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Os ricos do mundo mais ricos com a covid

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Se há uma coisa que a covid-19 não parou, é o crescimento da riqueza dos bilionários. Só nos Estados Unidos, o saldo bancário de 643 pessoas cresceu US$ 845 bilhões de março a setembro. Ao mesmo tempo, 50 milhões de trabalhadores estavam perdendo seus empregos (14 milhões ainda estão desempregados). É um crescimento que não para.

Milena Gabanelli, Corriere della Sera, 19 de outubro de 2020

O patrimônio pessoal de Jeff Bezos na sexta-feira, 16 de outubro, alcançou 192 bilhões de dólares (+ 69,9% desde março), Elon Musk 91,9 bilhões (+ 273,8%), Mark Zuckerberg 97,9 bilhões, (+ 78,6%), só para citar os mais famosos. O lockdown também foi uma bênção para o fundador e CEO da Zoom, Eric Yuan, que passou de 5,5 para 24,7 bilhões de dólares (+ 349%), graças às videoconferências a que fomos obrigados a recorrer. O criador do videogame Fortnite, Tim Sweeny, que hoje possui 5,3 bilhões de dólares, apareceu no ranking.

A peste suína também cria riqueza

Depois dos Estados Unidos, a China ocupa o segundo lugar, com 456 bilionários na lista. Em abril, o maior aumento de riqueza foi garantido por Qin Yinglin, maior criador de porcos do mundo: passou de 4,3 bilhões de dólares em 2019 para 23,4 bilhões hoje por causa de outra epidemia – a peste suína – que fez com que o preço da carne disparasse. Além disso, a covid-19 modificou a classificação. Jack Ma não está mais no topo: o criador do gigante do comércio eletrônico Alibaba, com 53 bilhões, caiu para o terceiro lugar. Ele foi ultrapassado por Ma Huateng, presidente e CEO da Tencent, a super holding que controla o WeChat entre outros: em março possuía 38 bilhões, hoje ultrapassa 61,6 bilhões.

Em segundo lugar subiu Zheng Shanshan: de 1,9 para 55,9 bilhões de dólares em seis meses graças à cotação em bolsa de dois de seus grupos, as águas minerais Nongfu Spring e a Wantai Biological Pharmacy.

Os bilionários italianos

Na Itália, a Forbes assinala 40 (havia 36 em abril). Em primeiro lugar Giovanni Ferrero com 26,5 bilhões de dólares, seguido por Leonardo Del Vecchio com 20,8, a família Aleotti (Menarini Industrie Farmaceutiche) com 10,2 bilhões (1 bilhão de evasão perdoado), Giorgio Armani passou de 5,4 no início de abril para 8,5 bilhões hoje, Stefano Pessina com 8 bilhões, Silvio Berlusconi com 6,4 bilhões e Gustavo Denegri (5,9 bilhões), primeiro acionista do grupo de biotecnologia Diasorin.

Capitalismo de relacionamento

Mas de onde vem essa riqueza, cada vez mais concentrada em poucas mãos? A maior parte não é por méritos próprios. De um terço a 60 por cento dos super-ricos (dependendo de como a origem das fortunas é classificada) herdou os bilhões que possuem, começando com pela nova chegada Mackenzie Scott com $ 62 bilhões: a sua fortuna é a de ter sido esposa de Bezos. Oito das dez mulheres mais ricas do mundo estão no ranking graças ao pai ou marido bilionário. Pelo menos outro terço é formado por protagonistas do capitalismo de relação, ou seja, fazem negócios graças ao apoio de governos com leis favoráveis, olhos fechados da autoridade antitruste, lobby parlamentar.

Por exemplo, o mexicano Carlos Slim (US$ 53,1 bilhões) é o homem dos telefones no México. Na Rússia, os dez maiores bilionários lidam com matérias-primas e hidrocarbonetos: Vladimir Potanin (22,9 bilhões) possui a maioria da Nornickel (paládio e níquel); Vladimin Lisin (22,6 bilhões) é o rei do aço. Leonid Mikhelson (20,7 bilhões), produtor de gás natural, Roman Abramovich, (12,6 bilhões) graças principalmente ao carvão, níquel e paládio. O filipino Enrique Razon Jr. (4,8 bilhões) é a terceira geração da dinastia que controla os portos do país asiático. O malaio Robert Kuok, de US$ 11,1 bilhões, fez fortuna com o óleo de palma. As plantações comportam a derrubada de florestas tropicais inteiras, contribuindo fortemente para a mudança climática; o óleo usado como combustível fóssil é poluente, enquanto o palmiste, usado na indústria alimentícia, é uma das gorduras saturadas mais perigosas. São 21 bilionários que estão no ramo dos cassinos. Poucos impostos e funcionários com contratos de colaboração continuada.

Quando você tem muito dinheiro, você também pode pagar os melhores especialistas em impostos para criar fundos, holdings, veículos offshore para mudar a residência fiscal para onde for mais conveniente.

A maioria das multinacionais faz isso. De acordo com uma análise recente do Mediobanca, os gigantes da web pagaram US$ 46 bilhões a menos em impostos apenas nos últimos 5 anos. Entre eles, a Microsoft é a que menos pagou em impostos: apenas 10% dos lucros em 2019. Além disso, cerca de 80% de sua liquidez (638 bilhões no final de 2019) é mantida em paraísos fiscais para subtrai-la das autoridades fiscais dos países de origem.

O dinheiro também se acumula economizando na mão de obra, aplicando contratos indignos aos funcionários na parte inferior da cadeia de produção ou recorrendo a subcontratados que, por sua vez, usam trabalhadores mal pagos. Marcas de luxo italianas conhecidas obrigaram seus artesãos durante a emergência Covid a aplicar um desconto de 2% nos pedidos já acordados. Bezos, que é o homem mais rico do planeta e CEO da Amazon, paga na Itália a um funcionário com contrato de colaboração mais ou menos 700 euros por mês.

As desigualdades estão aumentando

Segundo a ONG Oxfam 2.153 pessoas detêm 60% da riqueza global, ou seja, têm mais dinheiro do que juntos todos os 4,6 bilhões de habitantes da Terra. Como fazer frente a essa riqueza que se concentra cada vez mais nas mãos de poucos, enquanto o nível de desigualdade continua se ampliando? As propostas de economistas e políticos vão da eliminação das proteções legais aos oligopolistas para aumentar a concorrência até o aumento dos impostos sobre herança para os grandes patrimônios, mas elas param nas mesas de negociação.

Nos Estados Unidos, onde entre 1980 e 2018 os impostos pagos pelos bilionários caíram 79%, há quem proponha taxar as fundações em que os mega-bilionários canalizam suas riquezas, com a única obrigação de doar apenas 5% ao ano de seu patrimônio. Ao escolher como e onde intervir, as fundações filantrópicas efetivamente privatizam as políticas de bem-estar. O bilhão que chega ao orçamento da OMS proveniente da Fundação Gates e da Gavi Allance permite que Bill Gates, como maior contribuinte, oriente suas decisões de política sanitária global. Hoje, Gates pede aos estados que aumentem os impostos para os super ricos, mas ele não diz uma palavra contra o turismo fiscal de gigantes como a Microsoft, graças à qual ganhou bilhões.

Quanto tirar para criar empregos

A esquerda estadunidense nas atuais eleições propôs com Bernie Sanders um imposto de 60% sobre os lucros dos bilionários durante a pandemia para custear os gastos em saúde. Alguns bilionários também concordam, começando com o financista Warren Buffett, de US$ 80,2 bilhões, o quarto homem mais rico do mundo. Mas hoje o candidato é outro, Joe Biden. E do outro lado está Donald Trump, colocado no posto 1.092 no ranking mundial com 2,5 bilhões de dólares. Por 15 anos, ele pagou zero dólares em impostos, graças a seus consultores fiscais.

 

De abril a setembro, enquanto a covid-19 parava os EUA, sua riqueza cresceu 20%. Segundo cálculos da Oxfam, um aumento de 0,5% na tributação do 1% mais rico do mundo possibilitaria em dez anos pagar 117 milhões de postos de trabalho em escolas e na assistência e cuidado de idosos e doentes. Além disso, uma carga tributária maior sobre os ricos aliviaria parte da carga tributária sobre o trabalho.

Reproduzido de IHU-Unisinos. A tradução é de Luisa Rabolini.

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