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Nouriel Roubini alerta sobre a fragilidade dos emergentes

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Nouriel Roubini, o economista que previu o fim da conversibilidade argentina e a crise mundial 2008/2009, alerta agora sobre a “fragilidade” das economias emergentes. Em um artigo publicado no portal Project Syndicate, sobre o diferente ritmo de saída da crise econômica por causa da pandemia em diferentes regiões e países do mundo, o economista destacou o maior vigor e velocidade da recuperação dos Estados Unidos, China e os países envolvidos nas cadeias de produção do gigante asiático, a lentidão da Europa e Japão e a “fragilidade” das economias emergentes.

Infobae, 26 de maio de 2021. A tradução é do Cepat.

Nas economias emergentes, escreveu, “a alta densidade populacional, as deficiências dos sistemas sanitários e a lentidão nas campanhas de vacinação continuarão facilitando a propagação do vírus. Em muitos destes países, a confiança de empresas e consumidores está deprimida, a receita do turismo e das remessas foi cortada, as dívidas já são altas e talvez insustentáveis, e a combinação de maior custo de endividamento e taxa de câmbio mais fraca gera limite financeiro”, o que deixa “pouco espaço para políticas mais expansivas”. E alerta: “em alguns casos, o populismo pode fragilizar a credibilidade das medidas oficiais”.

Segundo Roubini, “as economias com mais dificuldades, nas quais é preciso prestar atenção”, são Índia, Rússia, Turquia, Brasil, África do Sul, muitas partes da África subsaariana e as regiões mais frágeis do Oriente Médio que importam petróleo”.

Em alguns países do mundo emergente, disse, sem especificar quais, “não há recessão, mas depressão, mais de 200 milhões de pessoas correm o risco de voltar a cair na pobreza extrema. E para piorar, os países mais vulneráveis à fome e à doença também tendem a ser os mais expostos ao risco da mudança climática, de modo que continuarão sendo fontes potenciais de instabilidade”.

Roubini joga baldes de água fria sobre recentes prognósticos otimistas acerca da recuperação econômica mundial. Segundo ele, “a expansão que vem não será igual nem entre os diversos países, nem dentro de cada um. Que a recuperação tenha forma de V (rápida e vigorosa), de U (suave) ou de W (com recaída) dependerá de vários fatores segundo a economia e a região em questão”.

Vacinação lenta versus vírus rápido

O economista lembra que “o coronavírus ainda faz estragos em muitos países” e lança dúvidas sobre se o surgimento de novas cepas “virulentas” repetirá sequências de reativação e desaceleração. “Uma possibilidade particularmente preocupante é que apareçam novas variantes resistentes às vacinas, isso ressalta a urgência das campanhas de vacinação, que em muitas regiões têm sido muito lentas”, destaca.

Além dos riscos sanitários, também ressalta os econômicos: que uma recuperação muito lenta deixe consequências permanentes pelo fechamento de empresas e a perda de emprego, deteriorando a capacidade de muitas pessoas até tirar suas condições de empregabilidade no futuro. Além disso, está preocupado com o fato de que a desigualdade induzida pela pandemia leve a crises sociais e políticas. “Pode a crescente desigualdade provocar ainda mais instabilidade e depressão da demanda agregada? Dependerá muito da dimensão, do alcance e abrangência das políticas orientadas a sustentar a receita e o gasto dos prejudicados”.

Também não se sabe, continua, se as políticas macro (monetária, de crédito e fiscal) implementadas até o momento serão um estímulo suficiente, insuficiente ou excessivo, capaz, neste último caso, de levar a um forte aumento da inflação e as expectativas inflacionárias.

No momento, disse Roubini, a recuperação reluz mais forte nos Estados Unidos, China e nos países asiáticos integrados a cadeias globais de fornecimento chinesas. Nos Estados Unidos, escreve, “uma redução dos contágios, as altas taxas de vacinação, a melhora da confiança de consumidores e empresas e os efeitos gerais da expansão fiscal e monetária impulsionarão uma sólida recuperação neste ano”.

Mas concorda com o ex-secretário do Tesouro, Lawrence Summers, que o principal risco é uma economia superaquecida. “O recente aumento da inflação pode ser mais persistente que o previsto pelo Fed, e a efervescência atual dos mercados financeiros pode levar a uma correção, o que fragilizará a confiança”, destaca.

No caso da China, atribui a fortaleza da recuperação ao rápido controle da pandemia e ao estímulo macroeconômico, mas alerta também sobre os altos níveis de endividamento dos setores público e privado.

Europa e Japão

Na Europa, prossegue, a situação “é pior, já que lá uma nova onda de contágios e quarentenas provocou uma recaída durante o último trimestre de 2020 e o primeiro de 2021. Sua recuperação continuará sendo fraca, durante o segundo trimestre, mas é possível uma aceleração do crescimento na segunda metade do ano, caso o ritmo de vacinação continue aumentando e seja mantida uma política macro expansiva”. Mas alerta: “descontinuar de forma muito rápida os programas de apoio a trabalhadores suspensos e a provisão de garantias de crédito pode levar a mais feridas permanentes”.

No Japão, a recuperação é ainda mais lenta: seu PIB caiu no primeiro trimestre de 2021 “e enfrenta dificuldades para realizar os Jogos Olímpicos de Verão, em Tóquio”. Segundo Roubini, a economia japonesa precisa “com urgência” de reformas estruturais. E alerta que “mesmo que o Banco do Japão siga monetizando, é possível que em algum momento a imensa dívida pública japonesa se torne insustentável”.

O “Doutor Catástrofe” caracteriza o excesso de confiança dos mercados financeiros como “exuberância irracional” (termo que Alan Greespan, o ex-titular do Fed, tornou famoso), pois ainda subsistem muitos riscos e incertezas”, caso seja considerada a sua análise inicial de que a crise de Covid-19 tende a aumentar a desigualdade global e dentro de cada país, e conclui: “quando mais desconsiderados forem os segmentos mais vulneráveis, maior será o risco de instabilidade social, política e geopolítica no futuro”.

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