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Praga de gafanhotos, fora de controle na África, alcança Ásia

O Chifre da África sofre com praga de gafanhotos sem igual, que vai até à fronteira da Índia. As restrições impostas pela pandemia à mobilidade dificultam combate.

· Ecologia,Sem Fronteiras,Últimos artigos

Esquerda.net, 28 de maio de 2020

É uma praga cuja dimensão não tem paralelo com as das últimas dezenas de anos. Estendendo-se desde a fronteira oriental do Congo até à fronteira entre o Paquistão e Índia, afeta gravemente países que já sofrem fortemente com guerras e com insegurança alimentar. Somália, Sudão, Etiópia, Eritreia, Djibuti, Quénia e Uganda, são dos países mais afetados. Numa segunda linha, Congo, Irão, Paquistão e India.

A ONU já tinha avisado que esta crise podia agravar-se. Em fevereiro, se as condições se mantivessem, previa-se que esta crise podia ser 20 vezes pior em junho. Hoje a previsão é que pode ficar 400 vezes pior até ao final do mês de junho ou início de julho, diz o jornal Público.

Qu Dongyu, diretor-geral da Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) avisou que o combate a esta praga vai ser longo, notando com crescente preocupação que no Sahel e sudoeste da Ásia está a aumentar o ónus dos esforços para controlar a praga no Corno de África e Iémen.


Apesar das operações de controlo desenvolvidas nos últimos meses, as fortes chuvadas recentes criaram novamente condições ideais para a reprodução destes gafanhotos em vários países, disse o diretor geral da FAO. "Os jovens tornar-se-ão adultos vorazes em junho, assim que os agricultores começarem a colher, compondo uma situação já sombria de segurança alimentar". Combinados com os impactos do covid-19, estes gafanhotos "podem ter consequências catastróficas nos meios de subsistência e segurança alimentar" da região, enfatizou Qu.

Fenómenos climáticos extremos facilitaram a explosão desta praga

As investigações indicam que ela "nasceu" no interior de Omã e Iémen. Estando o Iémen a braços com uma guerra civil sanguinária, mal reparou no florescer destes gafanhotos do deserto (Schistocerca gregaria). Dois eventos ciclónicos na costa da Península Arábica (em 2018 e 2019), fenómenos atmosféricos extremos e raros para esta região, permitiram a eclosão destes insetos que, quando os lagos temporários onde prosperaram secaram, deslocaram-se para outras regiões na procura de alimento. Estes fenómenos atmosféricos estão ligados às alterações climáticas, resultado de uma fase extremamente positiva do Dipolo do Oceano Índico. Com o evoluir das alterações climáticas, estes fenómenos extremos e raros tornar-se-ão cada vez mais recorrentes e pragas semelhantes podem ser mais comuns.

Estes enxames podem deslocar-se até 150 quilómetros por dia e uma fémea adulta consegue depositar cerca de 300 ovos duas semanas após ter nascido. Esta elevada mobilidade e taxa de reprodução elevadíssima foi também ajudada por tempestades anómalas na Somalia em 2019, que criou as condições perfeitas para estas comunidades de gafanhotos florescerem sem qualquer controlo. Ainda por cima, a chegada dos gafanhotos coincidiu com a principal época de plantação, resultando na maior crise de gafanhotos que a Somália e o Quénia assistem nos ultimos 25 e 75 anos, respetivamente.

“O Corno de África está no epicentro da pior praga de gafanhotos que vimos numa geração, provavelmente até em mais de uma geração”, diz Holger Kray, um alto responsável do Banco Mundial. Este Banco aprovou uma ajuda de emergência de cerca de 455 milhões de euros para ajudar os países e agricultores a lutar contra os gafanhotos. Esta quantia é a maior que alguma vez foi dada, mas Qu Dongyu apela a mais 284 milhões de euros a outros dadores e parceiros, para fazer face à praga.

A ajuda do Banco Mundial vai ser principalmente canalizada na aquisição de fertilizantes e de sementes para novas plantações, enquanto outra parte será usada na compra de alimentos para os habitantes e gado da região afetada. Estas verbas têm também por destino o investimento em sistemas de vigilância e de aviso para que a região possa no futuro lidar melhor com estas pragas. Se detetadas a tempo, quando consistem ainda em pequenas bolsas, o seu controlo seria muito mais facilitado, não chegando a atingir as proporções catastróficas que se observa agora. Nestas regiões os sistemas de deteção estão subfinanciados e faltam técnicos especializados.

Restrições à mobilidade por causa da pandemia atrasam operações de combate à praga de gafanhotos

Agora, mesmo que haja financiamento, a pandemia está a impedir o deslocamento de pessoal para os locais para a realização de ações de formação. Os pesticidas, outra forma de combater esta praga, estão a demorar demasiado tempo a chegar, por causa das restrições ao tráfego internacional.

Para além da ajuda de emergência e do controlo da praga com base em pesticidas (agora inevitáveis), a FAO sublinha que é preciso outras políticas de cultivo que impeçam o desenvolvimento dos gafanhotos e previnam a sua expansão. Exemplos como o millet, teste de biopesticidas como predadores naturais, plantas ou bactérias contra os gafanhotos são alguns exemplos da FAO, refere o jornal Público, lembrando que a ação a curto prazo (uso de pesticidas) pode ter consequências piores, com o aumento da resistência dos gafanhotos a estes produtos.

As previsões do Relatório Global sobre Crises Alimentares, divulgado recentemente, indicam que mais de 25 milhões de pessoas experimentarão uma fome aguda na África Oriental em 2020, e mais 17 milhões no Iémen. A pandemia da covid-19 muito provavelmente comprometerá ainda mais a segurança alimentar.

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