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Quem disse que a ciência não tem (ou não precisa ter) lado?

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Recentemente, eu li uma reflexão de um colega cientista na qual ele afirmava que era muito difícil ser cientista em um mundo tão partidarizado e polarizado. Essa afirmação reacendeu uma série de inquietações que têm tomado conta de mim desde o ano passado em meio à crescente onda de negacionismo científico no Brasil (e, também, no mundo) no cenário da emergência da pandemia do Sars-Cov-2, o novo coronavírus. Para mim, está muito evidente de que a negação da ciência em um contexto de profunda crise sanitária-ecológica-humanitária como esse é uma ferramenta política (embora o discurso para o senso comum seja profundamente despolitizado), como já defendi em um texto anterior (ler aqui). No entanto, meu questionamento principal aqui é outro: de qual lado a ciência deve estar nesse contexto? Afinal, a ciência precisa mesmo assumir um lado em um cenário como esse, de polarização de interesses políticos? A seguir, segue algumas breves reflexões pessoais a respeito.

Para início de conversa, precisamos desmistificar de uma vez por todas esse papo de que a ciência é imparcial ou neutra (assim como também não é o jornalismo, por exemplo). Trata-se de um argumento artificial e, por vezes, falacioso. A ciência é uma ferramenta de apreensão da realidade, uma vez que é formadora de conhecimento, embora não seja a única. Dessa forma, essencialmente ela não se propõe a monopolizar a verdade. No entanto, devido ao seu poder de precisão, fruto de um criterioso exame de evidências que sustenta diferentes hipóteses, ela é considerada um dos mecanismos mais confiáveis de elucidação da natureza não somente para nós, cientistas, como para a sociedade civil como um todo. Defendemos, pois, que é incoerente e falacioso conceder a todos os pontos de vista de uma mesma questão a mesma legitimidade científica.

Assumir que a ciência é neutra ou imparcial seria assumir que ela é despida de valores, o que não é verdade. A questão é a natureza desses valores. Ao longo da história, a ciência (por meio de suas instituições fomentadoras) já assumiu diferentes lados: desenvolveu vacinas e medicamentos que salvaram milhares de vidas (indo muitas vezes até mesmo contra os interesses do próprio Estado); e também ajudou a desenvolver armas de destruição em massa (financiadas pela necropolítica de governos corruptos comprometidos com o poder e o lucro), indo de encontro a sua própria essência de comprometimento com a ética e a vida.

No contexto atual, deslegitimar a ciência tem sido um instrumento cada vez mais eficaz nas mãos de agentes públicos corruptos (incluindo pesquisadoras e pesquisadores, lastimavelmente), comprometidos com o lucro e a própria ascensão política do grupo que representam em detrimento da defesa da verdade e da vida. Aqui no Brasil, temos acompanhado em tempo real o negacionismo científico pelo governo Bolsonaro em torno da pandemia do novo coronavírus causar milhares de mortes em todo o país. Como ficar imparcial ou neutra em um cenário tenebroso como esse? No momento que redijo esse texto, pessoas morrem por asfixia devido à falta de estoque de oxigênio nos hospitais em Manaus (AM)! É a necropolítica e o anticientificismo caminhando (ou melhor, correndo) de mãos dadas. Nesse contexto, nós, cientistas, temos um dever ético de defesa da própria ciência como mecanismo de defesa da veracidade dos fatos e da ética, mas, acima de tudo, da vida. Para isso, devemos sair da nossa bolha e, sim, tomar partido.

Henrique Magalhães é ecossocialista e militante da Insurgência/PSOL. Biólogo, educador e consultor ambiental. Doutorando em Etnobiologia e Conservação da Natureza (PPGEtno/UFRPE).

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