se percebe socialmente como seu atributo natural, enquanto é gerado por relações de produção específicas” [33].


É no primeiro capítulo do Livro Primeiro d'O Capital onde Marx trata do “fetichismo da mercadoria e seu segredo” para mostrar que “é apenas uma determinada relação social dos homens o que se toma para eles por um fantasmagórico modelo de relação social entre coisas”. Acrescenta um pouco depois que o “movimento social” de valores (as flutuações econômicas) “as relações dos produtores, nas quais se afirmam características sociais de seus trabalhos adquirem a forma de uma relação social entre os produtos do trabalho”. Esses desenvolvimentos, dos quais temos alguns excertos a seguir, são atuais. Apesar de seu enunciado abstrato, jogam luz sobre um dos desafios da conjuntura aberta pela crise. Esta última recordou que é o trabalho das mulheres e dos homens o verdadeiro motor da vida social. Também nos demos conta de que, em sua maior parte, as atividades essenciais, vitais, não se podem fazer em teletrabalho.


Mas há mais. A experiência que se poderia, ao menos por um tempo, prescindir de certos consumos; a constatação da vulnerabilidade da organização globalizada da produção; a desigualdade posta a olho nu; a maneira como as leis econômicas puderam ser violadas de forma arrogante, tudo isso contribui para levantar formidáveis perguntas sobre os benefícios da ordem social existente e o seu caráter imutável. Em resumo, se levantou um canto do véu e, para usar os termos de Marx, os seres humanos podem querer recuperar o controle sobre as coisas.


O personagem fetichista da mercadoria e seu segredo (excertos) [34]
De onde vem a natureza enigmática do produto do trabalho assim que assume a forma de uma mercadoria? Obviamente, vem dessa mesma forma.


O caráter de igualdade entre os trabalhos humanos adquire a forma dos produtos do trabalho; a medida dos trabalhos individuais segundo sua duração, adquirem a forma da magnitude do valor dos produtos do trabalho; finalmente, as relações dos produtores, nas quais se afirmam caracteres sociais de seus trabalhos, adquirem a forma de uma relação social entre os produtos do trabalho. Eis aqui porque esses produtos se convertem em mercadorias, ou seja, em objetos que se dão preço e não se apreciam com os sentidos, em objetos sociais.


Portanto, o que é misterioso na forma mercantil consiste simplesmente em que se devolve aos homens a imagem das características sociais de seu próprio trabalho como caracteres objetivos dos produtos do trabalho, como qualidades sociais que essas coisas possuiriam por natureza: assim lhes é devolvida a imagem da relação social dos produtores com o trabalho global, como uma relação social que existe fora deles, entre os objetos. É esse mal entendido que faz com que os produtos do trabalho se convertam em bens, coisas sensíveis que são supra sensíveis, coisas sociais.


(...) A forma valor e a relação de valor dos produtos do trabalho não tem absolutamente nada a ver com sua natureza física. É somente uma relação determinada dos homens entre si o que reveste para eles a forma fantasmagórica de uma relação entre as coisas. (...) Isso dá lugar a que… as relações entre seus trabalhos privados apareçam como o que são; ou seja, não como relações sociais imediatas entre as pessoas em seus trabalhos, senão mais como relações sociais entre as coisas.


(...) De fato, o caráter de valor dos produtos laborais só é um dado inicial quando se determinam como quantidades de valor. Essas últimas mudam sempre, independente da vontade e das previsões dos produtores, aos olhos dos quais seu próprio movimento social toma, desse modo, a forma de um movimento das coisas, movimento que lhes controla e ao qual eles não podem dar os rumos.


Serão felizes os próximos dias?
O efeito de revelação deveria conduzir a uma consciência como essa: “amanhã teremos que aprender com o momento que estamos passando, questionar o modelo de desenvolvimento em que nosso mundo está envolvido há décadas e que revela suas falhas em plena luz do dia, questionando a debilidade de nossas democracias. (...) O que revela essa pandemia é que há bens e serviços que devem colocar-se fora das leis do mercado”. Ou ainda: “certa ideia de globalização termina com o fim de um capitalismo financeiro que impôs sua lógica a toda a economia e contribuíu para pervertê-la. A ideia da onipotência do mercado que não deve ser frustrada por nenhuma regra, nenhuma intervenção política, era uma ideia louca. A ideia de que os mercados sempre tinham razão era uma ideia louca.


Sem dúvida reconhecemos a primeira proclamação, que é de Macron [35]. Mas se pensa seriamente que terá mais efeitos que a anterior, extraída do famoso discurso de Toulon, pronunciado por Nicolas Sarkozy em 2008? [36] Na realidade, os dominantes farão tudo para garantir que retornemos ao “business as usual”. Se fará todo o possível para mostrar que o destino dos indivíduos está vinculado ao do sistema, que a retomada da atividade como antes
é, portanto, a condição de volta ao emprego. E se a convicção não é suficiente, a chantagem ao emprego, já iniciada, fará o resto [37]. Essa aspiração de voltar a normalidade também é compartilhada por muitos que desejam esquecer os traumas relacionados ao confinamento e/ou que necessitam compensar as entradas financeiras perdidas, em resumo, de curar as feridas de todo tipo infligidas pela epidemia.


O que se necessita para evitar que caia o véu? Primeiro, obviamente, uma perspectiva de transformação social, alimentada pelas lições aprendidas da crise. E não faltam propostas. Se escutarmos a consigna do presidente Mao: “Deixe cem flores desabrochar, cem escolas competirão!” Apesar de tudo, somos obrigados a constatar que esse trabalho de elaboração se leva a cabo em desordem, que está debilmente coordenado e que frequentemente se prende em controvérsias azedas ou muito técnicas. No lugar de entrar nesses debates, ao menos aqui, gostaríamos de enfatizar o enfoque empreendido em um plano de dar fim a crise [38] proposto por um arco de forças relativamente novo. Embora a formação de um bloco que reúne sindicatos (CGT, Solidaires, Confederação Campesina, FSU), organizações ambientais (Greenpeace, Oxfam, Amigos da Terra) ou altermundistas como o Attac. Este é seu primeiro interesse, o de combinar objetivos sociais e ambientais: este é um ponto essencial, já que a crise vai ser tomada como um pretexto para adiar as inversões necessárias para a transição ecológica (o corte - orçamentário - está cheio) ou para relaxar regulações, em nome do emprego.


Mas esse texto tem outro interesse, o de articular os diferentes andares [39] de um projeto de transformação social: medidas imediatas relacionadas às modalidades de desconfinamento, medidas sociais mais estruturais (e os meios de financiá-las), um todo que é parte de um projeto de reconversão ecológica e social das atividades.


Este chamamento é certamente incompleto, às vezes evasivo e sem dúvida insuficientemente radical, mas não se pode mais que estar de acordo com sua orientação geral. Em qualquer caso, há que aprofundar esse tipo de elaboração. Quem sabe teríamos que agregar propostas fortes e sintéticas como a de um “imposto de emergência COVID-19” apresentado por um coletivo europeu [40]? Quem sabe deveríamos também fazer do tema da condicionalidade um eixo transversal? Mariana Mazzucato, uma economista que reivindica a reabilitação da intervenção pública, insistiu acertadamente nesse ponto: uma vez, disse, “as medidas de resgate devem estar absolutamente acompanhadas de condições. Dado que o Estado, uma vez mais, está desempenhando um papel principal, deve ser visto como um herói, e não um ingênuo. Portanto, devem ser proporcionadas soluções imediatas, mas desenhadas para servir ao interesse público a longo prazo. Por exemplo (...) se deve pedir às empresas que se beneficiam de um plano de resgate que mantenham a seus trabalhadores e assegurem-se de que, uma vez terminada a crise, invistas em formação e melhora das condições de trabalho” [41].


O governo francês tem gerido a crise evitando cuidadosamente qualquer forma de controle democrático, parlamentar ou institucional. Preferiu a infantilização dos cidadãos, junto com uma repressão muito característica do neoliberalismo autoritário de Macron. Mas as aspirações de mudança também podem sair de quarentena, e isso é o que teme o governo. Nesse afã de recuperar o controle mora a possibilidade de vermos um novo bloco social capaz de impor transformações radicais.


Notas

1/ Walter Benjamin, Paris, capital del siglo XIX, citado en Razmig Keucheyan, La nature est
un champ de bataille, 2018.

2/ Antoine de Saint-Exupéry, Citadelle , 1948.


3/ OCDE, Economic Outlook , junio de 2020.


4/ Apenas retomamos muito parcialmente o desenvolvimento proposto das contribuições precedentes: “El caos de la economía mundial”, Viento Sur, nº 170, 2020; disponíveis na web de Viento Sur, “Repunte o caída”, 29 de abril de 2020; “Sobre la vacuidad de la ciencia económica oficial: el arbitraje entre actividad económica y riesgos para la salud”, 14 de abril de 2020; “Neoliberalismo contaminado”, 31 de março de 2020. Ver também “Une reprise économique en ‘V’, vraiment?”, Alternatives économiques, 3 de junio de 2020.


5/ Frédéric Boccara y Alain Tournebise, “¡Le coronavirus précipite la crise, ne la cause
pas!”, Les économistes atterrés, marzo de 2020.


6/ Michael Roberts “It was the virus that did it”, 15 de março de 2020.


7/ Eric Toussaint, “No, el coronavirus no el responsable de la caída del precio de las
acciones”, 4 de março de 2020.


8/ Sobre este ponto, ver: Robert G. Wallace, Big Farms Make Big Flu: Dispatches on Infectious Disease, Agribusiness, and the Nature of Science, Monthly Review Press, New York, 2016; Sonia Shah, “Contre les pandémies, l’écologie”, Le Monde diplomatique, março de 2020.


9/ FMI, The Great Lockdown, World Economic Outlook, Abril de 2020.


10/ Paul Krugman, https://twitter.com/paulkrugman/status/1246152855456755713 twitter, 3
de abril de 2020.


11/ Veronica Guerrieri, Guido Lorenzoni, Ludwig Straub, Iván Werning, “Macroeconomic
Implications of COVID-19: Can Negative Supply Shocks Cause Demand Shortages?”, 2 de
abril de 2020.


12/ OFCE, “Évaluation de l’impact économique de la pandémie sur l’économie mondiale en
avril 2020”, 5 de junho de 2020.


13/ Jean-Noël Barrot, Basile Grassi, Julien Sauvagnat, “Sectoral effects of social distancing”,
Março de 2020.


14/ Lilas Demmou et al., “Corporate sector vulnerabilities during the Covid-19 outbreak:
assessment and policy responses”, OECD, 5 de maio de 2020.


15/ Olivier Blanchard, Thomas Philippon, Jean Pisani-Ferry, “A New Policy Toolkit Is Needed as Countries Exit COVID-19 Lockdowns”, Peterson Institute for International Economics, Junho de 2020.


16/ Barthélémy Bonadio, Zhen Huo, Andrei Levchenko, Nitya Pandalai-Nayar, “The role of global supply chains in the COVID-19 pandemic and beyond”, voxeu, 25 de maio de 2020.


17/ Elie Gerschel, Robin Lenoir, Isabelle Mejean, “Coordonner le déconfinement de l’Europe, un enjeu économique fort”, IPP, 5 de junho de 2020. A infografia está extraída da web worldview. stratfor.com.


18/ Emma Reynolds and Henrik Pettersson, “Confirmed coronavirus cases are rising faster than ever”, CNN, 5 de junho de 2020.


19/ Grain, “Des millions de personnes forcées de choisir entre la faim ou le Covid-19”, 19 de
maio de 2020.


20/ Rahm Emanuel, “You never want a serious crisis to go to waste”, The Wall Street Journal, video, November 18, 2008. Esta fórmula foi retomada ironicamente por Philip Mirowski, como título de sua notável obra, Never Let a Serious Crisis Go to Waste, 2013, cujo subtítulo é eloquente: “How Neoliberalism Survived the Financial Meltdown”.


21/ Milton Friedman, Capitalisme et liberté, 1971.


22/ Gilbert Achcar, “¿Autoextinción del neoliberalismo? ¡Ni lo sueñes!”, 30 de abril de 2020.


23/ Eric Heyer, “La crise sanitaire accélère la transition vers une croissance soutenable”, AOC, 22 de maio de 2020.


24/ Patrick Artus, “Il va falloir soutenir la robotisation des entreprises françaises”, 22 de maio de 2020.


25/ Global Health Advocates – Corporate Europe Observatory, “Au nom de l’innovation. L’industrie contrôle l’usage des fonds européens pour la recherche et néglige l’intérêt public”, maio de 2020.


26/ Sondage Odoxa, “Coronavirus : les Français font des relocalisations la priorité de l’après-crise”, Les Echos, 13 de abril de 2020.


27/ Abordamos este ponto em “El caos de la economía mundial”, Viento Sur, nº 170, 2020.


28/ Jean Barthélemy et Adrian Penalver, “La monnaie de banque centrale n’a rien de magique”, Bloc-notes Eco, Banque de France, 20 de maio de 2020.


29/ Adam Tooze, “Time to expose the reality of ‘debt market discipline‘”, Social Europe, 25 de maio de 2020.


30/ Wolfgang Streeck, Comprando tiempo. La crisis pospuesta del capitalismo democrático, Argentina, 2016.


31/ Walter Scheidel, The Great Leveler. Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century, 2017; ver também este resumo de seu livro: Walter Scheidel, “What Tames Inequality? Violence and Mayhem The Chronicles of Higher Education”, fevereiro de 2017.


32/ Olivier Passet, “La faillite financière de la pensée progressiste”, Xerfi, 15 de abril de 2020.


33/ Antoine Artous, Le fétichisme chez Marx. Le marxisme comme théorie critique, Éditions Syllepse, 2006.


34/ Karl Marx, El Capital, E.D.A.F, Madrid, 1967, pp. 74-77.


35/ Emmanuel Macron, “Adresse aux Français”, 12 de março de 2020.


36/ Nicolas Sarkozy, “Discours de Toulon”, 25 de setembro de 2008.


37/ Romaric Godin, “Le chantage à l’emploi s’impose comme politique économique”, Mediapart, 2 de junho de 2020.


38/ CGT, Attac et al., “Plan de sortie de crise”, 26 de maio de 2020.


39/ Nos permitimos reenviar um pequeno texto proveniente de um grupo de economistas franceses vinculados con o Front de Gauche no qual participamos: “Transformation sociale: une fusée à trois étages”, 28 de novembro de 2011. Os três “andares” eram os seguintes: 1. Retomar o controle: iniciar a ruptura, assentar a legitimidade da experiência; 2. Bifurcar: enraizar o processo de transformação; 3. Reestruturar: esboçar um novo modelo de desenvolvimento.


40/ Colectivo, “Por una tasa Covid-19 en Europa”, 12 de junho de 2020 (Susan George,
Miguel Urbán e 45 outros).


41/ Mariana Mazzucato, “Capitalism’s triple crisis”, Social Europe, 9 de abril de 2020.

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